Seguidamente visito escolas pelo Rio Grande afora, de Iraí ao Chuí, e acabo vendo e ouvindo coisas lá dentro da cozinha, como se diz. Sou convidado, como seria de esperar, para falar (bem) de minha obra e contar curiosidades do making of de um escritor. Mas sempre uma professora, ou mais raramente a diretora (háContinuar lendo “CARANDIRU”
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BOQUIRROTO
Uma noite dessas, zapeando, peguei já na metade o poeta João Cabral de Melo Neto numa entrevista, gravada na certa há mais de 30 anos pela televisão cultural do governo (não sei que nome tinha ela na época). João Cabral estava com um desses óculos de aro grosso, que também já usei, e que davaContinuar lendo “BOQUIRROTO”
BALUARTE
Todo o mundo é composto de mudança, lamentava Camões, que depois de uma certa idade, como nós, também não conseguia se acostumar com a idéia da fugacidade das coisas. O pior, dizia ele no final do soneto, é que até a mudança muda: nem ela muda mais como antigamente, nem ela é mais “como soía”.Continuar lendo “BALUARTE”
Padre Giobbe
Padre Giobbe pôs em operação, item por item, seu método para descer do automóvel, como se tivesse o corpo dividido em partes. Escancarou a porta, pôs para fora a bengala e depois, com os dois pés no estribo, girou sobre as nádegas o corpo velho e pesado. Segurou-se então com força na bengala e deuContinuar lendo “Padre Giobbe”
A BELA DA TARDE
A Bela da Tarde foi mais um desses filmes dos anos 60, do século passado, que sinalizou a virada geral que estava acontecendo nos costumes e, portanto, nas convenções. Mas antes de entrar no assunto, me lembro de um detalhe. Quando o filme foi anunciado aqui em Caxias, pela rádio, o locutor de plantão caprichouContinuar lendo “A BELA DA TARDE”
A ERA DO APRENDIZADO
Na década final do século passado tornou-se convicção geral de que havíamos entrado na sociedade do conhecimento. O argumento básico para essa convicção, que se tornou lugar comum e quase uma crença, era o de que o conhecimento tinha passado a ser o principal fator de produção e de desenvolvimento, como tinham sido a matéria-prima,Continuar lendo “A ERA DO APRENDIZADO”
TOLERÂNCIA ZERO
Acho que todos ainda se lembram de que foi com este mote – Tolerância Zero – que o lendário prefeito Giuliani fez Nova Iorque despencar no ranking das cidades de maior criminalidade no mundo. Mas muitos imaginam que a Tolerância Zero tenha sido nada mais, nada menos, que pôr a polícia nas ruas e encherContinuar lendo “TOLERÂNCIA ZERO”
AS CERCAS DO MEDO
Um grupo de pesquisadores que percorre as zonas rurais de Caxias do Sul, atualizando o inventário do patrimônio cultural e paisagístico dessas localidades, está surpreso com um fenômeno. Os moradores estão com medo de abrir as portas e conversar com os visitantes, temendo estarem sendo vítimas de assalto. A qualquer movimento que percebem, vindo deContinuar lendo “AS CERCAS DO MEDO”
DÁBLIU E DOBRE VÊ
Quando o, na época, assim chamado esporte bretão invadiu o Brasil, junto com ele o país foi inundado por uma enxurrada de palavras inglesas. Os jornais e os speakers de rádio (hoje chamados de locutores) falavam em penalty, center-forward, referee. Umas dessas palavras, com o tempo, simplesmente se aportuguesaram, como pênalti, córner, beque e aContinuar lendo “DÁBLIU E DOBRE VÊ”
A MÁQUINA DE HEMODIÁLISE
Esta é uma historinha contada por Clifford Geertz, um antropólogo que influenciou todas as ciências do homem, pelo menos nos últimos 30 anos, e uma inteligência de que a espécie humana pode se orgulhar. Ninguém como ele pensou a questão das diferenças culturais, como “conhecedor por excelência das mentalidades alheias”, na definição que ele mesmoContinuar lendo “A MÁQUINA DE HEMODIÁLISE”