Dentro de um ônibus, o que mais se encontra é a variedade da espécie humana. Pessoas dos mais variados tipos físicos, mas, o mais importante, das mais diversas personalidades. Às vezes, não-pessoas também. Prato cheio elaborado pelo grupo da empolgação para o grupo que se encarrega de observar.
Já vou explicando primeiro o “não-pessoas”. Creio que é possível acompanhar o raciocínio: aquilo que não é humano, mas também usa o transporte público. Um cão-guia, por exemplo. Faz seu charme mesmo sem perceber. Chama a atenção dos demais usuários, principalmente dos cachorreiros por natureza. Mas não só cães-guia.
Outros animaizinhos também participam, mas, em geral, quando se segue a regra, levados em caixas de transporte. Nesse caso, os mais silenciosos e comportados quase passam despercebidos. Os mais entusiasmados são controversos: para um trajeto curto, dentro da cidade, até o veterinário, tranquilo; para um trajeto longo, em viagem intermunicipal, para aqueles que não desistem de ter seu amigão por perto na praia, por exemplo, pode acontecer de aparecerem os reclamões de plantão.
Só que, para os observadores, não são só os companheiros animados não-humanos que são fonte de informação. Há quem traga consigo diferentes objetos. A mochila, por exemplo, conta muito sobre o seu dono: se está mais leve ou mais pesada, mais nova ou mais gasta, com cores mais neutras ou mais gritantes, uma míni mochila ou uma super mochila. As pérolas são as mochilas infantis. As mais pesadas, mais sofridas, mais completas e mais decoradas. Mas há quem leve até um contrabaixo, mesmo que maior que o próprio dono.
Mas falta também comentar sobre a variedade da espécie humana que se encontra em ônibus. Aliás, são esses os responsáveis pelas não-pessoas que servem de inspiração no coletivo. Sim, porque, sem o transportador, o contrabaixo não faria o passeio da linha entre o bairro e o centro ou entre o interior e a capital. Assim como a mochila vai, em geral, às costas de alguém.
Eu, como linguista, simplesmente adoro prestar atenção às conversas. O repertório é gigante. Em um dos trajetos de ônibus que fiz, guardei na memória e na emoção a conversa de uma menina com a sua mãe. Durante o caminho, passamos em frente a um enorme tigre decorativo de um estabelecimento comercial. O animal impressionou a menina, que chamou a atenção da mãe – e, diga-se de passagem, de todos os adultos que estavam no ônibus – quando gritou: “Mãe! Olha só o tigão!”. Exato: “tigão” foi o que ela disse. Pequena ainda para conseguir articular o “R”. E a mãe retrucou: “É, né, filha! Um baita tigão!”.
A mãe tinha resolvido atrapalhar a vida da criança. A testa da jovenzinha franziu ao máximo, e os olhinhos chispavam de fúria, quando respondeu: “Não, mãe! Você não sabe? Não é tigão que diz! É tigão!”. Tentou, reconheceu que estava errada a pronúncia que a mãe repetira dela mesma, mas não conseguiu efetivar a pronúncia do fatídico “R”. A mãe riu muito. Eu me deliciei com a construção da conversa. E muitos acharam a cena muito fofa. É difícil mesmo chegar a performar a pronúncia da letra que desencadeou toda a cena. Mas o cérebro da menina já tinha certeza do sucesso. Na cabecinha dela, a mocinha tinha alcançado a perfeição na produção da letra que não saiu.
Não são só as crianças que trazem momentos de deleite como esses nos ônibus. A filosofia do adulto também contribui, e muito. Hoje, viajamos de uma cidade a outra comprando passagens numeradas. E esperamos sentar-nos no banco que recebe o número escolhido. Ou porque escolhemos o da janela ou o do corredor, ou do início ou do final do corredor, ou perto da geladeira, ou perto da escada de saída, ou longe do banheiro, mesmo. A ponto de muitos ficarem realmente irados quando outra pessoa está ocupando o seu lugar. Mesmo que não consigam responder a uma simples indagação, que brotou de um senhor em uma dessas viagens: “por que você se preocupa tanto com o número do assento, se todos os assentos desse ônibus vão ao mesmo lugar e vão chegar no mesmo tempo?”. O interlocutor se engasgou, xingou, mas não encontrou argumento suficiente. São as pérolas do ônibus.
Maria Helena Menegotto Pozenato