Muito amor

                Todos falam que os avós são pais com açúcar. E não é para menos. Mas a comparação precisa ser validada por dois pontos de vista: o dos avós e dos netos, é claro. Ou não seria tão claro? Será que valeria analisar um terceiro ponto, o dos pais, que ficam no meio do sanduíche? Já vamos ver se precisaremos responder a essa pergunta.

                Primeiro, então, tomemos o ponto de vista dos avós. Em geral, estão aposentados ou trabalhando menos, graças a uma vida inteira de dedicação à profissão e aos filhos. De repente, um dos rebentos anuncia: vamos ter um bebê! E a mágica se faz. Brota a saudade dos seus pequenos, correndo pela casa, na algazarra, do cheirinho de criança, de ver a troca de roupas do armário porque o pitoco cresceu, e elas não servem mais nas pernas e nos braços.

                E nesse ponto temos um agravante: junto com a saudade de ter um bebê, quase sempre, para um adulto, vem aquele sentimento de “só tenho saudade dos tempos bons, mas, ainda bem, já cresceram para dizer o que sentem”; mas, para os avós, o receio não existe. O bebê será deles, sim. Mas, se o cansaço bater, podem entregar a criança aos pais, sem o compromisso de obrigação. Fica um compromisso voluntariado. Se quero e posso, ajudo; se quero, mas não posso, tem quem resolva; se a paciência se foi, e posso, mas não quero, também tem quem resolva. Que alívio!

                Mais ainda: o filho não é deles; por que ter que educar, então? Fazem todas as vontades, sim, senhor. Compram doces, brinquedos, enchem de figurinhas para o álbum, levam para o parque, dão pitaco para os pais deixarem a criança viver. Sim, daí vem o açúcar dos avós: permitem que a criança aproveite a infância.

                Só que temos também o ponto de vista dos netos. Desde cedo descobrem que o vovô e a vovó têm amor de sobra para entregar. Não sabem o porquê, mas o feijão da vovó é o melhor do mundo! Melhor que o da mamãe. E o churrasco do vovô vem repleto de aventura: os pitocos têm que salgar a carne, mas não alcançam na bancada da cozinha. O vovô dá a solução: traz uma escadinha, ou um banquinho, que alcança aqui. Os pais arrepiam: e se a criança cair dali? O vovô tranquiliza: tudo certo, cair faz parte da vida; tem que aprender a levantar. E a criança ainda diz só com o olhar: viu? O vovô confia em mim.

                Para completar a mágica para os netos, os avós ainda dedicam horas só para dar carinho. Abraçam, dão colo, deixam a criança dormir na perna deles no sofá. Conversam sobre o passado, contam coisas que os pequenos nunca viram, despertam a curiosidade, trazem estímulos carregados de paz e amor, tão necessários para os pequenos. Mais açúcar dos avós.

                Mas, enquanto escrevo essas linhas que comentam o lado dos avós e o lado dos netos, estou pensando que os pais precisam aparecer aqui, sim, o que responde à pergunta inicial. Sabem por quê? Porque sou uma mãe avaliando a situação, não uma vó nem uma neta. Falar de fora é fácil. Então, vou me incluir.

                Quando vem chegando um bebê, os pais entram em pânico: será que vem bem? Será que vou conseguir cuidar? Como se faz para atender um serzinho tão pequeno? Ele não quebra no colo da gente? Como faço para colocar roupas tão pequenas sem machucar a pessoinha que vai ficar dentro delas? E é aí que vem mais açúcar dos avós: é a sabedoria deles que tranquiliza os pais. Calma, dizem eles. Vai dar tudo certo. Como para qualquer coisa na vida, você só precisa se acostumar ao primeiro dia, à primeira semana, ao primeiro mês, ao primeiro ano. O que é primeiro assusta. Mas só porque é desconhecido.

                E aprendemos com isso: todos somos capazes. Principalmente se permitirmos que o amor ocupe o espaço da dúvida e do medo. São os avós que ensinam aos pais que podemos aprender também com os pequenos; os adultos não são, como pensamos desde cedo, os donos da verdade. É: os avós são pais com açúcar. Um açúcar que brota da sabedoria, do conselho, do aconchego, do carinho. Principalmente: de saber regar tudo isso com amor. Muito amor.

Maria Helena Menegotto Pozenato

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