Italianos no Rio Grande

Durante a comemoração do Centenário da Imigração Italiana (em 1975), foi publicado um livro com o título Italiani in Rio Grande. Não só o título, mas todo o texto foi publicado em língua italiana, com o patrocínio do IVRAL – Istituto Veneto per i Rapporti com l’America Latina, com o objetivo de ser distribuído entre os estudantes da Itália, para que não esqueçam o precioso patrimônio da história, como expresso na Apresentação.

Quem se encarregou da organização da obra foi o então Reitor da UCS, Abrelino Vicente Vazatta. Participou do trabalho o professor Mario Gardelin, então Delegado do Instituto no Rio Grande do Sul, studioso infaticabile, como refere a Apresentação. Coube a ele localizar os documentos que fizeram parte da iniciativa da região Vêneta. E não escondeu em que fonte os foi buscar: numa publicação comemorativa do Cinquentenário da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul. Lembrar essas memórias no sesquicentenário, que está para acontecer, cria uma cadeia entre essas três datas memoráveis.

Foi dessa publicação, feita pela Editora Globo, de Porto Alegre, em 1925, que Mario Gardelin retirou os trabalhos para a iniciativa do IVRAL. Eis a relação deles:

1. Gli Italiani e la Repubblica di Piratiny: texto do escritor Mansueto Bernardi, natural de Veranópolis, que na época já trabalhava na Editora Globo em Porto Alegre. Neste ensaio, ele relaciona toda a participação de italianos na criação da República de Piratini, objetivo da Revolução Farroupilha. São elencados os seguintes personagens: Livio Zambeccari, um bolonhês geógrafo e naturalista, que desenhou a bandeira dos farrapos; Luigi Rossetti, marinheiro genovês, Giuseppe Mazzini, mais tarde um dos condutores da unificação italiana, com Giuseppe Garibaldi; e ainda Francesco Anzani, ao lado de outros nomes menos lembrados.

2. La vita spirituale nelle Colonia Italiane dello Stato, da autoria do Cônego Giuseppe Barea, que seria em 1934 designado bispo de Caxias, o Dom José Barea. Nesse texto, o Cônego Barea faz talvez a primeira análise cultural da imigração italiana, ressaltando o papel da família, da fé e do trabalho. Faz também uma análise histórica das “primeiras lutas do colono”, da construção de igrejas, capelas e capiteis pela região e dos nomes de membros do clero em sua atuação pelas colônias, chegando a Marau e a Erechim.

3. Sacerdoti Italiani che precedettero l’emigrazione: escrito por Don Cleto Benvegnù (1887-1944), que foi pároco em Porto Alegre e criador de escolas. Faz um elenco de todos os quase sessenta sacerdotes italianos que atuaram no Rio Grande do Sul, espalhados por todos os municípios,nos cinquenta anos antes da imigração iniciada em 1875.

4. Il colono italiano ed il suo contributo nello sviluppo dell´industria rio-grandense: um trabalho magistral de Celeste Gobbato, figura marcante na história de Caxias. Assim ele relata a “evolução industrial da colônia”: a) indústria extrativa; b) indústria rural; c) indústria manufatureira; d) indústria comercial. Um texto que continua uma referência obrigatória para a indústria da região.

5. L’opera della donna italiana, assinado por B. Crocetta (nome não localizado), que ressalta o papel da mulher em diversos ramos, da educação à assistência social, culminando com a criação do Hospital Nossa Senhora de Pompéia, “cuja constituição remonta a 12 de agosto de 1913”.

Como remate, o livro reproduz cópia visual de uma carta escrita por Paolo Rossato a seu pai, com data de 27 de julho de 1984.

Preciosidades que devem ser postas ao alcance das novas gerações.

O retorno com o final da saga

Depois da permanência de quase um mês, entre abril e maio de 1937, nas águas termais de Tubarão, o Cônego Donato iniciou sua viagem de retorno, que não deixou de ter incidentes, para ficar com o termo por ele usado em suas Notas de uma Viagem. O trecho até Conceição do Arroio, ou Osório, teve praticamente os mesmos problemas da viagem de ida.

A partir de Osório, na estrada de cimento, que conhecemos pelo nome de estrada de concreto, as coisas começaram a melhorar, conforme este relato:

A viagem continuou sem graves incidentes porque, para dizer a verdade, a estrada de Osório a Gravataí é melhor, e se espera que vai melhorar ainda mais, porque nessa estrada encontramos muitos operários trabalhando para preparar a nova estrada de cimento. Chegamos a Gravataí pelas quatro horas da tarde e sem parar tomamos a estrada de cimento chegando a Porto Alegre pelas cinco e meia. Se durante este último trecho de estrada o nosso carro não tivesse podido prosseguir, se poderia chegar a Porto Alegre por outros meios, porque encontramos muitos veículos se dirigindo àquela cidade.

De Porto Alegre a São Leopoldo, o caminhão continuou andando sobre uma estrada de cimento. O único problema encontrado pelo Cônego Donato foi o do pedágio:

A estrada que vai de Porto Alegre a São Leopoldo é de cimento e para passar é preciso pagar uma taxa, como também se paga de Gravataí a Porto Alegre. Portanto no Brasil se tornou costume pagar quando é preciso passar por estradas públicas.

Mas ter feito todo o trajeto de Gravataí a Porto Alegre e de Porto Alegre a São Leopoldo sobre a “estrada de cimento” gerou outro incidente inesperado: começaram a estourar as câmaras de ar dos pneus.

Até aquele momento era o motor que nos fazia retardar o retorno, mas daí por diante seriam as câmaras de ar. Antes de chegar à ponta de areia que dista cerca de cinco quilômetros de São Sebastião do Caí, se rompeu uma câmara de ar, mas, como havia outra pronta, em menos de uma hora deu para acomodar e continuar a viagem. A segunda câmara de ar rompeu à distância de cerca de seis quilômetros da Baixa Feliz, mas como não era ainda noite e com a luz do dia foi possível ainda remediar, mas demorou uma hora e meia. Chegamos à ponte de ferro da Baixa Feliz com a noite avançada. Paramos na casa de negócio ou venda vizinha e se comprou alguma coisa para comer, e se prosseguiu a viagem bastante bem: para dizer a verdade a estrada é bastante boa, mas chegando a cerca de três quilômetros da Alta Feliz se rompeu a terceira câmara de ar.

Como estavam perto de Nova Milano, decidiram fazer a pé os três quilômetros de distância. Lá tinham conhecidos que poderiam conseguir um caminhão em condições ou um automóvel para seguirem até Caxias. Em Nova Milano, o Cônego Donato foi pedir pouso na casa do vigário, cena assim narrada por ele

Então bem devagar, porque era noite escura, me aproximei da casa canônica e bati na porta e passou meio minuto sem resposta quando ouvi um movimento dentro da casa. Era a velha empregada do Pároco que abrindo uma sacada perguntou quem era que estava batendo naquela hora. Respondi assim:

– É um padre de Caxias que pede abrigo.

– Mas quem é esse padre? – me respondeu a mulher.

– É um certo Dom Ângelo.

– Ah, eu conheço Dom Ângelo Donato. Vou abrir logo.

De fato, depois de poucos minutos aquela boa senhora veio abrir a porta e logo me disse:

– O senhor deve estar precisando comer.

– Não – respondi eu -, eu preciso descansar, eu preciso dormir.

E observando o grande relógio que pendia da parede ela disse:

– É, já são duas e meia, depois da meia-noite.

Todo o relato tem como ponto final a seguinte conclusão, em que se define o culpado de tudo e também lhe é concedido perdão:

A culpa maior é do senhor Eleutério Fracasso, que conhecia em que condições miseráveis se encontrava seu caminhão e a sua pouca prática em conhecer os defeitos do carro em questão. Não basta saber dirigir um automóvel, é preciso também estudar mecânica.

Mas na verdade devo declarar que o senhor Eleutério Fracasso, durante a longa viagem de ida e volta se comportou muito bem. E além de ter gasto muito dinheiro com gasolina, e outras coisas, perdeu tudo…

(E A SAGA FINDA AQUI)

Chegada a Tubarão

De Araranguá a Tubarão, registra o Cônego Donato, “há dez estações de trem, que são: Araranguá, Morretes, Sangão, Criciúma, Içara, Esplanada, Morro Grande, Jaguaruna, Congonha e Tubarão. As mais importantes são Tubarão, Jaguaruna, Esplanada, Criciúma e Araranguá”.

Essa ferrovia catarinense teve sua construção iniciada em 1880, ainda no tempo do Império, para transportar o carvão da região de Criciúma. Até hoje o trem maria-fumaça anima o turismo das cidades ao redor das águas termais de Tubarão. Turismo que já tinha vitalidade naquele ano de 1937. Mas voltemos ao relato original, com detalhes curiosos sobre os costumes do local, e onde ficou registrado que pessoas de Caxias e de Bento Gonçalves iam até lá para curtirem os banhos.

Chegados a Tubarão nos hospedamos no Hotel Cascaes: eram cerca de onze horas da manhã. Ao meio-dia almoçamos e depois fui até a casa canônica pedir licença para celebrar a missa na Capela de São Sebastião, que dista cerca de dois quilômetros do lugar dos banhos. O pároco de Tubarão é um religioso da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, vindo da Alemanha, um sacerdote muito zeloso. Na casa canônica conheci dois outros sacerdotes, um nascido na Alemanha e o outro no Brasil.

Na estação de Tubarão encontrei o Sr. Ettore Pezzi, de Caxias, e Ernesto Rubbo, que mora em Canoas. Este último eu o conheci em Bento Gonçalves no ano de 1906 quando eu era Vigário daquela paróquia. Ele é agora bastante rico e vive de renda.

[…] Finalmente depois das três da tarde chegamos à estação de Guarda, que dista cerca de meio quilômetro do lugar dos banhos termais. Guarda não é propriamente uma estação, embora tenha também telégrafo. […] Chegando ao lugar dos banhos encontrei o Sr. Giuseppe Ricardo Cornelli, dono dos banhos, que já passou dos sessenta, viúvo com filhos que moram com ele, homem com bastante saúde e bom conversador. Ele não fala de outros assuntos, a não ser da água termal, e conta coisas maravilhosas de curas, e diz que aquela é uma água santa.

[…] Dá para ver que este lugar de banhos está crescendo. O Sr. Cornelli quer que nos banhos, que são pequenos quartos com tanques de cimento, haja um pouco mais de higiene. Uma senhora de certa idade é encarregada de lavar os tanques depois da saída do banhista, mas esses tanques de cimento não duram muito tempo, porque a água termal as corrói e, como me disse o Sr. Cornelli, deverá trocar e colocar outros melhores.

[…] O clima nessas paragens é bastante ameno, quase nunca cai geada no inverno, de modo que os colonos colhem feijão até no mês de maio. Neste ano os tijolos foram vendidos a 45$000 ao milheiro, que é um preço bem alto, enquanto em outros anos eram vendidos por 20$000 ao milheiro. Dessa maneira podem ser construídas aqui casas de material. Os tijolos vêm transportados de Laguna e depois com barcos a vapor vão a Florianópolis.

À noite às vezes com a luz de uma lâmpada a querosene se podia fazer um jogo de cartas, porque ainda não há ali luz elétrica. Próximo aos banhos há uma corrente de água que desce de uma montanha, de modo que se poderia facilmente obter luz elétrica. Perguntei ao Sr. Cornelli por qual motivo não tinha ainda instalado luz elétrica e ele me respondeu assim: “Veja, Padre, tenho medo de que, represando a água que desce do monte, ali se criem mosquitos”.

Um argumento do qual o Cônego Donato não discordou, porque os mosquitos continuavam sendo uma ameaça permanente para as suas noites de sono, no decorrer de toda a viagem…

(A SAGA SEGUE NA SEMANA QUE VEM)

A ida do caminhão de socorro

Quando chegou o caminhão de socorro, depois de horas de espera e de nervosismo, o Cônego Donato dirigiu-se ao senhor Elto Labes, que chegava “em carne e osso” no comando da operação, com um mecânico e mais um ajudante, para cobrar dele as razões do atraso. Se o pescador tinha ido a Sombrio às onze da manhã para telefonar pedindo socorro, por que ele só chega doze horas depois

– Mas eu recebi o fonograma depois das cinco da tarde – respondeu o sr. Labes. – E procurei vir logo, deixando de jantar. Se o aviso me tivesse chegado antes eu teria atendido com toda a pressa vosso pedido.

Quando o pescador voltou, o Cônego quis saber dele a razão de só ter telefonado depois das cinco da tarde. Segue a narrativa original:

O pescador que andou até Sombrio para telefonar a Araranguá não pôde ligar logo porque o prefeito de Araranguá deu ordem ao encarregado do telefone de Sombrio de não telefonar antes das cinco da tarde. Assim nos contou o pescador quando voltou.

Mas se em Sombrio acontecesse qualquer desgraça, ou se houvesse necessidade do médico, do sacerdote para qualquer pessoa doente, era preciso esperar até as cinco da tarde para pedir socorro em Araranguá ou noutro lugar. Não duvido que aquele pescador esfarrapado tenha mentido.

O atendimento de socorro seguiu este roteiro:

O Sr. Labes deu ordem ao mecânico de aproximar o caminhão do nosso, dando luz, porque era noite, e de colocar a bateria que tinha trazido no carro do Sr. Fracasso. O mecânico e o outro ajudante meteram mãos à obra trabalhando quase duas horas, mas sempre inutilmente porque a velha carcaça não pegava fogo. Eu que naquela altura estava cansado e cheio de sono gritava e solicitava a eles que parassem de se esforçar, abandonassem o carro velho e nos levassem no deles a Araranguá.

Finalmente, cansados de trabalhar inutilmente, perderam a esperança de arrumar o caminhão do Sr. Fracasso, propondo levá-lo de reboque até Araranguá. Mas o Sr. Labes fez saber que a cerca de 15 quilômetros era preciso atravessar uma sanga (corrente de água), e que lá chegando era absolutamente necessário abandonar o caminhão do Sr. Fracasso, porque ele corria o sério perigo de ficar atolado.

Chegados àquele ponto o caminhão velho foi abandonado, ficando nele somente o Fracasso e seguimos viagem para Araranguá. Chegando a Arroio do Silva encontramos o sr. Firmino Gomes (passageiro do caminhão que tinha vindo sozinho a pé). Logo pediu se tínhamos levado conosco as duas valises: ao saber que foram esquecidas no carro do Fracasso começou com choros e lamentações, e esse lamento continuou sem interrupção até Araranguá, de modo que para mim e os outros companheiros era um tormento Tanto que o sr. Carlo Guisen, cansado de ouvir tanta lamentação, pegou a carteira e passou ao Firmino uma nota de 50$000, dizendo-lhe; “Amanhã pegue um automóvel e vá pegar suas valises, que nesta noite estão sendo cuidadas pelo Fracasso. Está contente?”

Finalmente, sem outros incidentes, chegamos a Araranguá pelas 11 e meia da noite. A senhora Labes nos preparou um café. O sr. Labes disse então que a despesa do caminhão da empresa Jaeger era de 150$000 e queria saber quem ia pagar essa soma. Eu disse que a obrigação de pagar era do Fracasso. O sr. Labes deveria ter sido um pouco mais honesto no preço. […]

Depois de muito conversar, fomos dormir. Desta vez pude repousar porque faltavam os mosquitos, mas dormi poucas horas, porque às 4 da manhã vieram bater na porta de meu quarto e tive que levantar porque o trem (para Tubarão) partia às 5 da manhã. Todos se levantaram e se reuniram na sala de jantar para tomar café. […] No escuro e por uma estrada barrenta chegamos à estação ferroviária.

O resto da viagem de ida foi de trem, com trilhos ao invés de barro pela frente! Mas a história não termina. Depois do estágio nas águas termais, há ainda a viagem de volta. Outra vez de caminhão!…

(A SAGA SEGUE NA SEMANA QUE VEM)

Jornada de Torres a Araranguá

O percurso de Torres a Araranguá foi tão dramático que é melhor traduzir ao pé da letra (com alguns recortes) a narrativa do Cônego Donato.

Na manhã de 9 de abril levantei bem cedo porque queria celebrar a missa. Fui até a casa canônica, bati na porta mas ninguém respondeu. […] Depois de meia hora tive a graça de celebrar a missa. Retornado ao hotel tomei o café da manhã e como o caminhão demorava a chegar (nota: tinha ficado retido na estrada à noite) entrei no quarto para dormir, mas tinham passado alguns minutos e me chamaram para partir. Saímos pelas 9h30 para Araranguá, sempre em dúvida se chegaríamos naquele dia.

Passado o rio Mampituba (Mantituba, no registro do Cônego) depois de 25 quilômetros pelo Estado de Santa Catarina, o caminhão “que se pode chamar de carcaça velha e caduca” aprontou outra:

Parou como para um viajante que perdeu as forças. O que tinha acontecido? Uma nova desgraça imprevista. O caminhão não podia prosseguir porque a bateria não funcionava mais. Que podíamos fazer para remediar? Não havia remédio nenhum. Voltar a pé para Torres era um caminho muito longo, andar até Araranguá pior ainda.

O dono do caminhão, Fracasso, viu dois pescadores. Aproximou-se para conversar e conseguiu que um deles concordasse em ir até Sombrio para, de lá, telefonar para Araranguá para que enviassem um caminhão de socorro e uma bateria. O outro pescador se ofereceu para preparar peixe frito. O Cônego Donato não deixa de registrar o que o impressionou na figura deles:

São pessoas malvestidas que habitam cabanas pobres, são macilentos, pálidos, raquíticos, com roupas esfarrapadas que chegam a assustar.

O primeiro saiu a pé na direção de Sombrio, que ficava longe, a 12 quilômetros de onde estavam, mas, com isso, os passageiros do caminhão ganharam coragem. Por volta das duas horas, chegou o outro pescador trazendo peixe frito e uma jarra de leite. “Era cerca de uma dúzia de peixinhos de 100 gramas. Como podiam matar a fome de dez pessoas? Se tivéssemos levado pelo menos um pouco de pão! Comemos os poucos peixes. O pescador pediu 8$000, e nós demos a ele 10$000”.

Depois de comer, ficaram andando pela praia de Sombrio, esperando o caminhão de socorro que não chegava nunca.

Quando vi que eram quase sete horas e que a noite estava chegando perdi a esperança de dormir em Araranguá. Pensei em dormir no carro usando como travesseiro minha pequena valise. Anoiteceu e eu não tinha ainda pegado no sono quando meus companheiros gritaram: – Padre, levante, que está chegando o carro de socorro. […] Levantei e, à distância de uns dez quilômetros, vi um carro com uma luz resplandecente e depois de alguns minutos, para nossa grande alegria, chegou o suspirado carro de socorro. Era um belíssimo caminhão da empresa Jaeger, guiado por um competente mecânico e um ajudante, o sr. Elto Labes, com uma bateria e provisão de pão.

O Cônego Donato perguntou ao sr. Labes o motivo de não ter vindo antes, já que ele tinha enviado o pescador a Sombrio para telefonar para Araranguá em busca de socorro às 11 horas da manhã, e o caminhão só chegava agora à noite.

A explicação dada, toda cheia de caraminholas, é matéria para um capítulo inteiro. É quase uma sequência de filme de suspense, do gênero Hitchcock!

(CONTINUA SEMANA QUE VEM)

Dezesseis horas de Gravataí a Torres

Na manhã do segundo dia de viagem, saindo de Gravataí, depois de uma noite de pouco sono por causa dos mosquitos, o Cônego Angelo Donato teve de embarcar no caminhão contra a vontade, segundo seu relato:

No dia 8 levantei cedo, todos queriam partir logo e não me deixaram celebrar a missa. Partimos antes do nascer do sol. No caminho que conduz a Santo Antônio da Patrulha encontramos na estrada muitos trabalhadores que preparavam a faixa de concreto que, como entendi, querem que chegue até Conceição do Arroio. Mas ainda vamos ter que esperar muitos anos até que esteja terminada.

Conceição do Arroio já havia mudado o nome para Osório três anos antes, em 1934. O Cônego Donato usa os dois nomes, sem os diferenciar.

Seu texto segue fazendo comentários sobre a má qualidade da estrada coberta de areia. Além disso, o caminhão, “que podemos chamar de carcaça velha”, tinha de ir parando para trocar a água do motor que fervia como uma caldeira. Depois das 11h, cinco horas depois da saída de Gravataí, chegaram a Santo Antônio da Patrulha, mas não entraram na vila, seguindo viagem até Conceição do Arroio, onde chegaram “meia hora depois do meio-dia, e paramos para refocilar o nosso estômago”

Pelas duas horas da tarde continuamos nossa viagem, com o veículo fazendo suas paradas de costume, e chegamos pelas 4 horas a Tramandaí, que é um distrito de Osório, bastante populoso, é um lugar de banhos de mar, bastante remoto, de modo que para ir à praia é preciso alugar um auto ou caminhão, que passa por uma estrada de ferro. De Osório até Tramandaí a estrada não é boa, nunca foi boa, areia em abundância.

A seguir vêm estas críticas bem contundentes:

O Município de Osório não se interessa pela estrada, e a ponte que atravessa um rio e desemboca no mar, que foi construída pelo governo do Estado, está em completo abandono. A maior parte das tábuas está podre, de modo que é muito perigoso o trânsito. Algumas pessoas interessadas em ganhar alguma coisa colocaram mesas na beirada e quando se passa é preciso pagar 1$500. Um pouco antes de chegar à praia do mar é preciso passar pela areia que é muito densa, e alguém colocou tábuas à guisa de uma escada, para que o automóvel possa passar, senão ele afundaria na areia. E para passar por ela é preciso pagar 10$000. É uma miséria e uma incúria do Governo e do Município que para passar por uma estrada pública é preciso pagar! Na praia a estrada é como foi criada no começo do mundo e se poderia muito facilmente construir uma estrada de ferro até Torres, mas nenhuma autoridade pensa. O interesse principal no Brasil é a política.

Depois de passar também por Capão da Canoa, a viagem seguiu para Torres. A quatro quilômetros da sede da vila, o caminhão teve de parar porque a estrada era estreita demais e os passageiros resolveram seguir a pé, inclusive o Cônego Donato, que passou por estas peripécias:

Como eu seguia atrás e não podia ver o caminho, num certo momento caí como um morto cai. Quando levantei, senti uma dor aguda no joelho direito, mas tive força e coragem para continuar o caminho.

Finalmente, pelas 10h30 da noite chegamos a Torres, cansados, acabados, com a camisa molhada de suor. Fomos bater na porta da casa de Guerino Sartori, que tem um hotel a poucos passos da igreja paroquial de Torres. Vieram abrir dois jovens empregados do hotel. Nos prepararam às pressas um pouco de café e às 11h30 fui repousar num pequeno quarto. Mas assim que apaguei a luz apareceu uma nuvem de mosquitos que quase não me deixaram dormir. Para mim era o mesmo que um doente de asma sofre, gostaria de dormir, mas lhe falta o ar e não consegue, e isto é um cruel tormento.

E Tubarão ainda estava longe…

Primeiro dia de viagem no caminhão

Continuando com a “reportagem” do Cônego Ângelo Donato, seguem os acontecimentos do primeiro dia da viagem de Caxias a Tubarão.

Depois de tudo combinado, os nove passageiros embarcaram na carroceria do caminhão e partiram às 5h30 da manhã do dia 7 de abril de 1937, uma quarta-feira. Tomaram o rumo de Galópolis, ao invés de Farroupilha (na época ainda Nova Vicenza), porque naquele dia havia uma corrida de automóvel de Porto Alegre a Lages, passando por Farroupilha e Antônio Prado. Pelas estradas da época, a corrida se estendia por 500 quilômetros e era promovida pelo Automóvel Club do Brasil. Começava a se firmar a indústria automobilística e, com ela, a disputa por maior visibilidade.

E havia, por questões de segurança, controle no trânsito, como registra o relato:

Se fôssemos por Nova Vicenza, nos impediriam de continuar a viagem, pelo menos até que tivessem passado os autos.

Perto da Capela de São Romédio, a primeira construída em Caxias, na saída para Galópolis, encontraram uma senhora indo a pé para a estação do trem. O chofer parou o caminhão e ela contou que tinha recebido um fonograma de Porto Alegre avisando que sua filha estava gravemente doente, por isso ia pegar o trem. Pediu se podia embarcar no caminhão e foi aceita, desembarcando depois em Sapucaia, onde começava a estrada rumo ao litoral norte.

O fonograma, que já ligava Caxias com algumas cidades, funcionava assim: o remetente ligava para a companhia telefônica e ditava uma mensagem, que era anotada, datilografada, envelopada e remetida ao destinatário, sendo entregue pelo estafeta. Consta que já havia telefone em Caxias desde 1895.

Quando o caminhão chegou à altura de Feliz, “no ponto em que se encontra a estrada para Nova Vicenza”, receberam ordem de parar, porque “os automóveis começavam a passar em grande velocidade”:

Fomos obrigados a ficar parados mais de duas horas, até passarem todos os automóveis. Naquele cruzamento havia muitas pessoas de origem alemã, que queriam ver a corrida. Finalmente às 10 horas pudemos partir, mas o caminhão, que era bastante velho e com muitos defeitos, parava de quando em quando, principalmente para trocar a água que a cada 10 minutos fervia.

Depois de muitos tropeços, chegaram à noite à vila de Gravataí, registrada com a grafia Gravatahy. Lá se hospedaram no Hotel Brasil, onde jantaram. Depois da janta, o Cônego Donato resolveu visitar o vigário daquela paróquia, o Cônego Pedro Wagner, que tinha sido colega dele no Seminário de Porto Alegre. Apenas por curiosidade: Cônego Pedro Wagner é também nome de rua em Gravataí, além de nome de praça em Cachoeirinha.

Depois de todos os transtornos da viagem de um dia inteiro, também o sono foi complicado para nosso herói e repórter:

Fui dormir perto das 11h30, mas quase não pude fechar os olhos. Quando apaguei a luz chegou uma nuvem de mosquitos sequiosos de meu sangue, e algumas mulheres perto de meu quarto faziam uma conversa animada, até uma hora depois da meia-noite.

O problema dos mosquitos na hora de dormir foi durante muito tempo motivo para o florescimento de uma indústria: a produção de mosquiteiros. No rol de artigos exigidos para ingresso no Seminário de Caxias, em 1950, o mosquiteiro era também obrigatório. Nas lojas de roupas era um artigo de venda garantida. Mesmo assim, não era fácil dormir com a zoada que faziam os mosquitos. Pior ainda sem o mosquiteiro, como no hotel de Gravataí, fazendo o sono se prolongar manhã adentro, como relatou o Cônego Donato…

Um cônego com tino de repórter

Sou detentor, por cortesia de mãos amigas, de um relato manuscrito deixado pelo Cônego Ângelo Donato – hoje nome de rua em Caxias do Sul, no bairro São José –, contando a aventura e as desventuras de uma viagem de caminhão desde Caxias até as águas termais da Guarda, em Tubarão, no Estado de Santa Catarina.

O Padre Ângelo, como o chamavam, era um atento observador e um refinado crítico. Seu relato está recheado de informações e comentários que podem dar uma ideia bem concreta das condições de vida naquele ano de 1937, quando ele fez a dita viagem. Trata-se de uma excelente reportagem, escrita em italiano, com este titulo: 1937: Note di un viaggio.

Vai a seguir um rápido cronograma da vida do autor:

– Em 1863, a 27 de dezembro: nasce na Itália, na diocese de Pádua.

– Em 1899, a 30 de novembro: é ordenado padre em Porto Alegre.

– De 1904 a 1905: é pároco de Antônio Prado.

– De 1906 a 1907: é pároco de Bento Gonçalves.

– De 1908 em diante: atua como coadjutor e depois vigário de Caxias. Nesse cargo, cria comissão para construção da escadaria da igreja paroquial (hoje catedral diocesana).

– Em 1928: recebe o título de cônego.

– Em 1931: quando pároco de Galópolis, integra a Comissão Pró-Bispado de Caxias. A Diocese foi criada em 1934, há noventa anos, que estão sendo celebrados.

– Em 1953, a 6 de agosto: falece em Caxias do Sul, perto dos 90 anos de idade.

De suas Notas de uma Viagem, em que relata a ida de Caxias a Tubarão, em cima de um caminhão, com outros viajantes, traduzo os primeiros parágrafos que, como em toda boa narrativa, prendem desde logo a atenção do leitor:

No ano de 1936 estive em Iraí, nos banhos termais que me fizeram bem, o forte prurido diminuiu, e teria voltado se tivesse encontrado algum companheiro. No mês de março de 1937, o senhor Giovanni Marchet, negociante em Mato Perso, me convidou para me deslocar com ele e outros amigos até os banhos de Tubarão, e aceitei o convite.

Era para partir às 4 da manhã, mas acabamos partindo às 6 e meia. O auto caminhão era do senhor Eleutério Fracasso, filho do hoteleiro Carlos Fracasso. Eu nem sabia que esse Fracasso tivesse caminhão. Os passageiros deviam ser 14, mas na última hora 5 desistiram, e fizeram bem. Eu devia ter feito isso também, ainda mais porque tinham me aconselhado a não fazer aquela viagem.

A gente acreditava que em dois dias chegaríamos a Araranguá. Uma vã esperança…

A primeira questão que ele coloca é para perguntar por que motivo, naquela altura dos acontecimentos, não havia ainda trem ligando Porto Alegre a Torres, se havia trem de Caxias a Porto Alegre, de Santo Antônio da Patrulha a Osório, de Araranguá a Tubarão. Por que razão não se levava o trem até Torres, que já era buscada para banhos de mar e onde havia o hotel de um caxiense chamado Guerino Sartori? Em razão disso, o jeito era ir de caminhão.

E isso é apenas o começo!

Jogo do chinquilho

Encontrei essa referência ao jogo do chinquilho num livro de João Spadari Adami, o nosso barbeiro historiador, em capítulo dedicado às origens das atividades esportivas na Colônia Caxias.

Um dos primeiros jogos praticados, diz ele, era o de “scaie”, palavra que ele traduz por chinquilho, posto entre parênteses. Num primeiro instante, pensei que a informação estava cheia de equívocos, a começar pelo nome do jogo, muito parecido com o de um jogo de cartas primo-irmão do quatrilho, chamado “cinquilho”. Fui ver o que significava “scaie”, e aprendi que é uma forma dialetal do italiano “scaglie”, que significa, entre outras coisas, lascas de pedra. E tem como matriz o verbo “scagliare”, que significa “arremessar”. De onde se conclui que as “scaie” eram lascas de pedra para arremessar num jogo de competição.

No dicionário Houaiss está a informação de que chinquilho é o nome de um jogo, sinônimo de “malha”, que “consiste em jogar rente ao chão essas chapas ou discos a fim de derrubar pequenas estacas colocadas a uma distância convencionada”. E acrescenta entre parênteses: [Desde a invenção do jogo pelos romanos usam-se ferraduras em substituição aos discos].

De fato, Adami informa que no começo o chinquilho era jogado com pedras. Mais tarde, João Fillippini, dono de uma bodega na sede da Colônia, instalou um lugar para o jogo de chinquilho, agora com lâminas de ferro, como devia ser o jogo legítimo. Todos esses enigmas fui decifrá-los no google. Por sorte, hoje existe a web, que acumula mais informações que todas as coleções de enciclopédia das bibliotecas.

O leitor pode ir confirmar: o chinquilho é um jogo surgido em Portugal em data não devidamente apurada. O google dá notícia de que na região de Almeirim realizam-se torneios de chinquilho que duram até quatro meses e reúnem dezenas de competidores. Isso prova, diz a matéria de um jornal local de nome Mirante, que “o chinquilho ainda vive”.

E como é afinal jogado esse jogo? São regras que variam bastante. Mas o básico é o seguinte: A uma distância de 12 a 15 metros coloca-se um cone, que os portugueses chamam de meco, de paulito, e de palito, que serve de alvo para os jogadores lançarem as malhas. As malhas são placas de ferro, que pesam entre 500 e 800 gramas. O jogo tem dois objetivos. O primeiro é derrubar o paulito. O segundo é conseguir que as malhas fiquem o mais próximo possível dele, como no jogo de bochas. A contagem dos pontos é feita de várias maneiras, e podem ser estabelecidas entre os jogadores, que podem jogar individualmente, em pares, ou em equipe. A contagem clássica parece que é alcançar 31 pontos para se ter a vitória.

Duas coisas me encheram de admiração nessa história. A primeira foi a de saber que um jogo de raízes rigorosamente lusitanas tenha sido praticado numa colônia de imigrantes italianos, e adotado na bodega de um deles. Influência, sem dúvida, de hábitos vindos de Santo Antônio da Patrulha, patrocinados por funcionários da Intendência Municipal… A outra foi a de o bodegueiro Fillipini ter adotado placas de ferro, no lugar das primárias lascas de pedra. Lamento não ter sabido disso antes. Na certa, teria posto a cena no romance A Cocanha, para não ficar esquecida, como parece que está.

A marca cultural do empreendedorismo

Heinrich Bunse, um estudioso das línguas de imigração no Rio Grande do Sul, ao escrever sobre os dialetos italianos, por ocasião do centenário da imigração, descreve o ambiente das colônias sinalizando a forte marca do empreendedorismo, trazida pelos imigrantes, nestes termos:

Recrutados os futuros colonos na região do vale do Pó, nas cidades industriais e nas áreas rurais vizinhas, incluíam elas artesãos e agricultores. Acostumados a viver num sistema econômico caracterizado por uma diversificação de produção, trouxeram consigo tanto o preparo como os incentivos para progredir na futura colônia, tirando vantagem dessa situação. (UFRGS, Instituto de Letras, 1975).

Os dados numéricos registrados ao longo de mais de um século dão a dimensão de quanto foi importante a marca do empreendedorismo na cultura do imigrante italiano.

Em 1º de junho de 1910, para comemorar a chegada do trem, o jornal O Brazil, (semanário caxiense fundado em 1909, que pode ser consultado no arquivo digital da Biblioteca Nacional), sob o título de “Salve, Caxias”, noticiava com toda a pompa as conquistas “deste povo laborioso”, e enumerava as empresas em atividade no município:

Existem no município […] 150 casas comerciais de fazenda, miudezas, ferragens e louças; 160 alambiques e 10 engenhos de cana para a fabricação de graspa e aguardente; 71 moinhos, dos quais 6 a vapor; 15 curtumes; 38 serrarias, sendo 17 a vapor; 173 oficinas, 6 olarias, 1 fábrica de pólvora, 2 de pós inseticidas, diversas de mobílias de vime, 1 de tecidos de seda e outra, de relativa importância, de tecidos de lã e algodão, movidos a força hidráulica.

Para complementar a riqueza dessas atividades industriais, o jornal acrescentava ainda a rica variedade do comércio e dos serviços:

Há na vila 50 casas comerciais, 3 farmácias, 10 padarias, 2 confeitarias, 2 fábricas de moer café, 2 de massas alimentícias, 5 cafés com 8 bilhares, quatro hotéis, 1 casa de pensão, várias casas de pasto, 2 fábricas de cerveja, 3 relojoarias, 2 ateliers fotográficos, barbearias, engraxaterias, 1 atelier de escultura, 1 livraria, 2 oficinas de encadernação, 1 tipografia, 2 oficinas metalúrgicas, 4 importantes estabelecimentos vinícolas, etc.

E arrematava com este prenúncio:

Novas trilhas se vão abrir, com a inauguração da via-férrea, à prosperidade econômica da terra caxiense.

Entre as “ferragens” produzidas, a maioria era de ferramentas para a produção agrícola, de componentes para o transporte por meio de animais e de carretas, além de artigos para cozinha. Mas havia também quem produzia espingardas e cartuchos, numa época em que a caça era inda um meio de subsistência.

Por ocasião do cinquentenário da imigração, em 1925, houve uma exposição de produtos industriais de toda a região colonial italiana no parque Menino Deus, em Porto Alegre. No álbum comemorativo dessa data, foram elencados os seguintes números da cidade de Caxias:

– no setor de serviços, havia 207 empresas; no setor industrial, 240, mais 326 no setor de comércio;

Muitos desses empreendimentos não passavam de “fábricas de porão”, como se dizia na época, bem antes da grande expansão industrial. Em pequenas ou grandes empresas, o fato é que a febre do empreendedorismo nunca baixou na história de Caxias do Sul e da região.

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