Essas duas palavras, postas lado a lado, soltam faísca. É como se ética e política fossem dois pólos, um de corrente positiva e outro de corrente negativa. Por isso todo cuidado é pouco quando se quer saber que relações existem, ou devem existir, entre as duas. Principalmente quando se deseja evitar outros dois pólos opostos no exame da questão: o do moralismo e o do cinismo. O moralismo consiste em exigir na política uma moral que não lhe é própria. O cinismo vai ao outro extremo, o de alegar que em política não cabe espaço para pruridos morais.
Uma das inteligências que mais admiro, na sua capacidade de desfazer esse tipo de nós conceituais, é Norberto Bobbio. Com certeza foi ele quem mais se debruçou, nos tempos modernos, sobre o problema das relações entre ética e política. Quem deseja se aprofundar na questão, vá até ele. Quase todas as suas obras estão já editadas em português.
A chave toda da questão, na opinião dele, com a qual é impossível não concordar, é esta: ou você acredita numa ética universal, válida para qualquer situação ou atividade humana, ou você concorda que a ética é sempre singular, ou seja, é diferente segundo as diferentes situações ou atividades. Um exemplo bem claro do que seria uma ética singular, diz Bobbio, é o da ética profissional. Para um médico, não contar ao doente que ele não tem mais cura não é visto como mentira. Ao contrário, faz parte da conduta ética nessa atividade e nessa situação.
Passando do campo das profissões para o campo mais amplo das atividades humanas, não é difícil também de perceber a existência de éticas singulares. Certamente ninguém usa na atividade comercial a mesma ética que usa nas relações afetivas, de onde talvez venha o provérbio “amigos, amigos, negócios à parte”. O que não quer dizer que não haja algum tipo de ética nas relações comerciais. Todos sabem a diferença entre comerciante honesto e comerciante desonesto. Diante dessas distinções, o que pensar da relação entre ética e política? Sendo a política uma atividade humana singular, não é estranho pensar que ela tenha também uma ética singular, que não necessariamente deve coincidir com as regras de comportamento acordadas para outros tipos de ação humana. A questão é estabelecer a diferença entre político honesto e desonesto. Em linhas bem gerais, é possível concluir duas coisas. A primeira é que aplicar à política as regras de outro campo de atividade, como as de um convento, é puro moralismo. Por outro lado, pretender que a política não tenha nada a respeitar em outros campos da ação humana, como se fosse uma máfia, seria puro cinismo. Sei que há pessoas que gostariam que as coisas fossem mais simples. Mas viver é complicado. Eu diria que cada vez mais complicado.