Quando chegamos a algum lugar, seja restaurante, consultório médico ou odontológico, festa, ou mesmo ainda antes de chegar a esse local, no ônibus, por exemplo, procuramos por uma cadeira vazia onde sentar. Sentar e esperar, sentar e conversar, sentar e ser atendido, sentar e se divertir, sentar e se deslocar. Ontem parei para pensar: essas cadeiras estão realmente vazias? E fiz algumas reflexões.
Faz pouco tempo (e acho que será sempre pouco tempo) que passei pela dolorida experiência de não ter mais o meu pai à frente de meus olhos. Ele está, e sempre estará, nos meus pensamentos e nos olhos da alma, mas não dá mais para olhar frente a frente e abraçar. Mesmo assim, a figura dele ainda ocupa espaço físico no nosso cotidiano.
Ele era o responsável pelos melhores churrascos nas reuniões de família. Contava que até tinha conquistado o amor da sogra quando preparou um churrasco para ela. E me preparou para conhecer a melhor carne, a estratégia de acender o fogo, o jeito especial de espetar e salgar a carne, o controle do ponto de assado. Quando ele partiu, assumi o posto de assadora da família. Neste último aniversário, até fui reconhecida por todos como “igualzita ao pai”. Amei!
Mas preciso dizer: cada churrasco preparado é antecedido de um cerimonial. Uma conversa com meu pai, pedindo os melhores conselhos. Também pedindo licença para estar no espaço que era só dele. Sei que tenho essa permissão, porque, caso contrário, ele não teria me ensinado tanto dessa arte. Mesmo assim, dói muito não termos essa conversa cerimoniosa de troca de cadeiras.
Tenho pedido licença a ele até para escrever. Estou arriscando a escrita de crônicas, campo em que ele era magistral. E, assim como para o churrasco, aqui também peço conselhos e escuto ele me dizendo: segue em frente, está muito bom. Só fico na dúvida se esse é um elogio de pai coruja, se o texto está realmente à altura do que ele consideraria publicável.
E mais o cantinho do sofá. O sofá grande, para três lugares, mas onde cabem quatro pessoas. O canto direito, pertinho do braço do sofá, era dele. Gostava de se apoiar ali com a almofada e ler ou descansar as pestanas por alguns minutos. Esse espaço ainda não é ocupado com facilidade na família. Não vejo despreocupação em sentarmo-nos ali. Nesse caso, não sou a única a pedir licença.
Uma certeza que tenho é que cada um da família tem esses espaços do pai marcados para si. A ponta da mesa da cozinha, a biblioteca, o quarto, a chácara, o chimarrão com pipoca, o meio do mato, o evento social. Sentamos, portanto, em locais que acreditamos estarem vazios.
O restaurante tem a cadeira preferida do cliente que não veio mais. Os consultórios têm o espaço do paciente que não veio mais, com a sua conversa mansa e os causos que observou. A festa tem o convite que não pode mais ser entregue para a pessoa mais que especial. O ônibus tem o assento que sempre era ocupado pelo senhorzinho do horário das nove.
Outra certeza que eu tenho é que, apesar de o corpo físico não estar mais por aqui para ocupar esses lugares, são cadeiras que nunca estarão realmente vazias para aqueles que têm a figura de um amor que agora é etéreo.
Maria Helena Menegotto Pozenato