MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 6

– São Roque da Goiabeira –

Santa Teresa esgotou suas terras à venda. Mas, como o projeto dera bons resultados, a Prefeitura de São Chico o expandiu para o lado do Arroio Goiabeira, que tinha às suas margens terras férteis e de futuro. No local foi erguida a capela de São Roque e, atrás dela, uma nova escola municipal, para atender à demanda que crescia.

Sempre atento a novas possibilidades, não deu outra: meu pai pediu transferência para a Escola São Roque e se mudou para a Goiabeira, onde construiu uma casa nova.  Em anexo, fez um paiol, um chiqueiro, um galinheiro e uma estrebaria. 

Já éramos seis irmãos, registrados em fotografia no alpendre da casa. Apareço nela com um livro na mão, intitulado “Crestomatia Cívica”, de Radagásio Taborda. Era uma antologia de textos de teor patriótico, que meu pai encomendou, pelo correio, da Editora O Globo, de Porto Alegre. Era o livro que eu estava lendo quando foi tirado o “retrato”, como a gente chamava a fotografia.

A Segunda Guerra Mundial havia terminado há pouco, e todos falavam que tinha chegado ao fim a “carestia”, palavra presente em nosso cotidiano. Na biblioteca de meu pai havia almanaques e revistas com notícias da guerra. De uma delas lembro em detalhe: numa fotografia apareciam dois soldados estadunidenses, fardados, e fumando sorridentes. Ao pé do retrato vinha uma legenda mais ou menos nestes termos: “A espera tranquila antes de entrar em combate”. E lembro que eu me perguntava: como é que eles estão tranquilos se podem morrer a qualquer hora?

Meu pai acompanhava o andamento da guerra na venda do João Santos, aonde ia duas vezes por semana, ao menos. O João Santos era o único na redondeza que tinha rádio. Um rádio com bateria de caminhão, que ele mandava carregar na vila de São Chico. Ele tinha duas baterias, como me explicou meu pai, para ter uma de reserva enquanto mandasse alguém a cavalo até a vila para recarregar a outra.

Nessas idas à venda do João Santos, que ficava a dois quilômetros de nossa casa, vez por outra eu era levado na garupa do cavalo branco. A venda ficava a meio caminho entre São Roque e Santa Teresa, em posição estratégica para atender a freguesia dos dois lados. Assim fiquei conhecendo seu João Santos, que tinha uma barriga grande, e o caixeiro, que se chamava Alcides. Na venda tinha de tudo, até açúcar branco, caramelos e chocolate. Na prateleira de cima, que o Alcides só alcançava com uma escada, estavam os penicos e as peças de seda. Na frente do balcão se formavam rodas de conversa e a cuia de chimarrão circulava, servida pelo Alcides.

Quando terminou a guerra, meu pai me levou até a venda do João Santos. O rádio havia noticiado que o presidente Getúlio Vargas ia fazer um discurso no programa A Voz do Brasil. Era já noite quando chegamos. O programa começava sempre às sete horas da noite. Do discurso só lembro as palavras iniciais: “Brasileiros e brasileiras! Trabalhadores do Brasil!”. Ditas numa voz mais fina do que grossa. Não sei se por causa do rádio ou porque a voz do Getúlio era mesmo essa.

Meu pai sempre teve grande admiração por Getúlio Vargas, a partir de um episódio que ele volta e meia relembrava. Quando ele servia no quartel em Quaraí, o comandante avisou que no dia seguinte, às dez horas, estaria no quartel o Presidente do Estado, Getúlio Vargas. O sargento chamou o destacamento e deu as ordens: “Deixem as fardas em dia, com todos os botões, lustrem as perneiras, escovem os cavalos, aparem as crinas, alisem os cascos!”. 

No dia seguinte, na hora marcada, todo o pelotão se pôs a desfilar, disciplinadamente, diante do palanque onde estavam Getúlio Vargas e as autoridades do quartel. Nisso começou a pingar, chegando a chuva, e alguns soldados “se coçaram” para pegar a capa que vinha na garupa do cavalo, na “mala da capa”. O sargento então berrou para a tropa:

– Em forma! Sem capa! O comandante maior também está sem capa!

Todos olharam para o palanque e, de fato, viram que Getúlio Vargas estava perfilado, sem se proteger da chuva, como se nada estivesse acontecendo. Depois se ficou sabendo que Getúlio estava fazendo essa visita a todos os quartéis do estado, preparando a Revolução de 30.

Nesse período da guerra mundial foi que eu mergulhei nos livros. A ponto de minha mãe me pedir que eu não ficasse tanto tempo lendo: “assim tu vais estragar a vista”, me dizia ela. À noite, só se podia ler com a luz do lampião a querosene, ou da pixirica, como a gente chamava a lamparina a querosene.

Eu dominava tanto a leitura que meu pai me encarregou de ajudar dois irmãos meus – a Inês e o Teodorico. Aconteceu então uma cena que ficou nos anais da família. Estávamos cada um dos três com o mesmo livro de leitura na frente e eu ia lendo as frases que os dois iam repetindo. Quando percebi que eles não liam, só repetiam, eu disse, fingindo estar lendo no livro: “um papagaio”. Eles repetiram: “um papagaio”. Continuei: “dois papagaios”. E eles: “dois papagaios”. Nisso, meu pai estava passando perto da mesa e percebeu a brincadeira. Deu uma risada e ficou do meu lado: “Agora deixa os papagaios lerem sozinhos!” 

Foi nessa época também que cometi uma pequena atrocidade em defesa da língua nacional. Trabalhava lá em casa uma empregada, de nome Rosalba, vinda de uma família de origem italiana, os Barcarolo. Um dia, ela se preparava para amassar o pão e me falou:

– Pode me alcançar a farrinha? 

– Não é farrinha que se diz. É farinha – corrigi eu.

E ela:

– Mas eu disse farrinha, eu não disse farrinha.

É claro que caí na risada, repetindo a frase dela, dobrando os erres com força: “eu disse farrinha, eu não disse farrinha!”. A Rosalba ficou tão furiosa que pegou as coisas dela e foi para casa, dizendo que não ia mais voltar. Foi preciso meu pai ir falar com os pais dela para que tudo voltasse ao normal e a Rosalba mudasse de ideia, para alívio de minha mãe. Foi então que aprendi que não se deve rir dos erros dos outros.

Nessa idade tive também meu primeiro contato com o latim. Meu pai, além de ser professor, fazia também o papel de catequista e de zelador da capela de São Roque. Fui então escalado por ele para ser coroinha. E me passou um livrinho com as frases em latim que eu deveria decorar. A resposta ao “Dominus vobiscum “ era fácil: “Et cum spiritu tuo”. Mas a de “Introibo ad altare Dei”, por sinal a primeira da missa, era bem complicada: “Ad Deum qui laetificat animam meam”. Mas decorei, com o padre Pedro corrigindo a pronúncia das palavras. 

Nessa experiência aprendi também os nomes dos paramentos – amicto, alva, cíngulo, estola, manípulo, casula, sobrepeliz – e dos móveis e objetos. O armário de gavetões em que eram guardados os paramentos tinha um nome estranho: arcaz! 

Desse aprendizado resultaria a primeira grande mudança em minha vida: sair de casa e ir para o seminário. Mas isso fica para depois.

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