O café está para o brasileiro assim como o chá está para os ingleses. Não pode faltar. Muda, nessa relação, o horário: os ingleses ainda mantêm a tradição do chá das 5; para o brasileiro, não tem horário certo para o café.
Mas isso também reflete a personalidade dessas duas comunidades: o inglês é sempre pontual, rígido; o brasileiro não presta atenção ao horário agendado, é “easy-going”, como diria o contraponto da comparação. Atraso de 10 minutos por aqui nem pode ser considerado atraso oficial, nem precisa de pedido de desculpas. Na terra da realeza do chá, 30 segundos já servem para desequilibrar toda a organização de evento ou da agenda, e as desculpas são necessárias.
No Brasil, tanto não se fica sem o café que ele adquiriu uma porção de formas tradicionais. Há quem prefira o café coado, mas também existem os que não abrem mão de um excelente expresso. Requentar o café pode ser muito comum para alguns, enquanto outros pensam nesse ato como um crime contra o café, que precisa ser sempre fresquinho. Puro ou com leite.
Experiências anglo-localizadas acreditam que o café precisa ser descafeinado para não trazer problemas de saúde. Como o sabor do café não se mantém, eles se dirigem ao chá preto, que também pode ser servido puro ou com leite. E acabam recorrendo ao chá preto descafeinado, também. Ou a outras opções já sem cafeína, como o chá de hortelã, o de camomila e o de gengibre.
Os brazucas já descartam o chá para prazer. É remédio, só. Para a gripe e para a dor de barriga. E adotam o café em muitas situações. Daí que utilizam esse ingrediente principal para outras tantas bebidas. Cappuccino, mocha, cremoso, affogato e até café gelado para os dias de muito calor. Na garrafa térmica, é a bebida que mais faz sucesso nas reuniões, nos escritórios em período de trabalho, nas escolas. Em casa, pode ser na térmica, mas no bule é melhor.
Aqueles que valorizam o chá do outro lado do Atlântico já não são tão criativos, apesar de ferrenhos para o chá. Variam de chá com leite para chá com limão. Chá quente, que é a preferência, já que o clima lá não ajuda, ou chá gelado. Mas a escolha que mais se manifesta é entre chá com leite e açúcar ou açúcar com chá e leite. Os cubos branquinhos para adoçar caem em grande número nas xícaras. Não que o brasileiro não coloque açúcar no café. Também se encontra quem prefira açúcar com café ao café com açúcar.
Mas nesse ponto reside outra característica importante dos dois povos: a criatividade do cidadão das terras tupiniquins é reconhecida mundialmente, para muitos contextos; por outro lado, o cidadão anglo-europeu é identificado como a força da tradição. A criatividade traz muitas opções. A tradição mantém forte as escolhas que já foram feitas.
Só não dá para esquecer de falar do café de máquina. Angelo Miorondo, um italiano, criou uma máquina para o preparo do café. Nem foi um brasileiro. E foi outro não brasileiro, Éric Favre, que criou o café de cápsulas. Inclusive com a versão de chá de cápsulas (com poucas variações) para o preparo na máquina de café. (E também não foi um brasileiro que criou o futebol, apesar de a arte estar no nosso sangue, não?) Mas a chance de escolher café preparado de várias maneiras parece que está por aqui, mesmo, já que adotamos até as máquinas para o preparo dessa maravilha. Já é hora do café?
Maria Helena Menegotto Pozenato