– Parentes bem longe –
Uma carência na minha infância – que eu sentia como carência – era a de não conhecer de perto os parentes da família. Com exceção, é claro, de meus irmãos. Não conheci avós, com exceção do vovô Guilherme, nem tios, nem primos.
Acontece que meus pais, assim que casaram no município de Osório, mudaram-se para a vila de Santa Teresa, em São Chico, onde ele havia comprado dois lotes de terra. Em Santa Teresa a prefeitura tinha implantado um projeto de colonização, por ser uma área de mato e não de campo aberto, permitindo o cultivo agrícola. Para ali migraram famílias de origem alemã, procedentes na maioria da região de Nova Petrópolis, e de origem italiana. Destes, a maior parte era de Santa Lúcia do Piaí, pertencente a Caxias, e da Barra do Ouro, pertencente a Osório.
Ainda lembro os nomes da maioria dessas famílias. Alemãs: Lauxen, Ritter, Ternus, Schmitt, Paffrat, Schwaab,.. Italianas: Lazzarotto, Barcarolo, Martini, Rech, Casagrande, Tomasini, Pioner, Bonatto, Mazzurana, Silvestri, Muraro…E havia também os “turcos”, como eram chamados os sírio-libaneses. Dois deles tinham casa de comércio; Elias Scander e João Gantus, o “João Turco”. E também negros, como nossos “vizinhos de porta” seu Felicício e dona Anjerca.
Ali meu pai construiu a casa e abriu uma oficina de móveis. Fabricava cadeiras de palha, baldes de madeira, tinas, mesas, guarda-louças…E começou também a consertar e fazer instrumentos de corda. Foi nomeado professor da escola municipal, em caráter provisório, enquanto se preparava para fazer concurso para o cargo de professor, que aconteceria alguns meses depois.
Como era do seu estilo, concentrou-se tanto em estudar que chegava a sonhar em voz alta. Minha mãe contava, rindo, que numa noite ela acordou com meu pai dizendo: “uma lufada de vento, vírgula, duas lufadas de vento, ponto e vírgula”. Foi por causa desse concurso que eu, nascido nesse ano, ganhei o nome de José Clemente. Estudando a história do Brasil, meu pai ficou encantado com a figura de José Clemente Pereira, um obcecado pelos estudos como ele. E me deu esse nome de presente, fora da tradição de atribuir aos filhos nomes já existentes na família.
Com a mudança para Cima da Serra, ficamos sem contato com as famílias dos avós, tanto paternos quanto maternos. A gente sabia os nomes de todos eles, mas as distâncias e a dificuldade de viajar impediam o encontro pessoal.
Do lado materno, meu avô se chamava Antônio da Silva, que minha mãe dizia ser filho de uma índia caçada no mato, e a avó se chamava Maria Carlota dos Santos, de origem açoriana, como descobri mais tarde. Com as raríssimas cartas que eram trocadas, ficamos sabendo que a família toda havia se mudado para Palmares (hoje município de Palmares do Sul), para trabalhar nas lavouras de arroz. Ficaram mais longe ainda… O plano de minha mãe, de ir a cavalo até Osório e lá tomar o trem para Palmares, nunca se concretizou.
Por parte de pai, meu avô se chamava Guilherme Pozenato. Na origem, Guglielmo Posenato: meu pai foi quem trocou, no quartel, o s pelo z no sobrenome. E a avó tinha o nome de Maria Madalena Debastiani, nascida em Beluno, na Itália. A primogênita da família era a tia Virgínia, que não mantinha correspondência. Sabia-se que ela morava em Caxias. Meu avô Guilherme, ficando viúvo, mudou-se com os filhos para Cacique Doble, na época um distrito de Lagoa Vermelha. Com eles a correspondência era mais assídua. De lá, um dos tios se mudou para o Paraná e outros dois para Santa Catarina. Era a época da forte migração interna das colônias italianas e alemãs para o norte do estado e para os estados vizinhos. O tio Antônio fez o percurso inverso, indo morar em Caxias.
Com essas andanças, as cartas começaram a minguar. Minha mãe então nos confortava dizendo: se não vêm notícias, é porque todos estão bem; notícia ruim sempre vem voando…
Um resultado desses deslocamentos foi o de meu avô Guilherme ter ido passar um tempo em nossa casa. Eu devia ter uns oito ou nove anos na época. Não preciso dar aqui detalhes de sua figura: ela está desenhada, em detalhes, no personagem Aurélio Gardone, do romance O Quatrilho. Aurélio era o nome do único irmão de meu avô, que teve mais quatro irmãs.
Cabe aqui registrar também um pouco da história das origens do vovô Guilherme. Até para elucidar o que parece ser um DNA dos Pozenato: o de não se fixarem em lugar nenhum e o de não manterem relações dentro da família.
Os meus bisavós paternos emigraram da Província de Verona já casados, e se estabeleceram na colônia de Nova Vicenza, hoje município de Farroupilha, onde receberam um lote de terras para ser pago a prazo, como determinava a lei para os imigrantes. Ali tiveram seis filhos: dois meninos e quatro meninas. Por uma fatalidade, faleceram os dois, por causas nunca identificadas pela família, antes de meu bisavô quitar o pagamento das terras. A consequência direta foi que os filhos todos ficaram sem propriedade nenhuma, e foram acolhidos e criados pelos vizinhos.
Guilherme e Aurélio, os dois mais velhos dos irmãos, como não tinham terra para cultivar, foram buscar outro tipo de trabalho. Foi assim que meu tio-avô Aurélio se tornou carreteiro, morrendo num acidente, próximo a Ana Rech, como consta dos registros. E meu avô Guilherme virou tropeiro, trabalhando para uma loja da vila de Nova Vicenza. Viajava com os cargueiros de mulas até Barra do Ouro, próxima a Osório, levando queijos, salames, vinho, e de lá trazia açúcar, rapadura, cachaça e banana. Depois de casado, e já com alguns filhos, decidiu mudar-se com a família para o município de Osório, que na época tinha o nome de Nossa Senhora da Conceição do Arroio, indo instalar-se num lugar chamado Mundo Novo.
No Mundo Novo foi que meu pai Jerônimo conheceu minha mãe Deotilia. Começava ali um mundo novo…