Todo o mundo é composto de mudança, lamentava Camões, que depois de uma certa idade, como nós, também não conseguia se acostumar com a idéia da fugacidade das coisas. O pior, dizia ele no final do soneto, é que até a mudança muda: nem ela muda mais como antigamente, nem ela é mais “como soía”.Continuar lendo “BALUARTE”
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Padre Giobbe
Padre Giobbe pôs em operação, item por item, seu método para descer do automóvel, como se tivesse o corpo dividido em partes. Escancarou a porta, pôs para fora a bengala e depois, com os dois pés no estribo, girou sobre as nádegas o corpo velho e pesado. Segurou-se então com força na bengala e deuContinuar lendo “Padre Giobbe”
A ERA DO APRENDIZADO
Na década final do século passado tornou-se convicção geral de que havíamos entrado na sociedade do conhecimento. O argumento básico para essa convicção, que se tornou lugar comum e quase uma crença, era o de que o conhecimento tinha passado a ser o principal fator de produção e de desenvolvimento, como tinham sido a matéria-prima,Continuar lendo “A ERA DO APRENDIZADO”
TOLERÂNCIA ZERO
Acho que todos ainda se lembram de que foi com este mote – Tolerância Zero – que o lendário prefeito Giuliani fez Nova Iorque despencar no ranking das cidades de maior criminalidade no mundo. Mas muitos imaginam que a Tolerância Zero tenha sido nada mais, nada menos, que pôr a polícia nas ruas e encherContinuar lendo “TOLERÂNCIA ZERO”
AS CERCAS DO MEDO
Um grupo de pesquisadores que percorre as zonas rurais de Caxias do Sul, atualizando o inventário do patrimônio cultural e paisagístico dessas localidades, está surpreso com um fenômeno. Os moradores estão com medo de abrir as portas e conversar com os visitantes, temendo estarem sendo vítimas de assalto. A qualquer movimento que percebem, vindo deContinuar lendo “AS CERCAS DO MEDO”
DÁBLIU E DOBRE VÊ
Quando o, na época, assim chamado esporte bretão invadiu o Brasil, junto com ele o país foi inundado por uma enxurrada de palavras inglesas. Os jornais e os speakers de rádio (hoje chamados de locutores) falavam em penalty, center-forward, referee. Umas dessas palavras, com o tempo, simplesmente se aportuguesaram, como pênalti, córner, beque e aContinuar lendo “DÁBLIU E DOBRE VÊ”
O TREM DO PAPAI NOEL
Faltava só uma semana para o Natal. Papai Noel tinha recebido encomendas do mundo inteiro, do Polo Norte até o Polo Sul: eram pedidos de bonecas, de carros, de roupas, de livros, de sapatos e muita coisa mais. Papai Noel já tinha conferido na sua lista esses pedidos, para ver quais vinham de crianças bemContinuar lendo “O TREM DO PAPAI NOEL”
UM OLHAR CARINHOSO
A República, no Brasil, sempre tratou o Império, e a memória do Império, não apenas com maus modos, mas também com maus bofes. É como se o estouvamento fosse necessário para ser republicano, como o refinamento era a marca do gosto imperial. Esse contraste está num poema de Murilo Mendes, quando ele imagina aContinuar lendo “UM OLHAR CARINHOSO”
ONDE ESTÃO AS HISTÓRIAS
Na primeira vez em que me encontrei com Ignácio de Loyola Brandão, perguntei se ele era mineiro. É claro que se eu prestasse atenção nas orelhas de seus livros, não faria a pergunta. Mas, sei lá por que razão, seus romances sempre me passaram a impressão de haver neles um olhar mineiro, pousado sobre osContinuar lendo “ONDE ESTÃO AS HISTÓRIAS”
O QUE É SÓLIDO DESMANCHA
“Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Essa frase do Manifesto Comunista de 1848 dava idéia de como Marx e Engels estavam espantados com as mudanças que começavam a ser introduzidas pela modernidade. Uma frase mais profética do que real: o mundo estava ainda muito sólido naquele ano do Manifesto. Um século e meioContinuar lendo “O QUE É SÓLIDO DESMANCHA”