Cuidados

                Ser mãe não acontece em um piscar de olhos. Não é um “tornar-se” da noite para o dia. Demanda aprendizado. Principalmente no que diz respeito a cuidar da criança que chega para ficar conosco. É preciso aprender a fazer nosso melhor. A tomar as decisões aparentemente certas para que a melhor intenção mostre o quanto amamos o ser recém-chegado.

                E isso não acontece em um único dia. Ou em um piscar de olhos. O cuidado e o amor são construídos. Já ouvi anos atrás de meu pai: a maternidade não é um instinto no ser humano, como pode ser para animais; ela é fruto de estar aberto para aprender. Aprender que o amor se constrói, que o cuidado é importante, que o excesso de cuidado prejudica, que você ensina, mas também aprende.

                Desde que compreendi a verdade contida nessa afirmação, percebi que não se pode dizer que alguém nasceu ou não nasceu para ser mãe. Quem nasce para ser mãe só está mais predisposta ao aprendizado. Para isso, consegue fazer concessões e abdicar de muito do que já é seu para, no aprendizado de ser mãe, ensinar o novo membro da família a crescer. Quem não nasce para ser mãe só não se abre para esse processo.

                Mas as concessões e as abdicações também têm limites. Porque, em excesso, até água faz mal. Se a criança nunca usar talheres, inclusive a tão perigosa faca, nunca aprenderá a comer sozinha. Lembro-me de meu filho pequeno: eu me preocupava em triturar os grãos do feijão para ele comer, com medo de que ele se engasgasse. Descobri que, na escola, não trituravam nada de grãos, e ele se virava bem. Comia até pipoca. Ele foi cedo para a escolinha, porque eu não tinha opção de parar de trabalhar. Ainda bem. Tem autonomia.

                Aprendeu a se defender de colegas abusados, a usar tesoura, que é tão perigosa para os olhos de uma mãe quanto uma faca, a comer de tudo, a pedir o que precisa, a socializar, criou anticorpos depois de várias idas à pediatra. Falou cedo, caminhou cedo, alfabetizou cedo. Entregar tudo na mão da criança impede, inclusive, que ela desenvolva suas habilidades mínimas de socialização. Mas eu sofri muito até aprender isso tudo.

                Não parece. Ainda olho para meu filho, hoje com 15 anos, como se ele fosse meu bebê. Às vezes ele precisa me lembrar de que o tempo passou. Mas o aprendizado não para, não é? Agora estou em nova fase de aprender como mãe. Preciso aprender a aceitar que mãe também precisa de cuidados. Fácil era aceitar isso para cuidar de minha mãe. Difícil é ser mãe e aceitar os cuidados. Mas também é maravilhoso.

                Abraça, oferece colo, aperta parafusos, passa pomada, monta móveis, organiza a casa, estende a roupa, prepara refeição, faz curativos, alcança água, ensina a usar a tecnologia. E ainda pergunta: tudo bem, mãe? Os cuidados que foram e vão também voltam.

Maria Helena Menegotto Pozenato

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