Memórias da Revolução de 1923

Já que estamos no centenário da famigerada Revolução de 23, tenho uma preciosidade para mostrar. É um registro feito por meu pai num pequeno caderno de memórias, contando a sua “difícil escalada do autodidatismo”.

É uma narrativa que dá uma ideia nada glorificante dessa revolução, mostrando como ela doeu no cotidiano da vida das pessoas, como na de um menino que morava em Conceição do Arroio, hoje município de Osório. Transcrevo a história – de um modelo de narrador! – em sua versão literal.

Eu já estava com os meus 13 anos de idade quando então explodiu a revolução de 23… Revolução dos Ximangos e dos Maragatos. E com ela um verdadeiro pânico se espalhou por toda parte: eram os lenços vermelhos do Maragatos ou os verdes e brancos dos ximangos.

Se algum “grosso” (era assim que os agricultores eram chamados pelos almofadinhas da cidade), pois é, se algum grosso se atrevesse a usar qualquer uma dessas duas cores, cuidado, poderia dar-se mal, poderia esbarrar com alguém que usasse cor contrária à sua e aí, então, poderia haver provocação, briga e, não raro, morte.

Certa vez eu vi quando o seu Barcellos deu um tiro de revólver num “bêbado” causando-lhe morte instantânea e isso só porque o pretenso bêbado usava lenço de cor vermelha.

Outro dia vi, também, quando dois malandros jogaram um estopim aceso no seio de duas moças que passeavam tranquilamente abraçadas pela praça. Usavam vestido de organdi, um tecido fino e muito inflamável e num instante se viram envoltas em terríveis chamas. Uma delas, a Rosa, era filha do seu Crescêncio lá da esquina, pertinho da igreja… Felizmente as moças foram socorridas de imediato e por muita gente, a maioria curiosos que mais estorvavam do que ajudavam.

Ninguém ficou sabendo ao certo o motivo que levou esses dois malandros a perpetrarem tão execrando atentado; talvez as moças em questão usassem algum distintivo, o que era comum…

Os tarados jogaram o estopim e sumiram disfarçadamente no meio do povo. Era um domingo de manhã, dia da festa do Padroeiro. O padre só ia uma vez por ano para fazer a festa.

Qualquer boato de aproximação de alguma força era motivo de inquietação, pois os revolucionários requisitavam animais para a cavalgadura, gado, porcos, e mesmo aves eram levadas.

Amedrontados, os colonos escondiam os seus animais em lugares seguros, ou seja, no mato; não derramavam assim tão facilmente o seu sangue em combates estúpidos, se bem que os enfadonhos mosquitos do mato tirassem disso regular proveito.

Se o marido saísse de casa para fazer alguma compra ou a fim de negócio, a mulher ficava em casa chorando e rezando, porque o marido podia ser preso, levado à força por algum revolucionário ou mesmo poderia ser morto por algum fanático.

Certo dia um piquete das forças revolucionárias acampou nas imediações de nossa casa e logo lançou os seus tentáculos em todas as direções; eram soldados mal-encarados que buscavam animais para a montaria, gado, porcos e mesmo aves eram levadas, para comer.

A nossa casa não seria uma exceção; também nós fomos molestados pelos esbirros das forças.

Chegaram de quatro. Eu estava na frente da casa:

– Boa tarde, menino. – Eram eles.

Voltei-me:

– Boa tarde.

– Cadê o teu pai?

– Meu pai está descansando.

– E tua mãe?

– Minha mãe também está descansando.

– E cadê a vaca?

– A nossa vaca morreu – respondi, e era mentira, a vaca estava escondida no mato.

– E quando foi que a vaca morreu? – insistiu o homem da revolução.

– Faz tempo.

– E o cavalo, está gordo?

– Nós não temos nenhum cavalo – respondi.

– E aquilo lá, o que é? Não é um cavalo?…

– Aquilo lá não é um cavalo, é uma égua – respondi. A égua estava pastando solta no potreiro.

Aquele que parecia ser o “chefe do bando” ordenou aos outros três que fossem repontar a guexa e eles foram…

E eu, para aquele que ficou esperando pelos comparsas:

– Como é o seu nome?

– Meu nome é “Leva Tudo” – respondeu-me ele.

– Eu posso ir junto, então? – ofereci-me. – Eu sei montar e também atirar.

– Vai te criar primeiro, pirralho – respondeu-me o soldado. – Isso não é brincadeira de criança…

– Mas isso é um absurdo – observei eu. Mas de nada adiantou a minha oposição… E lá se foram os quatro: dois encarapitados no lombo da égua e dois a pé, e eu aqui, plantado, a olhar com um misto de ódio e de raiva para aqueles quatro patifes que se perdiam na curva da estrada…

Não chamei o papai porque ele podia protestar e acabar sendo preso e levado. Não, eu não queria que algo de ruim acontecesse para o meu pai, por isso não o chamei… Quando acordou contei-lhe tudo o que havia acontecido. Ele não disse nada, mas ficou visivelmente aborrecido, nervoso… Mesmo quem era eu, um “porqueirinha” de apenas 13 anos de idade, para me oferecer para ir junto?…

Só depois de cinco meses a égua foi encontrada, lá nos campos do Caconda; estava seca de magra. Era assim: quando um animal cansava soltavam-no e pegavam outro. Aconteceu com o Juca. Ele foi à venda com uma garupeira de feijão para vender; lá tomaram-lhe o cavalo e em troca deixaram-lhe um “pele e ossos”. Mais tarde apareceu o legítimo dono e o levou. E o Juca ficou sem cavalo…

Cores, aromas e sabores de vinho

Acabo de ser designado, com muita honra, Embaixador dos Vinhos de Caxias do Sul! Para demonstrar que tenho, sim, uma relação estreita com os vinhos, dou algumas dicas de como saboreá-los, coisas que aprendi na aula de um sommelier, na Escola de Gastronomia da UCS.

Na linguagem dos apreciadores, degustadores, sommeliers e enólogos, a descrição dos traços característicos de cada vinho leva em conta três aspectos: a cor, o aroma e o sabor. Nessa ordem: primeiro se olha o vinho, depois sente-se seu aroma e, por último, capta-se o seu sabor em diversos pontos da cadeia gustativa instalados na boca.

Raramente os vinhos têm o aroma e o sabor da uva fresca: isso ocorre apenas com os moscatéis. Por isso é difícil reconhecer os traços próprios de um vinho, maior problema enfrentado na degustação. Para identificar esses traços há duas escolas: a europeia e a norte-americana.

A escola europeia estabeleceu o uso de termos genéricos, de cunho mais racional, para descrever tanto o aroma quanto o sabor: robusto, delicado, frutado (quando jovem), complexo (quando maduro), leve, seco, macio, encorpado etc. Para qualificar a cor: densa, leve, concentrada, diluída etc.

Uma invenção norte-americana foi a de comparar os matizes do vinho com outras substâncias de aromas e sabores bem definidos, como frutas, flores, especiarias e vegetais. Assim, na Europa, um Cabernet Sauvignon pode ser descrito como “leve e macio, com traços de acidez”. Nos Estados Unidos vai-se falar dele como contendo “sabor de morango, framboesa, cereja e cravo, sobre um fundo de baunilha e chocolate tostado, com algo de amêndoa”. Este estilo retórico tem sido em geral adotado pela maioria dos países não europeus

Para mostrar a fluidez com que essas descrições são feitas, cito dois casos pessoais. Numa vinícola aqui da Serra, fui convidado a degustar um Sauvignon Blanc de colheita tardia. O enólogo foi enumerando os sabores que eu poderia encontrar: ameixa, cravo, canela, cereja etc. Quando ele terminou, assumi um ar de connoisseur e disse: “e evoca também um sabor de mel silvestre”. O enólogo me cumprimentou e anotou minha observação num caderninho…

O outro caso foi numa “bodega” no Chile. Depois de eu provar o vinho o enólogo me perguntou: “Que lhe parece?” Fechei os olhos procurando os sabores e finalmente disse: “é bem complexo, mas no fundo, no fundo, tem um sabor cru que lembra o da seiva da videira”. Ele se voltou para a guia que nos acompanhava e disse: “Vê, ninguém tinha percebido isso!”

Outra dica importante é a de que em cada país aqui do Cone Sul existe uma variedade de cepa que melhor se adaptou, embora em todos eles sejam cultivadas dezenas de espécies. No Chile é o Carmenère, na Argentina é o Malbec, no Uruguai é o Tannat, e na Serra Gaúcha, incluindo Caxias do Sul, é o Merlot, meu preferido.

A Serra Gaúcha, dado o relevo e o solo, destaca-se também pelas uvas brancas: Riesling, Gewürtztraminer, Sauvignon Blanc e moscatéis em geral. Nos últimos anos, essas variedades têm sido usadas para a produção de espumantes, hoje de sucesso mundial.

Como prova, cito outro caso pessoal: numa cantina da região, acompanhando um grupo de professores franceses, foi oferecido a eles um espumante. Fiquei tenso. Como iria reagir essa gente vinda da terra do champanhe? O primeiro que levou a taça à boca, observado pelos colegas, fez um ar deslumbrado e exclamou: “C’est très, très bon!”. Todos eles então provaram e pediram para repetir.

Não esqueçamos, portanto, os Vinhos, Sucos de Uvas e Espumantes de Caxias do Sul, que tiveram uma festa com muitos prêmios, e muitas cores, aromas e sabores, no final do seu XXVI Concurso!

A permanência da GAUCHESCA

Em meio aos festejos capitaneados pela data de 20 de setembro, trago à tona algumas das ideias que escrevi, décadas atrás, sobre a “permanência da Gauchesca”.

A gauchesca, sinônimo de cultura do gaúcho, tem início em meados do século dezenove, quando as correntes migratórias de origem europeia, que iriam constituir as zonas coloniais, apenas começavam. A única cultura existente era a do gaúcho da campanha, o forjador da província. Mesmo a cultura urbana era então incipiente.

O habitante da cidade vivia na época uma situação híbrida, como observa Carlos Dante de Moraes (1909-1982), consagrado historiógrafo e ensaísta santa-mariense, referindo-se aos idos de 1925, em ensaio publicado em 1954:

Constituía fato comum a troca, em dado momento, da bengala empunhada por mão em que brilhava o anel de formatura, e do traje elegante da moda, pela bombacha, o pala e a espada.

Essa cultura trazia o estigma poderoso de vir das origens, com a chancela dos heróis civilizadores, dos criadores da província. A vida rude, seja do labor guerreiro, seja do cotidiano, o risco e a vigilância contínuos, mais os deslocamentos que ampliavam horizontes, tudo isso gerou um ethos que se tornaria coletivo e que, antes de ingressar na literatura, se fez patrimônio popular. Carlos Dante de Moraes aponta os escritores românticos como criadores do tipo gaúcho, depois de alguma indecisão, provocada pelo romance indianista de José de Alencar. Aponta como sinal dessa indecisão o fato de o escritor Apolinário Porto Alegre (1844-1904) evitar o termo gaúcho, que identificaria como um personagem “dúbio e malsinado”, em seu romance O Vaqueano, de 1872.

No entanto, o termo seria dúbio e malsinado talvez apenas para a classe urbana e culta. A poesia popular, de que dão prova os cancioneiros, já havia criado um mito e projetado seu ethos, feito de liberdade insofrida, de gosto pelo viver difícil, de exaltação da coragem e de afirmação da individualidade. A poesia e a ficção culta reproduziram depois a visão lírica e a gesta épica, contidas nas quadras e nos causos de galpão.

O fato de haver se transformado em mito cultural é que garante a permanência da gauchesca. As mudanças culturais que se processam a partir, principalmente, da década de 1920, dando origem à criação de um novo tipo social rio-grandense, de trajes urbanos e andando a pé, não afetam a gauchesca. É verdade que na literatura ela se transforma, e passa conviver com outras manifestações de cunho universalizado. Como escreveu Ivan Pedro de Martins no romance Fronteira Agreste (1954), parecendo dar a clarinada fúnebre de um ciclo que se extingue: “O gaúcho já não é o homem montado”.

Apesar de tudo, o “gauchismo” permanece como um elemento da cultura rio-grandense. Talvez a antropologia, pela observação de certos comportamentos, possa dizer se, e em que medida, os grupos provindos de migrações tardias entroncaram nesse espírito comum, assumindo como próprio o modo de ser gaúcho. Essa tendência a incorporar o mito gauchesco seria reforçada com a criação dos Centros de Tradições Gaúchas em todas as regiões de imigração, difundindo a bombacha, o churrasco, o fandango e o bom chimarrão…

Devo dizer também que foi em reação a esse comportamento monocêntrico que tomei a decisão de pôr outra cultura gaúcha em cena nos meus romances: a criada por imigrantes que, depois de ter passado por uma Babilônia político-cultural, se firmou como uma contribuição diversificada para o patrimônio cultural gaúcho. E brasileiro.

Santa Tereza: patrimônio histórico-cultural

Exatamente no dia 5 de novembro de 2010, o município de Santa Tereza, emancipado de Bento Gonçalves em 1992, teve aprovado o tombamento da sua paisagem urbana pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Foram incluídos na área de preservação o seu espaço urbano e a paisagem de entorno.

Faz parte de minha história pessoal ter sido Supervisor do projeto de tombamento dessa “Pequena Capital”, como a denominei. Um motivo a mais para aumentar minha aflição com a ameaça da enchente do rio Taquari, que margeia a pequena cidade. Foi um alívio saber que representantes do IPHAN visitaram Santa Tereza para avaliar os estragos provocados pela inundação e que, como resultado, concluíram que, apesar de ter havido algumas perdas irrecuperáveis, é possível ainda a restauração da maior parte do centro urbano.

O perfil arquitetônico da cidade é único, resultante de um período em que o comércio do porto de Santa Tereza com a capital criou ali um núcleo urbano importante, diferenciado das demais sedes de colônia de então. Essa personalidade própria é mais um trunfo com que conta Santa Tereza ao se juntar ao seleto grupo das cidades históricas brasileiras.

A história de Santa Tereza (a grafia com z respeita documentos de origem) tem início com a criação da Colônia Dona Isabel, que foi dividida em 43 Linhas, na direção da sede, hoje Bento Gonçalves, até o rio Taquari. Como ficava mais distante, Santa Tereza começou a ser ocupada alguns anos mais tarde, em 1882, por famílias de imigrantes do Norte da Itália: esse é o motivo de a sopa de agnolini ser ali chamada de capelèti…

Conforme consta no Livro Tombo da Paróquia local, em 1885 é que foi fundado o povoado designado Santa Tereza, por ato do chefe de Comissão de Terras que destinou alguns lotes à beira do Taquari para esse fim. Essa decisão pode ser vista como um sinal de que já na época de ocupação das terras houve a percepção de que havia ali um ponto estratégico para o comércio da produção agrícola. O rio Taquari fazia ligação direta com a capital, Porto Alegre, e o povoado de Santa Tereza ficava na junção de duas colônias de imigrantes: a de Dona Isabel, e a de Conde d’Eu, hoje Garibaldi.

Como acontece com todo porto, por pequeno que seja, ele sempre se transforma num local de troca, não apenas comercial, mas também de saberes, de técnicas e de costumes. Foram essas trocas – nas técnicas de ferraria, de trabalho com a madeira, de formas de construção – que acabaram por conferir a Santa Tereza sua fisionomia urbana, reconhecida como de valor histórico.

A vitalidade comercial de Santa Tereza, iniciada no final do século dezenove, começou a decair na década de 1940. Esse processo de queda é atribuído a dois fatores: o assoreamento cada vez maior do Taquari, dificultando o uso de embarcações, e a abertura da “estrada federal”, a BR-116, que desviou todo o tráfego comercial das colônias italianas da Serra Gaúcha. Outro efeito do assoreamento era o risco de inundações, como a já ocorrida em 2001, que chegou a invadir a praça da igreja matriz.

Pela sua história, a cidade se constitui como referência cultural também no plano do patrimônio imaterial, com seus ofícios, fazeres e celebrações. Respeitar esse passado se torna mais fácil quando ele pode ser visto, concretamente, na paisagem urbana. É esse mundo quase encantado que Santa Tereza convida a visitar, assim que ela se recuperar dos danos que acaba de sofrer.

A força do Rio das Antas

Com o Rio das Antas ganhando noticiário nacional, depois que a água da enchente arrastou a ponte de ferro entre Farroupilha e Nova Roma, uma ponte com noventa anos de idade, é interessante relembrar a história desse rio, pelas margens do qual até Giuseppe Garibaldi desceu a cavalo, junto com sua Anita e o filho.

Vinte anos depois dessa ponte de ferro, foi construída, entre Bento Gonçalves e Veranópolis, a ponte Ernesto Dornelles, em arco, sem pilares dentro do rio, numa sábia precaução contras possíveis enchentes. É uma das maiores pontes do mundo nesse formato.

Balduíno Rambo (1906-1961), jesuíta de origem alemã que se notabilizou como botânico e geógrafo quando professor da Ufrgs, sobrevoou todo o vale do Rio das Antas em 1940 e fez dele uma descrição em seu livro A Fisionomia do Rio Grande do Sul, publicado em 1942:

O Rio das Antas – como o Caí e o dos Sinos superior – se acha profundamente cortado e escavado até além do fundamento de arenito. Em consequência disso a acidentação do terreno é máxima perto desses rios. […] A do Rio das Antas, com seus numerosos afluentes, é menos profunda, mas mais abrupta e selvagem.

Entre 2007 e 2008, quando da construção das três usinas hidrelétricas do Complexo Energético Rio das Antas (Monte Claro, Castro Alves e 14 de Julho), o Projeto ECIRS, da Universidade de Caxias do Sul, foi contratado para desenvolver o programa “Salvamento do Patrimônio Histórico e Cultural” da região. Foi uma excelente oportunidade para eu conhecer não só a geografia, mas também a história dos “peraus do Rio das Antas”, na forma popular de designação dessa área. Na obra resultante dessa pesquisa, ficou registrado: que “em resumo, percorrer o vale do Rio das Antas é oferecer uma festa para os sentidos”.

Mas também ficou esclarecido como se deu o povoamento das margens do rio pelos imigrantes. Quando se fez a distribuição de lotes coloniais na Colônia Dona Isabel (hoje Bento Gonçalves), e na Colônia Caxias, grandes áreas à margem do rio não foram demarcadas nem ocupadas, por ser uma área considerada imprópria para a agricultura, dado o relevo acidentado do terreno. Mario Sabbatini, um historiador italiano que estudou a região de imigração italiana por ocasião de seu centenário, em 1975, refere que só vinte anos depois da chegada dos primeiros imigrantes foram distribuídas as “sobras de terra” na Colônia Dona Isabel.

Também nessas áreas instalaram-se famílias polonesas, imigrantes tardias, cuja história foi registrada por João Ladislau. Wonsowski, no livro intitulado “Nos peraus do Rio das Antas” (UCS/EST, 1976). Eram poloneses vindos da região dominada pela Rússia e de outra ocupada pela Prússia. A estimativa é de que cerca de 250 famílias se estabeleceram nos dois lados do Vale do Rio das Antas. Mas como elas estavam acostumadas a trabalhar em terrenos planos, acharam muito difícil cultivar esses terrenos escarpados. E quase todos eles migraram depois para novas colônias, na localidade hoje conhecida como Casca.

Com o fenômeno conhecido como “êxodo rural”, que teve seu ponto máximo nos anos de 1970, as margens do rio foram sendo despovoadas, com as seguintes consequências, registradas no relatório do ECIRS:

“Com a evasão dos habitantes, desapareceram muitas marcas materiais de sua cultura. De um modo geral, toda a região do vale vem cedendo lugar a um reflorestamento natural, que vai recobrindo as antigas áreas de cultivo, de certa forma devolvendo ao olhar as características da paisagem de antes da colonização”.

Peripécias nunca faltaram nas margens do Rio das Antas…

Cansioniero Popolar – Volume III

Nesta semana, foi lançado pela EDUCS (Editora da Universidade de Caxias do Sul) o terceiro volume do Cansioniero Popolar (Cancioneiro Popular).

Trata-se de um projeto que visa celebrar o sesquicentenário da Imigração Italiana com a publicação do riquíssimo acervo de canções trazidas pelos italianos e registradas, em fitas gravadas, pelo Projeto ECIRS (Elementos Culturais da Imigração Italiana no Nordeste do Rio Grande do Sul), ao longo das décadas de 1980 e 1990. Está prevista a edição de cinco volumes, trazendo a público um acervo de mais de quatrocentos cantos populares.

A coleta de registro em áudio de cantos corais foi feita em áreas rurais de diversos municípios da Serra Gaúcha, entre eles Caxias do Sul, Farroupilha, Antônio Prado, Bento Gonçalves e Carlos Barbosa. Os cantos coletados foram transcritos em pauta musical e sua letra transcrita na língua original, o Talian, acompanhadas de tradução para o português. A grande mentora da colheita desse tesouro foi a professora e pesquisadora Cleodes Maria Piazza Julio Ribeiro, que agregou uma equipe competente e dedicada para o trabalho.

Em texto por ela assinado, presente no primeiro volume, estão estas observações e registros:

Os italianos, ao emigrarem para o Sul do Brasil, trouxeram em sua bagagem cultural um amplo repertório de canções populares. Esse repertório enriqueceu-se pela soma dos cantos das diferentes províncias de origem dos imigrantes e, ainda, pelo acréscimo de cantos compostos, quase sempre, por autores anônimos, na própria Região Colonial Italiana (RCI).

Ao longo de mais de cem anos esse repertório modificou-se. Sabe-se que muitas canções já desapareceram, permanecendo apenas na memória de alguns velhos que já não sabem cantá-las. Lembram-se, apenas, de fragmentos dos versos. Por outro lado, aqui foram inventadas, muitas vezes, letras novas para melodias antigas. […] A fundação de uma cooperativa, uma grande seca, a colheita da uva, a passagem dos revolucionários, a adesão das mulheres à moda dos cabelos curtos, ou outros fatos da vida cotidiana, deram motivo ao surgimento de muitas canções novas.

[…] A forma mais frequente de organização é a de coro de capela. Esses coros são formados por pessoas de ambos os sexos, de diferentes faixas etárias, habitantes de uma mesma localidade que se reúnem para cantar na missa do domingo. Do repertório desses grupos fazem parte os cantos sacros, mas, sobretudo, as velhas canções trazidas da Itália, ou aqui compostas e transmitidas de geração em geração.

[…] O Ecirs busca, dentro de sua perspectiva de trabalho, documentar todas as variantes significativas, tanto da letra como da música, conservando-as em sua forma primitiva. O confronto dessas variantes permite melhor se aquilatar o que foi o processo de aculturação local, neste como em outros segmentos da cultura.

Os três volumes publicados, como vai ocorrer com os próximos dois volumes, trazem impressos, de cada canção, os seguintes itens:

– transcrição musical digital;

– pauta musical manuscrita;

– transcrição da letra;

– tradução da letra, e

– fotos históricas.

Eles podem ser acessados por download, no site da Editora da UCS.

A publicação do primeiro volume teve o patrocínio do MOUSAI – Associação dos Amigos da Memória e do Patrimônio Cultural de Caxias do Sul. Os dois seguintes contaram com o patrocínio da Florense, empresa que é um modelo exemplar de apoio à produção e à preservação de bens culturais.

O lançamento do Volume III do Cansioniero Popolar foi bem festivo. Contou com a presença do cônsul italiano, mais a da rainha, das princesas e das embaixatrizes da Festa da Uva de 2024. Todos afinados com o início da celebração dos cento e cinquenta anos da imigração italiana.

A poesia de José Régio

Outra conferência marcante no Simpósio de Língua e Literatura Portuguesa, em 1968, no Rio de Janeiro, teve como tema A Poesia de José Régio. Foi proferida pelo Prof. Leodegário Amarante de Azevedo Filho (1927-2011), um ensaísta pernambucano de renome também em Portugal.

Começou justificando a escolha do poeta José Régio, um nome que ficou na sombra do nome de Fernando Pessoa, mas que pode ser considerado o mais importante para a difusão do modernismo na literatura portuguesa. E pôs na tela, pelo projetor, o esquema que iria desenvolver (e que copiei em meu caderno de anotações):

1) O Modernismo em Portugal

2) O grupo de Orpheu

3) O grupo de Presença

4) José Régio no grupo Presença

5) Análise literária e estilística da poesia de José Régio

6) Conclusões

Com a revista Orpheu, em 1914, inicia-se o modernismo em Portugal: dois números apenas saíram. Queriam “escandalizar o burguês”. Dela participaram Sá-Carneiro (que publicou “Dispersão” em 1913) e Fernando Pessoa. Na realidade, foi o legado estético do simbolismo que veio propiciar a estética modernista (isso também no Brasil): O “pauismo”, movimento de vanguarda criado por Fernando Pessoa, nome derivado da palavra “pauis” (pântanos), é puro simbolismo.

Em 1927, em Coimbra, surge a revista Presença, “folha de arte e crítica”. Dela participam J. Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. O objetivo da publicação, segundo seus idealizadores, era a “difusão dos postulados estéticos da Orpheu”.

José Régio foi o principal teorizador, com ensaios na revista “Presença”. E também o principal realizador, com a produção de poesia, de ficção (romance, novela e conto), teatro, ensaio e crítica.

O poeta José Régio – 1901/1969 (Foto: Divulgação)

Tem sete livros de poesia. Três “em curva ascendente” (Poemas de Deus e do Diabo, Biografia – sonetos, As encruzilhadas de Deus) e quatro “em curva descendente”, quando decai esteticamente (Fado, Deus é grande, A chaga do lado e Filho do Homem).

As características gerais de sua poesia, na fase ascendente, são:

– umbilicalismo: voltado para si mesmo o pronome na 1ª pessoa;

– dualismo barroco: círculos concêntricos;

– impossibilidade da fé;

– preocupação metafísica de busca do impossível (marca simbolista);

– angústia metafísica da solidão: a comunidade humana é impossível.

– dois polos permanentes: Deus e o diabo, de herança barroca, de concepção filosófica não uniforme: seu Deus ora é imanente, ora transcendente.

Já na fase descendente, as características são:

. temas do cansaço e da solidão

. veio sarcástico e satírico (em “Filho do Homem”)

. permanência da infância e da morte (veio barroco)

– dicotomia permanente entre: homem e poeta, poeta e mundo, poeta e sua época, poeta e diabo, tempo e eternidade, altura e abismo, poeta e Deus.

Em resumo, concluiu o Prof. Leodegário, transforma-se em um monocórdico. Mas, mesmo assim, merece um lugar permanente ao lado de Fernando Pessoa.

Do verso em latim ao verso rítmico português

No dia 19 de janeiro de 1968, sexta-feira, às 10h, no Simpósio de Língua e Literatura Portuguesa, do qual participei no Rio de Janeiro, o tema foi: Da Quantidade Latina ao Verso Rítmico Português.

E Silvio Elia (1913-1998) foi o minucioso detalhista dessa passagem. Foi quando aprendi que a métrica da poesia não é apenas uma receita de linguagem, mas tem tudo a ver com as ciências exatas, ao menos com a matemática e a geometria.

Para dar uma amostra dessa especialidade literária, transcrevo a seguir algumas das anotações que fiz sobre a versificação em latim, sem nenhum retoque.

– A métrica latina no período clássico era de natureza quantitativa. Isso se obtinha pela alternância de sílabas longas e breves.

– A cesura, na Eneida de Virgílio, é depois do quinto meio pé, e divide o verso em dois hemistíquios.

– Há ainda o tempo forte marcado com icto, ou sílaba tônica, dentro de cada pé (seis ictos em cada verso) coincidindo com a primeira sílaba de cada pé, gerando ritmo.

– O ritmo é mecânico: é uma batida no tempo forte.

– Há também o ritmo vocal: é feito pela pronúncia com mais força da sílaba longa (tem caráter intensivo e não musical).

– O icto vocal só começou a aparecer mais tarde, no século III D.C., transformando de intensivo em musical o acento da palavra.

– Houve então um choque de ritmos: ou o icto do pé, ou o acento tônico. Os poetas latinos teriam procurado fazer coincidir os dois acentos (no que os estudiosos divergem). Seria o caso de Plauto e de Terêncio, autores de teatro popular, para ser ouvido.

– No exemplo que dou, o icto e a tônica não coincidem sempre. A estrutura final do hexâmetro exige um dáctilo e um troqueu que “caem” tonicamente, isto é, perdem a força tônica.

– Na poesia medieval cai o ritmo quantitativo, uma vez que a noção de quantidade começa a esvair-se com as vogais átonas.

– De Plauto a Ambrósio a métrica quantitativa ainda é usada. Mas desde o séc. III na África, o séc. IV na Itália e o séc. V na Gália já há versos somente acentuais.

– Há no início da Idade Média poesia quantitativa, mas apenas de doutos: exigia estudos estafantes. É uma poesia artificial, como a do Renascimento.

– A época e o processo de toda essa transformação ainda oferecem muitas dúvidas.

– O meio transmissor da poesia acentual foi o povo, que deu a ela fluência e harmoniosidade. Contribuíram para isso as festas religiosas com seus hinos. Depois isso passou ao lirismo do amor profano.

Essa foi a primeira metade da conferência. Na outra metade, Sílvio Elia mostrou como foi construído o ritmo da poesia em português, em mais um show de erudição.

O Estruturalismo entra em cena

Voltando ao II Simpósio de Língua e Literatura Portuguesa, realizado no Rio, em janeiro de 1968, outra conferência marcante registrada em meu caderno de anotações foi a de Luiz Costa Lima, sobre Estruturalismo e Crítica Literária. No final da palestra, que começou às 16 horas do dia 17 de janeiro, escrevi este elogio:

Costa Lima foi muito claro na exposição. É muito jovem, nasceu em 1937. Na tarde quentíssima, aguentamos 3 horas de “suadouro”.

Ele havia recém concluído um estágio na França, onde teve contato com o uso do estruturalismo, criado pelo suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), no campo das ciências humanas. O primeiro a aplicar esse método foi Lévy-Strauss, nos seus estudos de Antropologia, pelos seguintes motivos (de acordo com as anotações!):

1. O método estruturalista pretende apreender a lógica do sensível, e não a da representação racional.

2. O homem é tomado como objeto de estudo observável em seus produtos, não em suas ideias.

3. Lança um repto à construção filosófica, que visa de cima as coisas, a partir de categorias racionais. O estruturalismo parte de baixo: não para investigar a natureza mas os conjuntos humanos, onde ele (homem) é mais detectável. Com isso, Lévy-Strauss, ao buscar uma lógica do sensível, se afasta do atomismo de Malinowski e da teoria evolucionista.

Da Antropologia, o estruturalismo migrou para a Crítica Literária. Na França, passaram a fazer crítica estruturalista nomes como Roland Barthes e Gérard Genette. Costa Lima se expandiu em descrever os métodos dessa Nova Crítica, com frases como esta:

Só um tipo de objeto é estrutura: aquele que, tendo uma rede interna, revela uma série de articulações observáveis, cujos limites não são atingíveis à primeira vista: são objetos problemáticos a serem problematizados.

Finda a explanação, o Professor Aloisio J. de Faria levantou o seguinte problema:

O estruturalismo lança um repto à filosofia por suas categorias racionais apriorísticas. Mas, olhando de perto, o estruturalismo não é também apriorístico, categorial, embora partindo do sensível? Dá a impressão de um kantismo sem sujeito transcendental.

Luiz Costa Lima sorriu, reconhecendo que o problema existe, mas que não sabe responder.

Em meu caderno, fiz este comentário: o estruturalismo, segundo depreendo, é antes de tudo um método de trabalho, que visa o estudo do concretamente observável, reptando inclusive o método filosófico, categorial. E escrevi esta pergunta, que não cheguei a formular ao jovem conferencista: – Poderia explicitar por que a obra de arte literária é objeto possível do método estruturalista?

Pergunta que tive ocasião de formular com todas as letras, dois ou três anos depois, no Mestrado em Letras da PUC-RS. Não me transformei num estruturalista radical, mas aprendi muito com o estruturalismo…

Os melhores vinhos de Caxias

Um importante evento está chamando a atenção de todos para os vinhos produzidos em Caxias do Sul. Trata-se do 26º Concurso dos Melhores Vinhos, Sucos e Espumantes, ainda em andamento.

É um evento de suma importância porque quase todo mundo esquece que o município, hoje um famoso polo metal-mecânico, em nível internacional, continua cultivando os produtos que deram origem à indústria local, e também à sua cultura. Por sinal, o atual concurso está sendo realizado em São Romédio, que já foi chamado de “berço de Caxias”, porque foi o primeiro núcleo urbano da cidade, e a Igreja local foi declarada Patrimônio Histórico e Cultural do Estado.

O Concurso é promovido pelas cantinas do município, que integram a Rede de Vinícolas de Caxias do Sul – Revinsul, e pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Smapa, com vários patrocinadores.

Para dar ideia da dimensão a que chegou esta edição de 2023, vão alguns dados:

– 39 vinícolas caxienses participam do concurso, e concorrem a quatro Troféus: Grande Ouro, Ouro, Prata e Bronze, em diversas categorias;

– 295 amostras foram inscritas, número recorde do evento, em vinhos de diversas variedades viníferas, nas categorias de tinto, rosé e branco, mais os sucos e espumantes (brut e moscatel);

– 27 profissionais fizeram a degustação, no dia 25 de julho: os avaliadores foram divididos em três bancas, degustando vinhos de mesa, sucos e espumantes.

O próximo passo será a festa de divulgação dos premiados, também na localidade de São Romédio.

Na grande maioria, as vinícolas participantes são familiares, o que mostra que as raízes plantadas um século e meio atrás continuam dando fruto. E em cada uma delas persiste a busca pela inovação e o investimento na qualidade dos vinhos. Uma e outra, inovação e qualidade, são os objetivos testados no Concurso.

Não apenas dou meu aplauso a esta 26ª edição do Concurso de Melhores Vinhos de Caxias do Sul: sou um inveterado apreciador dos vinhos aqui produzidos. Minha cantina predileta está também participando da degustação, e tenho certeza de que ela vai fazer bonito. Como sempre fizeram bonito os vinhos de Caxias do Sul.

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