A era dos cineclubes

Neste ano de 2022, quando o Festival de Cinema de Gramado chegou à sua edição de número 50, parece interessante buscar sua história e ver como tudo começou.

Na realidade, as mostras de cinema na cidade começaram bem antes de 1972, data oficial do primeiro evento. Já na Festa das Hortênsias, iniciada catorze anos antes, em 1958, havia um espaço para exibição de pequenos filmes feitos aqui no Estado por amadores, quase todos em Porto Alegre, onde foi fundada a Casa do Cinema, com Giba Assis Brasil à frente.

E vou acrescentar outro detalhe: a raiz das mostras que abriram caminho para o Festival de Gramado foi a era dos cineclubes, em especial o Clube de Cinema de Porto Alegre, segundo alguns o primeiro cineclube do Brasil. Foram os cineclubes que estimularam muitos cinéfilos a fazerem a passagem do debate sobre os filmes para a produção do próprio filme, mesmo que fosse pequeno. E algumas circunstâncias fizeram com que Gramado, na Festa das Hortênsias, fosse o local de sua exibição.

Também vivi a era dos cineclubes, nos anos sessenta, e fui seu frequentador, inclusive do Clube de Cinema de Porto Alegre, que se reunia quase sempre no Cine Baltimore, no bairro do Bom Fim. Quase todos os participantes eram estudantes universitários, de várias faculdades, e os debates eram divididos em duas partes:

enlightenedna primeira, buscava-se identificar os elementos de linguagem cinematográfica utilizados: enquadramento, movimentos de câmera, ritmo, atuação de atrizes e atores, etc, etc, tanto em suas qualidades como em seus defeitos;

enlightenedna segunda, a discussão entrava para o campo dos significados, na assim chamada semântica do filme: que problemas ele propunha ao espectador, que rumo dava às ideias e assim por diante. Nesse item, os filmes que mais rendiam debate eram os da “nouvelle vague” francesa, que ganharam o apelido de “filmes cabeça”.

No cinema brasileiro, vivia-se a época do Ciclo do Cangaço, que teve início com o filme O Cangaceiro, realizado por Lima Barreto em 1953. Chegou a ser criado então o termo “Nordestern”, numa referência ao “Western” norte-americano.

Não enveredei para o cinema, como vários de meus colegas, mas aproveitei algumas das técnicas aprendidas para fazer minhas narrativas literárias. Por exemplo:

yes não pôr em cena número muito grande de personagens, de preferência pondo o foco em dois deles por vez;

yes não fazer sequências muito longas: no caso da narrativa literária, aplicar essa regra aos capítulos;

yes ao final de cada capítulo, criar um “gancho”, para manter aceso o interesse do leitor em passar para o capítulo seguinte;

yes fazer diálogos concisos, sem adjetivos pomposos, mas também sem vulgaridade;

yes criar um clima de expectativa à espera do desfecho final.

Quando uma de minhas novelas policiais foi adaptada para a televisão e o romance O Quatrilho levado para o cinema, o produtor de casos especiais da TV Globo, Daniel Filho, me disse que as minhas histórias já eram quase um roteiro para ser filmado, bastava uma “enxugada”. E disse também que, se eu fosse um dia a Los Angeles em busca de emprego, seria contratado logo como “dialoguista”.

A literatura influenciou o cinema, com toda a certeza, mas teve também excelente retribuição, ao ganhar novas técnicas. No Brasil, quem as introduziu foi Erico Verissimo, grande mestre das narrativas visuais. Tanto que um crítico literário o chamou de “Contador de histórias”

O guarda-pó da Eberle

A UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – tem sua sede em Paris, num edifício que é por si só um patrimônio cultural, e que tive a emoção de visitar.

Na área da Cultura, a UNESCO tem definido, além do patrimônio material, também o Patrimônio Cultural Imaterial, que compreende usos, línguas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades e, em alguns casos, os indivíduos, reconheçam como parte integrante de seu patrimônio cultural.

Um capítulo à parte foi o da criação de um programa especial para preservação do Patrimônio Cultural Imaterial da Indústria. Ele se insere no tema da “Memória do Trabalho”, que tinha sido até então valorizada quase que somente no campo do artesanato individual. Os saberes da indústria, que soma saberes coletivos, não são menos ricos. E, com o apregoado fim da era industrial, correm grande risco de desaparecimento. Uma parte desses saberes pode ser recuperada em manuais de operação, muitas vezes preservados com o fechamento de uma fábrica, e outra parte pelo registro de testemunhos dos que viveram a história de uma indústria, no “chão de fábrica” ou nas atividades gerenciais.

Hoje, em todos os países que viveram um passado industrial – como França, Espanha, Inglaterra, Itália, para citar alguns –, há um esforço no sentido de se preservar a sua memória. Existe, inclusive, uma organização internacional, a INCUNA (Industria, Cultura y Naturaleza – http://incuna.es), com sede na Espanha, da qual participam estudiosos e entidades também do Brasil. Nas “Jornadas Internacionales de INCUNA”, realizadas em Gijón, em 2011, com o tema central de “Patrimônio Imaterial e Intangível: artefatos, objetos, saberes e memória da indústria”, foram definidos, entre outros, os seguintes itens a serem observados e preservados:

enlightenedo intangível da cultura material: ofícios, artefatos, saberes, arquiteturas e história técnica, obra pública e engenharia;

enlightenedculturas e memórias do trabalho;

enlightenedo canto, a música, as tradições operárias, os festejos populares e religiosos;

enlighteneda fotografia e imagens da indústria; sua leitura no mundo do trabalho;

enlightenedhistória oral: metodologia e casos de empresas e territórios;

enlightenedos sindicatos e o associacionismo: sua implicação social como patrimônio coletivo;

enlightenedas arquiteturas desaparecidas e as atuais, como parte do patrimônio imaterial da indústria e respectivas obras públicas.

No último curso de pós-graduação em que atuei, com o processo de preservação da MAESA já em andamento, um grupo de alunos levou adiante um projeto de entrevistar pessoas que tivessem trabalhado na Eberle, como operários ou como gestores.

Um dos entrevistados contou que numa visita de Júlio Eberle ao setor de forja, ele questionou o operador sobre o que e o como ele estava fazendo. E o operador teria respondido: “Eu sei o que faço”. O episódio foi relatado como exemplo da segurança que o pessoal de “chão de fábrica” tinha em seu trabalho.

Outro contou que uma vez a Eberle recebeu um pedido urgente, e para isso era preciso ter as peças prontas na fábrica na segunda-feira. Ele então trabalhou todo o fim de semana para garantir a entrega. E chamou isso de “prontidão no trabalho”.

Por fim, numa das entrevistas, um antigo funcionário relatou uma frase que, segundo ele, era comum dentro da empresa: “Quem tira o guarda-pó da Eberle, tira a pele junto”. A metáfora dá uma pista sobre o grau de envolvimento de todos no trabalho, cuja norma era fazer tudo com “defeito zero”, como apareceu também no levantamento da cultura imaterial dessa indústria.

Reinventando ser pai

         Depois de alguns anos de experiência como pai, cheguei a uma conclusão: não existe receita pronta para alguém copiar e garantir que vai ser um bom pai.

         Eu, por exemplo, podia me basear no modelo que tive dentro de casa. Aprendi muita coisa com meu pai. De certo modo, sem desconsiderar o que aprendi da mãe, ele me forneceu ferramentas para encarar, sem tremer nas bases, as variadas situações que encontrei pela vida. Quer dizer, acho que comigo meu pai teve sucesso na sua tarefa paterna. Ele pode ter cometido erros, eventualmente excessos de zelo, mas ainda estou por descobrir um pai que não erra. Em abono deles, deve-se dizer que os erros em geral acontecem quando se tem vontade demais de acertar. Então, são erros por excesso de dedicação, e ninguém condena a dedicação.

         Como ia dizendo, eu podia tomar meu pai como modelo para eu mesmo ser pai. Mas aí vem o problema, que não é só um, mas muitos. O papel de pai continua mais ou menos o mesmo, mas mudaram as circunstâncias. O mundo é cada vez mais complexo, para não dizer complicado. No tempo em que meu pai era pai, era relativamente simples saber para que situações os filhos deviam ser preparados. A vida tinha mais regras, os caminhos eram conhecidos. O cuidado maior era, como se dizia, manter a criança nos trilhos.

         Hoje é mais complicado porque não existem mais trilhos, nem mesmo os das vias férreas. São tantas as surpresas e novidades que não é exagero dizer que cada um dos filhos da gente tem que ele mesmo descobrir o seu caminho. Isso complica a tarefa do pai. Uma coisa é ensinar a seguir um caminho já traçado. Outra bem diferente é ensinar, se for possível ensinar, a descobrir um bom caminho.

         Para este último caso é que não existem receitas de pai. Ele vai ter que apelar para a imaginação, para o sangue frio, vai ter de fazer das tripas coração. Em resumo, vai ter que inventar de novo como é essa história de ser pai. Tentando acertar sem saber se está acertando. Tentando não cometer erros sem ter certeza de que não está cometendo atrocidades.

         A experiência pessoal pouco conta. A gente pode contar como fez, mas isso não significa que a fórmula que deu certo neste ou naquele caso, vai continuar funcionando.

         Por isso chego à conclusão de que o melhor pai é ainda o que menos se mete na vida dos filhos, querendo que sigam por este ou por aquele caminho. O que não quer dizer ficar ausente. Pelo contrário. A melhor maneira de ser um bom pai, hoje em dia, é estar presente, estar ao lado do filho, dividir com ele dúvidas e com ele investigar alternativas. No fim, acho que acabei encontrando uma receita.

A Ponte do Raposo

Depois de ter insinuado aqui que a história da Ponte do Raposo merece ser lembrada, volto ao tema.

Diversos episódios compuseram a trama que levou à construção dessa ponte. Entre eles os seguintes:

– o fato de ela ter sido construída sobre o rio Caí na Zona do Raposo, nome herdado do bandeirante paulista que exterminou as Missões e arrebanhou índios escravos na região de Santa Lúcia do Piaí, que incluía a atual Vila Oliva em seu território;

– o início do “ciclo da madeira”, patrocinado pelos donos de sesmarias no bioma da Mata das Araucárias, depois de venderem parte de suas terras a imigrantes italianos;

– o plano de Borges de Medeiros, que governou o Rio Grande do Sul por 25 anos, de implantar uma rede de estradas de ferro. Uma delas foi o trecho de Porto Alegre a Taquara do Mundo Novo, que era uma região fornecedora de produtos agrícolas e animais. São Francisco de Paula era também distrito de Taquara.

Estrutura da ponte histórica necessita restauro (Foto: Divulgação Smosp)

O personagem que se tornou protagonista da história da Ponte do Raposo foi o Major José Nicoletti Filho. Na realidade, ele se chamava Giuseppe Nicoletti, filho de uma família imigrantes vindos do Tirol, que na época pertencia ao Império Austríaco. Veio para o Brasil com cinco anos de idade, por volta de 1880. Seu pai, que também se chamava Giuseppe Nicoletti, se estabeleceu com a família na Sétima Légua, no Travessão Dom Pedro II, onde fica hoje o Bairro Nossa Senhora do Rosário.

Desde menino, José Nicoletti Filho, com o nome abrasileirado, teve interesse em seguir a carreira militar. Ingressou na Brigada quando jovem e, quatro ou cinco anos depois, filiou-se ao partido de Borges de Medeiros, interessado em fazer também carreira política.

A decisão teve sucesso. Borges de Medeiros o colocou como chefe de polícia em Taquara, quando estava em construção a estrada de ferro dessa localidade para Porto Alegre. Atendendo aos pedidos dos donos de serrarias, José Nicoletti conseguiu do governo autorização para estender a ponte até Gramado, na Várzea Grande. O transporte da madeira produzida na Serra para a Capital enfrentava problemas, como o da seca periódica, que não permitia escoar a madeira em barcas rio Caí abaixo, até o Guaíba, como era feito também no Rio das Antas.

Concedida a autorização, José Nicoletti, já com o título de Major, foi nomeado para administrar o distrito de Gramado, pertencente ao município de Taquara. Ali, tomou conhecimento da produção de madeira do outro lado do rio, na Zona do Raposo, onde é hoje Vila Oliva. Para facilitar o transporte da madeira até o trem, em Gramado, o Major Nicoletti fez construir uma ponte sobre o Caí, com aço Krupp, vindo da Alemanha.

A ponte foi batizada com seu nome, Ponte Major José Nicoletti. Mas, com o crescimento da oposição que provocou a saída de Borges de Medeiros da Presidência do Estado, o povo passou a denominá-la Ponte do Raposo. E o trecho da estrada de ferro entre Taquara e Gramado ganhou o apelido de “rabicho ferroviário”!

A história é cheia de tramas. Não por acaso, ela se torna tema de narrativas de ficção. O interessante é que tudo isso aconteceu na zona em que hoje se projeta construir o Aeroporto de Vila Oliva…

Surpresas da História

Na década de 1980, foi realizado na UCS um projeto, que contou com o apoio do Ministério da Educação, com o título de Educação no Meio Rural. Seu objetivo era estimular as escolas do ensino fundamental a buscar as raízes culturais de sua comunidade. O local escolhido para implantar o projeto foi o distrito de Santa Lúcia do Piaí, de Caxias do Sul.

No total, catorze comunidades do distrito contribuíram com narrativas, em textos produzidos pelos professores das escolas desse meio rural, com a participação dos alunos, que auxiliaram, principalmente, na identificação de pessoas a serem entrevistadas.

Para surpresa dos participantes do processo, incluídos aí sete professores da UCS, a imagem de que Santa Lúcia do Piaí tinha uma história totalmente vinculada à imigração italiana se desfez. As pesquisas, que buscaram informações em livros-tombo, arquivos e obras históricas, e as narrativas dos entrevistados, apontavam para outro cenário.

Na realidade, o distrito, situado na confluência de três biomas diferentes – os Campos de Cima da Serra, a Mata de Araucárias e a Floresta Subtropical da encosta do rio Caí –, teve habitantes de várias procedências, que deixaram aí suas marcas culturais.

Os primeiros habitantes foram os indígenas Caáguas e Ibianguaras, que deram nome ao rio Piaí, afluente do rio Caí, que passa pela região.

No século XVII, estiveram na região os jesuítas espanhóis das Missões, que expandiam a produção de gado nos Campos da Vacaria. Um deles foi o padre Cristóbal de Mendoza que, em 1635, morreu num ataque dos Ibianguaras, à beira de um córrego que até hoje tem o nome de Água Azul. Segundo a tradição, a água teria ficado azul porque o corpo do padre ali permaneceu por vinte dias até ser encontrado. Outra versão é a de que os índios puseram na água o coração do padre. O riacho ganhou então fama de ser uma água milagrosa para a cura de várias enfermidades.

Nos anos seguintes, houve incursão dos bandeirantes, sob a chefia de Raposo Tavares, que levou índios cativos dali para São Paulo: a sua passagem ficou também marcada com a designação de um local até hoje chamado de Zona Raposo, junto à Ponte do Raposo (que também tem uma história que merece ser lembrada…).

Veio a seguir a ocupação lusa, no século XVIII, a partir do Tratado de Madri e o desmanche das Missões guaraníticas. Toda a região passou para as mãos de donos de sesmarias, vindos de Portugal e dos Açores. O nome mais fixado na memória coletiva foi o da família Soares, sendo que um deles, chamado “Sinhô Grande”, foi proprietário de vastas áreas da região. Ao mesmo tempo, ocorreu o “ciclo do tropeirismo”, que encontrou, ao longo do rio Piaí, um corredor de passagem.

A fase seguinte ocorreu com a chegada dos imigrantes alemães, por volta de 1840. Estes permaneceram nas margens do Rio Caí, na localidade de Santo Antônio e vizinhanças. A maioria deles provinha das colônias alemãs dos vales do rio dos Sinos e do rio Caí.

Por fim, chegaram os imigrantes italianos. Alguns deles adquiriram terras demarcadas pelo governo e outros compraram áreas dos donos de sesmarias. Estes últimos instalaram as serrarias que deram início ao chamado “ciclo da madeira”, que dizimou as araucárias e outras “árvores de corte” das matas. Ao final do século chegaram também algumas famílias de poloneses, completando assim o caldeamento cultural na região.

A pesquisa levada adiante pelas escolas investigou os itens: habitação, alimentação, vestuário, comunicação e transportes, trabalhos dos homens, trabalhos das mulheres, comércio, formas de indústria, medicina caseira, educação, religião, vida social, jogos e festas, crenças, canções, línguas faladas e assim por diante.

O material recolhido mostrou, principalmente, como os usos e costumes dos sucessivos povoadores deixaram marcas reconhecíveis dentro do caldeamento consolidado ao longo do tempo. Santa Lúcia do Piaí é uma miniatura do processo cultural havido no Rio Grande do Sul.

Observação.: O livro que relata essa experiência foi publicado em 1986 pela EDUCS, com o título de História e Cultura de um Povo – Santa Lúcia do Piaí. E em março deste ano foi inaugurado, na sede do distrito o Centro de Memória e História, numa iniciativa dos moradores locais, reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus, do Governo federal. Nele, o visitante pode ver desde objetos indígenas até malas dos imigrantes italianos.

Espaço para a cultura indígena

Quando na UCS foi levado adiante o projeto de reconhecimento do Talian como patrimônio linguístico brasileiro, uma série de projetos buscava o mesmo estatuto para as línguas indígenas. Perto de duzentas ainda sobrevivem no Brasil.

As primeiras a serem oficializadas foram o tukano, o nheengatu e o baniwa, no Alto Rio Negro, no Amazonas. E de imediato São Gabriel da Cachoeira aprovou lei dando às três o estatuto de línguas oficiais do município, ao lado do português.

As pessoas em geral pensam que a cultura indígena sobrevive apenas na Amazônia. Mas é só revisitar a História para perceber que ficaram marcas por todo o país. A região missioneira guarda ainda monumentos de pedra erguidos pelos guaranis.

Em Santa Lúcia do Piaí, distrito de Caxias, os primeiros habitantes foram os indígenas Caáguas e Ibianguaras, que tinham na região “suas ocas e tocas”, dos quais restam vestígios arqueológicos, mas também alguns vestígios na memória da população local. Eles denominavam o local como “Ibiaí” – que derivou para “Piaí” –, nome que significa caminho do rio, nas duas formas do vocábulo. E Caxias do Sul, em sua origem, teve o nome de Campo dos Bugres, não por acaso.

Quem acompanhou os debates da nova Constituição Federal, em 1987, deve estar lembrado de uma cena inesquecível. Foi quando um indígena, vestido de branco, subiu à tribuna e começou a discursar, enquanto ia pintando a testa, o nariz, o rosto todo, com tinta vermelha e tinta preta, em defesa de seu povo. O nome dele era Ailton Krenak, oriundo de Minas Gerais. O resultado final foi que a Constituição aprovou a demarcação de terras indígenas.

Essa demarcação gera até hoje conflitos, não apenas jurídicos, como se pode ver pelos noticiários. Conflitos do lado de fora, mas também dentro das tribos indígenas. Não é fácil respeitar e manter a diversidade num mundo em que tudo tende a ser padronizado nos costumes, até mesmo com uma língua universal.

Tive a oportunidade de viver um episódio memorável visitando uma reserva indígena da etnia Kaingang em Ipuaçu, município do noroeste catarinense, com várias aldeias dentro do seu território, sendo uma ou duas de índios guaranis.

Por uma circunstância da fortuna, minha visita aconteceu numa data festiva: o Dia do Índio, que ocorre a 19 de abril. Adultos e crianças pintaram o rosto e o corpo segundo suas tradições e exibiram um espetáculo de canto e dança. E tive duas conversas que me serviram como aulas sobre a cultura indígena.

Uma delas foi com o pajé. Ele me explicou que os kaingangs têm duas vertentes étnicas, e que os casamentos devem sempre acontecer com marido de um ramo e mulher do outro ramo. Quem não respeita essa regra, é excluído das aldeias. Outra curiosidade que me revelou foi a de que os guaranis não gostam de plantar e de criar animais. Gostam é de andar para todo o lado, trocando coisas. Contei então a ele que eu tenho ancestrais indígenas, por parte do avô materno.

– Tenho um oitavo de sangue de índio – falei.

– Então és índio! – respondeu ele com autoridade na voz.

Outra conversa foi com um professor indígena que atuava na educação das crianças da reserva. Para minha surpresa, ele havia feito mestrado em Educação na Universidade de São Paulo, como bolsista. E me confidenciou que manter a cultura tradicional kaingang não era nada fácil. Todos queriam ter luz elétrica e ver televisão. E as crianças também relutavam em aprender a língua da tribo, queriam era aprender a língua portuguesa. E mesmo o cultivo da terra era influenciado pelas técnicas modernas, para render mais.

Em resumo, aprendi que preservar uma cultura não é sinônimo de viver no passado.

Jogos em família

Quando vejo as crianças de hoje jogando por horas a fio diante da tela do computador, ou presas no celular, lembro que eu também, quando menino, mergulhava no prazer de jogar. A diferença é que, nos tempos da minha infância, todos os tipos de jogo exigiam companhia: não havia jogo para alguém se divertir sozinho.

víspora – hoje parece que está fora de moda – era o principal jogo de família. Quase sempre era jogado à noite, depois da janta e antes de dormir, quando o pai e a mãe podiam também jogar porque não tinham mais nenhuma tarefa a cumprir. Vez por outra, apareciam alguns vizinhos para se juntarem ao redor da mesa, à luz do lampião a querosene.

Dependendo do número de jogadores, cada um ficava com uma ou duas cartelas. Cada cartela tinha três fileiras de cinco números, que iam de um a noventa. Quem preenchesse por primeiro uma das fileiras da cartela, com grãos de milho sobre os números, ganhava o jogo.

Na ponta da mesa sentava o cantador das pedras com número, de um a noventa, que iam sendo tiradas de dentro de um saquinho de pano. O cantador era proibido de jogar, porque ele podia descobrir o número dele apalpando as pedrinhas. E quase todos os números tinham apelido, como estes, que eram cantados, e a gente tinha de adivinhar:

– aberta a cancela: número 1;

– um coco e três potes: número 13;

– um sentado e um de pé: número 69;

– dois vadios sentados: número 66;

– dois violões sem braço: número 88;

– saracura no banhado: número 44;

– a casa cheia: número 90.

Quem completasse quatro números de uma fileira devia avisar o cantador e a mesa, gritando: Barra! E ficava na torcida para sair o número da vitória. Quem ganhasse, ficava com todos os níqueis de dentro do pires, onde cada jogador colocava uma moeda. Se faltassem moedas, eram colocados grãos de milho, ou de feijão, com valor pré-definido, de um ou dois tostões. Terminada a noitada de jogo, eram feito o acerto de conta com os ganhadores. Era um jogo bem divertido e bem coletivo.

Quando só havia quatro pessoas para jogar, a víspora era deixada de lado e jogava-se a escova, que era um jogo com duas duplas feito com quarenta cartas do baralho espanhol. O jogo é, aliás, de origem espanhola, e muito interessante como exercício de aritmética. Tanto que quem cometesse um erro matemático perdia todos os pontos. Quem quiser conhecer as regras da escova pode buscá-las na internet. É um jogo ainda vivo!

O terceiro jogo na ordem de preferência era o sessenta-e-seis, que exigia muita atenção e também uma boa dose de artimanhas… Esse é um jogo de origem alemã – sechsundsechzig em alemão, como fiquei sabendo depois – e muito parecido com o jogo do truco, também ele cheio de artimanhas.

Mas são coisas passadas, de um mundo passado…

O prazer de julgar

Diante do quadro confuso provocado pela guerra na Ucrânia e por alguns conflitos que o Brasil está vivendo, voltei a ler Elias Canetti (1905-1994), um mestre que nunca deixo de consultar.

Apenas para informar: Elias Canetti nasceu na Bulgária, na época sob domínio turco, de família de judeus sefarditas, migrada da Espanha. No seu livro A língua absolvida, relata que, aos oito anos, tinha de se haver com quatro idiomas diferentes dentro de casa. Emigrou para a Áustria e, na adolescência, viveu um pouco na Alemanha e na Suíça. Quando a Áustria foi anexada à Alemanha nazista, em 1938, migrou com a esposa para Londres. Ali recebeu a cidadania britânica, em 1952.

Começou sua vida de escritor como romancista, escrevendo em língua alemã. Mas foi com um ensaio de cunho político, intitulado Massa e Poder, que foi honrado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1981.

Na minha opinião, nenhuma de suas obras literárias tem a força e a importância que tem este ensaio, escrito em 1960. Em português, foi publicado pela editora da Universidade de Brasília, em 1983. Apenas como curiosidade: comprei o livro naquele mesmo ano, ao preço de 8.990,00 cruzeiros, uma quantidade numérica 200 vezes maior do que seria seu preço hoje em reais…

A esse livro sempre recorro quando tenho dificuldade de processar e de entender o que sai nos jornais, sejam eles de papel, sejam eles eletrônicos. Massa e Poder reúne comentários extremamente lúcidos sobre o que move os comportamentos, tanto dos que estão na massa chamada povo, quanto dos que estão no poder em qualquer de suas formas.

Como o autor vivenciou as situações que analisa dentro do quadro sociopolítico de ascensão de um poder baseado nas massas, como foi o nazismo, nos dá ferramentas para diagnosticar com relativa clareza as doenças que atacam a democracia, ou, pelo menos, a convivência civilizada.

Uma das enfermidades humanas apontadas por Canetti é a que ele chama, com letras grifadas, de o prazer de julgar. Observa ele que toda a pessoa que faz um julgamento, dizendo “é um livro péssimo”, ou “é um quadro medíocre”, diz isso com satisfação, com gosto. Segundo ele, é inequívoco que todos sentimos prazer em julgar: “Trata-se de uma alegria dura e cruel, que não se deixa perturbar por coisa alguma. A sentença somente é sentença quando é emitida com segurança atemorizante. Ela ignora a bondade, da mesma forma como ignora a prudência”.

E onde está a fonte desse prazer? O olho de Canetti vai direto ao ponto: está na tendência humana de dividir o mundo em duas partes. Há um grupo inferior e um grupo melhor, há um partido mau e um partido bom. E nós sempre estamos do lado melhor e, para ficar ainda mais claro que somos melhores, julgamos e rebaixamos os outros.

Segundo Canetti, a tendência a acusar, julgar e sentenciar se torna mais forte quanto mais uma parte da sociedade está interessada em tomar o poder em suas mãos. Seja o poder de governar, seja o poder de dirigir a opinião pública. Daí para a “formação hostil de maltas” que tudo derrubam, adverte Canetti, é só um passo: “Os limites dos bons ficam então precisamente delimitados, e coitado do mau que ousar ultrapassá-los! Ele nada tem a procurar entre os bons e deve ser aniquilado”.

Em sua experiência de quem teve mais de uma nacionalidade e mais de um idioma, a convivência pacífica somente existe pondo-se de lado o prazer de julgar os outros.

Migração com bagagem cultural

Em meu romance O Quatrilho, coloquei como baliza inicial da trama a opção de um casal entre ir para “as colônias novas”, ou encontrar outro ramo de atividade que não a do cabo da enxada. Não foi uma situação inventada por mim.

É que eu acabava de assistir a uma mesa redonda em que se falou que no início do século XX, com o aumento de habitantes do meio rural, consequência das famílias com dezena ou mais de filhos, surgiram duas novas opções de vida: ou migrar para as colônias novas, no norte e noroeste do Rio Grande do Sul e sul de Santa Catarina, ou ingressar em alguma atividade industrial.

Foi quando surgiram em Caxias (que ainda não era Caxias do Sul) a funilaria, que deu origem à metalurgia; a tecelagem, que deu origem aos lanifícios; os moinhos, que deram origem à indústria alimentícia…

Quinze ou vinte anos depois de ter escrito o romance, em que o olhar foi posto nos que decidiram ficar e mudar de atividade, tive a oportunidade de ver o que aconteceu com os que escolheram buscar novas terras.

A primeira descoberta da pesquisa feita nas duas margens do rio Pelotas e do rio Uruguai, foi a de que a migração das antigas colônias foi empreendida por comerciantes de terras, ligados quase sempre às serrarias do ciclo da madeira. Não vou citar nomes, mas esses agentes tinham sobrenome italiano e vários deles eram donos de serrarias, que deram origem ao ramo industrial da madeira em Caxias e região.

Outra descoberta, ainda mais interessante, foi a de perceber que a bagagem cultural levada na migração de quase cem anos antes continuava bem guardada! Nessa bagagem estavam, bem conservados, por exemplo, o jogo da mora, o jogo de bochas e os jogos de cartas.

O jogo da mora tem origem antiga, praticado pelos egípcios, e migrou para Roma, possivelmente depois que os romanos derrotaram Aníbal. Ambientou-se depois na Itália inteira, a ponto de Bernardo Bertolucci, no filme Novecento, de 1976, mostrar uma cena em que um grupo de paesani está jogando a mora. Era um jogo praticado, de preferência, nas bodegas, em todo o norte da Itália, com copos de bom vinho. Veio para a Serra Gaúcha com os imigrantes e daqui foi levado para as novas colônias, onde continuou sendo cultivado, em rodas animadas e barulhentas.

Jogo da mora tem origem no antigo Egito e chegou à Serra Gaúcha (Foto de Aldo Toniazzo, pertencente ao acervo do IMHC/UCS, registrada no município de Celso Ramos – SC)

Outro jogo trazido pelos imigrantes foi o jogo de bochas. Era praticado nas capelas das comunidades rurais, e teve importante papel na formação do espírito associativo. Havia torneio de bochas com jogadores de toda a região serrana gaúcha. Esse jogo também migrou para as colônias novas. As canchas de bochas fazem parte da paisagem de todas as vilas e povoados das fronteiras entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ao lado de igrejas, de casas de comércio, de campos de futebol…

Os jogos de cartas, vindos também com os imigrantes, sempre fizeram parte do ritual das reuniões de famílias e de vizinhos. Não por acaso o filme O Quatrilho mostra uma sequência inteira desse jogo numa noite de filò. Os jogos mais apreciados, além do quatrilho, eram a bisca (brìscola) e o três-sete (trisset). Os três continuam presentes na região ocupada pela migração interna, com as mesmas práticas de convivência.

A indústria doméstica, junto com o artesanato, migrou também. Os moinhos de roda d’água fazem parte da paisagem cultural da área. Eles também são herança dos imigrantes italianos, que colocam diante de nossos olhos um saber muito antigo, o de aprisionar a água dos rios em calhas de madeira e transformá-la em força motriz, que faz movimentar uma pesada mó de pedra para transformar o milho e o trigo em farinha. Nas margens de todos os riachos da região pesquisada, há ainda ruínas de moinhos desativados, porque deram lugar aos moinhos movidos por energia elétrica.

A produção de vinho caseiro continua também. Não esqueço que, na visita a uma casa no interior do município de Zortéa, em Santa Catarina, o proprietário nos brindou com um vinho feito por ele. Provei o vinho, degustando seus aromas, e disse:

– É vinho de uva Isabel, não é?

– Isso! – exclamou ele. – Herança do meu avô! Ele trouxe as mudas de parreira de Caxias. E eu vou lá sempre, quando tem a Festa da Uva!

É isso. A cultura constrói laços que não se desatam.

Quem eram os birivas

Nascido nos Campos de Cima da Serra, desde menino conheci os birivas, e até certo ponto convivi com eles. Mas só me dei conta de como o jeito deles era diferente quando vim estudar em Caxias do Sul.

Nesta cidade, por um fator cultural que demonstrei na obra O Regional e o Universal na Literatura Gaúcha, o cultivo das tradições gaúchas seguiu o modelo de “tradição inventada”, criada por Paixão Cortes. O estereótipo dessa tradição foi veiculado pelos CTGs, adotados em todas as regiões de imigração, dentro de um processo antropológico de integração cultural.

Minha maior surpresa de menino ficou registrada no plano visual. Nenhum biriva de São Chico usava bombacha larga e bota de cano curto. Seu traje típico era uma calça estreita com botas de cano comprido, no mínimo até o joelho. Usava na cintura a guaiaca, um cinto largo cheio de bolsas e fivelas e tinha nas botas esporas pontiagudas, que cantavam quando ele andava num piso de madeira.

A origem do nome biriva é bem controversa. Raul Pont, em seu livro Campos Realengos (1983, 2ª ed.), afirma que birivas eram tropeiros identificados pelo nome do beribá, uma árvore dos matos de Cima da Serra. Outra hipótese é de que o nome veio de Sorocaba, em São Paulo, para onde os tropeiros levavam mulas e gado.

O fato é que na região de Cima da Serra biriva é um adjetivo gentílico, de sentido equivalente a serrano. Mais que isso, é uma nominação que designa todo um modo de ser, com atitudes que fazem dele um gaúcho diferente: é um sujeito quieto, observador, que não conta bravatas.

Outro sentido oculto é que essa palavra serve para designar um sujeito desconfiado, cheio de melindres e cuidados. Essa qualificação deve talvez ser creditada ao fato de que o biriva, além de condutor de tropas, era um homem que carregava a guaiaca cheia de dinheiro, resultado dos negócios da venda de quinhentas mulas ou oitocentos bois, como narra um tropeiro de 82 anos, entrevistado em Esmeralda, nos campos de Vacaria, em 1999:

Levei boi daqui a Curitiba. Era um tempo bom. Uma vez trouxe o dinheiro de oitocentos bois, nos peçuelos, um pacote assim de dinheiro! Não tinha ladrão. Mas aí pousei em Vacaria, com a dinheirama de oitocentos bois e fui na casa do prefeito. Ele tinha um cofre grande lá:

– Seu João, o senhor guarda para mim uns remédios no cofre?

Quando ele viu o pacote, falou:

– Uma dinheirada dessas? Não, eles vão me matar!

[…] Eu fui de uma época boa. Naquele tempo era só dinheiro vivo, nota de quinhentos, daquelas grandes. Mas tinha que se cuidar.

Por isso é que, como relata Raul Pont em seu livro, “o biriva usava um tipo de guaiaca, só usada por ele, aliás, criada por ele, com vários forros, quase uma maleta, com fechos nas pontas junto às fivelas, onde se podia transportar com segurança muito dinheiro”.

Há inúmeros documentos escritos sobre os birivas, muitos deles europeus que percorreram o Sul do Brasil. Isso mostra como eles foram importantes para a economia e a sociedade da época e porque deixaram traços culturais tão marcantes na Serra Gaúcha, antigo caminho das tropas.

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