Acho que todos ainda se lembram de que foi com este mote – Tolerância Zero – que o lendário prefeito Giuliani fez Nova Iorque despencar no ranking das cidades de maior criminalidade no mundo. Mas muitos imaginam que a Tolerância Zero tenha sido nada mais, nada menos, que pôr a polícia nas ruas e encher os presídios. Isto é, não deixar de reprimir nenhuma contravenção, desde a menor até a maior. Não. Não foi uma operação tão simples assim.
O rumo da operação Tolerância Zero foi convencer os cidadãos de Nova Iorque, aqueles chamados de cidadãos de bem, de que todos estavam sendo prejudicados em seus negócios naquele ambiente de crimes desenfreados. Falar em prejuízo nos negócios, para o americano em geral, não apenas para o novaiorquino, é tocar na fibra mais sensível do ser. O prefeito Giuliani teve esse mérito: lançou o mote e conseguiu mobilizar os cidadãos. Na prática, cada cidadão estava convocado a, também ele, praticar a Tolerância Zero.
Tolerância Zero, por exemplo, seria todos os comerciantes cumprirem a lei de não vender bebida alcoólica para menores. Não só isso. Seria qualquer testemunha da venda ilegal protestar no ato e em bom tom. Mais ainda, seria denunciar o caso à polícia, se o vendedor não voltasse atrás, também no ato, de sua atitude potencialmente criminosa. Mais ainda, era o próprio empregado do dono do negócio negar-se a pegar na mão a bebida para entregá-la a um menor. Foi mais ou menos isso a Tolerância Zero.
Todos sabem que o americano, quando se trata de tomar atitudes como essas, não tem medo do ridículo. Por isso lá a receita teve mais sucesso do que teria, talvez, no Brasil, onde existe a cultura de que cumprir e fazer cumprir a lei é ser careta. Aqui o slogan tivesse que ser este: cumprir a lei não é caretice. Um amigo que estudou alguns anos nos Estados Unidos sempre conta que uma vez, no supermercado, comprou algumas cervejas. A moça do caixa negou-se a pô-las no pacote, alegando ser menor de idade e não poder tocar em bebida alcoólica. Aqui no Brasil isso é anedota. Lá é exemplo de virtude.
Quem quiser saber mais sobre como foi a queda da criminalidade em Nova Iorque leia o livro “O ponto de desequilíbrio”, de Malcolm Gladwell, editado pela Rocco. Lá ele explica que a fórmula foi, contra a epidemia do crime, lançar com sucesso uma epidemia contra o crime. Para dar certo, a epidemia “do bem” precisa de três coisas: pessoas com capacidade de deflagrar o processo, uma idéia forte o suficiente para ser lembrada e fazer agir e, terceiro, criar clima favorável à nova epidemia. Ou seja, o fim da criminalidade passa por reeducar toda a sociedade. É difícil, mas, como mostrou Nova Iorque, não é impossível.