Tanto mundo e tão pouca vida.
Tanto mundo e eu tão curto.
Meu Deus em não compreendo
porque um tão grande mundo
que nunca irei conhecer.
Tanto mundo, e eu tão pouco. (1957)
Este blog nasceu com o propósito de aproximar o autor de seus leitores, criando um espaço para compartilhar reflexões, conhecimentos, textos e materiais de interesse comum. Durante muitos anos, esse diálogo foi conduzido por José Clemente Pozenato, cuja generosidade intelectual marcou este espaço e tantas pessoas que o acompanharam. Após seu falecimento, as publicações permaneceram interrompidas por algum tempo. Agora, o blog inicia uma nova etapa, sob os cuidados de sua filha Maria Helena, que assume a responsabilidade de dar continuidade a esse legado. Respeitando a essência que sempre caracterizou este espaço, as novas publicações buscarão manter vivo o diálogo com os leitores, preservando a memória de seu criador e ampliando a divulgação de conteúdos relevantes.
Tanto mundo e tão pouca vida.
Tanto mundo e eu tão curto.
Meu Deus em não compreendo
porque um tão grande mundo
que nunca irei conhecer.
Tanto mundo, e eu tão pouco. (1957)
Marcos voltou com seu barco
após dias perdidos
no bojo do mar.
E sentado chorava
o vazio samburá.
A brisa marinha
afaga o seu rosto:
Marcos, por que chorar?
Teu trabalho foi ganho
teu gesto fez o mar.
Mansamente veio a noite
e já não parecia
tão sombrio o pescador
tão vazio o samburá. (1957)
Esta foi a primeira e a última rua da minha vida,
a rua em que passou silencioso
o esquife daquela criança vestida de branco e alegre
e que eu chamava minha irmã.
Foi a única rua que eu vivi. (1957)
O tempo está me fitando
com sua cara deslavada.
Fecho os olhos, ele profana
o interior de minhas pálpebras.
Persigo esse tempo,
quero agarrá-lo,
quero matar o tempo.
e ele vem e ri.
Está e não o vejo
corre e não o apanho.
Entra em meus olhos
sai de meus ouvidos,
torna a entrar pelo nariz,
invade-me as entranhas.
Eu não o sinto
mas ele escalva
deslavadamente.
Aqui ergue uma ruga,
ali estraga um órgão,
no coração uma angústia,
no fígado,
uma ira inconsequente.
Devo esquecer que há o tempo.
Inútil tentar compreendê-lo. (1957)
Amigos, amemos a terra,
antes que ela desapareça
ou nós.
Tem sido boa conosco
fecunda e de gordos proventos
para a nossa irrisória fragilidade.
Amemos a terra,
velha que já foi moça
e agora vai morrer.
Carece de um instante de amor
antes da última neblina.
Amigos que amais tantas coisas tolas
tudo isso é nada sem a terra.
Amemos
essa pobre e boa criatura.
(1957)
Os sinos da rua
brincam nas carroças
que trazem de manhã
verduras e leite.
Ai, tempos meninos.
A doce manhã destilava
silenciosamente
a clara e funda alegria
do café de cada dia.
(1956)
É bom ter uma janela para a rua
e ver como o azul do céu
anda estragado com riscos pretos
de fios elétricos.
Ver a rua mentirosa
assumir um ar estupefato
à passagem dos motores.
É bom ter uma janela para a rua
e convidar os mendigos
que tecem nas retinas
a serenidade de esperar
que o impossível aconteça. (1956)
Ser apenas joão pedro antônio da rosa
que mora entre latas velhas
e não teve nenhum vislumbre
de vir a ser mais limpo mais rico mais mundial
que nunca pensou em ser
João Pedro Antônio da Rosa
o habitante da terra.
(1956)
Essa luz anêmica
de sol filtrado
só é boa para tristeza.
Quero é a explosão de luz
de um sol na minha sala
um sol valente e nu
como um gladiador.
(1956)
O vento levantou-se de manhã
vestiu-se todo de azul
pôs um botão de sol
a passear pela roupa
e saiu devagarinho
sorrindo para todos.
Entrou no jardim
sem passar pelo portão
derrubou uma porção
de gotas de orvalho
pisando por tudo
enquanto nos canteiros
as florinhas se inclinando:
– Bom dia, senhor vento!
Como vai?
– Vou bem, vou muito bem.
Obrigado!
– Vai passear hoje?
– Não, minhas flores,
(e com um sorriso)
Vou amar.
Vi ontem um pessegueiro
que nesta primavera
não pôde florir.
Há também numa janela
como um vaso de terra seca
um homem que nunca sorriu.
– Nunca sorriu?
– Nunca. E eu quero levar aos dois
um grão da alegria dos outros.
Eu queria…
levar-lhes perfumes de flores!
– Pois não, senhor vento,
leve quanto quiser.
*****
O vento saiu todo de azul
com os braços tão cheios de perfumes
que os ia perdendo pela estrada
despertando risos das pedras
e ligeiro balanço das folhas.
De mansinho
chegou-se ao pessegueiro
chegou-se ao homem triste
e lançou-lhes na face
a alegria das flores.
O pessegueiro não pôde falar:
sacudiu os braços orvalhados
e chorou…
No quadro da janela ficou pairando
como o primeiro vagalume do mundo
um sorriso branco e vermelho.
(1956)
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