O berço é o início do mistério, obscura madrugada em que lançamos raízes fortes. Fortes? O berço é o início do mistério. Se as longas mãos de Deus não o houvessem feito, o mundo e suas coisas ficariam obtusas absurdas como os brinquedos de um menino que não veio. (1958)
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Ofício
Há uma página branca que o poeta deve preencher. Se ele não o fizer, a página ficará branca eternamente. Alguns morrerão talvez por causa disso, outras não nascerão por causa do silêncio do que viu as coisas apesar da noite e não as quis revelar. Por isso vês o poeta à noite atarefado semeando caracteresContinuar lendo “Ofício”
Poema sobre o mundo
O mundo é um imenso quiosque onde há um tablado para chorar e dançar e onde se vendem habitualmente jornais espantosos bebidas cigarros e brinquedinhos para os medrosos se entreterem. O mundo é um quiosque onde o tédio voluteia. Ao seu redor as meninas dão-se as mãos riem e cantam: a casa de bambu coberta de bambuá uá uá uá Continuar lendo “Poema sobre o mundo”
A terra dos homens
A terra dos homens e suas árvores desvairadas cada noite a reencontro. Após o sol, a noite e o mundo disperso sempre em desencontro. A terra dos homens nas trevas enlouquecida é ainda e sempre a doce terra dos homens. (1958)
Elegia branca
Esta foi a primeira e a última rua da minha vida, a rua em que passou silencioso o esquife daquela criança vestida de branco e alegre e que eu chamava minha irmã. Foi a única rua que eu vivi. (1957)
Janela
É bom ter uma janela para a rua e ver como o azul do céu anda estragado com riscos pretos de fios elétricos. Ver a rua mentirosa assumir um ar estupefato à passagem dos motores. É bom ter uma janela para a rua e convidar os mendigos que tecem nas retinas a serenidade de esperarContinuar lendo “Janela”
Apenas
Ser apenas joão pedro antônio da rosa que mora entre latas velhas e não teve nenhum vislumbre de vir a ser mais limpo mais rico mais mundial que nunca pensou em ser João Pedro Antônio da Rosa o habitante da terra. (1956)
CHEIRO DE FRUTA
Juana de Ibarbourou Com marmelos maduros Perfumo os armários. Tem toda minha roupa Um aroma de fruta que a meu corpo Dá um constante sabor de primavera. Quando das prateleiras Polidas e profundas Tiro uma pilha branca De roupa íntima, Pelo quarto se espalha Um clima de pomar. É como se eu tivesse em meusContinuar lendo “CHEIRO DE FRUTA”