Um passo decisivo para a preservação do Talian

“Talian Par Cei e Grandi – Gramàtica e Stòria”. Acaba de ser publicado um livro com este título, que pode ser assim traduzido: “Talian para Crianças e Adultos – Gramática e História”.

Trata-se de uma obra coletiva e multidisciplinar, tendo três nomes como coordenadores e editores: Juvenal Jorge Dal Castel, Loremi Loregian Penkal e João Wianey Tonus. Além deles, mais de uma dezena de colaboradores assina essa produção. Dividida em três partes, a obra cria um alicerce sólido para que crianças e adultos tenham acesso ao Talian, aprendendo a ler, a falar e a escrever nessa língua.

A primeira parte, La Gramàtica del Talian, expõe metodicamente qual o alfabeto utilizado, como é a grafia e como é feita a acentuação gráfica. Segue-se o estudo do artigo, do substantivo, do adjetivo, do pronome, do verbo, do advérbio, da preposição, da conjunção, da interjeição. Ou seja, estabelece um padrão para todos os elementos mórficos, com as regras de uso dentro da língua Talian.

A segunda parte, intitulada Stòria e Leteratura del Talian, apresenta, como diz o título, uma síntese da história da língua e da literatura nela produzida, desde os precursores até os dias de hoje.

Na terceira parte, Talian par Cei, é selecionada uma série de textos para crianças, de nove autores diferentes. Os textos foram elaborados com essa finalidade: a de dar uma base textual para o ensino e aprendizado da língua. Nesse enorme desafio (granda sfida) tomaram parte professores, falantes e difusores do Talian: são cinquenta textos, alguns em verso, para despertar no mundo da infância o gosto pela língua dei noni, i pupà e i zii (dos avós, dos pais e dos tios).

O mínimo que se pode dizer é que este lançamento é um passo decisivo para preservar e difundir o Talian, reconhecido como Referência Cultural Brasileira pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – órgão do Ministério da Cultura.

Obra é um marco histórico na saga do resgate e da difusão da língua Talian

Outros passos decisivos foram dados antes deste, sendo que alguns deles tive a honra de acompanhar de perto. Meu último trabalho de pesquisa na Universidade de Caxias do Sul, por sinal, foi o de ter elaborado e coordenado o projeto para registro do Talian como patrimônio linguístico brasileiro.

O projeto nasceu de diversos fatores. O primeiro foi a declaração da Unesco, em 2005, em defesa da diversidade linguística como patrimônio cultural.

Um segundo passo decisivo foi o de o Ministério da Cultura e o IPHAN terem seguido a orientação da Unesco e aberto um programa para inventário e resgate de quatro categorias de línguas no Brasil: as indígenas, as afro-brasileiras, as derivadas de imigração e as línguas de sinais.

Entre as línguas de imigração, o inventário do Talian foi aceito como projeto piloto no Brasil. Como não sou linguista, montei uma equipe técnica de especialistas para realizar o trabalho…

O êxito da empreitada foi total: em novembro de 2014, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional acolheu o pedido e o Talian foi reconhecido oficialmente como integrante do patrimônio linguístico brasileiro, na categoria das línguas de imigração. A primeira a chegar ao pódio! Uma vitória tanto mais emocionante quanto mais se sabe a restrição que essa língua teve no passado, levando-a à beira da extinção.

Por algum tempo fiquei com receio de que o Talian, mesmo com essa vitória, fosse considerado uma peça arqueológica, a ser guardada atrás de um vidro inquebrável para ninguém tocar, dentro de um museu!

Felizmente, não foi isso que aconteceu. Organizações de difusores do Talian, tendo à frente a Assodita de Serafina Corrêa e outros militantes, trataram de colocar alicerces sólidos para a sua sustentação.

O primeiro, sem dúvida, foi a constituição do Comitê Nacional de Gestão da Língua Talian, que promoveu já diversas ações.

Outro alicerce é este que acaba de ser construído: o de elaborar uma gramática do Talian, endereçada às crianças e a seus pais, tios e avós!

Bon profito!

Ficcionistas da imigração italiana: o olhar de dentro

O “olhar de fora”, cheio de estranheza com relação ao personagem italiano, comum em todo o país, será completado por um “olhar de dentro”, cheio de cumplicidade, nas regiões ocupadas pelos imigrantes vindos da Itália.

Os primeiros ficcionistas da região de imigração italiana da Serra Gaúcha mostram não apenas personagens de origem italiana, mas também a sua língua, hoje reconhecida como patrimônio nacional com o nome de Talian. O Talian não é um dialeto, mas uma soma de dialetos, mais a contribuição de elementos da língua portuguesa. O resultado foi um novo idioma, que um linguista italiano não teve receio de chamar de uma nova língua neolatina.

O precursor nesse caminho foi Aquiles Bernardi (Frei Paulino de Caxias), que imortalizou o personagem Nanetto Pipetta, em Vita e Stòria de Nanetto Pipetta – Nassuo in Italia e vegnudo in Mérica par catare la Cucagna, publicado no jornal “Stafetta Riograndense” entre 1924 e 1925. Publicou depois, no mesmo jornal, a Storia de Nino, Fradello de Nanetto Pipetta.

Aquiles Bernardi, inventor do Nanetto Pipetta

Aquiles Bernardi teve seguidores nessa vertente de literatura, que contribuiu, e muito, para fazer do Talian uma fala comum em todas as colônias, e dentro de um mesmo padrão de linguagem. Entre eles, merece citação Ricardo Liberali, também frei capuchinho, com seu Togno Brusafrati, Braúre de Dô Compari. Segundo o autor (em depoimento para a edição de 1975), a obra foi escrita com intenção pedagógica, para ensinar que a criança devia ir para a escola, não blasfemar e não entrar na maçonaria. Informa ainda que escreveu no dialeto falado em sua casa, com mistura de um pouco de português e de outros dialetos.

Outra menção especial deve ser feita do poema narrativo Os Pesos e As Medidas, de Italo Balen. Publicado bem mais tarde, em 1981, tem como tema um drama no ramo do comércio em Caxias, ocorrido quando “os anos vinte andavam pelo meio”. Balen escreve o poema na língua falada na época dos acontecimentos, e que era a língua comum da cidade, como atesta Moysés Vellinho em prefácio. E Mário Gardelin acrescentou:

“Devo dizer que, se Nanetto Pipetta é a obra básica da colonização, no mundo rural, o poema de Italo Balen, no dialeto de 1920, é a resposta urbana. Resposta feita de ternura, de trabalho, mas com aquele humorismo de um povo que, mesmo nas horas mais difíceis, sempre soube contemplar a vida através de um cintilante copo de vinho…”

“Os Pesos e as Medidas”, de Italo Balen

A partir dos anos setenta, começam a surgir os primeiros romances focados na imigração italiana da Serra escritos em português. O primeiro deles parece ter sido Campo dos Bugres (1975), de Fidelis Dalcin Barbosa, que mostra o contato do imigrante italiano com os indígenas e com o meio ambiente da Mata Atlântica, onde devem construir suas casas de tábuas e fazer queimadas para as plantações.

Emyr C. Facchin, com Aldeia Colonial – Romance Regional (1983), como diz o título, desenha um painel para mostrar aos leitores um recanto do mundo ainda não objeto das atenções.

Eloy Lacava Pereira publica Arrivederci no Paraíso (1986), que põe em cena a partida dos imigrantes da Itália, sua chegada ao Brasil e as lutas dos primeiros tempos. Em Vinho Amargo (1987), o foco é a vida numa comunidade de famílias descendentes de italianos, com o lado amargo da acusação de serem quinta-colunas, no período de discriminação da Segunda Guerra.

Em Bento Gonçalves, Remy Valduga lança O Caçador de Caramujos (1985), A História de Catarina (1986) e Sonho de um Imigrante (2005). Sobre o primeiro, o poeta Oscar Bertholdo escreveu: “Em O Caçador de Caramujos, a letra se faz vinho, o vinho se faz palavra, e a palavra tecida nos trouxe um livro com sabor oral de um avô contando estórias para os netos em noite de filó”.

Waldomiro Manfroi, autor dos romances Tempo de Viver (1992) e O Último Vôo (1994), publica em 1999 o romance A Confissão do Espelho, que põe em cena agricultores e pequenos comerciantes de origem italiana vivendo num contexto cultural diversificado e complexo, em pleno período de confronto do nazi-fascismo com o nacionalismo excludente.

É nesse contexto que nasce O Quatrilho (1985), romance que dá início a uma trilogia, que eu completaria depois com A Cocanha A Babilônia. Em conjunto, eles formam uma “trilogia étnica”, padrão que determina que seja narrada a história de três gerações, no âmbito das mesmas famílias.

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O tema da imigração italiana na ficção não se esgota aí. Para se ter uma ideia, observe-se esta relação, mesmo que incompleta, de autores e obras vinculados à nossa região, vindos à luz neste terceiro milênio:

yesValmi Carneiro Elias – A colônia dos peraus: a Colona (2005).

yes Gustavo Guertler – A Sombra das Manhãs (2005):

yes Ivo Gasparin – Segredo de Pedra (2008). A Maldição do Padre (2014)

yes Alberto Arioli – Cabedelo, a Odisseia de uma Vida (2012).

yes Valdemar Mazzurana – Operários da Primeira Hora – a épica da migração italiana no sul de Santa Catarina (2012).

yes Dagoberto Lima Godoy – Vendetta: E não há como fugir… (2013).

yes Luiz Carlos Ponzi – Isabella em Contos (2014).

yes Dalcy Angelo Fontanive – Prisioneiro da Liberdade (2014); Velhos Tempos, Novos Ventos (2015); La Mamma (2016).

yes Plinio Mioranza – Marco Bortolai, o Andarilho (2015).

yes João Celeste Agostini – O Lagarto na Taipa – 1936 (2017).

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E o assunto não está ainda esgotado!

Personagens italianos na pauliceia desvairada

É em São Paulo, para onde convergiu, segundo estimativas, cerca de setenta por cento da imigração italiana no Brasil, que naturalmente essa presença na literatura se fará mais frequente e mais intensa.

Além disso, com a Semana de Arte Moderna de 1922, São Paulo se empenhou em tirar do Rio de Janeiro o título de capital da literatura brasileira. O livro Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, seria o estandarte dessa revolução que não era apenas estética, era também de política literária.

Sem contar outras menos significativas, personagens italianas vão aparecer em obras de Mário de Andrade, de Antônio de Alcântara Machado, de Plínio Salgado e vai tomar corpo em Juó Bananére.

Juó Bananére é um pseudônimo de Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, transformado em personagem, numa mistura de italiano e de caipira. O maior sucesso de Marcondes Machado – ou Juó Bananére – foi o livro La Divina Increnca (1915), uma paródia, no italiano macarrônico criado pelo autor, de passagens da Divina Comédia de Dante Alighieri. Juó Bananére teve também grande divulgação em revistas e jornais da época graças à sua caricatura criada por Voltolino (pseudônimo de Lemmo Lemmi).

Mário de Andrade, em Macunaíma (1928), criou um gigante comedor de gente, de nome Venceslau Pietro Pietra. Ele mora no bairro do Pacaembu, joga truco e morre depois de uma pantagruélica macarronada. Esse perfil do italiano devorador (das fazendas de café e do capital urbano!) é uma imagem também nada simpática. Nos Contos de Belazarte (1934), comparecem também diversas personagens italianas (Carmela, Nardelli etc.) mas apenas, digamos assim, como elementos para compor o ambiente urbano paulista. De um modo geral, Mário de Andrade não tem empatia com seus personagens italianos.

Bem diferente é o caso de Antônio de Alcântara Machado, nos contos de Brás, Bexiga e Barra Funda (1927). O próprio título do livro enumera bairros de imigrantes italianos de São Paulo. É ele o escritor que mais claramente testemunha a força da imigração italiana no quadro urbano paulista, como um elemento definidor de seu perfil. É evidente também a simpatia humana com que lida com seus personagens. Quem não se lembra da emoção do conto “Gaetaninho”, o garoto atropelado pelo bonde? Esse autor não cria tipos. Faz uma espécie de documentário ficcional do imigrante italiano em São Paulo.

O Estrangeiro (1926), de Plínio Salgado, tem outra ambição. Embora o autor também queira fazer um registro da realidade paulista, em que o imigrante italiano é um componente fundamental, ele é talvez o primeiro a introduzir, na ficção, o mito do italiano bem sucedido, que será recorrente, mais tarde, nas peças de Jorge Andrade: em Os Ossos do Barão (1963) um imigrante siciliano, que vai substituir mão de obra escrava numa fazenda paulista, passa para trás um barão do café…

Em O Estrangeiro, Carmine Mondolfi e sua mulher Concetta saem da pobreza para uma bela conta bancária e uma fazenda de café, em contraposição à decadência dos latifundiários. Mas o romance é também um panfleto contra o “espírito de italianidade” defendido pela sociedade Dante Alighieri e, portanto, uma defesa da integração do imigrante italiano na nacionalidade brasileira. O “estrangeiro” deve tornar-se um “nacional”, culturalmente adaptado, sabendo que foi o almirante português Pedro Álvares Cabral quem descobriu o Brasil, e não Américo Vespucci.

O padre Carlo Porrini publicaria em 1936, também em São Paulo, o romance Masticapolenta, escrito em italiano, cuja ação se passa num país chamado “Cuccagna”: “paese dove sempre se ride e senza pagar sempre se magna!” (país onde sempre se dá risada e sempre se come sem pagar!).

Depois desses, é quase incontável a presença de italianos nos romances de Hernani Donato e de Marcos Rey (pseudônimo de Edmundo Donato). Estão presentes ainda em Autran Dourado, em Pellegrini Jr, em Ary Quintella, em Zélia Gattai, entre outros, compondo um espectro bem amplo: são anarquistas, arrivistas, contrabandistas, artistas de rua, boêmios, contestadores, num processo progressivo de integração e de ascensão social.

Também é verdade que a ficção paulista consagrou a figura do italiano falastrão e metido a esperto, figura que migrou depois para o teatro, para a novela de rádio e, mais tarde, para a novela de televisão. Todos puderam apreciar esse estereótipo na novela Terra Nostra, exibida como “novela das oito”, entre 1999 e 2000, com mais de duzentos capítulos.

Para dar uma ideia da força do estereótipo paulista, vou citar um episódio.

O ator Alexandre Paternost (em pé) em cena no filme “O Quatrilho” (contracenando com José Lewgoy), em que estudou a fundo o contido gestual típico dos colonos italianos

Quando foi lançado o filme O Quatrilho, dirigido por Fábio Barreto, um crítico de São Paulo escreveu que o desempenho do personagem Angelo Gardone foi muito fraco: ele não gesticula, não grita, vê-se que o ator não se sente à vontade em cena. Etc, etc…

Acompanhei a pré-produção do filme, com os atores circulando pelas colônias do interior de Caxias do Sul e de Flores da Cunha, para observar o jeito de ser das pessoas. E percebi que Alexandre Paternost (o ator que fez o papel de Angelo Gardone) procurou copiar os gestos contidos de nossos colonos: ombros encolhidos, mãos nos bolsos, olhar baixo. Isto é, fez um primor de desempenho realista como ator. Mas para os paulistas ele devia gritar, gesticular, fazer estardalhaço, para ter jeito de personagem italiano!

O corsário e o fazedor de linguiça

Os primeiros italianos que desembarcaram no Rio Grande do Sul foram os participantes da Revolução Farroupilha (1835 – 1845). Três nomes ficaram marcados na história: Giuseppe Garibaldi, Luigi Rossetti e Tito Livio Zambeccari. Dos três, Garibaldi foi o mais famoso. Mas os outros dois também tiveram participação ativa na história gaúcha.

Rossetti comprou prensa tipográfica em Montevidéu e fundou o jornal O Povo, impresso em Caçapava, que teve 47 edições: morreu de um golpe de lança na tomada de Viamão, com 40 anos de idade. Zambeccari era cientista: fez o primeiro mapa de Porto Alegre, fez medição de terras na colônia de São Leopoldo e catalogou mais de mil espécies de vegetais num herbário na região das Missões. Era também uma espécie de “secretário sem pasta” de Bento Gonçalves.

Giuseppe Garibaldi, um dos primeiros italianos a pisar em solo gaúcho

Mas não há dúvida de que essa trindade não veio sozinha. E também não há dúvida de que nem todos voltaram para a Itália com o desfecho da Guerra dos Farrapos. Vir para a América era um sonho não só para os banqueiros Cavalcanti. O paese della cuccagna atraía também os que beiravam a miséria e um que outro aventureiro. Dois tipos desses entraram como personagens na literatura rio-grandense, lá no começo.

Um deles foi criado por Caldre e Fião, apelido que José Antônio do Vale acrescentou ao nome. Ele ganhou de Guilhermino César, em sua História da Literatura do Rio Grande do Sul (Ed. Globo, 1956) o título, um pouco desafiador, de “O Criador do Romance”.

De fato, seu romance O Corsário foi publicado em 1851. Portanto, alguns anos antes de O Guarani de José de Alencar. Além de ser o primeiro romancista brasileiro, na opinião de meu mestre (e professor!) Guilhermino César, introduziu quem sabe o primeiro personagem italiano na ficção brasileira: o corsário Vanzini.

Caldre e Fião, autor de “O Corsário”

Vanzini é um aventureiro, capitão de navio corsário, expulso de Veneza, que vem dar na praia de Tramandaí. Maria, moça do local, encontra Vanzini desfalecido num cômoro de areia, se apaixona por ele e foge com o amante. Quando descobre que ele só quer ficar rico, Maria o abandona e casa com um vaqueano.

No romance, Vanzini luta sob as ordens de Garibaldi, perto da Lagoa dos Patos, esperando recompensa. Mas o eixo dramático da narrativa é a história da paixão de Maria por Vanzini. Matias, um dos personagens, tem a seguinte fala, nem um pouco simpática:

– “Italiano!… Quanto tenho sofrido desses macarrões!… Deram-me, é verdade, bastantes lucros no tempo da guerra; mas agora, santa virgem! Agora têm-me esfolado à grande!”.

“Macarrões” atuantes na Guerra dos Farrapos certamente serviram de referência para Caldre e Fião. Verdade é que ele fez curso de Medicina no Rio de Janeiro, e pode ter aprendido lá esse epíteto desabonador.

Já a geração seguinte, como observa Guilhermino César, “sequiosa de assuntos gauchescos, tomou outra direção”, o que não tira de Caldre e Fião “o mérito de haver ajudado a criar o romance”. (op. cit., p 150)

A figura do italiano retorna com força em “O gringo das linguiças”, de Simões Lopes Neto, na obra Casos do Romualdo (1914). Nesse conto, de assunto gauchesco, o autor explora o estereótipo do italiano esperto (furbo). Situa a narrativa na Serra do Caverá, cenário próximo, portanto, da Quarta Colônia de Silveira Martins. Ela foi destinada a imigrantes italianos, dentro da estratégia de produzirem alimento para a base militar de Santa Maria. Domenico, “o gringo” do conto, faz linguiças nas tripas de cachorros vivos, aos quais dá a carne para engolir. E fala num italiano misturado com português com o personagem Romualdo.

Há depois várias figuras de italianos também em Erico Verissimo. Em Música ao Longe, Vittorio Gamba busca a ajuda de Olivério Albuquerque e depois executa a hipoteca da casa do velho coronel. Em O Tempo e o Vento, entre outras figuras menores, como o ferreiro Arrigo Cervi, há o médico Dante Camerino, afilhado de Rodrigo Cambará, e o também médico Carlo Carbono.

A partir desses autores, personagens italianos aparecem cá e lá em quase toda a literatura rio-grandense. Moacyr Scliar, por exemplo, em Festa no Castelo, traz um sapateiro, Nicola Coletti, com ideais utópicos socialistas. Sérgio Caparelli, em Vovô Fugiu de Casa, mostra o velho Beppe, que foge para não ir para o asilo e faz um percurso pelas colônias italianas do sul.

É só ler e respigar…

A cartomante e outros italianos

Na cata de personagens italianos na literatura brasileira, vamos agora a Machado de Assis.

Embora ele tenha vivido numa época em que levas de italianos passavam pelo porto do Rio de Janeiro, e embora ele trabalhasse no Ministério da Agricultura, órgão do governo responsável pela imigração, inclusive na época dos que vieram para o Sul do Brasil, não há nos escritos de Machado nenhuma referência a esse fato.

Os italianos que aparecem nos seus romances e contos, sempre como coadjuvantes, obedecem a outro estereótipo, bem diferente do de Alencar (leia texto AQUI). Atrizes, cantoras e diversos tenores de ópera, espalhados aqui e ali, ajudam a construir as cenas de suas narrativas.

A figura mais vistosa deve ser a cartomante do conto de mesmo nome, com este perfil mais cheio de detalhes: “era uma mulher italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos”.

Ela chama Camilo, o consulente, de ragazzo innamorato, em italiano culto. Tem “longos dedos finos, de unhas descuradas”, e quando se põe a comer um cacho de uvas, mostra “duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas”. O detalhe do cacho de uvas é bem curioso… E, como Alencar no seu Loredano, Machado admira os dentes dos italianos, brancos, completos. Para concluir, na despedida, alegre com a paga, a cartomante canta uma barcarola “lenta e graciosa”.

Machado de Assis

Em Histórias da Meia-noite há um extenso conto, “As bodas de Luís Duarte”, em que Machado de Assis não deixa escapar um detalhe da festa, desde a limpeza da casa até o brinde final. Para compor o cenário elegantíssimo, são colocadas na parede duas gravuras de procedência italiana, “compradas na véspera em casa do Bernasconi; uma representava a Morte de Sardanapalo; outra a Execução de Maria Stuart”. As duas vão dar muito assunto para as conversas dos convidados…

Há um frei capuchinho italiano, do qual não é registrado o nome (provavelmente se trata de uma personagem real), em Esaú e Jacó. Ele é largamente desenhado, e com simpatia:

“…um capucho, um italiano, frei***. Podia escrever-lhe o nome, – ninguém mais o conheceria, – mas prefiro esse sinal trino, número de mistério, expresso por estrelas, que são os olhos do céu. […] O pé nu, atado à sandália, mostrava aguentar um corpo de Hércules. Tudo isso meigo e espiritual, como uma página evangélica. A fé era viva, a afeição segura, a paciência infinita. […] Ia ao interior, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, – creio que ao Paraná também, – viagem espiritual, como a de outros confrades”.

Uma personagem à qual a crítica atribui vinculação com a cultura italiana é nada menos que Capitu, a heroína do romance Dom Casmurro. Ela se chama Maria Capitolina, de onde o seu apelido. E Capitolina seria um derivado da Colle Capitolina de Roma: ou seja, o monte Capitólio, onde foi sepultada Tarpeia, também suspeita de traição, como Capitu…

Depois de Machado, entra em cena o romance naturalista, com Aluísio Azevedo como principal figura. Em O Cortiço, ele desenha seus personagens com base na observação direta, de acordo com o critério orientador da escola naturalista.

Aluísio Azevedo

Nesse romance, ele põe em cena grupos de trabalhadores italianos anônimos, como neste enquadramento:

“um grupo de italianos, assentado debaixo de uma árvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo”.

Isso num domingo. Numa outra cena, refere:

“o jantar de um grupo de italianos mascates, onde o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andrea representavam as principais figuras. Todos eles cantavam em coro (…); quase, porém, que se lhes não podia ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que soltavam ao mesmo tempo”.

E ainda:

“lá fora o coro dos italianos se prolongava numa cadência monótona e arrastada, em que havia muito peso de embriaguez”.

Parece agora claro que aí estão presentes, pela primeira vez na literatura brasileira, os imigrantes italianos que vieram em massa para o Brasil no final do século XIX. E é claramente visível também o estereótipo: se juntam em grupo, conversam em voz ruidosa, cantam em coro, blasfemam e bebem.

Figuras de italianos no romance de Alencar

Não é deste século (e agora com a minha trilogia!…) a presença de italianos como personagens na literatura brasileira. Sobre este aspecto farei alguns registros e comentários, numa sequência de textos.

Esta perspectiva me parece interessante porque, nela, é possível identificar o modo pelo qual o italiano é visto e representado no universo cultural brasileiro nos últimos dois séculos, período em que sua presença é mais marcante: primeiro com os artistas de ópera e de teatro da corte imperial e, no final do século, com a imigração em massa, para diversas províncias.

Desde logo, é possível adiantar que a imagem do italiano sofre modificações, ao longo do tempo, mas quase sempre obedecendo a estereótipos de circunstância histórica, facilmente identificáveis. De um modo geral, também, é possível dizer que o tipo italiano é visto com estranheza, ou seja, ele é um tipo sempre estranho dentro do contexto brasileiro, ora visto com simpatia, ora com preconceito.

A intenção aqui é a de rabiscar uma linha de evolução histórica na composição dos personagens italianos, ou de origem italiana, na literatura brasileira, sempre buscando caracterizar o perfil que eles assumem em cada momento da história.

Começo, e não podia ser diferente, por José de Alencar.

Na sua galeria de mais de mil personagens, há um mascate italiano, no romance Til, de quem o autor não dá o nome, mas o estereótipo: ele está na beira da estrada contando dinheiro. Há outro mascate italiano em Senhora, que vende, através da grade do jardim, um pente e uma escova de dentes. Os dois romances são anteriores à grande imigração. O primeiro é de 1872 e o segundo de 1875. Isso significa que os mascates precederam os colonos…

José de Alencar e a figura estereotipada do italiano imigrante no Brasil

Em As Minas de Prata, de 1862, concluído em 1865, encontramos Cláudio Acquaviva, Geral dos jesuítas, “cujo nome, a mil léguas de distância, fazia estremecer” (não talvez por ser italiano, mas jesuíta!). Membros da família Cavalcanti aparecem em A Guerra dos Mascates, de 1873, todos eles pessoas “de muita nobreza” em Pernambuco. A família dos Cavalcanti era de Florença, como Américo Vespúcio (Vespucci, em italiano). Eram banqueiros e acharam que era bom negócio investir na produção e exportação de açúcar em Pernambuco. O mais famoso da família foi o poeta Guido Cavalcanti, de quem andei também traduzindo alguns sonetos e canções.

Em Sonhos d’Ouro, de 1872, Alencar coloca como personagem uma atriz dramática, de nome Adelaide Ristori, que existiu realmente e manteve correspondência por carta com o Imperador Dom Pedro II, durante vinte e dois anos. Todos esses nomes, dos mascates aos Cavalcanti e à Ristori, aparecem apenas como figurantes de cena.

Seu personagem italiano de relevo, com elaborada construção ficcional, é Loredano, do romance O Guarani, publicado antes de 1857, em folhetins, no Diário do Rio de Janeiro, sem registrar o nome do autor. A moda de publicar romances em capítulos nos jornais se consolidou a partir daí, na literatura brasileira, seguindo a moda europeia, em especial a francesa.

Loredano é um aventureiro, ex-frade, antes conhecido como Frei Ângelo di Luca. Aventureiro italiano, conhecido como condottiere, era o que mais havia na tradição do período colonial. Eis seu retrato desenhado por Alencar: “Um rosto moreno, coberto por uma longa barba negra, entre a qual o sorriso desdenhoso fazia brilhar a alvura de seus dentes; olhos vivos, a fronte larga, descoberta pelo chapéu desabado que caía sobre o ombro; alta estatura, e uma constituição forte, ágil e musculosa”.

Sempre que Loredano fala, o narrador destaca o seu tom desagradável e arrogante:

– “disse ele com um ligeiro acento italiano e um meio sorriso, cuja expressão de ironia era disfarçada por uma benevolência suspeita”;

– “respondeu o italiano em tom de mofa”;

– “o sarcástico italiano, com o seu espírito mordaz, achava meio de ligar a todas as perguntas do moço uma alusão que o incomodava”;

– “o italiano lançava sobre ele um olhar a furto, cheio de malícia e ironia; depois continuava a assobiar entre dentes uma cançoneta de condottiere, de quem ele apresentava o verdadeiro tipo”.

Trata-se realmente de um tipo, e um tipo que não conta com nenhuma simpatia do narrador. Na realidade, Loredano é o vilão do romance. O italiano, apodo com que Loredano é identificado, estreia mal, portanto, no romance brasileiro. Se o ficcionista sempre busca suas figuras na realidade, onde teria encontrado Alencar seu italiano típico?

O fato de ele conviver com o mundo da cultura italiana pode ser comprovado em seu folhetim semanal, publicado a 8 de janeiro de 1855, no Correio Mercantil do Rio de Janeiro. Depois de falar do clima de passagem do ano, empregando a linguagem tida por elegante na época, José de Alencar escreve:

“Minha gentil leitora, quero dar-vos as minhas étrennes [em francês, o brinde de Ano Novo], embora não vos lembrásseis de mandar-me as festas. O meu cadeau [presente, em francês] é uma notícia, que creio haveis de apreciar tanto quanto ela merece.

Com o novo ano vai continuar (ou já continuou) a ser publicado um lindo jornal italiano e português, do hábil professor Galleano Ravara. Já prevejo com que prazer acolhereis a Ïride, que, como boa mensageira, irá falar-vos a doce e rica linguagem de Tasso, de Dante e de Petrarca, e recordar-vos aquelas mágicas palavras de Romeu e Julieta, quando ouviam cantar o rouxinol e a cotovia ao raiar da alvorada.”

Pode-se concluir por esse relato que aprender a língua italiana era, na época, dentro do clima cultural implantado por Dom Pedro II, esposo de uma princesa italiana, um sinal de inserção no mundo da cultura. Haver escola de italiano e jornal em italiano exigia figuras ilustres de professores, e jornalistas. Mas, em seu romance, Alencar não avança além dos estereótipos.

Mario Quintana e seus quintanares

Mario Quintana (1906-1994) foi outro poeta enfeitiçado pelo outono, na trilha de Paul Verlaine. Escreveu até um poema com o mesmo título, Canção de Outono. E também este Hai-Kai de Outono:

“Uma borboleta amarela?

Ou uma folha seca

Que se desprendeu e não quis pousar?”

A palavra “quintanares” é um neologismo inventado pelo poeta Manoel Bandeira, num poema de sua autoria, para homenagear Quintana na Academia Brasileira de Letras pelos seus sessenta anos. O curioso é que Mario Quintana tentou por três vezes uma vaga na Academia e não conseguiu ser eleito, mesmo sendo já um poeta de referência nacional. Perguntado sobre o porquê dessas derrotas, teria respondido, fazendo blague:

– Para entrar na Academia Brasileira de Letras a gente depende de Q.I.. Entendeu? Depende de Quem Indicou!

Uma faceta de Mario Quintana era o seu permanente senso de humor. A começar pela falta de acento em seu nome: é que Mario foi escrito sem acento no registro de nascimento, explicava. O jornalista Juarez Fonseca publicou em Porto Alegre o livrinho Ora Bolas: o humor de Mario Quintana, com “130 historinhas compiladas” junto a colegas e amigos do poeta. Juarez Fonseca conta que o poeta se divertia e “gostava de seu lado clown”.

Uma dessas brincadeiras é lembrada por Luis Fernando Verissimo:

“Uma vez ele pegou carona comigo e sentou no banco de trás. Quando eu parei na frente da casa do Josué (Guimarães), na rua Rivera, ele teve alguma dificuldade para descer do carro. E comentou: “Como a gente tem pernas, né?”.

Mario Quintana e os seus “quintanares” outonais

Vou contar duas dele acontecidas comigo.

A primeira foi quando eu fazia a Faculdade de Filosofia em Viamão e, por algum motivo que não lembro, fui até a redação do Correio do Povo com um colega. A sede do jornal era na famosa rua Caldas Júnior e a redação ficava no segundo andar. Para subir, o porteiro nos levou até o elevador, que tinha uma porta pantográfica, como se dizia, tipo grade: dava medo só de a gente se imaginar dentro dele. Mas o aparelho subiu, bem sonoro, sem problemas.

A primeira mesa na entrada da sala de redação, à esquerda da porta, era ocupada por quem? Mario Quintana, que datilografava numa Remington antiga, parecida com um robô! Meu colega chegou até ele e perguntou, cerimonioso:

– Posso lhe incomodar um instante?

– Eu não me incomodo – sorriu ele. – Acho que a minha Remington também não!…

A segunda foi uns dez anos depois, quando eu cursava o mestrado em Letras na UFRGS. O professor de Teoria Literária programou para os alunos, como exercício, darem palestras, sobre temas literários, abertas ao público. O local escolhido por ele foi nada menos que o auditório da Assembleia Legislativa. O tema que me coube foi falar sobre a poesia lírica. Ainda sinto um pouco da tensão com que fui até a mesa dos palestrantes. Tensão que subiu mais alguns graus quando vi, na terceira ou quarta fila de cadeiras, o poeta Mario Quintana. Como podia eu falar de poesia lírica diante de um poeta como Quintana? Mas respirei fundo e segui em frente.

Quando terminei, vi o Mario Quintana chegando até a mesa para me cumprimentar. Disse que eu tinha falado mais como poeta do que como crítico, desses que acham que sabem tudo! Agradeci e acrescentei:

– Vi o senhor na Feira do Livro de Caxias. Mas sou muito tímido para abordar as pessoas.

– E eu sou muito tímido para ser abordado – riu ele, virando as costas e saindo do auditório.

Como fecho de ouro, vai aqui sua Canção de outono:

O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida.

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo inverso e dorido

De carícia a contrapelo.

Partir, ó alma, que dizes?

Colher as horas, em suma.

Mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte nenhuma!

– In: Canções (Ed. Globo, 1946)

A musicalidade das folhas de outono

Na série de visitas que venho fazendo neste tempo de distanciamento social, usando o veículo das leituras, encontrei outro mestre querido: Paul Verlaine (1844-1896). Jean Richer escreveu sua biografia, num relato que daria uma série de filmes dramáticos.

Verlaine foi para mim um mestre da poesia, mais que das ideias. Sua lição principal se tornou quase um aforismo: “La poésie c’est de la musique avant toute chose” Em português: “a poesia é música antes de mais nada”. Foi com ele que aprendi que a poesia deve soar bem nos ouvidos, mesmo quando lida em silêncio. Foi seguindo essa receita que traduzi Petrarca, entre outros poetas.

Uma das marcas da poesia de Verlaine é o modo inebriante com que canta o outono. Talvez seu poema mais conhecido seja precisamente a “Chanson d’Automne”, que vários no Brasil já tentaram traduzir. Minha tentativa é esta:

Os soluços longos

Dos violões

Do outono

Dão-me uma dor

De um langor

No mesmo tom.

Não é tradução literal, mas que tenta reconstituir a “música antes de mais nada”, composta por ele.

Paul Verlaine, mestre da poesia

No livro Matrícula, do qual participei em 1967 com quatro poetas amigos, incluí um poema sobre o outono. Imaginem se não foi por influência de Verlaine!:

Pomares, torres e unhas

tudo amarelecendo;

é o sol de outono a chegar

é o abril pálido e sereno.

Estive em Paris num outono e fiquei encantado. Não sei se continua assim, mas as folhas de outono eram deixadas onde caíam, debaixo das árvores, ao longo dos bulevares e avenidas. Em memória de Verlaine, pensei na ocasião. Para ele, as folhas caídas, levadas pelo vento, fazem lembrar os dias que se passaram e, portanto, não devem ser eliminadas.

O charme das folhas secas em Paris, no outono

Em minha poesia reunida, publicada com o título de Mapa de Viagem (2000), incluí outro poema com o título de Outono. Nele retorno à lição verlainiana, fazendo uma reflexão sobre a vida. Como estamos às vésperas de um início de outono, tomo a liberdade de reproduzir aqui integralmente todo o poema.

OUTONO

Nos trópicos sem outono,

o outono é apenas rima

de abandono e sono,

é cartão de turista,

vangogue vão, mero tópico

de conversas, faits-divers e versos.

Sem outono, como vão

teus olhos claramente ver

como é uniforme o verão,

e cansativo seu verde sempre igual,

sem o tom das folhas que rodam

no giro das estações?

Como sabes, sem outono,

qual o rumo da vida?

Irás de surpresa para o reino

das sombras, não sabendo,

presa ingênua, do teu fim.

Ir para as sombras, sim,

mas sabendo pelo sinais

quando a hora se aproxima

dos frutos maduros e dourados.

E sabendo-se a hora,

poder concentrar-se no sumo

– como o fruto, o pão assado –

cientes de que tudo,

quando doura, ao limite

de si e de sua grandeza

é afinal chegado.

É a hora madura

em que a pessoa a si mesma saboreia,

sem afogo, em fogo lento,

que de ouro incendeia

os pomos do pomar

e a alma do almo corpo.

As teses de Eco sobre… teses!

Programei escrever um texto sobre Michel Foucault, amigo de Gilles Deleuze, mas, “furando fila”, apareceu na minha frente o Umberto Eco, por causa de uma associação adiante esclarecida…

Por ocasião do cinquentenário da UCS, celebrado em 2017, houve todo um trabalho preliminar de diversas comissões para organizar a agenda comemorativa. Um item proposto foi o de que se convidasse uma personalidade de renome mundial para marcar o evento com sua presença. Um nome que contou com a concordância geral foi o de Umberto Eco. Italiano, competente em diversos campos do conhecimento, como filósofo, linguista, semiólogo e também romancista, seria uma presença mais do que marcante para a data.

Mas ele não esperou para ser convidado. Morreu um ano antes, em fevereiro de 2016. Foi uma lástima, não apenas para nós, de Caxias do Sul. Ele foi professor titular de Semiótica na Universidade de Bolonha, por sinal a primeira a ganhar o nome de universidade nas origens da Idade Moderna.

Ficou mundialmente conhecido por seus estudos e pesquisas, mas talvez tenha sido como romancista que a fama o atingiu de cheio. Com o romance O Nome da Rosa, publicado em 1980 (só cinco anos antes de O Quatrilho!) e levado para o cinema em 1986, tendo Sean Connery como ator principal, seu nome saiu do mundo universitário e tomou as ruas.

Fosse com o escritor, fosse como ensaísta, a brincadeira sempre foi um traço visível de sua personalidade.

No livro Como se Faz Uma Tese, repleto de dicas para um bom trabalho de cunho científico, Umberto Eco começa fazendo uma blague: a maneira mais fácil de fazer uma tese, sugeriu ele, é pagar alguém para escrever. Claro que para isso é preciso ter dinheiro, ou então conseguir dinheiro do pai, o que nem sempre é fácil para quem está num curso de doutorado.

A segunda alternativa, para evitar trabalho e noites sem dormir, é a de pegar uma tese pronta no arquivo de alguma universidade e copiar, com pequenos ajustes para salvar a honra pessoal. Essa possibilidade hoje em dia é muito fácil, porque dá para acessar todas as teses do mundo na internet em PDF. Mas nesse caso, alerta Umberto Eco, é preciso torcer para que nenhum membro da banca conheça a tese original. Hoje essa é uma opção impraticável: basta escrever uma frase no Google e ele traz a fonte do texto imediatamente. Os membros das bancas de pós-graduação já tornaram isso uma estratégia para averiguar a originalidade da tese ou da dissertação.

Para quem não tem dinheiro ou não quer correr nenhum risco, dá ele então os passos metódicos a serem seguidos!

Outro lance jocoso de Umberto Eco foi a publicação do pequeno livro Pós-escrito a O Nome da Rosa, quatro anos depois do lançamento do romance:

“Escrevi um romance porque me deu vontade. Creio que seja uma razão suficiente para alguém pôr-se a narrar. […] Para quem, para mim? Não claro, para o leitor. Escreve-se pensando em um leitor, assim como o pintor pinta pensando no observador do quadro”.

E vai ele dando preciosas lições.

Umberto Eco (1932 – 2016)

Mas o que me fez lembrar Umberto Eco quando pensei em escrever sobre Michel Foucault? É que o segundo romance de Umberto Eco tem o título de O Pêndulo de Foucault (1988), e não faltou quem visse na obra uma provocação dirigida ao ensaísta francês… Não acredito que Umberto Eco tivesse essa intenção. O romance toma como ponto de partida o pêndulo que um físico francês, de nome Jean. B. L. Foucault, instalou no teto do Panteão de Paris, em 1851, para demonstrar a rotação da Terra.

O romance deriva, depois, para o ocultismo, numa perspectiva do fantástico, ou do fantasmagórico. Na parte final, o personagem Casaubon decide viajar para a Bahia para ver de perto os rituais afro-brasileiros. Nesse ponto, um reparo deve ser feito. Umberto Eco não esteve pessoalmente na Bahia para ver de perto os cerimoniais, e a narrativa perde bastante da verossimilhança.

Mario Vargas Llosa, quando escreveu o romance A Guerra do Fim do Mundo, baseado em Os sertões – Campanha de Canudos, do jornalista Euclides da Cunha, teve esse cuidado. Foi até Canudos para ver a cor da terra, a altura das árvores, como disse a um repórter que lhe perguntou o motivo da viagem. E concluiu: a mentira da ficção, para convencer o leitor, precisa parecer verdade.

Mas isso já sugere outra história…

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