Poema do Outro

O vento levantou-se de manhã vestiu-se todo de azul pôs um botão de sol a passear pela roupa e saiu devagarinho sorrindo para todos. Entrou no jardim sem passar pelo portão derrubou uma porção de gotas de orvalho pisando por tudo enquanto nos canteiros as florinhas se inclinando: – Bom dia, senhor vento!    Como vai?Continuar lendo “Poema do Outro”

O INVENTOR DO SONETO

Os sonetos de Francesco Petrarca foram um modelo de poesia lírica para toda a literatura ocidental. Ronsard, da Plêiade, que sonhava ser “o Petrarca francês”,  Shakespeare na Inglaterra, Francisco de Quevedo na Espanha, Sá de Miranda e Camões em Portugal, Gregório de Matos no Brasil, todos eles referência de base nas respectivas literaturas nacionais, juntaram Continuar lendo “O INVENTOR DO SONETO”

COZINHA E FOGÃO

Quando saímos, minha mulher e eu, a comprar nosso primeiro apartamento – ninguém está livre desse tipo de sonho – encontramos este em que estamos morando até hoje, numa relação de absoluta fidelidade dele conosco e nossa com ele. Foi um desses casos raros de amor à primeira vista que continuam pelo resto da vida.Continuar lendo “COZINHA E FOGÃO”

CHINESARIA

Shan Sa era uma garota de 16 anos que fazia poemas, em Pequim, quando o regime mandou metralhar 5 mil estudantes na praça da Paz Celestial, em junho de 1986. A imagem que correu mundo, do estudante solitário desafiando um tanque que avançava sobre ele, num daqueles dias da revolta estudantil, ficará como a melhorContinuar lendo “CHINESARIA”

CÉREBRO

Perdi a conta das vezes que contei aqui resumos de conversas com taxistas. Os leitores não vão se aborrecer se conto mais uma. Os motoristas de táxi, de tanto conduzirem a gente pelas ruas, se tornam uma espécie de condutores também pelos caminhos da vida. Não é difícil de explicar: a profissão deles, que osContinuar lendo “CÉREBRO”

CARANDIRU

Seguidamente visito escolas pelo Rio Grande afora, de Iraí ao Chuí, e acabo vendo e ouvindo coisas lá dentro da cozinha, como se diz. Sou convidado, como seria de esperar, para falar (bem) de minha obra e contar curiosidades do making of de um escritor. Mas sempre uma professora, ou mais raramente a diretora (háContinuar lendo “CARANDIRU”

BOQUIRROTO

Uma noite dessas, zapeando, peguei já na metade o poeta João Cabral de Melo Neto numa entrevista, gravada na certa há mais de 30 anos pela televisão cultural do governo (não sei que nome tinha ela na época). João Cabral estava com um desses óculos de aro grosso, que também já usei, e que davaContinuar lendo “BOQUIRROTO”

Padre Giobbe

Padre Giobbe pôs em operação, item por item, seu método para descer do automóvel, como se tivesse o corpo dividido em partes. Escancarou a porta, pôs para fora a bengala e depois, com os dois pés no estribo, girou sobre as nádegas o corpo velho e pesado. Segurou-se então com força na bengala e deuContinuar lendo “Padre Giobbe”

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