Futuro e porvir são duas palavras que os dicionários dão como sinônimas. Quem lida um pouco com elas vê uma certa diferença: porvir não é para ser usada a toda hora. Ela significa futuro, mas em traje social, exige uma oportunidade especial para ser usada.
Outro dia andei lendo um autor que faz uma diferença bem maior entre as duas palavras. Como ele escreveu em francês, as palavras eram futur e avenir, que vêm a dar nas nossas futuro e porvir. O porvir, ou avenir, seria aquele tempo que se espera continue a existir depois do momento presente, e do qual nada se sabe. O futuro é aquele tempo que virá depois do momento presente, e do qual a gente já sabe como vai ser. Em outras palavras, o futuro é o presente prolongado sob controle. O porvir é o que virá sem o nosso controle.
O controle do futuro foi o grande projeto da humanidade. À medida em que esse projeto foi dando certo, foi sendo criada a civilização. A invenção do fogo talvez tenha sido o primeiro passo para controlar o futuro: ter luz mesmo à noite, ou não ter que deixar apodrecer a caça, ou não se deixar morrer encarangado. São todos modos de prolongar o presente. Construir a casa onde morar também típico de quem quer manter o controle do futuro. Até aprendi uma historinha desde criança, para explicar por que o urubu não tem casa. É que cada vez que chove, e se molha todo, ele jura que assim que parar de chover vai fazer uma casa. Mas quando pára de chover, ele se esquece de que vai precisar de casa quando chover de novo. Isto é, o urubu não se interessa em manter o futuro sob controle, e só por isso não é humano.
Nem tudo o que virá depois do presente pode ser controlado. No começo do projeto humano, era muito pouco o que se podia garantir. Tanto que foi criado um provérbio que rodou séculos e séculos: “o futuro a Deus pertence”. Hoje, ao contrário, cada vez mais é previsível o que vai acontecer e cada vez mais é possível adotar no presente as medidas que vão garantir que aconteça o que se quer hoje. É por isso que já se começa a separar esses dois conceitos: o de futuro e o de porvir. O futuro é aquela parte de depois do presente que pode ser controlada. A parte não controlada fica com esse nome de porvir.
Quanto maior for o controle, menos sustos terá a humanidade, seja no seu conjunto, seja no plano individual. Mas ninguém está livre do fortuito, que pode desmanchar os melhores planos. O fortuito ainda não foi controlado. Está dentro de uma faixa de probabilidades que pode ser maior ou menor, mas existe. Isto quer dizer que ainda sobra uma faixa para as surpresas e as decepções. Ou seja, para a imprevisibilidade do porvir. Conviver com ela é ainda um exercício de sabedoria.