Marcos voltou com seu barco após dias perdidos no bojo do mar. E sentado chorava o vazio samburá. A brisa marinha afaga o seu rosto: Marcos, por que chorar? Teu trabalho foi ganho teu gesto fez o mar. Mansamente veio a noite e já não parecia tão sombrio o pescador tão vazio o samburá. Continuar lendo “Marcos e o barco”
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Elegia branca
Esta foi a primeira e a última rua da minha vida, a rua em que passou silencioso o esquife daquela criança vestida de branco e alegre e que eu chamava minha irmã. Foi a única rua que eu vivi. (1957)
Ondas e navios
O tempo está me fitando com sua cara deslavada. Fecho os olhos, ele profana o interior de minhas pálpebras. Persigo esse tempo, quero agarrá-lo, quero matar o tempo. e ele vem e ri. Está e não o vejo corre e não o apanho. Entra em meus olhos sai de meus ouvidos, torna a entrar peloContinuar lendo “Ondas e navios”
Poema da terra
Amigos, amemos a terra, antes que ela desapareça ou nós. Tem sido boa conosco fecunda e de gordos proventos para a nossa irrisória fragilidade. Amemos a terra, velha que já foi moça e agora vai morrer. Carece de um instante de amor antes da última neblina. Amigos que amais tantas coisas tolas tudo isso éContinuar lendo “Poema da terra”
Ode
Os sinos da rua brincam nas carroças que trazem de manhã verduras e leite. Ai, tempos meninos. A doce manhã destilava silenciosamente a clara e funda alegria do café de cada dia. (1956)
Janela
É bom ter uma janela para a rua e ver como o azul do céu anda estragado com riscos pretos de fios elétricos. Ver a rua mentirosa assumir um ar estupefato à passagem dos motores. É bom ter uma janela para a rua e convidar os mendigos que tecem nas retinas a serenidade de esperarContinuar lendo “Janela”
Apenas
Ser apenas joão pedro antônio da rosa que mora entre latas velhas e não teve nenhum vislumbre de vir a ser mais limpo mais rico mais mundial que nunca pensou em ser João Pedro Antônio da Rosa o habitante da terra. (1956)
Alegria
Essa luz anêmica de sol filtrado só é boa para tristeza. Quero é a explosão de luz de um sol na minha sala um sol valente e nu como um gladiador. (1956)
Poema do Outro
O vento levantou-se de manhã vestiu-se todo de azul pôs um botão de sol a passear pela roupa e saiu devagarinho sorrindo para todos. Entrou no jardim sem passar pelo portão derrubou uma porção de gotas de orvalho pisando por tudo enquanto nos canteiros as florinhas se inclinando: – Bom dia, senhor vento! Como vai?Continuar lendo “Poema do Outro”
COZINHA E FOGÃO
Quando saímos, minha mulher e eu, a comprar nosso primeiro apartamento – ninguém está livre desse tipo de sonho – encontramos este em que estamos morando até hoje, numa relação de absoluta fidelidade dele conosco e nossa com ele. Foi um desses casos raros de amor à primeira vista que continuam pelo resto da vida.Continuar lendo “COZINHA E FOGÃO”