MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 2

Casa de chão

Nossos vizinhos mais próximos em Santa Teresa, descendo um morro
entre as duas casas, eram o seu Felicício e a dona Anjerca. Isso na pronúncia
com que eram tratados. Na realidade eram eles o seu Felício e a dona
Angélica.
Seu Felicício trabalhava numa serraria ali perto. Dona Anjerca cuidava
da casa, das crianças, e tratava duas ou três cabras de leite. Dessas cabras é
que minha mãe recebia uma garrafa de leite todas as manhãs, e era esse leite
que eu tomava. Em minha primeira fotografia, com um ano e pouco de idade,
eu apareço com a garrafa nas mãos. De acordo com o relato de minha mãe, foi
o jeito de me fazer parar de chorar diante do fotógrafo.
Dona Anjerca fazia também uma canjica muito gostosa, que nós, as
crianças, comíamos na cozinha de chão, cheirando a picumã. Era o nome que
se dava para a fuligem do fogo de chão, que inundava a casa toda.
A gente chamava de casa de chão aquela que não tinha assoalho de
madeira, como era a da dona Anjerca. O piso era de chão batido. Para ele ficar
mais firme era misturado esterco de gado com água na terra, o que também
dava um cheiro carregado… A casa não tinha forro no teto, nem sótão. Do chão
dava para ver as tabuinhas de madeira do telhado, todas pretas de fuligem. Isto
é, de picumã.
Mesmo trabalhando numa serraria, seu Felicício não conseguira madeira
serrada para fazer a casa. As tábuas das paredes e as tabuinhas do telhado
eram de madeira lascada. As janelas eram também do mesmo tipo de madeira,
da largura de duas ou três tábuas, fazendo um tampão. E não tinha dobradiças.
Eram “janelas de correr”, numa travessa ao longo da parede. E não tinham
também vidraças. Fechadas as janelas, ficava tudo escuro.
Tudo isso aprendi porque meu pai, além de professor e jardineiro, era
também carpinteiro e marceneiro. Por sinal, a foto em que apareço com a
garrafa de leite nas mãos tem como fundo um pequeno altar de madeira. Esse
altar era da capela de Santa Teresa, que meu pai tinha pegado para consertar.
Na fotografia, estou sentado num telhado feito de tabuinhas. Não, eu não
estava em cima do telhado da casa! O telhado da estrebaria é que tinha ido
parar no chão, com uma ventania. E meu pai aproveitou para montar um
cenário especial para a primeira fotografia do primeiro filho.
A nossa casa, feita, é claro, por meu pai, era bem diferente da casa de
dona Anjerca. Era uma casa de assoalho, feita com madeira de serraria. Era

construída em cima de cepos de canela preta, que não apodrece quando é
enterrada. Sobre os cepos eram colocados baldrames feitos de toras de
pinheiro. Em cima dos baldrames era pregado o assoalho, de madeira plainada
e depois encerada. As paredes externas eram feitas com tábuas de polegada,
e as internas com tábuas de meia polegada. Tanto nas paredes internas como
nas externas, a fresta entre as tábuas era coberta com mata-juntas, uma
espécie de régua larga e comprida. E, como remate de tudo, a casa era pintada
com duas mãos de cal.
Embaixo do assoalho ficava o porão, onde era guardado o trigo, o milho,
o feijão, dentro de caixas. E no alto da casa ficava o sótão, com uma escada de
madeira para se chegar até ele. No sótão, meu pai tinha a mesa de
marceneiro, com torno a manivela e todas as ferramentas: plainas, garlopas,
formões planos e côncavos, serrotes, serras, pregos, parafusos, sei lá o que
mais… Ah, sim, havia também o diamante para cortar vidros, guardado numa
gaveta a sete chaves!
Muitas horas eu passei vendo meu pai fazendo móveis envernizados,
caixilhos para janelas, cadeiras de palha, bancos de madeira. Mas o maior
capricho dele era fazer instrumentos musicais. Fazia violas, violões, bandolins.
cavaquinhos e banjos. Até um violino ele chegou a fazer, a pedido de um
vizinho, mas prometeu que nunca mais faria, dava muito trabalho. O maior era
tornar côncava a caixa do instrumento, com vapor de água. Mas o violino que
ele fez foi aprovado pelo violinista.
Assim fui percebendo que eu estava numa família diferente, onde a casa
de chão batido era coisa ultrapassada. E onde tocar cavaquinho era um desafio
posto diante dos olhos, entre outros desafios.

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