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Um novo capítulo

Durante muito tempo, este blog foi muito mais do que um local de publicações. Foi um espaço em que nosso pai compartilhou seus conhecimentos, suas reflexões e um pouco da maneira como enxergava o mundo.

Há cerca de um ano e meio, as publicações foram interrompidas. O motivo foi sua partida, uma perda que deixou um silêncio difícil de preencher. Durante esse tempo, a família precisou viver o luto e reorganizar muitas coisas, e o blog permaneceu exatamente como ele o deixou.

Hoje, porém, sinto que chegou o momento de abrir um novo capítulo.

Assumir este espaço não significa substituir quem o criou — isso seria impossível. Cada pessoa tem sua voz, sua forma de escrever e sua maneira de compartilhar ideias. O que pretendemos é dar continuidade ao espírito deste blog: manter vivo o desejo de dialogar, refletir, aprender e dividir conhecimento.

Alguns temas continuarão próximos daqueles que nosso pai tanto apreciava. Outros refletirão nossas próprias experiências, nossos estudos e nossa forma de compreender o mundo. Esperamos que essa combinação preserve a essência deste espaço, ao mesmo tempo em que permita que ele continue crescendo.

Aos leitores que acompanharam nosso pai ao longo dos anos, deixamos nossa sincera gratidão. Obrigada por terem caminhado ao lado dele. Esperamos também poder contar com sua companhia nesta nova fase.

Sejam muito bem-vindos.

Que este blog continue sendo um lugar de encontro, de ideias e de boas conversas.

Maria Helena Menegotto Pozenato

Entrevistas de emprego

                Um dos males da humanidade no século XXI é enfrentar entrevistas de emprego. Sim, entrevistas, no plural mesmo. Porque já se foi o tempo em que um funcionário começava a sua carreira profissional em uma empresa e almejava se aposentar como o funcionário mais antigo do lugar.

                Característica marcante da classe trabalhadora jovem de hoje é a rotatividade. Ficar muito tempo em um só emprego caracteriza falta de capacidade. “Estou quase completando 8 anos de empresa”, dizem os jovens. Isso significa: “hora de encontrar outra coisa para fazer”. Resultado do imediatismo dos tempos, eu acho.

                E é nesse ponto que precisamos contar com a matemática. Se considerarmos que a vida produtiva de uma pessoa começa por volta dos 18 anos atualmente, e que mulheres podem se aposentar somente aos 60 anos, e os homens aos 65 (pelo menos até as regras de aposentadoria não mudarem novamente), o setor masculino trocará de emprego, provavelmente, entre 5 e 6 vezes na sua carreira profissional. O setor feminino fica mais perto das 5 vezes do que das 6, mas troca também. Já aí a situação determina que serão entrevistas, no plural, porque, também por conta dos tempos modernos, não se contrata ninguém sem entrevista. Antigamente, bastava se conhecer a família.

                Serão, então, pelo menos 5 entrevistas de emprego para cada trabalhador. Digo “pelo menos”, pois não se consegue, em situação comum, uma posição no mercado de trabalho na primeira entrevista agendada. Salvo raríssimas exceções. Há quem faça, até mesmo, dezenas de entrevistas até conseguir se posicionar como estagiário. São os experts em comportamento diante de representantes do setor de recursos humanos de empresas e de agências de emprego.

                Se o jovem começar mais cedo, observando as possibilidades de jovem aprendiz no mercado de trabalho, os números aumentam significativamente. E uma pesquisa deveria ser feita: diante de tantas entrevistas de emprego na vida de alguém, quantas dão alguma resposta para a angústia de ter conseguido ou não uma vaga? Com certeza, as que posicionam o sujeito no mercado são atreladas à resposta ao candidato; no entanto, as que não posicionam o entrevistado ficam, quase sempre, devendo uma resposta. Em resumo: se eu fizer 6 entrevistas de emprego (uma situação idílica!) para conseguir me encaixar em uma vaga de trabalho, cinco delas, provavelmente, trarão a angústia e a ansiedade por uma colocação sem qualquer resposta. Nem mesmo um “você precisa tentar de novo”.

                É esse número expressivo que me chama a atenção para ser um dos males modernos: a ansiedade provoca adoecimento mental, que pode levar a casos extremos de depressão, pois costuma ativar mecanismos emocionais ligados à expectativa, à autocrítica e ao medo de rejeição. Além disso, o contexto econômico atual faz com que entrevistas de emprego frequentemente sejam associadas não apenas à carreira, mas à sobrevivência financeira, estabilidade familiar e identidade pessoal. Isso amplia o peso emocional da espera por algo que talvez nunca aconteça.

                E o silêncio das empresas nem sempre reflete incompetência do candidato. Muitas vezes envolve processos internos lentos, mudanças de orçamento, prioridades da empresa ou falhas de comunicação do recrutamento. Ainda assim, o cérebro humano tende a preencher a ausência de informação com interpretações negativas.

                O grande malefício é que a espera sem resposta pode parecer algo “pequeno” externamente, mas emocionalmente ela pode funcionar como uma situação contínua de tensão e avaliação pessoal, especialmente quando a pessoa já está vulnerável ou sob pressão. Já que permanecer períodos mais longos no mesmo local de trabalho não me parece ser uma alternativa para a sociedade contemporânea, creio que seria o momento de repensar as possibilidades de feedback.

Maria Helena Menegotto Pozenato

Muito amor

                Todos falam que os avós são pais com açúcar. E não é para menos. Mas a comparação precisa ser validada por dois pontos de vista: o dos avós e dos netos, é claro. Ou não seria tão claro? Será que valeria analisar um terceiro ponto, o dos pais, que ficam no meio do sanduíche? Já vamos ver se precisaremos responder a essa pergunta.

                Primeiro, então, tomemos o ponto de vista dos avós. Em geral, estão aposentados ou trabalhando menos, graças a uma vida inteira de dedicação à profissão e aos filhos. De repente, um dos rebentos anuncia: vamos ter um bebê! E a mágica se faz. Brota a saudade dos seus pequenos, correndo pela casa, na algazarra, do cheirinho de criança, de ver a troca de roupas do armário porque o pitoco cresceu, e elas não servem mais nas pernas e nos braços.

                E nesse ponto temos um agravante: junto com a saudade de ter um bebê, quase sempre, para um adulto, vem aquele sentimento de “só tenho saudade dos tempos bons, mas, ainda bem, já cresceram para dizer o que sentem”; mas, para os avós, o receio não existe. O bebê será deles, sim. Mas, se o cansaço bater, podem entregar a criança aos pais, sem o compromisso de obrigação. Fica um compromisso voluntariado. Se quero e posso, ajudo; se quero, mas não posso, tem quem resolva; se a paciência se foi, e posso, mas não quero, também tem quem resolva. Que alívio!

                Mais ainda: o filho não é deles; por que ter que educar, então? Fazem todas as vontades, sim, senhor. Compram doces, brinquedos, enchem de figurinhas para o álbum, levam para o parque, dão pitaco para os pais deixarem a criança viver. Sim, daí vem o açúcar dos avós: permitem que a criança aproveite a infância.

                Só que temos também o ponto de vista dos netos. Desde cedo descobrem que o vovô e a vovó têm amor de sobra para entregar. Não sabem o porquê, mas o feijão da vovó é o melhor do mundo! Melhor que o da mamãe. E o churrasco do vovô vem repleto de aventura: os pitocos têm que salgar a carne, mas não alcançam na bancada da cozinha. O vovô dá a solução: traz uma escadinha, ou um banquinho, que alcança aqui. Os pais arrepiam: e se a criança cair dali? O vovô tranquiliza: tudo certo, cair faz parte da vida; tem que aprender a levantar. E a criança ainda diz só com o olhar: viu? O vovô confia em mim.

                Para completar a mágica para os netos, os avós ainda dedicam horas só para dar carinho. Abraçam, dão colo, deixam a criança dormir na perna deles no sofá. Conversam sobre o passado, contam coisas que os pequenos nunca viram, despertam a curiosidade, trazem estímulos carregados de paz e amor, tão necessários para os pequenos. Mais açúcar dos avós.

                Mas, enquanto escrevo essas linhas que comentam o lado dos avós e o lado dos netos, estou pensando que os pais precisam aparecer aqui, sim, o que responde à pergunta inicial. Sabem por quê? Porque sou uma mãe avaliando a situação, não uma vó nem uma neta. Falar de fora é fácil. Então, vou me incluir.

                Quando vem chegando um bebê, os pais entram em pânico: será que vem bem? Será que vou conseguir cuidar? Como se faz para atender um serzinho tão pequeno? Ele não quebra no colo da gente? Como faço para colocar roupas tão pequenas sem machucar a pessoinha que vai ficar dentro delas? E é aí que vem mais açúcar dos avós: é a sabedoria deles que tranquiliza os pais. Calma, dizem eles. Vai dar tudo certo. Como para qualquer coisa na vida, você só precisa se acostumar ao primeiro dia, à primeira semana, ao primeiro mês, ao primeiro ano. O que é primeiro assusta. Mas só porque é desconhecido.

                E aprendemos com isso: todos somos capazes. Principalmente se permitirmos que o amor ocupe o espaço da dúvida e do medo. São os avós que ensinam aos pais que podemos aprender também com os pequenos; os adultos não são, como pensamos desde cedo, os donos da verdade. É: os avós são pais com açúcar. Um açúcar que brota da sabedoria, do conselho, do aconchego, do carinho. Principalmente: de saber regar tudo isso com amor. Muito amor.

Maria Helena Menegotto Pozenato

Quando a memória falha

                Creio que uma das coisas que causa muito constrangimento e que veio a se intensificar com a menopausa foi a falha de memória. Um ponto positivo é que agora essa falha tem nome: névoa mental. E nome bonito, ainda por cima. Só não é bonita a vergonha que ela nos faz passar.

                Eu, professora há mais de trinta anos, com o conteúdo afiado na memória, recebi uma pergunta muito simples em sala de aula. Simples para mim, que já tenho experiência. Sei que nem tão simples para o aluno. Mas, na hora de responder… um branco. Daqueles que a gente enfrenta quando é adolescente e passa um nervoso danado para responder a uma prova na escola ou no vestibular. Com a diferença de que não há nervoso.

                Pelo menos, não há nervoso até o branco aparecer. Aí vem o constrangimento. Na sequência, um sentimento de angústia por não lembrar de algo tão corriqueiro para o professor. Quando adolescente, o nervosismo provocava a falha de memória; agora, a falha de memória provoca o nervosismo.

                E então acabam acontecendo outras situações, igualmente constrangedoras. Sempre temos a chance de encontrar, considerando o número de alunos que atendemos durante mais de trinta anos, um ex-aluno no comércio da cidade. Trabalhando ou fazendo compras. E eles ficam muito felizes de encontrar a professora. Tanto, que logo escutamos: profe! Mas o problema vem logo na sequência: você lembra de mim? Fui seu aluno.

                Não lembrar gera frustração, para mim, mas mais intensamente para meu ex-aluno. Então entramos em um jogo de adivinhação, porque a pessoa (que uma vez foi pequena e hoje é adulta, com novas feições) fez o favor de não dizer nem o nome nem onde foi que tivemos o prazer de colocar em inter-relação os processos de ensino e de aprendizagem. Devo assumir que, em outros tempos, recuperar essa memória era bem mais fácil. A névoa mental tem prejudicado isso também. E contribuído bastante para mais constrangimento.

                O que não dá para deixar de falar é sobre os aproveitadores de plantão. Em casa, todos já estão avisados que a memória anda falhando mais que o normal do estresse de professora. Aí, vejam o que acontece. Segundo meu filho, esqueci-me até mesmo de que tinha prometido dar um PS5 de presente para ele. Ou mesmo, em outro momento, que tinha me esquecido de comprar um tapete aquecido para a Brownie, a gatinha. Quando argumento que não prometi nada disso, vem a típica frase: você só não está lembrando, mas prometeu, sim. Palavra de um contra a palavra do outro. E risadas aos montes, porque a situação era para debochar da minha condição quase acéfala mesmo.

                Em outros momentos, acabamos trabalhando dobrado. Adoro ler, é um dos meus hobbies. E, em geral, tenho bastante atenção na tarefa. Mas tem acontecido de ler duas ou três páginas e, na quarta página, uma informação não fecha com que tenho retido na memória. Como assim? O autor se atrapalhou com os fatos? Volto páginas para a releitura e lá encontro a informação certa: tudo nos conformes! Eu que não tinha a memória em pleno funcionamento.

                Nas tarefas rotineiras em casa, essa falha de memória também traz dificuldades: entro em um cômodo e penso, sem conseguir lembrar, sobre o que eu ia fazer ali. Sou salva, muitas vezes, pelas secretárias de médicos que enviam lembretes para as consultas agendadas. Não fossem as mensagens de véspera, perderia as consultas, com certeza. E atrapalharia a vida de outro profissional. Mas também podemos rir com isso: perdi meus óculos dentro de casa. A recomendação geral é repassar os cômodos da casa por onde eu possa ter feito uma paradinha e conferir onde deixei o par. Sigo espaço por espaço e encontro a manteiga ao lado do computador no escritório. O que a manteiga está fazendo aqui? Bufo um pouco e decido ir reta para a geladeira. Sim. O par de óculos estava no lugar da manteiga.

                A boa notícia? A bonitona da névoa mental atrapalha o funcionamento da memória, e o que eu já coloquei de situações até aqui são somente exemplos da bagunça que fica o dia a dia. Mas não estraga o raciocínio lógico. Estamos a salvo.

Maria Helena Menegotto Pozenato

Café

                O café está para o brasileiro assim como o chá está para os ingleses. Não pode faltar. Muda, nessa relação, o horário: os ingleses ainda mantêm a tradição do chá das 5; para o brasileiro, não tem horário certo para o café.

                Mas isso também reflete a personalidade dessas duas comunidades: o inglês é sempre pontual, rígido; o brasileiro não presta atenção ao horário agendado, é “easy-going”, como diria o contraponto da comparação. Atraso de 10 minutos por aqui nem pode ser considerado atraso oficial, nem precisa de pedido de desculpas. Na terra da realeza do chá, 30 segundos já servem para desequilibrar toda a organização de evento ou da agenda, e as desculpas são necessárias.

                No Brasil, tanto não se fica sem o café que ele adquiriu uma porção de formas tradicionais. Há quem prefira o café coado, mas também existem os que não abrem mão de um excelente expresso. Requentar o café pode ser muito comum para alguns, enquanto outros pensam nesse ato como um crime contra o café, que precisa ser sempre fresquinho. Puro ou com leite.

                Experiências anglo-localizadas acreditam que o café precisa ser descafeinado para não trazer problemas de saúde. Como o sabor do café não se mantém, eles se dirigem ao chá preto, que também pode ser servido puro ou com leite. E acabam recorrendo ao chá preto descafeinado, também. Ou a outras opções já sem cafeína, como o chá de hortelã, o de camomila e o de gengibre.

                Os brazucas já descartam o chá para prazer. É remédio, só. Para a gripe e para a dor de barriga. E adotam o café em muitas situações. Daí que utilizam esse ingrediente principal para outras tantas bebidas. Cappuccino, mocha, cremoso, affogato e até café gelado para os dias de muito calor. Na garrafa térmica, é a bebida que mais faz sucesso nas reuniões, nos escritórios em período de trabalho, nas escolas. Em casa, pode ser na térmica, mas no bule é melhor.

                Aqueles que valorizam o chá do outro lado do Atlântico já não são tão criativos, apesar de ferrenhos para o chá. Variam de chá com leite para chá com limão. Chá quente, que é a preferência, já que o clima lá não ajuda, ou chá gelado. Mas a escolha que mais se manifesta é entre chá com leite e açúcar ou açúcar com chá e leite. Os cubos branquinhos para adoçar caem em grande número nas xícaras. Não que o brasileiro não coloque açúcar no café. Também se encontra quem prefira açúcar com café ao café com açúcar.

                Mas nesse ponto reside outra característica importante dos dois povos: a criatividade do cidadão das terras tupiniquins é reconhecida mundialmente, para muitos contextos; por outro lado, o cidadão anglo-europeu é identificado como a força da tradição. A criatividade traz muitas opções. A tradição mantém forte as escolhas que já foram feitas.

                Só não dá para esquecer de falar do café de máquina. Angelo Miorondo, um italiano, criou uma máquina para o preparo do café. Nem foi um brasileiro. E foi outro não brasileiro, Éric Favre, que criou o café de cápsulas. Inclusive com a versão de chá de cápsulas (com poucas variações) para o preparo na máquina de café. (E também não foi um brasileiro que criou o futebol, apesar de a arte estar no nosso sangue, não?) Mas a chance de escolher café preparado de várias maneiras parece que está por aqui, mesmo, já que adotamos até as máquinas para o preparo dessa maravilha. Já é hora do café?

Maria Helena Menegotto Pozenato

Emoção à flor da pele

Um assunto que pode cair no cliché com muita facilidade é emoção. Mas não creio que qualquer escritor se importe com isso. Eu não me importo. E é o que trago aqui: a emoção que fica à flor da pele ao se experimentar algo novo.

Sim. Novas experiências. E um exemplo é o que eu vivi este ano. Gosto de futebol, em especial se relacionado ao meu time do coração. Não que eu entenda muito sobre futebol, mas vivo o futebol que está próximo de mim. Ver, pela televisão, o seu time jogando o melhor que os jogadores conseguem no campeonato, e vencendo, não tem preço. A satisfação é garantida.

De outra feita, mas também pela telinha, ver o seu time amado jogando tudo o que pode, com garra, mas perdendo, não há o que esconda a desolação. Aí, eu, torcedor, assim como tantos outros, precisamos desabafar: o jogador Fulano não jogou bem, ou o técnico Beltrano não soube conduzir as orientações e substituições para a partida, ou (bem mais comum) o árbitro jogou junto com o adversário.

Mas o que eu aprendi este ano é que a emoção que está à flor da pele ao assistir a um jogo à distância, mesmo que não se possa negar que seja realmente intensa, não se compara à emoção que vem de dentro e que aparece no pelo arrepiado dos braços, nos dentes trincados, no pescoço rígido daquele que tem a satisfação de estar no estádio durante o jogo. E, nessa questão, é preciso ponderar sobre um aspecto: por quê?

Bom, vamos à reflexão: na telinha de casa (ou da casa de um amigo), estamos sós ou com poucos amigos e familiares reunidos; no campo, a energia acumulada é de milhares de torcedores. Em casa, na hora da dúvida, a equipe de televisão se encarrega de colocar o replay do acontecido; no estádio, a fração de segundo acontece e não tem retorno; é preciso conversar com o torcedor vizinho: “você viu isso? Está certo mesmo?” E realmente acreditamos que jogadores, técnicos e árbitros conseguem nos ouvir: uma reclamação enfática no nosso lar vira uma estrondosa manifestação coletiva uníssona.

E como é bom saber que tantos têm a mesma opinião que nós! A adrenalina já sobe estando na expectativa do jogo no nosso lar, mas ela explode com o aglomerado unido com o objetivo comum de gritar: “vai, Cicrano! É a sua chance! Corre!”

Fora que, no ambiente nativo do futebol, na arena, podemos extravasar sentimentos que, em casa, às vezes, precisam ser reprimidos: ou porque o vizinho não aceita barulho, então não podemos pular, ou porque a bebê da outra vizinha está dormindo, então não podemos gritar, ou ainda porque a mãe ou a avó não aceitam que se diga palavrão, e então ele fica contido e sufocando na garganta. Em casa, temos uma experiência ideal; no estádio, temos a experiência vívida, flamante, repleta de defeitos, mas que lava a alma.

É preciso sempre experimentar novas situações. E ir ao estádio nunca será uma experiência já vivida: a cada vez que chegamos lá, a escalação do time é diferente, os torcedores reunidos não são os mesmos, o assento para assistir ao jogo será outro, a visão das jogadas será novidade. Diferente do jogo transmitido para nossas casas, que obedece à visão da câmera (em geral instalada e transmitindo do mesmo lugar do campo) e ainda conta com a interferência do comentarista.

Assim, fica o convite: vamos escolher viver novas experiências para poder sempre falar de emoção? Conto com vocês!

Maria Helena Menegotto Pozenato

Brownie

                Ela é um exemplo de pessoa. Sabe aquela companhia que sempre te recebe bem, com carinho, e quer te ver apreciando a vida, não importa o quê? Essa é a Brownie. Tem nome estrangeiro, mas é bem brasileira. Não reclama do tipo de comida, mas esse é um item que não pode faltar. Boa de garfo!

                E exigente com a limpeza. Capricha nos banhos diários e não aceita usar o banheiro sujo. É justo, não? Quem, em sã consciência, gosta de estar em um lugar sujo? Ainda mais quando o assunto é tão particular.

                Mas, afora a questão da limpeza, não exige muito. Diverte-se com pouco. Caro, mesmo, é o salão de beleza. Ah, como ela fica bonita depois de uma escova! Só não dá para pagar todas as vezes. Em muitos momentos, vale o tratamento caseiro de beleza: banho pessoal caprichado e o carinho da família para pentear.

                Brownie adora uma brincadeira. É especialista com bolas. Futebol tem se mostrado um esporte em que se diferencia. E adora assistir a uma partida na televisão. Às vezes, até se confunde e acha que consegue pegar a bola na tela. Isso! É que ela tem só cinco anos, por isso a confusão…

                Outra brincadeira que a diverte muito é o pega-pega. Mas ela não pode ser a vítima: é sempre a pegadora. Gênio difícil tem a Brownie! E, apesar disso, conviver com ela é muito prazeroso. Ninguém pensa em reclamar de seu comportamento.

                Além disso, tem o esconde-esconde. Quando o humor troca, Brownie se esconde em lugares que, não fosse a criatividade dela, ninguém chegaria a pensar. E ela ganha o jogo quase sempre! Difícil encontrar a madame, quando ela quer “desaparecer” para vencer a brincadeira.

                E, assim como todos, ela tem seu amigo inseparável e favorito: o BFF da Brownie é o José Guilherme. Brincam juntos horas a fio! Mesmo que José Guilherme seja mais velho, pois já vem chegando perto dos 15 anos, e nem tenha nome importado. Quando o adolescente para um pouco para descansar, lá vem ela, a mocinha, solicitando novas brincadeiras. E o rapazote lhe faz todas as vontades.

                Nem sempre a recíproca é verdadeira. Há momentos em que a vontade de brincar parte do José Guilherme, que chama a Brownie. Mas, se o humor não está bom ou se ela acha que já brincou demais, ignora o chamado e fica no seu canto. Parece testar a paciência e a resiliência daqueles que ela tem adorado ter por perto. “Daqueles”, sim, no plural. Porque, quando o José Guilherme está na escola, vale a amizade de quem estiver ao redor para lhe fazer as vontades de servir comida, servir água, brincar, garantir o banheiro limpo. Mas só se o moço BFF não estiver em casa; se ele estiver, só vale a ajuda desse coração gigante de manteiga.

                E pensar que a Brownie veio para alegrar um ambiente que vinha se envolvendo em tristeza. Quando chegou, José Guilherme e a vó haviam perdido duas figuras muito importantes: o querido avô e marido e a Lisi, a outra gatinha da casa que era mais um exemplo de pessoa. Sim. Brownie é a gatinha da casa da vó. Segundo o José Guilherme, Lisi se foi, porque o avô precisava de companhia. E, segundo a vó, Brownie chegou por recomendação da Lisi, que sabia que a casa vazia seria uma tristeza só.

Maria Helena Menegotto Pozenato

Cadeira vazia

Quando chegamos a algum lugar, seja restaurante, consultório médico ou odontológico, festa, ou mesmo ainda antes de chegar a esse local, no ônibus, por exemplo, procuramos por uma cadeira vazia onde sentar. Sentar e esperar, sentar e conversar, sentar e ser atendido, sentar e se divertir, sentar e se deslocar. Ontem parei para pensar: essas cadeiras estão realmente vazias? E fiz algumas reflexões.

                Faz pouco tempo (e acho que será sempre pouco tempo) que passei pela dolorida experiência de não ter mais o meu pai à frente de meus olhos. Ele está, e sempre estará, nos meus pensamentos e nos olhos da alma, mas não dá mais para olhar frente a frente e abraçar. Mesmo assim, a figura dele ainda ocupa espaço físico no nosso cotidiano.

                Ele era o responsável pelos melhores churrascos nas reuniões de família. Contava que até tinha conquistado o amor da sogra quando preparou um churrasco para ela. E me preparou para conhecer a melhor carne, a estratégia de acender o fogo, o jeito especial de espetar e salgar a carne, o controle do ponto de assado. Quando ele partiu, assumi o posto de assadora da família. Neste último aniversário, até fui reconhecida por todos como “igualzita ao pai”. Amei!

                Mas preciso dizer: cada churrasco preparado é antecedido de um cerimonial. Uma conversa com meu pai, pedindo os melhores conselhos. Também pedindo licença para estar no espaço que era só dele. Sei que tenho essa permissão, porque, caso contrário, ele não teria me ensinado tanto dessa arte. Mesmo assim, dói muito não termos essa conversa cerimoniosa de troca de cadeiras.

                Tenho pedido licença a ele até para escrever. Estou arriscando a escrita de crônicas, campo em que ele era magistral. E, assim como para o churrasco, aqui também peço conselhos e escuto ele me dizendo: segue em frente, está muito bom. Só fico na dúvida se esse é um elogio de pai coruja, se o texto está realmente à altura do que ele consideraria publicável.

                E mais o cantinho do sofá. O sofá grande, para três lugares, mas onde cabem quatro pessoas. O canto direito, pertinho do braço do sofá, era dele. Gostava de se apoiar ali com a almofada e ler ou descansar as pestanas por alguns minutos. Esse espaço ainda não é ocupado com facilidade na família. Não vejo despreocupação em sentarmo-nos ali. Nesse caso, não sou a única a pedir licença.

                Uma certeza que tenho é que cada um da família tem esses espaços do pai marcados para si. A ponta da mesa da cozinha, a biblioteca, o quarto, a chácara, o chimarrão com pipoca, o meio do mato, o evento social. Sentamos, portanto, em locais que acreditamos estarem vazios.

                O restaurante tem a cadeira preferida do cliente que não veio mais. Os consultórios têm o espaço do paciente que não veio mais, com a sua conversa mansa e os causos que observou. A festa tem o convite que não pode mais ser entregue para a pessoa mais que especial. O ônibus tem o assento que sempre era ocupado pelo senhorzinho do horário das nove.

                Outra certeza que eu tenho é que, apesar de o corpo físico não estar mais por aqui para ocupar esses lugares, são cadeiras que nunca estarão realmente vazias para aqueles que têm a figura de um amor que agora é etéreo.

Maria Helena Menegotto Pozenato

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