UM OLHAR CARINHOSO

A República, no Brasil, sempre tratou o Império, e a memória do Império, não apenas com maus modos, mas também com maus bofes. É como se o estouvamento fosse necessário para ser republicano, como o refinamento era a marca do gosto imperial.

         Esse contraste está num poema de Murilo Mendes, quando ele imagina a cena do Marechal Deodoro, todo nos trinques, tomando conta do poder: “Seu Imperador, dê o fora!” Dom Pedro II sai com toda a calma, pedindo apenas que não mexam nas obras de Vitor Hugo. Mas até mesmo esse contraste entre estouvado e refinado tem jeito de achincalhe.

         O poder republicano foi auxiliado, nessa empreitada de pôr em ridículo o período imperial, pela História, pela literatura, pelo teatro, pelo cinema, pela televisão. O tom com que a época e seus personagens são mostrados, quando o são, é o do deboche, o do escracho, o do ridículo.

 Hoje, no imaginário popular, o tempo do Império serve apenas como assunto de comédia ou tema de carnaval. Esse encarniçamento em querer cortar o umbigo da nação com tudo o que existiu antes da República só pode ser resolvido no divã. Esse e o de outros estúpidos iluminados, que acham que o passado não existe senão para ser esquecido, porque a vida, triunfal, começa apenas quando eles entram em cena.

         Por isso um texto e imagens como os desta ficção de Rita Brugger são um benefício para a inteligência e a sensibilidade. Pelo filtro dos olhos de Marie Louise, européia esclarecida, e de Mercedes, mucama de imperatrizes, somos levados para as pequenas coisas do dia e da noite, e convidados a olhar para elas com atenção, despidos de preconceitos. Junto com a autora, as duas personagens fazem um trio de mulheres que, como soem as mulheres, pedem que se dê valor à vida antes de tudo, antes de outros interesses e negócios.

         Além do olhar carinhoso sobre os tempos do Primeiro Império, temos a saborear a linguagem também afetuosa desta memória fictícia. E ainda, como verdadeiro presente, ganhamos a sutileza das aquarelas criadas para serem um novo suporte da nossa imaginação, sempre que quisermos lembrar a imperatriz Leopoldina e aqueles dias em que o espírito de urbanidade mal começava a vingar no Brasil.

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