Era uma vez um jacaré que morava na lagoa. Perto da lagoa morava um homem. Cada vez que o homem ia nadar na lagoa o jacaré batia com o rabo na água e fazia: Nhaque! Nhaque! Nhaque! Aí o homem saía correndo, morto de susto. E dizia: – Deixa estar, jacaré. Um dia a lagoaContinuar lendo “O JACARÉ DA LAGOA”
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O DECAMERÃO
Impossível, nesta época de fuga de contágios, não vir à tona da memória a obra imortal de Giovanni Boccaccio, o Decamerone, que na tradução para o português se chama O Decamerão. Ela teve tanta força na literatura italiana que foi apelidada de “Comédia Humana”, para colocá-la no mesmo pedestal da “Divina Comédia” de Dante Alighieri. Continuar lendo “O DECAMERÃO”
Desejo
Eu quisera, Amor, que chegasses qual um pobre cheia do pó das estradas para poder te servir. Eu quisera que viesses como o sol da manhã e eu abrindo a janela te convidaria a entrar. Eu quisera que viesses suave e simples como as águas. E tu vens como um vendaval. (1957)
Tanto mundo
Tanto mundo e tão pouca vida. Tanto mundo e eu tão curto. Meu Deus em não compreendo porque um tão grande mundo que nunca irei conhecer. Tanto mundo, e eu tão pouco. (1957)
Marcos e o barco
Marcos voltou com seu barco após dias perdidos no bojo do mar. E sentado chorava o vazio samburá. A brisa marinha afaga o seu rosto: Marcos, por que chorar? Teu trabalho foi ganho teu gesto fez o mar. Mansamente veio a noite e já não parecia tão sombrio o pescador tão vazio o samburá. Continuar lendo “Marcos e o barco”
Elegia branca
Esta foi a primeira e a última rua da minha vida, a rua em que passou silencioso o esquife daquela criança vestida de branco e alegre e que eu chamava minha irmã. Foi a única rua que eu vivi. (1957)
Ondas e navios
O tempo está me fitando com sua cara deslavada. Fecho os olhos, ele profana o interior de minhas pálpebras. Persigo esse tempo, quero agarrá-lo, quero matar o tempo. e ele vem e ri. Está e não o vejo corre e não o apanho. Entra em meus olhos sai de meus ouvidos, torna a entrar peloContinuar lendo “Ondas e navios”
Poema da terra
Amigos, amemos a terra, antes que ela desapareça ou nós. Tem sido boa conosco fecunda e de gordos proventos para a nossa irrisória fragilidade. Amemos a terra, velha que já foi moça e agora vai morrer. Carece de um instante de amor antes da última neblina. Amigos que amais tantas coisas tolas tudo isso éContinuar lendo “Poema da terra”
Ode
Os sinos da rua brincam nas carroças que trazem de manhã verduras e leite. Ai, tempos meninos. A doce manhã destilava silenciosamente a clara e funda alegria do café de cada dia. (1956)
Janela
É bom ter uma janela para a rua e ver como o azul do céu anda estragado com riscos pretos de fios elétricos. Ver a rua mentirosa assumir um ar estupefato à passagem dos motores. É bom ter uma janela para a rua e convidar os mendigos que tecem nas retinas a serenidade de esperarContinuar lendo “Janela”