Uma das sensações que a experiência traz é a saudade do que já foi. No milênio passado, costumávamos revelar as fotos que tirávamos. É isso mesmo. Sem revelar, era difícil ver como tinha ficado a foto. Só imaginávamos o resultado, até buscar as fotos na loja e nos surpreendermos com ótimas poses, ou nos decepcionarmos com os piores registros ou com o filme queimado.
E hoje esse público com mais experiência do qual já faço parte tem as fotos dos filmes que não queimaram para olhar. Pilhas e pilhas de álbuns que são prescrutados raramente. Folha por folha. Sabemos exatamente onde, quando, como, com quem, por que cada foto foi registrada.
Outro momento nostalgia acontece quando prestamos atenção no que se passa dentro da nossa própria casa. Para isso, basta voltarmos alguns anos; não precisamos recorrer ao milênio passado. Quinze anos depois, meu bebê passou e me dar colo, ao invés de pedir; não precisa mais de ajuda para limpar o queixo depois do almoço, mas está aprendendo a fazer a barba. Fases que chegam e outras que vão, deixando saudade.
Gerando uma ambiguidade de sentimentos, também temos, muito próximos, aqueles minutos em que nos sentimos importantes, por relatarmos fatos históricos que, não só conhecemos (como os que estudamos nos livros de história), mas também vivemos. Relatos vivos que encantam as novas gerações e são apresentados em tom de saudosismo. Outro dia, passei por um desses minutos: o assunto na aula de inglês que eu ministrava era tecnologia. Os adolescentes do grupo conheciam já uma porção do vocabulário, porque faz parte do cotidiano deles. Mas, quando apareceu o vocabulário da história da computação, como floppy disk e flash drive, ninguém nunca tinha visto um diquete ou um pen drive.
Por alguns segundos, senti a importância do relato. Contei o que vivi. E que ainda uso o tal do pen drive. Este último até consegui mostrar, porque tinha um na bolsa. E os olhares dos adolescentes continham um misto de maravilhados, surpresos e penalizados. Maravilhados de eu trazer a informação para compartilhar. Surpresos, porque o mundo tem coisas que eles não conhecem. Penalizados, porque sou um dinossauro ainda usando tecnologia antiga. Foi ao perceber esse terceiro sentimento que meus segundos de importância foram atropelados pela ciência de que, sim, sou já um dinossauro no mundo.
A tecnologia mudou muito, e em pouco tempo. É ela que permite vivermos um tempo mais acelerado. Até para determinar quem é jovem e quem é velho. Até o milênio passado, do qual também fiz parte, velho era o que já estava nos livros. Maravilhoso era o que já tinha sido incorporado à enciclopédia. Alegria era ver o vocabulário da adolescência de nossos pais ser adicionado ao dicionário. E ficávamos imaginando quando seria a vez dos nossos neologismos. Hoje não vejo mais essa torcida. É velho todo aquele que não sabe usar adequadamente a tecnologia.
Por que recorrer aos livros para descobrir o que não conhecemos se, hoje, é possível encontrar tudo na internet? Inclusive, encontra-se o que os livros ainda não publicaram. Os dinossauros precisam contato com suas origens. E o cheiro das páginas do livro impresso é uma delas. Difícil é ouvir a risadinha dos jovens, quando não conseguimos fazer com que a tecnologia trabalhe ao nosso favor. E fica aquela dúvida: será que o nosso passado está tão longe e deixou de ser útil? É claro que não. Pode não parecer, mas voltamos ao passado todos os dias. Alguém conhece quem nunca usou uma colher? Pois é. Eu não. E os jovens de hoje sabem usar esse instrumento, porque um dinossauro da família ensinou.
Maria Helena Menegotto Pozenato