O poeta do “Cântico das Criaturas”

Quando saí de São Francisco de Paula para entrar no Seminário Menor em Caxias do Sul, deparei com outro São Francisco: o de Assis. Ocorre que o Seminário era na época dirigido pela ordem dos Capuchinhos, e o dia de São Francisco de Assis, a 4 de outubro, era a data mais festejada do ano, com missa solene, almoço festivo e uma peça de teatro à noite.

Curioso como sempre, descobri que São Francisco de Paula recebeu o nome de Francisco porque seus pais eram devotos de São Francisco de Assis, que vivera três séculos antes. E fiquei sabendo também que o nome de Francisco – Francesco em italiano – foi dado pelo pai, que era negociante e fazia comércio com a região da Provença, na França. E embora o filho tivesse sido batizado com o nome de Giovanni di Pietro, o pai o chamava de “Francesinho”, diminutivo que no dialeto da Úmbria soava como Francesco.

Como era de esperar, tive contato não só com o lado espiritual do Poverello de Assis, mas também com seus escritos e seu famoso poema, conhecido como “Cântico das Criaturas”. Outro nome dado ao poema, ao que parece mais fiel ao original, é “Cântico do Irmão Sol” (Cantico di Frate Sole).

De fato, o poema começa louvando a Deus “especialmente pelo senhor irmão sol”, que dá a tudo e a todos o dia, com sua luz “radiante e de grande esplendor”. Mas ao longo das estrofes vai enumerando e louvando todas as outras criaturas: a irmã Lua e as Estrelas, o irmão Vento, o Ar sereno e o nebuloso, a irmã Água, o irmão Fogo e a “Terra, nossa irmã e mãe”: irmã porque é também uma criatura e mãe porque todos nascem em seu seio.

Esse Cântico provocou certa polêmica porque, ao louvar o lado material do mundo, colidia com a tradição agostiniana, presente em toda a Idade Média, que só dava importância ao mundo do espírito. Com isso, Francisco de Assis abriu caminho para a poesia de Dante e de Petrarca, onde o corpo passa a ser o centro da atenção, podendo ser fonte de virtude e não apenas de pecado.

Esse poema ficou na história, também, por ter sido o primeiro escrito na língua falada pelo povo – a “língua vulgar”, como era chamada – e não em latim. Com ele teria nascido, portanto, toda a literatura em língua italiana. Todos livros de história da literatura italiana começam pela citação de seu nome. E isso que teve uma vida bem curta, ao menos para os padrões de hoje. Nascido em 1182, morreu com quarenta e quatro anos, em 1226. Mas teve uma vida tão marcante e tão louvada que dois anos depois o Papa Gregório IX foi pessoalmente até Assis para decretar sua canonização.

Tive a fortuna, e certamente a graça, de percorrer Assis e redondezas em companhia de um amigo, professor da Università per Stranieri de Perúgia. Levou-me a visitar o monte onde se situava o mosteiro dos frades Franciscanos e também o das irmãs Clarissas, onde viveram São Francisco de Assis e Santa Clara, fundadores dessas duas ordens religiosas. Fui levado também a uma biblioteca com um vasto tesouro de memórias e depoimentos sobre o Santo. Vários relatos prenderam minha atenção. Visitamos depois a Basílica e a Capela da Porciúncula, onde está o túmulo do santo.

Só não fomos até a cidadezinha de Gubbio, próxima de Assis, famosa pelo episódio em que São Francisco amansou um lobo. Sua figura de protetor e de amigo dos animais foi a que mais se expandiu e popularizou. Mas a iniciativa dele de usar em versos escritos a língua falada pelo povo, como este começava a esboçar em canções populares, mudou o rumo da literatura da Itália e, por decorrência, da Europa e de todo o Ocidente. Em especial a partir da posterior adesão de Dante e de Petrarca a essa inovação radical da poesia.

É, portanto, uma boa escolha, ou uma feliz coincidência, que a nossa Feira do Livro de Caxias do Sul aconteça no mês de São Francisco de Assis, e na Praça Dante Alighieri!

O tempo para a leitura

Agora que começa a acontecer a 38ª Feira do Livro de Caxias do Sul, com o slogan de que Tudo é Leitura, pode ser interessante ler também um pouco do passado.

Talvez nem todos saibam que a primeira Feira do Livro do mundo foi realizada em Frankfurt, na Alemanha, em 1947. E que ela aconteceu pouco tempo depois da derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Essa feira em espaço público era uma resposta à queima de livros protagonizada por Hitler, em 1933, com a cooperação até mesmo dos estudantes, para pôr fim à liberdade de pensar e de ver o mundo de formas diferentes da oficial.

Essa ideia de promover o livro e a leitura com a realização de Feiras do Livro começou a se espalhar pelo mundo com o surgimento de outro fenômeno: o pouco tempo que começava a ser destinado à leitura, com a queda da compra de livros nas livrarias, quando os lares foram invadidos pela televisão. Esse aparelho também passou a contar histórias em capítulos diários, na forma de telenovelas, concorrendo com o livro impresso e subtraindo o tempo de leitura habitual no fim do dia.

No Brasil, a primeira Feira do Livro parece que aconteceu na Cinelândia, no Rio de Janeiro, no início dos anos 1950, também marcando o fim de uma ditadura. A de Porto Alegre foi inaugurada em 1955, com um lema deste formato: “se o povo não vai às livrarias, vamos levar as livrarias ao povo”. Era o sintoma de que o povo estava ficando em casa para ler histórias na televisão. Só para lembrar, o primeiro canal de televisão a funcionar no Brasil foi a TV Tupi, em 1950.

Em Caxias do Sul, a data da primeira Feira do Livro, de cunho oficial, data de 1984, com base em decreto aprovado no ano anterior, quando era Vitorio Trez o prefeito. O decreto foi sugestão de Marta Gobbato, secretária de Educação e Cultura, que criou também o Simpósio Municipal de Educação.

Naqueles tempos já era perceptível a diminuição do tempo dedicado à leitura. Como professor de literatura na universidade, era meu hábito fazer uma enquete sobre o hábito de leitura com os alunos e alunas que iniciavam o curso. No começo, perguntava quantos livros cada um costumava ler por mês. Com o passar dos anos, a pergunta passou a ser de quantos livros costumava ler por ano! Outra pergunta visava o tipo de obra lida: obra clássica ou best-seller promovido pela mídia?

Hoje, com a concorrência da mídia digital, também o livro impresso vai cedendo espaço para o e-book. Não sei se vai mudar a forma da leitura. A concentração e a atenção dependem do leitor, um leitor competente e disciplinado, e não do suporte em que são postas as palavras.

Antes do livro impresso, os textos eram gravados em pedra, em tijolo, escritos em pele de pergaminho. Que o livro criou um estilo de vida e de leitor, não há a menor dúvida. As carruagens do tempo das marquesas também. Mas quem disse que o automóvel, que veio substituir a carruagem, não criou também um estilo? O livro digital também vai encontrar seu espaço no modo de vida das pessoas. É possível imaginar que, depois das feiras do livro impresso em papel, aconteçam também as feiras do livro em versão digital.

As técnicas de registrar textos escritos mudaram ao longo da história. O que não deve mudar é o hábito de reservar, sempre, um tempo para a leitura. É com ela que a gente amplia a visão e a compreensão do mundo, em todos os tempos e lugares.

Encilhando o cavalo

As cavalgadas comemorativas da data farroupilha fizeram vir à tona da memória o quanto o cavalo fez parte de meu mundo real e imaginário. A ponto de ocupar um lugar privilegiado em minha poesia, como salientou o crítico literário Guilhermino Cesar em artigo no Correio do Povo (em 28/05/1983), citando o poema “O menino e o cavalo”. O mesmo fez outro mestre da nossa literatura, Donaldo Schüler, em sua obra A poesia no Rio Grande do Sul (1987), com esta análise:

“No motivo do cavalo, que galopa nos três livros até aqui publicados, a revolta eclode, abrindo-se em símbolo oferecido a todas as forças represadas. Resistente à corrosão do tempo, o cavalo atravessa a história, desde a penetração dos conquistadores até a exploração agrária. Mudaram os cavaleiros, enquanto o cavalo permaneceu com sua contida energia” (pag.300).

Leitores atentos e lúcidos como esses bastam para consagrar um poeta, como registra esta observação de Guilhermino Cesar: “Pozenato se firma bem, construindo um texto onde o gosto da palavra exata é caminho para a ‘obra aberta’ […] Isto é de fato poesia”.

Dois fatos estão na base dessa minha quase obsessão pela imagem do cavalo. O primeiro foi ter nascido e vivido em São Francisco de Paula, rodeado de cavalos por todos os lados. Como hoje são oferecidos estacionamentos para carros, diante das casas de comércio, das escolas e igrejas, lá eram colocados varais para amarrar as rédeas dos cavalos.

Outro fato marcante foi o de meu pai ter prestado serviço militar no Quartel de Cavalaria de Quaraí, na fronteira com o Uruguai, onde hoje está o 5º Regimento de Cavalaria Mecanizada. Isto é, o cavalo foi substituído por transporte mecânico, mas o quartel continua sendo de cavalaria! Meu pai guardou a vida inteira duas peças de seu uniforme de soldado: as perneiras de couro lustrosas e o culote de montaria, de inspiração francesa, usado no lugar da calça ou da bombacha. Meu pai, aliás, considerava a bombacha ridícula…

Outro hábito que ele guardou da experiência no quartel foi o de dar um tratamento especial aos seus cavalos, que eram sempre de cor branca: ensinava todos eles a marchar, para não andarem a trote, e fazia neles higiene completa, aparando as crinas e a cauda e passando a escova diariamente.

Desde menino, era nesse tipo de cavalo branco que eu montava. E não adiantava eu querer fazê-lo andar a passo. Ele insistia em andar com o movimento solene da marcha. É o que digo no poema citado por Guilhermino Cesar e por ele transcrito nas páginas do Correio do Povo:

O senhor era o cavalo,

por mais atado que fosse

com cincha, freio e espora

que ele aliás detestava.

Escravo era o cavaleiro

que o cavalo levava

com ar desligado

de quem carrega uma trouxa

importuna e vergonhosa.

Ao final da transcrição, Guilhermino Cesar escreveu:

“Não posso citar o resto, mas garanto que se trata de obra-prima”.

Nunca me vangloriei disso. Como observou esse meu mestre a respeito de meu ensaio O regional e o universal na literatura gaúcha, “a Literatura, para ele, não é festividade, gala, vaidade, mas responsabilidade que se carrega com amor – de cabeça baixa”.

Essa foi uma lição que aprendi com meu senhor, o cavalo…

O torneio de laço de vaca parada

Em plena realização dos Festejos Farroupilhas, como vêm sendo chamados os eventos que precedem a data maior dos gaúchos, em várias localidades está programada a realização de torneios de laço de vaca parada. E não só no Rio Grande do Sul. Fora de suas fronteiras, onde haja um Centro de Tradições Gaúchas, esse desafio de laçadores também se realiza.

Em Caxias do Sul está previsto que os Festejos Farroupilhas se encerram, no dia 20 de setembro, com nada menos que um Campeonato Regional de Vaca Parada. Ele deve ser realizado a partir das nove horas da manhã, nos pavilhões da Festa da Uva.

Muitas perguntas com certeza estão no ar sobre esse tipo de torneio: Onde teve origem? Quando começou? E por que é tão cultivado e valorizado?

Na virada do século passado, quando houve uma sequência de construção de hidrelétricas nos rios Pelotas e Uruguai, e também no Rio das Antas, a equipe do projeto ECIRS, da UCS, realizou uma série de atividades de resgate da cultura das regiões atingidas pelas barragens, com o patrocínio do Ministério da Cultura. Uma delas foi a área da barragem de Machadinho, antigo distrito de Lagoa Vermelha, que faz divisa com Esmeralda, município desmembrado de Vacaria. Todos esses trabalhos foram publicados em livros pela EDUCS.

Em Esmeralda, onde a cultura local guarda marcas profundas do Caminho das Tropas, foi relatada a história do surgimento dos torneios de laço. Ser competente em laçar gado era o principal atributo de um bom tropeiro. E quem forneceu maiores detalhes dessa invenção foi um ex-tropeiro, antigo morador de Esmeralda. Contou que quem teve a ideia foi um fazendeiro do lugar, chamado Alfredo José dos Santos. Ele propôs que, em vez de fundar um time de futebol, como alguns queriam, se fizesse uma diversão com o que todos sabiam fazer: andar a cavalo, laçar. Este é um trecho de seu relato:

“Em 1951 fizemos aquela invenção. Foi a maior, se extraviou pelo mundo inteiro. O nosso aqui foi o pioneiro do laço, o primeiro no mundo. Aí a gente continuou gostando da coisa. É como beber cachaça, toma um gole quer outro”.

Para treinar os competidores, tornando mais interessante a disputa, seu Alfredo José dos Santos propôs a criação de um espaço, onde um cavalete com chifres fosse o alvo dos laçadores. De lugar de treino, o espaço se tornou um lugar de competição, sendo criado até um regulamento, com regras a serem observadas. A esse tipo de esporte foi dado então o nome de Torneio de laço de vaca parada.

Com o passar do tempo, principalmente a partir dos anos setenta, começou a grande migração, chamada de êxodo rural, do campo para as cidades. E o torneio de laço seguiu como patrimônio dos migrantes. Como não era possível levar junto as vacas para serem laçadas, foi introduzido o torneio de laço com vaca parada. No bairro Sagrada Família, local de grande migração vinda dos Campos de Cima da Serra, onde residi por bastante tempo, havia um espaço para laçar vaca parada, bem na esquina da Rua Conselheiro Dantas com a Rua Irma Zago.

Esse fenômeno aconteceu não apenas em Caxias do Sul. É só percorrer as redes de notícias para verificar que ele está presente no Rio Grande do Sul inteiro, em Santa Catarina e Brasil afora. Talvez até, como disse o ex-tropeiro de Esmeralda, esse torneio esteja “extraviado pelo mundo inteiro”…

Do vinho novo ao vinho velho

No ano de 1978 foi publicado, em coedição do Instituto Estadual do Livro e a Editora da Universidade de Caxias do Sul, um livro de poemas de Olmiro Azevedo (1895 – 1974), intitulado Vinho Velho. Ele havia falecido quatro anos antes e deixado a coletânea de poemas organizada, com esta apresentação cheia de humor:

EU ME EXPLICO

Dos meus dois primeiros livros – VEIO D’ÁGUA e VINHO NOVO – esgotados hoje, ou sumidos, fiz esta seleção de VINHO VELHO, à qual acrescento, por fim, outros poemas de dias idos e vividos. Não sou de Caxias do Sul, como pensaram Agripino Grieco e Tristão de Ataíde. Filho de Montenegro, criei-me em Cruz Alta, na vivência dos campos de meu pai. Vim para a serra quando a mocidade me sorria. Penetrei-me do ambiente, dos homens e das coisas do planalto. Tudo observei, e, mais ainda, senti comovidamente.

[…] Foi por isso, talvez, que falei baixinho tantas vezes, comigo mesmo, e com ternura, a riscar traços no chão, esquecido, à sombra dos vinhedos.

Como dá para ver, essa apresentação já é um poema. Sua poesia mereceu o aplauso de Agripino Grieco e de Tristão de Ataíde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima), que eram os críticos mais famosos e respeitados do movimento modernista, dando-lhe projeção nacional.

Fui honrado com o convite para escrever um prefácio para esse VINHO VELHO, onde afirmei:

“A cidade em que ele fez seu ‘pouso’ não deve esquecer este seu poeta. Ela lhe deve um punhado de imagens de que só a memória de que é dotada a poesia poderia preservar. E uma cidade só é verdadeiramente humana quando seus habitantes possuem uma memória comum. Olmiro de Azevedo contribuiu substancialmente para a criação dessa memória. Os outros, os que não são da cidade, encontrarão nos seus poemas um testemunho sobre a importância de se identificar com os homens e as coisas com que se convive”.

Como amostra, vai o trecho inicial do Poema da Terra Loura e Verde, que faz a abertura do livro:

Eu canto a terra loura e verde

em que fiz meu pouso,

entre os simples que amam o vinho e a charrua.

Eu canto a terra loura pelos trigais maduros

e o milharal que esplende nas espigas cheias,

à hora da fartura.

Basta isso para ver que os críticos literários da capital do país tinham razão em ficarem deslumbrados com nosso poeta serrano!

O poeta serrano Olmiro Azevedo (Foto: Divulgação)

O controle de pombas em Bordeaux

Em minhas viagens pela Europa, estive também na cidade de Bordeaux, na costa sudoeste da França, no ano de 2010. Quando comentei com um professor da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, em Portugal, que eu tinha ido a Bordeaux, ele foi fulminante em me corrigir, com o sotaque lusitano:

– Bordéus! – disse ele, com o s final pronunciado como x, à moda carioca.

Mas foi gentil ao me informar que as cidades de Porto e de Bordéus sempre tiveram relação muito próxima, não só pela vizinhança, mas porque ambas possuem portos marítimos de grande vida comercial, desde tempos antigos. Principalmente de comércio clandestino, inclusive o tráfico de escravos, completou, com um sorriso sardônico.

Em Bordeaux, ou Bordéus, circulei pelo Parc Saint-Michel, um parque muito bem cuidado, com uma alameda que me chamou a atenção. Ela tem o nome de Promenade Martin Luther King, em homenagem ao pastor e ativista político que foi Prêmio Nobel da Paz em 1964 e depois assassinado em 1968, em Memphis, nos Estados Unidos. Esse nome na alameda destoava da antiguidade de Bordeaux, mas mostrava também uma abertura de espírito para os problemas de hoje, mesmo que em outras partes do mundo.

Outro elemento do cenário que me prendeu a atenção foram as pombas passeando pelos canteiros e fazendo rápidos voos entre as árvores. Lembrei-me logo da nossa Praça Dante Alighieri, onde a mesma cena faz parte do ambiente.

E também os mesmos problemas: seguindo parque adentro, avistei um outdoor grande e colorido, com uma mensagem dirigida aos transeuntes. É óbvio que estava escrita em francês, e eu não a fotografei com o celular, como talvez devesse ter feito.

O texto informava que a prefeitura de Bordeaux havia implantado um sistema de controle da proliferação de pombas por meio de anticoncepcionais. Acrescentava que o objetivo dessa medida era a preservação da saúde dos habitantes da cidade. E concluía com uma frase taxativa: Ça n’est pas tuer, c’est contrôler: “isto não é matar, é controlar”. Se não me engano, a mensagem continha também o nome do anticoncepcional utilizado, mas não anotei.

Pouco tempo depois, fiquei sabendo que a cidade de Barcelona, na Espanha, também escolhera esse tipo de controle, já que havia nela mais de cinquenta mil pombas, e a eliminação pura e simples não tinha amparo legal nem eficácia previsível. Cálculos divulgados davam conta de que haveria uma redução anual da ordem de 20% na proliferação.

Há uma expressão, da qual desconheço a origem, de que as pombas são “ratos com asas”. Isso para frisar que, como os ratos, as pombas seriam também transmissoras de doenças para os humanos. Mesmo que essa possibilidade seja verdadeira, é uma expressão de cunho ofensivo contra essas aves que sempre foram vistas como símbolo da paz. E de inspiração poética, como no famoso soneto de Raimundo Correia, que aprendi de cor na escola primária, ao ler a Seleta em Prosa e Verso de Alfredo Clemente Pinto:

Vai-se a primeira pomba despertada…

Vai-se outra… Inda mais outra… Enfim dezenas

De pombas vão-se do pombal, apenas

Raia sanguínea e fresca a madrugada.

Agora que vejo pelo noticiário que a administração municipal, mais uma vez, está preocupada com o problema da proliferação das pombas na cidade de Caxias do Sul, talvez esteja aí um rumo a ser pesquisado. Não sou especialista nessa área, e não sei se existem leis no Brasil a respeito da droga ministrada em Bordeaux e em Barcelona. Sou apenas um observador atento do que acontece em minha aldeia e no mundo…

Italianos no Espírito Santo

Em sua obra magistral, O Ocaso da Colombina – A Breve e Poética Vida de Vivita Cartier, Marcos Fernando Kirst conta que o pai de Vivita, Paulo de Campos Cartier, não presenciou o nascimento da filha, em abril de 1893, porque estava no Espírito Santo. Com que objetivo?

É que o Espírito Santo recebeu uma grande imigração italiana (dados apontam um número de 35.000 imigrantes), nos mesmos anos em que ocorreu a da Serra Gaúcha. Mas lá ocorreu um problema que não houve aqui: a falta de agrimensores competentes para fazer a demarcação das colônias. Por esse motivo, Paulo de Campos Cartier, agrimensor vinculado à Delegacia de Terras do Rio Grande do Sul, foi convocado pelas autoridades federais para resolver o problema.

A colonização do estado capixaba, no tempo do Império, foi em tudo semelhante à colonização do Rio Grande do Sul. Começou com a imigração alemã, que foi tema de Canaã, o primeiro romance brasileiro com imigrantes como personagens, escrito por Graça Aranha e publicado em 1902. Logo a seguir aconteceu a chegada dos italianos e poloneses.

A procedência dos imigrantes italianos do Espírito Santo também foi semelhante à nossa: sua quase totalidade vinha do Vêneto, da Lombardia e do Tirol. E lá também criaram raízes as mesmas tradições, entre elas o Talian como língua e a culinária. Até hoje é feita uma Festa da Polenta no município de Venda Nova do Imigrante, de forte tradição vêneta.

Por ocasião da indicação do filme O Quatrilho ao Oscar, fui convidado para um evento sobre a cultura da imigração italiana na Universidade Federal do Espírito Santo. Há nela um núcleo de pesquisa sobre esse tema, atuante até hoje, incluindo estudos sobre o fenômeno do Talian.

Tive então oportunidade de visitar a cidade de Santa Teresa, uma cidade muito parecida com a de Antônio Prado, inclusive no tamanho. Uma associação local, voltada para a preservação da cultura da imigração italiana, ofereceu um jantar a que compareci. Começou com uma sopa de canéderli, típica dos tiroleses, seguida de codeghin e de galinha ao molho com polenta.

Conversando, perguntei se lá praticavam o jogo do quatrilho, e um deles me respondeu:

– Aqui a maioria é tirolesa. A gente aqui joga o cinquilho.

– E como é esse jogo? – quis eu saber.

– Tem cinco jogadores, mas um sempre fica de fora, aquele que faz menos pontos. Aí, na outra mão de cartas, jogam os outros quatro, como no quatrilho!

Outra situação memorável aconteceu quando uma senhora, já no final do jantar, falou:

– Posso lhe dizer uma coisa? Tem uma cena no filme do Quatrilho de que eu não gostei.

– Qual cena? Pode me dizer…

– Aquela em que o Gardone bota fogo na cômoda e a Pierina fica só olhando. Se fosse eu a Pierina, ia remexer a cinza para ver se não aproveitava alguma dobradiça, algum puxador de gaveta.

A risada foi geral. E eu comentei:

– É. A senhora é mais Pierina do que a Pierina!

No meu modo de ver, deveriam ser mais estreitados os laços entre a Serra Gaúcha e a região de imigração italiana do Espírito Santo. São duas culturas irmãs.

A era dos cineclubes

Neste ano de 2022, quando o Festival de Cinema de Gramado chegou à sua edição de número 50, parece interessante buscar sua história e ver como tudo começou.

Na realidade, as mostras de cinema na cidade começaram bem antes de 1972, data oficial do primeiro evento. Já na Festa das Hortênsias, iniciada catorze anos antes, em 1958, havia um espaço para exibição de pequenos filmes feitos aqui no Estado por amadores, quase todos em Porto Alegre, onde foi fundada a Casa do Cinema, com Giba Assis Brasil à frente.

E vou acrescentar outro detalhe: a raiz das mostras que abriram caminho para o Festival de Gramado foi a era dos cineclubes, em especial o Clube de Cinema de Porto Alegre, segundo alguns o primeiro cineclube do Brasil. Foram os cineclubes que estimularam muitos cinéfilos a fazerem a passagem do debate sobre os filmes para a produção do próprio filme, mesmo que fosse pequeno. E algumas circunstâncias fizeram com que Gramado, na Festa das Hortênsias, fosse o local de sua exibição.

Também vivi a era dos cineclubes, nos anos sessenta, e fui seu frequentador, inclusive do Clube de Cinema de Porto Alegre, que se reunia quase sempre no Cine Baltimore, no bairro do Bom Fim. Quase todos os participantes eram estudantes universitários, de várias faculdades, e os debates eram divididos em duas partes:

enlightenedna primeira, buscava-se identificar os elementos de linguagem cinematográfica utilizados: enquadramento, movimentos de câmera, ritmo, atuação de atrizes e atores, etc, etc, tanto em suas qualidades como em seus defeitos;

enlightenedna segunda, a discussão entrava para o campo dos significados, na assim chamada semântica do filme: que problemas ele propunha ao espectador, que rumo dava às ideias e assim por diante. Nesse item, os filmes que mais rendiam debate eram os da “nouvelle vague” francesa, que ganharam o apelido de “filmes cabeça”.

No cinema brasileiro, vivia-se a época do Ciclo do Cangaço, que teve início com o filme O Cangaceiro, realizado por Lima Barreto em 1953. Chegou a ser criado então o termo “Nordestern”, numa referência ao “Western” norte-americano.

Não enveredei para o cinema, como vários de meus colegas, mas aproveitei algumas das técnicas aprendidas para fazer minhas narrativas literárias. Por exemplo:

yes não pôr em cena número muito grande de personagens, de preferência pondo o foco em dois deles por vez;

yes não fazer sequências muito longas: no caso da narrativa literária, aplicar essa regra aos capítulos;

yes ao final de cada capítulo, criar um “gancho”, para manter aceso o interesse do leitor em passar para o capítulo seguinte;

yes fazer diálogos concisos, sem adjetivos pomposos, mas também sem vulgaridade;

yes criar um clima de expectativa à espera do desfecho final.

Quando uma de minhas novelas policiais foi adaptada para a televisão e o romance O Quatrilho levado para o cinema, o produtor de casos especiais da TV Globo, Daniel Filho, me disse que as minhas histórias já eram quase um roteiro para ser filmado, bastava uma “enxugada”. E disse também que, se eu fosse um dia a Los Angeles em busca de emprego, seria contratado logo como “dialoguista”.

A literatura influenciou o cinema, com toda a certeza, mas teve também excelente retribuição, ao ganhar novas técnicas. No Brasil, quem as introduziu foi Erico Verissimo, grande mestre das narrativas visuais. Tanto que um crítico literário o chamou de “Contador de histórias”…

O guarda-pó da Eberle

A UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – tem sua sede em Paris, num edifício que é por si só um patrimônio cultural, e que tive a emoção de visitar.

Na área da Cultura, a UNESCO tem definido, além do patrimônio material, também o Patrimônio Cultural Imaterial, que compreende usos, línguas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades e, em alguns casos, os indivíduos, reconheçam como parte integrante de seu patrimônio cultural.

Um capítulo à parte foi o da criação de um programa especial para preservação do Patrimônio Cultural Imaterial da Indústria. Ele se insere no tema da “Memória do Trabalho”, que tinha sido até então valorizada quase que somente no campo do artesanato individual. Os saberes da indústria, que soma saberes coletivos, não são menos ricos. E, com o apregoado fim da era industrial, correm grande risco de desaparecimento. Uma parte desses saberes pode ser recuperada em manuais de operação, muitas vezes preservados com o fechamento de uma fábrica, e outra parte pelo registro de testemunhos dos que viveram a história de uma indústria, no “chão de fábrica” ou nas atividades gerenciais.

Hoje, em todos os países que viveram um passado industrial – como França, Espanha, Inglaterra, Itália, para citar alguns –, há um esforço no sentido de se preservar a sua memória. Existe, inclusive, uma organização internacional, a INCUNA (Industria, Cultura y Naturaleza – http://incuna.es), com sede na Espanha, da qual participam estudiosos e entidades também do Brasil. Nas “Jornadas Internacionales de INCUNA”, realizadas em Gijón, em 2011, com o tema central de “Patrimônio Imaterial e Intangível: artefatos, objetos, saberes e memória da indústria”, foram definidos, entre outros, os seguintes itens a serem observados e preservados:

enlightenedo intangível da cultura material: ofícios, artefatos, saberes, arquiteturas e história técnica, obra pública e engenharia;

enlightenedculturas e memórias do trabalho;

enlightenedo canto, a música, as tradições operárias, os festejos populares e religiosos;

enlighteneda fotografia e imagens da indústria; sua leitura no mundo do trabalho;

enlightenedhistória oral: metodologia e casos de empresas e territórios;

enlightenedos sindicatos e o associacionismo: sua implicação social como patrimônio coletivo;

enlightenedas arquiteturas desaparecidas e as atuais, como parte do patrimônio imaterial da indústria e respectivas obras públicas.

No último curso de pós-graduação em que atuei, com o processo de preservação da MAESA já em andamento, um grupo de alunos levou adiante um projeto de entrevistar pessoas que tivessem trabalhado na Eberle, como operários ou como gestores.

Um dos entrevistados contou que numa visita de Júlio Eberle ao setor de forja, ele questionou o operador sobre o que e o como ele estava fazendo. E o operador teria respondido: “Eu sei o que faço”. O episódio foi relatado como exemplo da segurança que o pessoal de “chão de fábrica” tinha em seu trabalho.

Outro contou que uma vez a Eberle recebeu um pedido urgente, e para isso era preciso ter as peças prontas na fábrica na segunda-feira. Ele então trabalhou todo o fim de semana para garantir a entrega. E chamou isso de “prontidão no trabalho”.

Por fim, numa das entrevistas, um antigo funcionário relatou uma frase que, segundo ele, era comum dentro da empresa: “Quem tira o guarda-pó da Eberle, tira a pele junto”. A metáfora dá uma pista sobre o grau de envolvimento de todos no trabalho, cuja norma era fazer tudo com “defeito zero”, como apareceu também no levantamento da cultura imaterial dessa indústria.

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