Na primeira vez em que me encontrei com Ignácio de Loyola Brandão, perguntei se ele era mineiro. É claro que se eu prestasse atenção nas orelhas de seus livros, não faria a pergunta. Mas, sei lá por que razão, seus romances sempre me passaram a impressão de haver neles um olhar mineiro, pousado sobre os espantos que provoca a enorme cidade de São Paulo. Meio ofendido, pareceu-me, ele me retrucou que era paulista. Paulista de Araraquara. Para ele isso, com certeza, faz uma grande diferença. Para mim, que olho de mais longe, Araraquara não parece tão longe assim de Minas. Mas todos sabem a importância que ganham as, pequenas na aparência, diferenças locais.
Nas outras vezes em que nos encontramos, sempre nalguma feira do livro, nunca mais pisei nesse calo melindroso. Desta vez, em que ele veio à Feira do Livro de Caxias do Sul, foi ele quem entrou no assunto. Falou o tempo todo, ou quase, de Araraquara, tema de seu último livro. O assunto que lhe cabia abordar era de onde saem as histórias, onde elas estão, como trazê-las para o papel. E aí é inevitável remexer o baú da memória, desde que se começou a guardar coisas dentro dela. E não há época em que se guardem mais tralhas na memória do que no tempo de criança.
Ignácio começou contando de onde tirou histórias de seu tempo de menino em Araraquara. Essas vieram sem o uso de nenhum recurso, nenhuma muleta, nenhuma pinça. Mas quando passou a demonstrar de onde saiu o turbilhão de cenas e histórias que nos dá de São Paulo, tirou do bolso uma caderneta minúscula. Sai tudo daqui, disse ele triunfante. Tudo o que vejo e ouço, e que parece interessante, anoto aqui para depois usar quando escrevo. Fiquei pensando em quantas cadernetinhas teria ele, guardadas com método. Pois Ignácio sabia o número exato delas: três mil e tantas e tantas, contadas, uma por uma, pela mulher. Em resumo, era o que Ignácio queria nos dizer, as histórias saem da observação, da escuta, da atenção ao que acontece.
Saí da palestra impressionado com tanta disciplina e organização. No café, minutos depois, manifestei essa minha admiração e confessei que eu não era capaz de tanto. No começo fazia anotações que ia empilhando numa gaveta, em folhas soltas. Até o dia em que descobri que não aproveitava nada do que tinha anotado. Aquilo que realmente podia ser aproveitado ficava na memória. E o que eu esquecesse, foi a regra que estabeleci, não sei se para me consolar das perdas, é porque realmente não tinha importância.
Ignácio riu: “você acha que aproveito tudo o que está nas cadernetas?”, perguntou. E terminou confessando que é também na cabeça que vai juntando as peças de suas histórias. As cadernetas são para não sentir culpa de estar desperdiçando coisas interessantes. Isto é, Ignácio de Loyola Brandão pode não querer ser, por fora. Mas por dentro é igual a mineiro.