É outono. Tudo está diluído e sereno. As arestas adoçadas. Sereno é o azul, as nuvens, serena a luz, serena a montanha e a névoa, serenos os meus olhos, sereno também o meu rosto, mas o coração não está. (1960)
Arquivos da tag:poesia
O cipreste
Planto meu cipreste num copo de vidro: assim cultivo a árvore que irá sombrear minha campa. Do copo de vidro afinal diminuto planto-o num vaso que é de barro e se quebra. Planto-o então num vaso de ferro feio e in quebrável e morre o meu cipreste antes que eu mesmo. (1959)
As muletas
Além (e) aquém (e) dentro (e) fora ao redor (e) sobre e toc e toc vão as muletas de meu verso tateando pelos espaços, tudo buscando situar. Amarei mais sabendo como um topógrafo o local preciso das coisas no giroscópio do universo? Mas como despegar-me das muletas sem tombar paralítico, com a nebulosa silabação dos guardadores de estrelas? Continuar lendo “As muletas”
A chave e a mão
Tem a palmeira a chave de si mesma? Sabe o pássaro onde a sua porta? Em que pedra ou caverna deverei cavar minha chave? Enquanto apenas conjeturo vou batendo em portas fechadas com seu mistério particular: o dente cravado na gengiva o azul de certos olhos o grosso cimento de tua casa as verdes batatasContinuar lendo “A chave e a mão”
Pássaro
Sou pássaro de um mundo invisível voando no céu deste mundo visível amando o sol deste mundo aprendendo a beleza nem espelho (sou um menino que estuda a vida Nas letras coaguladas da cartilha). Um dia retornarei. Pássaro e menino reencontrarei a sombra da árvore insecular. (1958)
Desejo
Eu quisera, Amor, que chegasses qual um pobre cheia do pó das estradas para poder te servir. Eu quisera que viesses como o sol da manhã e eu abrindo a janela te convidaria a entrar. Eu quisera que viesses suave e simples como as águas. E tu vens como um vendaval. (1957)
Tanto mundo
Tanto mundo e tão pouca vida. Tanto mundo e eu tão curto. Meu Deus em não compreendo porque um tão grande mundo que nunca irei conhecer. Tanto mundo, e eu tão pouco. (1957)
Marcos e o barco
Marcos voltou com seu barco após dias perdidos no bojo do mar. E sentado chorava o vazio samburá. A brisa marinha afaga o seu rosto: Marcos, por que chorar? Teu trabalho foi ganho teu gesto fez o mar. Mansamente veio a noite e já não parecia tão sombrio o pescador tão vazio o samburá. Continuar lendo “Marcos e o barco”
Ondas e navios
O tempo está me fitando com sua cara deslavada. Fecho os olhos, ele profana o interior de minhas pálpebras. Persigo esse tempo, quero agarrá-lo, quero matar o tempo. e ele vem e ri. Está e não o vejo corre e não o apanho. Entra em meus olhos sai de meus ouvidos, torna a entrar peloContinuar lendo “Ondas e navios”
Poema da terra
Amigos, amemos a terra, antes que ela desapareça ou nós. Tem sido boa conosco fecunda e de gordos proventos para a nossa irrisória fragilidade. Amemos a terra, velha que já foi moça e agora vai morrer. Carece de um instante de amor antes da última neblina. Amigos que amais tantas coisas tolas tudo isso éContinuar lendo “Poema da terra”