Relendo as poesias dispersas de Joaquim Maria Machado de Assis, dei de frente com um poema exaltando o conhaque. Na época, em 1856, ainda se escrevia com a grafia francesa. No título, Machado acrescentou à palavra um ponto de exclamação seguido de reticências, para dar destaque e deixar suspeitas em aberto. Ficou assim: COGNAC!… Quando escreveu oContinuar lendo “Se beber, não dirija!”
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EPIGRAMAS (1962)
Da chatitude Chato chato chato tábua, cachorro esmagado, barata metida em fresta sem relevo, chato inteiramente lâmina estendida no chão quadro sem pintura papel sem inscrição tapete posto ao comprido chato e raso e plano lagoa de água parada espelho embaciado e cego prego mil vezes batido parede nua, o chato essência e essencial.
Sentimento da noite
Fechar a casa é fechar a vida de um dia. A noite é inconveniente. Permaneçamos pois fora dela as pudicas janelas fechadas a porta bem trancada. Não venha o ladrão nos roubar o sono. Ao redor da lâmpada acesa o nosso mundo construamos. A conversa disfarce o medo, defendamos nossa paz. Como meninos espantados façamos históriasContinuar lendo “Sentimento da noite”
Noturno
à noite chegam os animais temidos e se apossam da face da terra. Uivo algum atravessa o espaço e no entanto a alma se oprime. Nenhuma palavra pode ser dita. A nosso lado está o cavalo. Há um tremor na suada garupa e como nós não consegue fugir. (1960)
Aniversário
Celebremos o aniversário com grande sabedoria: ano somado ou diminuído mino ou maioridades são apenas traços no mapa. O que vale é manter o ritmo (ralentando ma non troppo) leve e disciplinado. No mais, meu caro amigo, perdoe a metafísica e receba a amizade no meu abraço incontida. (1960)
Falsa serenidade
É outono. Tudo está diluído e sereno. As arestas adoçadas. Sereno é o azul, as nuvens, serena a luz, serena a montanha e a névoa, serenos os meus olhos, sereno também o meu rosto, mas o coração não está. (1960)
O cipreste
Planto meu cipreste num copo de vidro: assim cultivo a árvore que irá sombrear minha campa. Do copo de vidro afinal diminuto planto-o num vaso que é de barro e se quebra. Planto-o então num vaso de ferro feio e in quebrável e morre o meu cipreste antes que eu mesmo. (1959)
As muletas
Além (e) aquém (e) dentro (e) fora ao redor (e) sobre e toc e toc vão as muletas de meu verso tateando pelos espaços, tudo buscando situar. Amarei mais sabendo como um topógrafo o local preciso das coisas no giroscópio do universo? Mas como despegar-me das muletas sem tombar paralítico, com a nebulosa silabação dos guardadores de estrelas? Continuar lendo “As muletas”
A chave e a mão
Tem a palmeira a chave de si mesma? Sabe o pássaro onde a sua porta? Em que pedra ou caverna deverei cavar minha chave? Enquanto apenas conjeturo vou batendo em portas fechadas com seu mistério particular: o dente cravado na gengiva o azul de certos olhos o grosso cimento de tua casa as verdes batatasContinuar lendo “A chave e a mão”
OS QUE NÃO RIEM
Foi Rabelais, o criador de Pantagruel, quem reabilitou o riso na cultura ocidental. Durante a Idade Média não se ria, o riso era considerado sinal de estupidez: de estultícia, como se escrevia na época. Rabelais, na contramão da Igreja e dos barões feudais, afirmou que “rir é humano”, expressão que entrou para a fala deContinuar lendo “OS QUE NÃO RIEM”