Agruras de um negociante

Continuando a leitura do caderno de memórias de Francisco Paglioli, depositado no Instituto Histórico do Rio Grande do Sul, mais fatos do passado ganham vida. Como neste episódio em que ele narra sua experiência como negociante.

Quando o engenheiro José Montaury de Aguiar Leitão – o nome é registrado assim, por inteiro – chegou a Caxias em 20 de abril de 1891 para ser chefe da colônia, a banda regida por Paglioli, que então tinha vinte e quatro anos, foi recebê-lo.

Terminada a cerimônia, o doutor Montaury, “muito delicado, convidou-me para dentro de casa, oferecendo licores. Sentou-se perto de mim e quis saber qual o meu meio de vida; contei-lhe tudo pormenorizadamente”, registra à página 10 do caderno.

Na época, Paglioli trabalhava como sapateiro, um pouco como ajudante de um ferreiro, seu vizinho de casa, e como regente da banda. Estava há pouco tempo casado com Giacomina, morando na Quadra 25, lote nº 5, que seu pai recebera ao chegar ao Campo dos Bugres. De acordo com João Spadari Adami, que reconstituiu a história de Caxias em seus inícios, era uma quadra de 110 por 88 metros, e estava situado atrás da catedral, onde hoje é a rua Dezoito do Forte.

Ao perceber como o jovem maestro vivia em aperto, Montaury fez a ele uma proposta:

– Quer vir em Alfredo Chaves? – disse-me ele. – Eu lhe darei casa para morar e um emprego, e o senhor organizará uma banda de música.

No dia seguinte contei a meu cunhado a tal proposta do doutor engenheiro.

– Não acho bom negócio – disse-me ele, – emprego público hoje tens e amanhã podes estar na rua

– Mas eu não posso continuar assim, pouco serviço, e a família está aumentando – disse-lhe eu.

– Tu tens uma casa em bom ponto, vamos abrir um negócio, eu entro com o capital e tu trabalhas. No fim do ano fazemos o balanço e repartiremos o lucro: o (vendido) a fiado fica na tua conta.

Mesmo com uma proposta assim desproporcional, Paglioli aceitou… No balanço de final de ano, só o cunhado ficava com dinheiro, sobrando para ele, Paglioli, o trabalho de montar a cavalo e ir cobrar dos que haviam comprado a fiado. E de conviver com as más línguas.

Um dia ele perguntou à esposa, Giacomina, por que ela estava sempre triste. Ela respondeu:

– Porque contaram que tu és maçônico.

– Eu não sou maçônico – respondeu ele –, quer creias, quer não. E, enquanto viver, nunca darei tal desgosto.

Aí rebenta a revolução de 93 (1893) e os maragatos invadem Caxias, saqueando casas de negócio e tudo o mais. O relato de Francisco Paglioli é insubstituível:

Saquearam muito mas eu não sofri, pois todos me queriam bem, tanto os maragatos como os pica-paus (republicanos).

[…] Os pica-paus entrincheiraram-se na casa do meu cunhado, por ser um ponto estratégico, de forma que os maragatos ficaram com ódio dele. E depois da retirada dos mesmos, mandaram dizer que se soubessem que a mercadoria que eu tinha era dele, nem as prateleiras teriam ficado.

Quando soube disso, o cunhado decidiu que deviam acabar com a sociedade, assinando um documento, descrito em detalhes no caderno de memórias, em que as dívidas ficavam todas com Paglioli, que conclui:

Fui sempre de mal a pior, eu não tinha queda para negócio, e fiava a torto e direito, até que tive de liquidar. Lancei mão de umas terras de meu pai, entreguei-as ao credor (o cunhado), deixando ele fazer preço à vontade, e ele me cobrou juro sobre juro.

Dez anos depois, em 1903, já com sete filhos, entre eles Eliseu, que seria reitor da Ufrgs, foi convidado para organizar uma banda de música em São Francisco de Paula, município recém-emancipado de Taquara:

Organizei duas bandas, uma de “Ocarinas”, lecionei, particularmente, meninos em piano e violino, dirigi e cantei “canticum sacrum”. Escrevi diversas músicas, sacras e profanas.

Tinham acabado suas agruras de comerciante.

Casos para proveito do papel

Francisco Paglioli, aqui apresentado na crônica anterior, depois de escritas dezesseis páginas em seu caderno de memórias, conclui:

“Teria muitas coisas mais para contar, mas como são de pouca importância faço ponto final”.

E acrescenta a data, 10-5-42, seguida das iniciais F.P. Mas, ainda na mesma página dezesseis, emenda:

“Passemos a contar algum caso para proveito do papel”. Isto é, seria um desperdício deixar folhas em branco, sem nenhuma outra utilidade. Basta esse traço para adivinhar a disciplina mental de nosso personagem: não deixar nada em branco significava, para ele, preencher todas as oportunidades que a vida lhe oferecesse…

O primeiro caso evocado é o de uma cena dramática, aqui reproduzida respeitando o estilo, para manter o sabor original, só atualizando a grafia:

Uma vez fui convidado para dirigir uma banda de um lugar em que havia uma festa.

Eu disse ao festeiro que não podia aceitar, por quanto era muito longe e eu não queria ir a cavalo até lá. Não, disse ele, o senhor irá junto com o padre, que vai no auto. Aceitei e seguimos viagem até o destino.

Um dia, estando na porta do hotel em que hospedei-me, vi na praça uma multidão de povo fazendo círculo, e uma gritaria infernal.

Aguilhoado pela curiosidade aproximei-me do círculo e… oh horror, duas crianças no centro brigavam, e o povo aplaudia. Não pude me conter, entrei no círculo, agarrei os dois meninos pelos braços e lhes perguntei: – Meninos, sabeis ler? – Responderam-me negativamente. – Pois vão à escola para aprender, e sabereis que não é bonito brigar.

O povaréu debandou como fulminado.

A narrativa desse episódio é arrematada com uma cena humorística:

No dia da festa, estávamos reunidos à mesa, inclusive o padre. Um moço já maduro, querendo fazer espírito, disse: – Eu comi como um padre. – O padre, que não achou graça, replicou: – E eu comi como um burro!

Terminada a festa, regressamos no mesmo auto, e, a uma certa distância, o padre perguntou-me: – Como vai?, está bem a gosto? – Eu respondi ao ministro de Deus: – Estou bem, aqui, como um padre.

A hilaridade foi completa, e fizemos boa viagem.

Em outro episódio, que reconstitui com detalhes como era a vida naqueles tempos, Paglioli conta que montou a cavalo para fazer uma cobrança – naquele tempo morava ainda em Caxias com sua casa de negócio. Tinha chovido, o cavalo escorregou e caiu, e Paglioli ficou com a perna presa embaixo do animal. Quando conseguiu montar novamente, chegou na primeira casa que encontrou e contou que o cavalo tinha caído e que ele estava com a perna doendo:

O dono da casa mandou que apeasse, convidou-me e, dentro de casa, chamou sua senhora. E esta com toda solicitude preparou um emplastro de sal, cachaça e mastruço, mo colocou na perna e me fez deitar numa boa cama.

No dia seguinte Paglioli viu uma máquina de costura de marca Singer que não costurava mais: Olhei a máquina, era nova, concluí que era sujeira unicamente que inibia de funcionar. Pediu querosene, limpou as peças e a máquina voltou a costurar perfeitamente. Pediram então que ele arrumasse um relógio de parede, que tinha parado, e ele pediu uma azeiteira: as rodas bem lavadas abandonaram a sujeira e tic tac tic tac, o relógio principiou a trabalhar.

Paglioli não cobrou nada, em troca do bom atendimento que recebera: E essa boa gente ficou tão contente que, quando ia a Caxias, sempre levava presentes para ele.

Ler coisas antigas sempre é gostoso: são viagens no tempo e em espaços que não existem mais. Viagens que têm muito a ensinar…

Uma história dos inícios de Caxias

Uma figura relevante dos inícios da história de Caxias foi Francisco Paglioli. Ele foi pai de Elyseu Paglioli, que se tornaria conhecido e famoso como neurocirurgião e como reitor da Ufrgs, entre 1952 e 1964.

Uma cópia do caderno de lembranças escrito por Francisco Paglioli, depositado no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, me chegou às mãos. Alguns traços de sua história eu usei como material para construir, ou reconstruir, o cenário de Caxias no meu romance A Cocanha.

O personagem Domênico também deve a ele a habilidade musical… Seu sobrenome me era familiar desde menino, porque os Paglioli viveram em São Francisco de Paula, como eu. O caderno escrito por Francisco me esclareceu como é que puseram raízes lá.

Francisco Paglioli chegou ao Campo dos Bugres em 1877, com dez anos de idade. Assim ele relata a viagem, feita com o pai Domênico e a mãe Rosa Fiametti:

“Partimos da Itália com destino ao Brasil, em 1877. Chegando ao Rio de Janeiro, não foi permitido desembarcar, pois estava grassando naquela cidade a febre amarela. Do navio passamos para um outro que nos conduziu até Porto Alegre. Aí chegados, não pudemos desembarcar, por estarem as casas destinadas aos emigrantes completamente cheias dos mesmos.

Do vapor, passamos em um vaporzinho que nos transportou a S. Sebastião do Caí, então conhecido como Porto Guimarães. Chegados, encontramos um tropeiro, João Sutil, que trazia uns animais arreados com cangalhas e cestos. Em um dos ditos cestos eu fui colocado, e no outro uma menina, mais ou menos da minha idade.

Meu bom pai foi encarregado de puxar pelas rédeas a mula, tendo o cuidado de não esbarrar em alguma árvore, pois que não havia estrada e sim uma picada. Os adultos, com exceção dos impossibilitados, tinham que marchar a pé, e as mulas carregavam as malas”.

Pode haver registro mais preciso e detalhado?

Com 13 anos de idade, Francisco foi trabalhar em uma casa comercial, de onde foi retirado pelos pais quando contou a eles o sistema que o negociante usava para pesar e medir. Foi sacristão e aprendeu latim com o padre. Teve como professores Abramo Pezzi e José Domingos de Almeida. Em seguida, entrou na oficina de sapateiro de Angelo Chittolina, e principiou a estudar música.

Tornou-se músico de banda e chegou a tocar em Porto Alegre, em um carnaval. O mestre da banda era um pedreiro, Agostinho Curtolo, e ela “era composta, a maior parte, de agricultores”. A banda se desfez e, numa reunião, Francisco foi proclamado maestro, encarregado de reorganizá-la:

“Com todo amor que tinha pela música, aceitei, e passei a estudar e a ensinar o pouco que sabia. Convidei diversos rapazes que queriam aprender e fiz-lhes esta proposta: eu não cobrarei pelo ensino, mas devem apresentar-se com instrumento desde a primeira lição”.

Depois de um ano de trabalho, já fazia bonito com seus músicos na Praça Dante. Em 1891, foi tocar na Exposição Estadual em Porto Alegre e, “como recompensa dos meus esforços, os músicos me presentearam com um bonito pistão novo”.

Já casado, a família aumentando, recebeu convite do Doutor Montauri para se estabelecer em Alfredo Chaves e organizar lá uma banda de música. Preferiu ficar em Caxias e abrir casa de comércio. Na Revolução de 1893, ficou no meio do tiroteio de maragatos e pica-paus, que “saquearam muito, mas eu não sofri, pois todos me queriam bem”.

Em 1902, foi criado o município de São Francisco de Paula, e Francisco Paglioli foi convidado pelos chefes políticos de lá para ir organizar uma banda. Pelo visto, as bandas de música eram prioridade para as administrações públicas. Dessa vez, aceitou o convite e se mudou com a família.

Em São Chico, organizou duas bandas, lecionou piano e violino para meninos, criou um coro de meninas “e escrevi diversas músicas, sacras e profanas, inclusive uma missa que foi cantada por ocasião das minhas bodas de ouro”.

Concluiu suas memórias, escritas em 1942, com estas três anotações: “não tenho inimigos, todos me querem bem, sou feliz”. Sem dúvida, teve tudo para inspirar um personagem de romance. E o que está aqui é apenas uma amostra!…

Celeste Gobbato, o grande mentor

No texto anterior, escrevi que a figura de Celeste Gobbato, um dos mentores da Festa da Uva, merecia ser mais exposta ao conhecimento de todos, tão importante foi sua atuação para a cidade de Caxias do Sul, para o Rio Grande do Sul e o Brasil.

Está à disposição, para tanto, uma publicação da EDUCS (Editora da Universidade de Caxias do Sul), em formato e-book, de autoria de Katani Monteiro: Entre o Vinho e a Política: uma biografia de Celeste Gobbato (1890-1958).

A autora começa a biografia relatando que, desde menina, deparou com o nome de Celeste Gobbato. Era uma rua, no Bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, onde a “gurizada” da escola se reunia para brincar. Ir brincar na “Celeste” era “sinônimo de muita diversão” à beira do Guaíba. Mas hoje, também lá, ela é conhecida apenas como “a rua do Fórum”.

Foi essa experiência de infância, confessa Katani Monteiro, que a levou a escolher o relato da biografia de Celeste Gobbato como tese de doutorado em História, por ela defendida na Ufrgs. Uma tese a que não escapa nenhuma fonte de dados: de Caxias do Sul, do Estado, do Brasil, da Itália.

O visionário Celeste Gobbato (Foto: Geremia/Divulgação)

Uma pesquisa que contou também com o grande volume de escritos de Celeste Gobbato, publicados no Brasil e na Itália. E, para concluir com sabor não apenas de arquivo, cita entrevistas oferecidas pelos seus três filhos – Lydia, Tito e Piero Gobbato –, que colocaram à disposição o acervo particular da família.

O resultado da investigação não é uma coleção de minúcias. Na passagem da tese para o livro, Katani Monteiro constrói uma narrativa que transpõe a formalidade acadêmica para dar a dimensão contextual da trajetória de Celeste Gobbato, com o desenho de sua personalidade.

O título da obra, Entre o Vinho e a Política, resume seus dois campos de atuação. Como enólogo, Gobbato difundiu uma política da produção de vinho por todo o país. Como político, pôs o calor do vinho nas ações de governo, tanto no período em que foi intendente de Caxias como durante seu mandato de deputado. Mas é possível que a atuação política tenha servido de motivo para descer uma sombra sobre sua figura,..

Na minha avaliação, foi ele o grande mentor e estrategista da Festa da Uva. Até mesmo os dois cenários da Festa – o de um lugar para exposições e o de um corso alegórico pelo centro da cidade – vieram dele. O carro alegórico da Estação Experimental de Viticultura e Enologia desfilou com toda a pompa na Festa da Uva de 1933, enfeitada com ninfas e ramos de videira!

Carro alegórico da EEVE na Festa Regional da Uva de 1933, que Celeste Gobbato presidiu. (Foto Geremia. Coleção: Celeste Gobbato. Acervo: IMHC/CEDOC/UCS/Caxias do Sul)

Não por acaso era Celeste Gobbato o diretor da Estação Experimental e também o diretor da Festa da Uva daquele ano. Um nome para ser exaltado, à espera de maior reconhecimento.

Como foi a primeira Festa da Uva

Em sua obra clássica Festa & Identidade: Como se fez a Festa da Uva (EDUCS, 2002), a pesquisadora da cultura da região de imigração italiana da Serra Gaúcha, Cleodes M. Piazza Julio Ribeiro, oferece um quadro detalhado, não só da história da festa, como de seu significado cultural.

Na longa pesquisa que deu base à obra, a autora revela detalhes que o tempo vai tornando esquecidos. A começar pela “Feira de amostras de uvas e vinhos”, idealizada por Joaquim Pedro Lisboa, coletor estadual, e realizada em 1931. A exposição foi chamada de “Festa das Uvas”, no plural.

O objetivo do evento, conforme relata a autora, foi este:

Na prática, os promotores da “festa-feira de amostras de uvas e vinhos” pretendiam concentrar o maior número possível de vitivinicultores de Caxias e da região, com o objetivo de transmitir-lhes informações novas (e reafirmar outras já conhecidas) sobre o cultivo de videiras de castas superiores.

Por trás da decisão, é bom não esquecer, estava também Celeste Gobatto, uma figura que deveria ser mais exposta ao conhecimento de todos. Formado em enologia e engenharia agrícola em Conegliano e em Pisa, veio para o Rio Grande do Sul em 1912, a convite do Governador Carlos Barbosa, para dar aulas na Escola de Engenharia de Porto Alegre.

Na realidade, Celeste Gobatto tinha uma formação multifacetada, incluindo filosofia, literatura e engenharia de materiais. Era um geminiano, também! Foi Intendente de Caxias em 1926, e em 1931 dirigia a Estação Experimental de Viticultura e Enologia, instalada no espaço hoje ocupado pela UCS

Foi Celeste Gobatto quem fez o discurso de inauguração da “Festa das Uvas”, assim registrado pelo Correio do Povo, de Porto Alegre:

[…] autoridade em assuntos agrícolas que, em termos sóbrios mas precisos, [Celeste Gobatto] demonstrou a utilidade da festa para estimular os viticultores a abandonar o fetichismo da (uva) Isabel, limitando sua cultura à área considerável que já ocupa, para aproveitar outras videiras de qualidade superior. (Op. cit., p. 86).

O mesmo Correio do Povo registrou a reação do público-alvo com estes detalhes:

Numerosos eram os visitantes que, de lápis em punho na frente das castas que interessavam, tomavam nota de seus caracteres e de seus nomes, com o propósito de introduzi-las em suas lavouras, a fim de melhorar a constituição de seu parreiral.

O sucesso foi tão grande que, ainda durante o evento, os organizadores decidiram fazer uma Festa da Uva anual, ampliada para atrair não só os vitivinicultores, mas todo o povo de Caxias, da região, do estado e do país.

Três anos mais tarde, em 1934, o Diário de Notícias, também de Porto Alegre, fazia este registro:

A simpatia com que foi visitada e comentada a primeira exposição de uvas fez surgir na mente de Joaquim Pedro Lisboa – esse grande e incansável amigo da Colônia Italiana – a ideia de ampliar as proporções das exposições futuras, transformando-as em festas grandiosas nas quais tomasse parte não somente o povo de Caxias, mas o povo inteiro do Rio Grande do Sul e cujo brilho repercutisse em todo o Brasil (Id .ibid. p. 89).

Uma ideia que deu certo, cem por cento. Por isso, Estamos juntos outra vez!

Cinquentenário da TV a cores com sabor de uva

A Festa da uva de 1972 se tornou famosa – talvez a mais famosa de todas – porque no dia 19 de fevereiro, com a presença do Presidente Médici, aconteceu a primeira transmissão a cores da televisão brasileira, mostrando o corso alegórico a desfilar pela Rua Sinimbu e pela praça central. Isto é, as primeiras imagens a cores enviadas ao país inteiro foram um desfile de carros da Festa da Uva!

Não deixa de ser uma montagem do destino que o cinquentenário desse acontecimento, indelével na memória do Brasil, ocorra durante outra Festa da Uva, que em princípio não estava prevista para ocorrer nesta data. No próximo sábado, também um 19 de fevereiro, certamente esse episódio será lembrado e celebrado.

E de onde nasceu a ideia de lançar na Festa da Uva de Caxias do Sul a transmissão a cores?

Outra armação montada pelo destino esteve atrás da cena. Ocorre que o Ministro das Comunicações, na época, era um caxiense: Higino Corsetti. Como militar de carreira, teve espaço aberto para atuar durante todo o período de governo militar. Outro ministro com forte presença no mesmo período do governo Médici – abriu a Transamazônica e instalou a Ponte Rio-Niterói – era também caxiense: Mário Andreazza, filho de Atílio Andreazza, perenizado como nome de rua no bairro Sagrada Família.

Uma pergunta que emerge dessas aparentes coincidências é certamente esta: o que levou Higino Corsetti e Mário Andreazza a seguirem a carreira militar? E a pergunta pode ser ampliada para outras personalidades oriundas da imigração italiana: como a de Euclides Triches, que deixou uma trajetória também indelével.

A esses nomes pode ser acrescido ainda o do coronel Sérgio Pasquali, nascido na colônia de Guaporé, e que foi idealizador do Projeto Rondon. Um projeto patriótico por excelência. Sérgio Pasquali – já relatei aqui esse episódio – promoveu uma mostra fotográfica da cultura italiana, organizada pelo Projeto Ecirs da UCS, no Teatro Nacional de Brasília.

Seguir a carreira militar era quase a única alternativa para avançar nos estudos, nas primeiras décadas do século passado, sem custo para a família. E, não por acaso, os nomes citados optaram por cursar Engenharia no Colégio Militar. Meu pai também esteve à beira de seguir esse caminho, que apontou para mim como uma alternativa. Alguma força oculta, porém, me fez seguir em outra direção…

Mas, retornando ao tema do título desta crônica, o fato de a transmissão a cores ter começado numa Festa da Uva, por articulação de caxienses próximos do poder, mostra também uma faceta “de quem somos e do que fazemos”, na fórmula proposta por Olmiro de Azevedo.

A Festa da Uva de 1972 ficou também marcada porque, durante sua realização, foi tomada a decisão de buscar espaço mais amplo para atender às exigências cada vez maiores do evento. A Festa seguinte, realizada em 1975, coincidindo com a comemoração do centenário da chegada dos imigrantes italianos, já teve como cenário o atual Parque de Eventos, que depois passou a ter o nome de seu idealizador e construtor, o prefeito Mário Bernardino Ramos.

A história da Festa da Uva tem esta característica: cada uma delas deixa uma nova marca. Como esta de 2022, com certeza, também vai deixar.

Saudando a Festa da Uva: juntos outra vez!

“A alegria de estarmos juntos!”

Com este lema, Caxias do Sul convidou as cidades vizinhas e o Brasil inteiro para se associarem à Festa da Uva de 2006.

De fato, para haver festa, é preciso alegria. E para haver alegria, é preciso estarmos juntos. Com o distanciamento, com a desconfiança, com a discriminação, com a raiva, com o ódio, não podemos sentir alegria, nem fazer festa.

Sempre vai existir alguém, que a vida tornou amargo, a dizer que não há nada para comemorar. A bradar que são tantos os problemas que não há lugar para a festa.

Mas a festa é uma necessidade humana. É um rito social, que sempre existiu e continuará existindo em todas as culturas. A festa é a celebração das conquistas já realizadas e o reabastecimento do ânimo para novos desafios e novas conquistas.

Só não festeja quem é pretensioso demais: quem está sempre achando pouco o que foi feito. Para fazer festa é preciso, portanto, uma certa dose de humildade. Isso permite a gente se alegrar mesmo quando não se conseguiu tudo o que se pretendia.

Sendo assim, Caxias do Sul tem motivos de sobra para a sua Festa da Uva. Conseguimos muito mais do que qualquer um de nossos antepassados foi capaz de sonhar.

Entre esses antepassados, que evocamos em cada Festa da Uva, estão os bravos imigrantes que saíram da Itália e construíram aqui seu novo lar. Eles deixaram nesta cidade a sua marca indelével, nos usos, nos costumes, na valorização do trabalho, no espírito de fé. Mas o imigrante italiano não esteve sozinho. Hoje, os descendentes desse imigrante já nem são maioria na cidade. Gente de todos os lugares, e das mais variadas etnias, vieram juntar-se para fazer o que somos neste início do terceiro milênio.

O poeta Olmiro de Azevedo, um dos tantos caxienses por adoção que temos na cidade, há mais de 90 anos definiu que a Festa da Uva devia mostrar quem somos e o que fazemos.

Somos uma cidade que se orgulha da variedade de suas culturas. Não queremos que nenhuma seja absorvida, mas que todas sejam partilhadas entre irmãos. Porque respeitamos a diferença é que festejamos “a alegria de estarmos juntos”.

Somos uma cidade que se orgulha do resultado do trabalho. A uva foi o início de uma arrancada que culminou com a expansão industrial e com o moderno ciclo dos serviços de alta tecnologia. Mesmo não sendo mais a uva o carro-chefe da nossa economia, ela continuará sendo o símbolo desta cidade. Uma cidade com o sabor sempre jovem da uva.

Tudo isso me vai sendo lembrado nestes poucos dias que nos separam do início da festa. Teremos, enfim, a alegria de estarmos, como nos convida o tema da tão esperada Festa da Uva de 2022,

JUNTOS OUTRA VEZ!

A região no planeta global

Como escrevi certa vez, “o tema da região me persegue”. E apontava duas razões para isso. Primeiro, porque nasci e vivo no Rio Grande do Sul, uma região que sempre se quis independente: na economia, na política, na cultura.

Segundo, porque estou num espaço criado pela imigração italiana, que reivindica o tempo todo ter uma identidade própria reconhecida também na economia, na política, na cultura, e até na língua… Ainda por cima, trabalhei numa universidade que sempre teve o espaço regional como campo de atuação.

Essa luta pelo reconhecimento da região teve vários estágios. Num outro ensaio que publiquei há alguns anos, afirmava que o significado dos regionalismos havia mudado: com a globalização, a região deixava de ser considerada parte de uma nação para ser considerada parte do planeta globalizado.

O primeiro a apontar esse fenômeno talvez tenha sido o consagrado geógrafo brasileiro Milton Santos, um nome conhecido em todo o planeta. Numa de suas obras, ele mostrou que os instrumentos da globalização, como, por exemplo, o telefone celular, permitem contato a qualquer momento com a Europa, a África e a Ásia. Mas torna também mais fácil falar de perto com a mãe e com a namorada!

Em visita a Montpelier, na França, com uma comitiva de nossa região, ouvimos do prefeito da cidade esta frase: “A região de Montpelier não quer competir com outras regiões da França, mas com outras regiões do mesmo porte no mundo”. Daí nasceu o slogan “Pés na região e olhos no mundo”, adotado pela UCS no último decênio do século XX.

Mas a globalização sempre tem os opositores que reivindicam espaço fechado para sua região. Dois fatos relativamente recentes apontam nessa direção. Um deles foi o “brexit”, com a Grã-Bretanha se retirando da União Europeia, globalizada demais na visão dos britânicos, para cuidar apenas do seu pedaço de globo. O segundo foi a eleição de Trump, claramente uma demonstração do medo que os americanos sentem com a globalização, de que Obama era uma coluna mestra. A proposta de Trump de erguer um muro na fronteira do México, mesmo que somente no plano retórico, foi uma evidente demonstração de uma nova ideologia, a das regionalidades: não mais em confronto com a nação, mas em confronto com o planeta.

E como vai funcionar o mundo, com essa ideologia das regionalidades frente à globalização? Na época dos nacionalismos, a resistência à internacionalização (como era então chamado o processo de globalização) foi ao ponto de se fazer uma guerra mundial. Essa possibilidade não está descartada, com o uso de armas mais elaboradas…

E como se definem hoje as regiões no quadro da globalização? A resposta pode ser encontrada em Arnold Toynbee, um historiador da minha particular atenção. Segundo ele, os conflitos mundiais acontecem sempre pelo confronto de civilizações, e não de ideologias. E chamava a atenção, na metade do século passado, para o confronto iminente de duas civilizações: a da cristandade e a do islamismo. Dentro de cada um desses blocos, com base em suas peculiares tradições culturais, haveria as regiões, cada uma defendendo seu território, com unhas e dentes. Teria chegado esse momento?

Mas, sempre é possível preservar as peculiaridades regionais sem brigar com o mundo. Esperemos que a humanidade escolha esse caminho.

Etnicidades na literatura brasileira

Na minha visão, a literatura brasileira da segunda metade do século XX continua sendo avaliada com instrumentos e padrões que vêm do século XIX, do período romântico-realista-naturalista e, também, do período modernista.

Essas ferramentas serviram para analisar a literatura desses períodos, mas são inadequadas para explicar e entender a literatura brasileira do último meio século. Então, a proposta que faço é de tentarmos elaborar uma nova teoria, ou novos padrões de análise, para interpretar este último período.

E quais eram os padrões de análise do século XIX e da primeira metade do século XX? Vamos nos situar primeiro nesta questão para depois entender qual a ferramenta nova que estou propondo.

Durante todo esse período, a grande questão que a crítica e a análise literária tentaram responder foi a da nacionalidade da literatura brasileira. O projeto romântico no Brasil deveria ter presente os símbolos e aspectos que mostrassem sua nacionalidade. Deveria ter o índio “no meio das tabas de amenos verdores”, deveria ter as florestas, as “palmeiras onde canta o sabiá”, para não ter mais a marca portuguesa. Por esse caminho seguiram Gonçalves Dias e José de Alencar.

No primeiro momento, nacionalidade era ter a natureza e o homem brasileiros na literatura, mas a natureza nativa e o homem nativo, isto é, a floresta tropical e o índio. Daí nasce o romance indianista e a poesia romântica da natureza: “Nossos bosques têm mais vida / nossa vida mais amores”!

Num segundo momento, já com José de Alencar, a questão da nacionalidade deriva para a questão da língua. Não basta para Alencar representar o índio e a floresta, mas também o homem urbano, do Rio de Janeiro. E com personagens que se expressem numa língua brasileira, diferente da língua portuguesa de Portugal.

Uma disputa bastante forte se estabeleceu em função disso, uma polêmica com os escritores de Portugal, principalmente, que não aceitavam essa rebeldia brasileira de criar uma literatura com língua própria, com ritmo brasileiro, com sintaxe brasileira, com vocabulário brasileiro.

Essa questão vai ser discutida com acuidade por Machado de Assis, num célebre ensaio intitulado Instinto de Nacionalidade, de 1873. Um ensaio fundamental, que deve ainda ser lido, porque não perdeu a atualidade. Ela encerra a discussão dizendo que a nacionalidade na literatura não precisa de um Sete de Setembro.

Quem vive no Brasil e produz literatura no Brasil já faz literatura brasileira. Porque a nacionalidade não precisa ser buscada, ela já está dentro das pessoas, ela é um instinto. Por isso, ela não precisa de projeto próprio. Em linguagem de hoje, se diria que Machado de Assis deu nocaute no projeto da nacionalidade literária.

Mas surgiu outra questão que gerou um novo parâmetro. O território brasileiro é extenso e com características locais diferentes entre si. Então, no lugar da nacionalidade, surge o projeto do regionalismo, ainda no final do século XIX. José de Alencar é o primeiro a distinguir dois tipos de território: o rural e sertanejo, como no romance O Guarani, e o urbano, como no romance Senhora.

Nessa mesma época, outros escritores seguiram a mesma perspectiva. Bernardo Guimarães escreve um romance ambientado em Minas Gerais, o Visconde de Taunay escreve um romance amazônico, e assim por diante. Mostrar os diferentes territórios do país passa a ser uma diretriz para a literatura do final do século XIX. É nessa diretriz que surge a literatura regionalista gaúcha, talvez a mais marcante do país, a partir da obra de Simões Lopes Neto.

Estudei bastante essa questão da regionalidade. Aliás, meu primeiro ensaio publicado foi abordando essa questão. O título é O regional e o universal da literatura gaúcha, e foi publicado em 1974. O que defendo nesse ensaio é que é importante distinguir o “regionalismo”, que é uma posição ideológica, da “regionalidade”, que deve ser vista como uma característica estética.

Mas isso já é assunto para outro encontro, ao lado do tema da etnicidade.

Construir um poema é montar palavras

João Cabral de Melo Neto, em sua “Psicologia da Composição”, que estamos lendo, escreveu no poema de número VII:

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

[…]

É mineral, por fim,

qualquer livro;

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

Então, para quem acha que escrever poesia é expressar suas emoções, ainda está dentro da concepção de poesia do século XIX. Se alguém quiser fazer poesia tem de lidar com as palavras. Então, a poesia virou um jogo verbal? Também. Ela vai se transformar em puro jogo verbal no Concretismo. A lição de João Cabral vai ser levada ao extremo de se tornar uma heresia, uma teoria herética, que levou a uma crise geral da poesia.

Mas a lição de João Cabral permanece. Ninguém hoje pode escrever poesia sem ter consciência de que está montando palavras: extrai palavras do minério verbal e monta uma pequena armadilha, ou uma pequena máquina para comover.

Hoje, ninguém pode fazer de conta que o poema é um balaio de emoções. Quando escrevo um poema louvando o vinho, como em Mapa de Viagem, não é para dizer da minha emoção em beber vinho, mas para dar ao leitor uma sinalização verbal sobre tudo o que pode estar oculto nele, desde a raiz da videira até a coroa final do aroma:

O vinho se faz de um pouco

de gosto seco de terra

de gosto verde de seiva

e um pouco

de gosto de mel ensolarado

em fina nuvem suspensos

no céu morno da boca.

Portanto, escrever um poema é montar palavras, de tal forma que provoque em quem o leia uma sensação de surpresa, de alegria, ou até de uma lágrima nos olhos! A poética é, na realidade, um conjunto de regras, elaborado pelo autor. Não há uma única poética para todos. O modernismo acabou com isso. Agora, cada um constrói seu conjunto de regras.

Resta, no entanto, um problema: há poetas que têm mais habilidade e outros que deixam o telhado caindo, por falta de alguma peça, numa falha de engenharia. Escrever poesia é uma coisa que se aprende, sim. Como há pessoas que têm mais habilidade em tocar um instrumento musical, fazendo exercícios, também na poesia pode-se chegar a uma boa música treinando o como lidar com palavras.

Para mostrar um pouco de meu aprendizado, tomo a liberdade de citar aqui uma receita minha, publicada inicialmente no livro no livro Meridiano e que foi premiada com este comentário do mestre Donaldo Schüler:

“Agredindo a poética dos signos, que antepõe os significantes aos significados, e crendo no poder criador de palavras sugestivas, o poeta denuncia a eficácia do poema reduzido a artefato ao gosto dos concretistas. Arremata:

Dos exemplos, colhe-se o conceito:

Você casa palavras

descose palavras

e em imagem e figura

você muda o mundo

(ou ao menos faz seu poema)

O ironista arrasa com a alternativa, a pretensão do poeta de alterar o mundo. Surge uma poética antimallarmaica para resgatar o corpo com seus humores e sentimentos do jugo que a disciplina poemática lhe impôs”.

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