A FRIULANA E O IMPERADOR

Um dos segredos mais bem guardados do império foi “a intensa amizade” – na discreta linguagem própria para essa situação – entre uma dama friulana e Dom Pedro II. A dama, Adelaide Ristori, foi considerada pelo público, e também pela crítica, a maior atriz italiana de seu tempo e uma espécie de embaixatriz da cultura da Itália no mundo. Foi agraciada com o título de “rainha da cena”. Título que lhe foi dado no Rio de Janeiro, numa especial homenagem do nosso imperador.

            Nessa relação de amizade entre o monarca e a atriz havia, sem dúvida, interesse de ordem pública. Mas havia também outro de ordem privada, como se sabe agora, quando são divulgadas as cartas trocadas entre os dois. Já na esfera da intimidade, onde o indivíduo tem preservado o mais fundo de si, só é possível fazer suposições.

No plano da política de governo, a presença de Adelaide Ristori no Teatro Imperial foi uma excelente amostra do esforço empreendido por Dom Pedro II para civilizar o Brasil. Para ele – e isso não é novidade –, civilizar era sinônimo de adotar os padrões europeus de cultura, tanto no modo de vestir e de comer, como no de falar e de cultivar o espírito. Basta ler as crônicas de Machado de Assis para avaliar a importância das companhias líricas e teatrais para a vida culta do Rio de Janeiro. Não faltam, nas notas do cronista, críticas ácidas ao “preço elevado dos bilhetes”, à qualidade discutível de alguns espetáculos e ao gosto demasiado benévolo do público fluminense. Mas o fato é que Dom Pedro II criou vida cultural na cidade, e que Adelaide Ristori foi uma diva acima até mesmo da acidez machadiana.

Da esfera privada dessa relação de amizade entre o imperador e a friulana, ficaram nos arquivos perto de 200 cartas, trocadas entre 1869, ano da primeira turnê da Ristori no Rio de Janeiro, e 1891, ano da morte de Dom Pedro. Além da correspondência, mantiveram alguns poucos encontros, sempre previamente combinados, em diversos pontos do circuito lírico mundial. Asseguram, no entanto, os biógrafos que Adelaide Ristori levava junto a família inteira nessas viagens, o que, aliás, era também o costume de Dom Pedro II. Portanto, pouca margem restava para os dois, além da afeição platônica. Somente depois de viúvo Dom Pedro ousou um pouco mais ao falar de seu sentimento pessoal por ela, mas ainda assim de forma cifrada: “podes adivinhar quando as palavras me faltam”.Seria de todo interessante que a correspondência entre Adelaide Ristori e Dom Pedro II fosse conhecida do grande público, e não apenas de alguns poucos atentos às filigranas da História. Nela, todos poderiam ter acesso direto ao coração do imperador. E de sua friulana.

Um comentário em “A FRIULANA E O IMPERADOR

  1. Gostei muito! Incrível que não se importavam de deixar cartas que poderiam ser conhecidas por todos depoisde suas mortes. Não se importavam no julgamento que teriam.

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