Esta é uma historinha contada por Clifford Geertz, um antropólogo que influenciou todas as ciências do homem, pelo menos nos últimos 30 anos, e uma inteligência de que a espécie humana pode se orgulhar. Ninguém como ele pensou a questão das diferenças culturais, como “conhecedor por excelência das mentalidades alheias”, na definição que ele mesmo dá do etnógrafo. Generoso, estende a definição também ao romancista. Os dois são “profissionalmente obcecados com mundos situados noutros lugares e com o torná-los compreensíveis, primeiro para nós mesmos e, depois, para nossos leitores”. Nunca li elogio maior para o trabalho do romancista. Mas vamos ficar na seara desse nosso parceiro, o etnógrafo.
A historinha de Geertz aconteceu no sudoeste dos Estados Unidos, num programa do governo, dirigido, como é natural nessa circunstância, “por jovens médicos idealistas”. Havia muitos necessitados de diálise e havia somente uma máquina. Organizou-se então uma lista de pacientes, como é também comum nesses casos. Entre eles, conseguiu lugar na fila um índio bêbedo. Os médicos exigiram, para que o tratamento desse efeito, que o índio parasse de beber ou que no mínimo controlasse a quantidade espantosa que ingeria diariamente. O índio simplesmente recusou-se a dar ouvidos. E, por um desses mecanismos da psique que ninguém sabe explicar, comparecia pontualmente nos horários em que tinha direito à máquina de hemodiálise.
Os médicos, na sua lógica de buscar o máximo de eficiência no trabalho, se irritaram. O índio bêbedo, na opinião deles, além de não ter proveito nenhum, tirava a oportunidade de outra pessoa ser beneficiada. Mas o índio continuou surdo aos apelos e continuou a usar o aparelho, anos a fio. Até que morreu, conforme imagina Geertz, orgulhoso de si e agradecido aos deuses por ter tido uma máquina que lhe permitiu continuar prolongar a vida bebendo. Em síntese, os médicos e o índio bêbedo tinham uma lógica oposta, cada um deles baseado nos seus próprios valores. Os médicos entendiam que o índio devia parar de beber porque estava fazendo hemodiálise. O índio, inversamente, entendia que podia continuar bebendo porque estava fazendo hemodiálise.
O episódio tem seu lado cômico, mas ilustra bem como é difícil penetrar nas mentalidades alheias. E como é difícil, também, fazer julgamento de quem está certo ou errado numa situação em que os dois lados são fiéis a uma ordem de valores diferente, mas que cada um considera justa. Clifford Geertz, o antropólogo, confessa ao final da narrativa que, tudo somado e diminuído, simpatiza mais com o índio bêbedo que com os médicos. Já que entrei na roda, confesso que, para o romancista, seria também o índio o objeto da simpatia.