Marcos e o barco

Marcos voltou com seu barco

após dias perdidos

no bojo do mar.

E sentado chorava

o vazio samburá.

A brisa marinha

afaga o seu rosto:

Marcos, por que chorar?

Teu trabalho foi ganho

teu gesto fez o mar.

Mansamente veio a noite

e já não parecia

tão sombrio o pescador

tão vazio o samburá.                                    (1957)

Ondas e navios

O tempo está me fitando

com sua cara deslavada.

Fecho os olhos, ele profana

o interior de minhas pálpebras.

Persigo esse tempo,

quero agarrá-lo,

quero matar o tempo.

e ele vem e ri.

Está e não o vejo

corre e não o apanho.

Entra em meus olhos

sai de meus ouvidos,

torna a entrar pelo nariz,

invade-me as entranhas.

Eu não o sinto

mas ele escalva

deslavadamente.

Aqui ergue uma ruga,

ali estraga um órgão,

no coração uma angústia,

no fígado,

uma ira inconsequente.

Devo esquecer que há o tempo.

Inútil tentar compreendê-lo.                                    (1957)

Poema da terra

Amigos, amemos a terra,

antes que ela desapareça

ou nós.

Tem sido boa conosco

fecunda e de gordos proventos

para a nossa irrisória fragilidade.

Amemos a terra,

velha que já foi moça

e agora vai morrer.

Carece de um instante de amor

antes da última neblina.

Amigos que amais tantas coisas tolas

tudo isso é nada sem a terra.

Amemos

essa pobre e boa criatura.

                                               (1957)

Janela

É bom ter uma janela para a rua

e ver como o azul do céu

anda estragado com riscos pretos

de fios elétricos.

Ver a rua mentirosa

assumir um ar estupefato

à passagem dos motores.

É bom ter uma janela para a rua

e convidar os mendigos

que tecem nas retinas

a serenidade de esperar

que o impossível aconteça.                                                (1956)

Poema do Outro

O vento levantou-se de manhã

vestiu-se todo de azul

pôs um botão de sol

a passear pela roupa

e saiu devagarinho

sorrindo para todos.

Entrou no jardim

sem passar pelo portão

derrubou uma porção

de gotas de orvalho

pisando por tudo

enquanto nos canteiros

as florinhas se inclinando:

– Bom dia, senhor vento!

   Como vai?

– Vou bem, vou muito bem.

   Obrigado!

– Vai passear hoje?

– Não, minhas flores,

   (e com um sorriso)

   Vou amar.

Vi  ontem um pessegueiro

que nesta primavera

não pôde florir.

Há também numa janela

como um vaso de terra seca

um homem que nunca sorriu.

– Nunca sorriu?

– Nunca. E eu quero levar aos dois

um grão da alegria dos outros.

Eu queria…

levar-lhes perfumes de flores!

– Pois não, senhor vento,

   leve quanto quiser.

*****

O vento saiu todo de azul

com os braços tão cheios de perfumes

que os ia perdendo pela estrada

despertando risos das pedras

e ligeiro balanço das folhas.

De mansinho

chegou-se ao pessegueiro

chegou-se ao homem triste

e lançou-lhes na face

a alegria das flores.

O pessegueiro não pôde falar:

sacudiu os braços orvalhados

e chorou…

No quadro da janela ficou pairando

como o primeiro vagalume do mundo

um sorriso branco e vermelho.

(1956)

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