O domínio de um território

Gilles Deleuze (1925-1995) é um nome que também merece ser tirado do baú. Foi professor de História da Filosofia na Universidade de Vincennes (Paris VIII) e amigo de Michel Foucault, outro mestre do pensamento.

Meu interesse por Deleuze surgiu quando descobri que ele era contra o estruturalismo, aquele tipo de pensamento quadrado, incapaz de perceber e de avaliar as diferenças e as singularidades que nos desafiam.

Pois Gilles Deleuze se deleitava com as singularidades e as estranhezas contidas no balaio de coisas oferecidas à nossa percepção. Ficou célebre por causa de seu Abecedário, uma entrevista filmada para a televisão, concedida à jornalista Claire Parnet, tendo como tema cada uma das letras do alfabeto. Deleuze deu a entrevista com a condição de que ela só fosse ao ar depois da morte dele, mas mudou de opinião e autorizou que fosse divulgada.

O tema de cada letra foi escolhido por Claire Parrnet. Antes de começar a responder, Deleuze ainda protestou: “Você escolheu um abecedário, definiu os temas, mas não conheço todas essas questões: responder uma questão sem ter refletido é algo inconcebível para mim”. Mas acabou encarando a proposta como um jogo de desafio, e ficou vários dias gravando a entrevista, em ordem alfabética.

Na letra A, o tema escolhido foi a palavra Animal. A resposta de Deleuze terminou sendo quase um tratado sobre o assunto: não um tratado de zoologia, mas de filosofia! Vai a seguir um pequeno esboço de seu pensamento sobre o assunto.

Começou falando dos gatos e dos cães, que são animais de família, cada vez mais, na mesma proporção em que crescem as cidades. Ser animal de família é mais que ser animal doméstico, é entrar numa relação de convívio dentro do mesmo espaço e dentro do mesmo ritmo de tempo da família. Deleuze declara que não gosta dessas relações familiais, como ele designa, porque as pessoas não sabem se comportar com elas.

Especialmente com os cachorros, as pessoas querem estabelecer relações humanas (que os cães aceitam!), quando o certo seria as pessoas terem com os animais relações animais. Neste item, os gatos levam vantagem porque não aceitam, como os cães, a dependência afetiva. Ou pelo menos fingem melhor, são mais capazes de parecer independentes.

O que fascina no animal, diz ainda Deleuze, é que todo animal tem um mundo, é senhor de um território, ao passo que muita gente vive sem ter um mundo para proteger. Nesse ponto, os gatos são os animais que melhor mostram seu instinto territorial. Eles ocupam a casa em que moram como se a casa fosse deles, sem deixar de negociar, esse é o termo, concessões de uso.

Se o humano que convive no mesmo espaço tenta impor espaços proibidos, o gato burla a proibição com o maior prazer e a maior desfaçatez. Se outro animal, mesmo que seja outro gato, aparecer naquele território, fica jurado de morte, pelo resto da vida de ambos. Em qualquer outro lugar em que os dois se encontrarem, os pelos vão se eriçar…

O filósofo e escritor Gilles Deleuze

No uso do espaço de família, os gatos são muito seletivos. Escolhem para seu uso próprio e exclusivo (com possibilidade de negociação), o lugar mais macio, mais cálido, mais aconchegante. É a almofada, é a janela onde bate o sol, é o calor do fogão. O gato no borralho do fogão é uma imagem tão antiga que deu origem até à história da gata borralheira!

Hoje, quando não há mais fogões a lenha e borralhos nas casas, os gatos descobriram que há determinados aparelhos que produzem calor ou ar frio. Plantam-se então diante deles e, com um miado de quem manda no território, pedem que seja ligado o ar condicionado ou o aquecedor. E ali ficam eles, satisfeitos da vida.

Deleuze aponta a seguir vários comportamentos humanos que são um prolongamento de instintos adquiridos em sua fase animal. A mais óbvia, e mais fascinante, segundo ele, é a da necessidade de cada um ter seu próprio território.

É em função dessa necessidade que o animal se torna caçador, instinto que leva os humanos a caçar, eles também, a vida inteira: caçar uma ideia, caçar uma oportunidade, caçar o lucro… E é pela necessidade de manter o território conquistado que o animal fica o tempo todo em estado de espreita. O animal é um ser à espreita, diz Deleuze, nunca está tranquilo, basta observar as orelhas do gato, mesmo enquanto come: “como o escritor está à espreita, como o filósofo está à espreita. É evidente que estamos à espreita…”

Nada a estranhar, portanto, se cada um de nós continua defendendo seu pequeno território, sempre à espreita…

Rabelais, o defensor do riso

O tempo atual convida a gente a remexer no fundo do baú. Com isso, outro escritor que me veio parar nas mãos foi François Rabelais, que antecedeu de alguns anos o autor dos Ensaios, Michel de Montaigne. Rabelais nasceu em 1494 e morreu em 1553, “velho e cansado” – como registrou um biógrafo seu contemporâneo -, antes de completar sessenta anos…

A biografia dele foi cheia de peripécias, indo de frade franciscano a monge beneditino e a médico. Mas o que interessa é que pelos quarenta anos resolveu fazer humor para desmascarar a esclerose de todas as instituições de seu tempo, montadas na Idade Média. Lançou então o romance Pantagruel – de onde nasce o adjetivo “pantagruélico”, que está em todos os dicionários. O personagem é um gigante comilão e desbocado, fazendo trocadilhos a torto e a direito com as palavras sérias de seu tempo.

O sucesso da obra foi imediato. E imediata também a sua condenação pela Igreja e pelo Estado, como era de se esperar naqueles tempos carrancudos. Com o sucesso junto aos leitores, Rabelais logo escreveu Gargantua, em que o personagem é o pai de Pantagruel. E prosseguiu escrevendo sem descanso dentro da mesma linha provocadora de escândalo. E de risadas!

Foi Rabelais, quem reabilitou o riso na cultura ocidental. Durante a Idade Média não se ria de nada, o riso era considerado sinal de estupidez: de estultícia, como se escrevia na época. Rabelais, na contramão da Igreja e dos barões feudais, afirmou que “rir é humano”, expressão que entrou para a fala de todos os dias. E como médico formado em Montpelier, defendeu que “rir é o melhor remédio” para os males humanos, sejam eles físicos ou do espírito.

Rabelais, o homem que levava a sério a importância do riso

Ele inventou inclusive um povo fictício, que chamou de Agélastes, que significa, em grego, “os incapazes de rir”.

Embora não seja da percepção comum, traços culturais da Idade Média ainda se prolongam dentro da modernidade e até da pós-modernidade. Não é de se estranhar, portanto, que ainda existam “agélastes”. Onde vigora algum tipo de fundamentalismo, seja ele religioso ou político, lá estão eles brandindo ameaças contra os que não levam tudo a sério. É só dar uma passada de olhos, e de ouvidos, no comportamento dos ditadores que ainda sobrevivem. Temos um pequeno estalinista aqui perto, bem ao lado da fronteira do Amazonas…

Alguns anos atrás, em 2006, houve uma confrontação entre Europa e mundo islamita por causa de uma charge humorística sobre a figura de Maomé, publicada pela revista francesa “Charlie Hebdo”. Pouco antes, Salmon Rushdie, por causa dos “Versos Satânicos” e das brincadeiras nele contidas, fora sentenciado à morte por líderes islamitas. O presidente do Irã chegou a excomungar todo o ocidente, porque nele as pessoas acreditaram nas previsões de um polvo sobre os resultados do futebol. Sério como ele era, decidido a ter um mundo perfeito, foi incapaz de perceber que tudo não passava de uma grande diversão.

Em 2008, dois anos depois do estrondoso caso “Charlie Hebdo”, tive a oportunidade de participar de uma mesa-redonda sobre o tema na Universidade de Toulon, na França. Depois de hábeis análises de outros componentes da mesa, feitas do ponto de vista da antropologia, da política, da comunicação, coube a minha vez de falar. Citei então Rabelais e sua teoria dos “agélastes” – os que não sabem rir – para fazer um confronto entre o radicalismo e a abertura do espírito. Pude perceber o ar de surpresa, para não dizer de espanto, com que a plateia, quase toda francesa, ouvia ser evocado um de seus mestres. E não posso esquecer que minha intervenção foi recebida com uma salva de palmas.

Por isso é bom ler coisas que estão no fundo do baú. A humanidade pode mudar de fachada, mas pantagrueis e gargântuas, entre outros famintos, continuam existindo. E das mais variadas espécies. Por isso a receita de Rabelais, “rir é o melhor remédio” continua também valendo…

Michel de Montaigne e os livros

Michel Eyquem de Montaigne nasceu no castelo de Périgord, em 28 de fevereiro de 1533, e faleceu no mesmo castelo a 13 de setembro de 1592, com quase sessenta anos, um idoso para os padrões da época.

Os Eyquem eram comerciantes na cidade portuária de Bordeaux, na França: vendiam vinhos, peixes salgados, pasteis. O pai de Michel, Pierre Eyquem, conseguiu comprar um castelo e terras férteis em Montaigne e abandonar os negócios. A partir daí, Montaigne passou a ser sobrenome da família.

A mãe de Michel era Antoinette Louppes – na origem, Lopez –, filha de um vendedor de vinhos de Toulouse e descendente de judeus da Espanha. O mundo de Michel era, portanto, pluricultural, tanto pela origem familiar quanto pelo ambiente da cidade em que nasceu. Ele possuía um “espirito atlântico”, na expressão de Thibaudet, um crítico literário francês do início do século passado.

A vida de Michel de Montaigne foi toda em ambiente erudito. Em casa, todos os familiares falavam latim, para que ele aprendesse a língua, não ficando só com a langue d’oui, de onde nasceu o francês. Aos seis anos, foi internado no Colégio, em Bordeaux. A seguir, estudou Direito e atuou no meio jurídico. Atuou também no Parlamento de Bordeaux, cargo a que renunciou. Voltou para seu castelo de Montaigne e trancou-se na torre, tendo apenas livros por companhia.

A famosa torre em que o autor escreveu seus Ensaios

Foi nesse isolamento que Michel de Montaigne começou a escrever seus Ensaios: deu esse nome porque não eram ciência nem literatura, apenas opiniões pessoais. O gênero inventado por ele é o mesmo que mais tarde passaria a ser chamado de crônica, abordando fatos do cotidiano, e não ideias: “Eu sou a verdade”, escreveu ele.

O conjunto de seus Ensaios tornou-se um patrimônio cultural, difundido no mundo inteiro. Seu tradutor no Brasil foi Sérgio Milliet (um paulista que estudou na Suíça desde os 14 até os 22 anos de idade: na Semana de Arte Moderna de São Paulo, declamou poemas dele em francês!).

A tradução de Sérgio Milliet foi lançada em 1961, pela Editora Globo, na coleção Biblioteca dos Séculos. É composta de três volumes de quase quinhentas páginas cada um, sobre temas como estes:

da tristeza

dos que improvisam e dos que se preparam para falar

dos mentirosos

de como filosofar é aprender a morrer

da força da imaginação

de como uma mesma coisa nos faz rir e chorar.

Num de seus Ensaios, a que deu o título Dos Livros, Montaigne fala de como não é fácil entrar no mundo da leitura, que é onde ele busca auxílio para escrever. Eis o que ele diz:

“Sei que não raro falo de coisas que são melhor comentadas pelos mestres do ofício. (…) Mas não se presta atenção à escolha das matérias que discuto, tão somente à maneira como as trato. (…) Não me inspiro nas citações: valho-me delas para corroborar o que digo e que não sei expressar tão bem, ou por insuficiência verbal ou por fraqueza da percepção”.

Michel de Montaigne

Outro problema que ele tinha de enfrentar é que quase todos os autores lidos na época eram em latim. Montaigne não gostava dos livros novos, muito superficiais, segundo ele. O único “moderno” que ele declarou apreciar foi o Decamerão de Boccaccio, uma obra “de passatempo”.

No final desse ensaio, assim sinalizou ele o modo com que o leitor deve encarar seus escritos:

“Exprimo livremente minha opinião acerca de tudo, mesmo daquilo que, por ultrapassar meus conhecimentos intelectuais, considero fora de minha alçada. O meu comentário tem por fim revelar meu ponto de vista, e não julgar o mérito das coisas”.

Em resumo, ainda vale a provocação de Sérgio Milliet: “A leitura dos Ensaios continua edificante quatrocentos anos depois de seu aparecimento”.

O gato Mefistófeles

Todo mundo conhece o gato Mefistófeles das histórias em quadrinhos da Disney. O que muita gente não sabe é por que ele foi parar lá e de onde veio esse nome mefistofélico… Pois eu sei disso desde que comprei numa livraria do Rio de Janeiro, em 1965, o Fausto de Goethe, na tradução de Antenor Nascentes – mestre de todos os doutores em Letras – em parceria com José Júlio F.de Souza. Eles contam no prefácio o motivo:

“Os tradutores desta obra, para não esquecerem o alemão que aprenderam, resolveram reservar um dia na semana para ler e traduzir obras interessantes escritas em alemão. Começaram por uma antologia e, finalmente, (que temeridade!) enfrentaram o Fausto de Goethe”.

E prosseguem com o relato do seu trabalho de tradutores:

“Liam de cada vez uns dez a quinze versos (obs: Goethe escreveu o Fausto em versos). Discutiam a interpretação e, só depois de estarem de acordo, escreviam-na. Liam comentadores, obras sobre o léxico goethiano, tudo enfim que pudesse trazer subsídios valiosos. Em certos trechos difíceis, repararam que muitas vezes os tradutores não concordavam entre si nem os tradutores com eles…”

Pronta a tradução, e feita duas vezes a revisão, ninguém menos que Augusto Meyer, poeta gaúcho de renome, saiu à procura de editor. A Editora Letras e Artes, do Rio de Janeiro, com sede na avenida Presidente Vargas, teve a coragem de assumir a publicação. Foi lá que adquiri meu exemplar.

E quem era Mefistófeles na peça de Goethe?

Em resumo, Fausto é uma tragédia em tom fantasmagórico, recheada de bons e maus espíritos, anjos e demônios, bruxas e feiticeiras, estudantes e camponeses. Fausto é um professor insatisfeito com sua ignorância: “Tenho estudado até agora Filosofia, Jurisprudência, Medicina e por desgraça também Teologia: pobre louco, continuo na mesma!”

Quando ele invoca algum espírito poderoso para o auxiliar a ser mais sábio, aparece em meio à névoa alguém vestido como estudante. O diálogo entre os dois, quando Fausto lhe pergunta o nome, é um dos momentos mais engraçados da peça, toda ela cheia de peripécias, sem a menor linearidade narrativa. Ao longo da conversa, o nome de Mefistófeles é revelado. Os dois fazem então um pacto, em que Fausto entrega a alma a Mefistófeles e, em troca, recebe a sabedoria. Depois, um novo item é acrescido ao pacto: Mefistófeles ajudará Fausto a conquistar a bela Margarida, a Gretchen das fábulas.

Inúmeros ensaios de ecdótica têm pesquisado a origem desse nome. É consenso que Goethe foi buscá-lo no acervo das narrativas populares medievais do mundo germânico. O mesmo onde os Irmãos Grimm foram buscar os personagens e as histórias dos contos que escreveram e são lidos no mundo inteiro. Foi nesse repertório que a Disney foi buscar material para sua indústria do entretenimento, por meio do cinema e das histórias em quadrinhos.

E qual a ligação do gato Mefistófeles da Disney com o Mefistófeles de Goethe? A pista é a seguinte: quando Fausto vê Margarida numa janela e pede a ajuda de Mefistófeles para conquistá-la, este responde:

“Eu sou como um gato franzino que sobe pela escada, e depois se esfrega suavemente junto às paredes”.

Enquanto os dois pactuam a sedução de Margarida, aparece o irmão dela, Valentim, que esbraveja: “Maldito caçador de ratos! Vá para o diabo!”

Mefistófeles, o gato de estimação da Madame Min, da Disney

Para terminar, também tenho uma historinha. Quando comecei a trabalhar como professor na universidade, ganhei de presente um gato, já com o nome de Mefistófeles. Nos dávamos bem, mas como eu passava o dia fora de casa, trabalhando, e algumas noites também, ele ficava sozinho.

Numa noite dessas, voltando da universidade, quando abri a porta, Mefistófeles passou pelo vão e sumiu no escuro da rua. Procurei durante dias pela redondeza, mas nunca mais o encontrei. Porém, cada vez que vejo um gato na rua, ou no parque, suspeito que seja ele, o Mefistófeles! Mas não chegamos a fazer nenhum pacto…

O recado histórico das taipas de pedra

Um patrimônio cultural mais que centenário e quase esquecido no Rio Grande do Sul

Nos Campos de Cima da Serra – aí incluído o município de São Francisco de Paula, meu berço de origem –, o cercado das fazendas foi feito por meio de muros feitos de pedra, conhecidos pelo nome de taipas. Quem tomar a estrada rumo às praias do litoral, na direção de Torres ou na de Lages, certamente vai vê-las integradas à paisagem.

Alguns desses conjuntos, vistos à distância, parecem muralhas de uma gigantesca cidadela, tamanho o seu impacto visual. Embora não costumem ser vistas nessa perspectiva, as taipas de pedra são um verdadeiro patrimônio cultural. Grande parte dele é mais do que centenária e deveria merecer, por isso, um tratamento adequado ao seu valor.

O costume de dividir os campos teve início, segundo consta, na metade do século XIX. Até então o gado vivia solto, haragano, como se dizia. O cercamento surgiu quando a pecuária adquiriu o caráter de economia organizada, com a valorização do preço do couro e do charque. Isso fez com que se iniciasse a demarcação das propriedades e a marcação do gado, inclusive com regulamentação legal.

Antes das taipas de pedra, as divisas eram feitas aproveitando acidentes topográficos: sangas, arroios, capões, pontas de mato. A tradição oral atribui a ampla utilização das taipas como cercas divisórias ao fato de ser o arame um artigo raro, e de preço muitas vezes proibitivo, quando se iniciou a prática de divisão dos campos.

De acordo com a mesma tradição, as taipas, especialmente as antigas, foram obra de mão escrava. São elas construídas de pedras irregulares um tanto arredondadas, encontradiças nos campos. O transporte era feito com a zorra, uma espécie de forquilha sobre a qual as pedras eram levadas de arrasto.

Extremamente sólidas, mesmo que feitas em junta seca, as taipas divisórias de mangueiras e de piquetes podem ter a largura de cerca de um metro na sua base e uma altura de até dois metros. Nas divisórias de campo, essas dimensões podem ser mais reduzidas, com a altura mediana de um metro e meio. No passado, eram feitos também de taipa os mangueirões para mulas e para porcos à beira dos passos do rio Pelotas, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.

De taipas de pedra eram também os corredores para as tropas, próximos aos mangueirões: desses corredores restam ainda algumas ruínas próximas ao Passo de Santa Vitória, onde as tropas pagavam alfândega para cruzar a fronteira.

Segundo historiadores, em fins de 1869, o porto de Rio Grande começou a receber arame galvanizado, de procedência inglesa, comércio que se intensificou a partir de então, chegando à culminância em 1880. Iniciou-se então a era do alambrado, ou do arame farpado, que traria profundas mudanças no modo de ser e nos costumes do homem dos campos.

O trabalho campeiro foi todo ele afetado em sua forma: uma coisa era lidar com reses e cavalos quase selvagens nos campos abertos e outra, agora, lidar com um gado também ele domesticado pelas cercas. Uma coisa era percorrer os campos em qualquer direção, com carretas ou tropas, e outra bem diferente ter que seguir pelos “corredores”, que alongavam as distâncias.

É possível que a mudança ocorrida entre o antigo “gaudério” nômade e o agora peão sedentário tenha sido mais evidente, até mesmo dramática, nos campos fronteiriços do Rio Grande do Sul. Mas também nos Campos de Cima da Serra. Depois das cercas não haveria mais “rincões” – como o “rincão” em que nasci – onde viviam manadas de baguais xucros. E as taipas de pedra são o testemunho mais antigo e visível do início dessa nova era ou, sem excesso de retórica, desse novo ciclo civilizatório.

A presença das taipas na região é também indicadora de um saber fazer, de que caberia buscar as origens. De fato, a técnica de construir apenas por empilhamento de pedras irregulares, sem qualquer tipo de argamassa, e de forma a dar às taipas uma duração mais do que centenária, além de uma regularidade de valor estético relevante (ao menos nesta região), atesta a existência de mãos hábeis nessa tarefa, o que, por sua vez, costuma ser resultado de uma tradição conservada e transmitida por gerações.

As taipas de pedra demarcavam propriedades no interior do RS (Foto: Divulgação)

Mas sem dúvida ter-se-á que buscar bem longe, talvez na tradição portuguesa, a origem da técnica de construção de taipas com pedras irregulares. Foram os portugueses que iniciaram, no período colonial, o seu uso no calçamento de ruas mas também na construção de muros – tanto muros de contenção como divisórios – pela técnica de empilhamento, chamada de junta seca.

Tudo isso está bem atestado na iconografia do barroco mineiro. E era para as cidades das Minas Gerais que convergiam as tropas de mulas que saíam da Província de São Pedro, cruzavam o Campo das Lagens e o interior paulista, ainda no século XVIII, criando assim um canal de comunicação e, portanto, de trocas culturais entre o centro e o sul do país.

Perto do coração selvagem

Brasil começa a celebrar o centenário de nascimento da criadora da “poética da introspecção”

No dia 10 de dezembro, ocorreu o centenário de nascimento de Clarice Lispector, uma das musas imortais da literatura brasileira.

Mesmo nascida na Ucrânia – de onde seus pais fugiram para não caírem nas garras de Stalin, que mandava os judeus para os gulags –, Clarice Lispector se declarava brasileira de origem. Motivo: “naquela terra eu nunca pisei, fui carregada no colo”. De fato, Clarice tinha apenas dois anos quando seus pais conseguiram vir para o Brasil, no navio Cuyabá, trazendo ela e mais duas irmãs.

O começo aqui não foi nada fácil. A família ficou algum tempo em Maceió, onde o pai mascateava roupas usadas e se mudou para Recife, onde Clarice foi alfabetizada e perdeu a mãe quando tinha oito anos. Com dez anos, escreveu uma peça teatral, Pobre Menina Rica, para ser apresentada na escola: o texto nunca mais foi encontrado.

Quando Clarice estava com quatorze anos, o pai se transferiu para o Rio de Janeiro com ela e as irmãs. No Rio, Clarice fez o curso de Direito e começou a trabalhar como tradutora, professora particular e, depois, colunista de jornais.

Com pouco mais de vinte anos, estreou na literatura com o romance Perto do Coração Selvagem, até hoje uma leitura obrigatória. Essa obra é apontada pela crítica como um dos marcos iniciais do romance moderno no Brasil, ao lado do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Enquanto o romance roseano mostrava as veredas intermináveis do sertão, Clarice mostrava as veredas, também intermináveis, do fluxo interior das personagens. Alfredo Bosi, historiador da literatura brasileira, assinala que Clarice Lispector criou a “poética da introspecção”. Uma poética que não fica apenas no nível psicológico, mas que “salta do psicológico para o metafísico”.

Outra contribuição trazida pela obra ficcional de Clarice Lispector, também sublinhada pela crítica, foi o “registro do feminino”. Personagens femininas sempre houve no romance brasileiro, desde a Ceci de Alencar e a Capitu de Machado de Assis até a Ana Terra de Erico Verissimo, para ficar apenas com nomes icônicos. Mas todas elas são mostradas a partir do olhar masculino. O registro do olhar feminino só vai aparecer plenamente concretizado nos romances de Clarice Lispector.

Como autor de romances, aprendi a explorar o mundo da narrativa com alguns mestres que sempre fiz questão de reconhecer e apontar. Flaubert me ensinou que a narrativa deve ser feita como se ela se contasse sozinha, sem aparecer o narrador mexendo os cordéis. Machado de Assis me convenceu que deve ser buscada, para benefício do leitor, a perfeição da simplicidade, deixando os adjetivos e as hipérboles no depósito linguístico. Erico Verissimo me mostrou que, depois do sucesso do cinema, o romance não pode deixar de exibir o lado visual dos dramas que são narrados.

Mario Vargas Llosa, que fez doutorado na Sorbonne defendendo tese sobre o romance de Flaubert, me deixou claro como é importante alternar o ponto de vista ao longo do romance, para que o leitor possa ter várias versões da mesma história: é o que acontece também no plano real, onde nunca é igual o depoimento das testemunhas de um acontecimento.

E Clarice Lispector, qual foi a lição que aprendi com ela? Não é difícil imaginar. Além de dar pistas seguras sobre como narrar o mundo interior das personagens, me ajudou a localizar como se expressa o ponto de vista feminino numa narrativa. As personagens Teresa e Pierina, condutoras da trama do romance O Quatrilho, não existiriam, ao menos não com esse perfil, não fosse a mestra Clarice Lispector.

A ponto de uma crítica literária muito perspicaz, de nome Rita Terezinha Schmidt, ter afirmado em ensaio sobre meu romance: “Merece consideração à parte a figura feminina na obra de Pozenato”. Mas paremos por aqui…

O centenário de Clarice Lispector fique então registrado, com toda a consideração e todo o afeto que ele merece. Uma lástima que nos tenha deixado tão cedo, com apenas 57 anos de idade. Muita riqueza ela teria ainda a depositar no acervo da literatura brasileira.

O centenário do ator de Monte Vêneto

A extensa biografia cinematográfica do saudoso José Lewgoy inclui “Rocco”, o personagem que desempenhou em sua participação na filmagem de “O Quatrilho”

Uma das muitas emoções que ganhei de presente durante a filmagem de “O Quatrilho” foi, sem dúvida, a presença de José Lewgoy no elenco. E tenho certeza de que, para ele também, foi grande a emoção de participar do filme.

Nesta semana transcorreu o centenário de seu nascimento, ocorrido a 16 de novembro de 1920. Sirva esta pequena lembrança como uma homenagem saudosa à trajetória do ator que deixou marcas lendárias no cinema brasileiro, e que nos deixou em 2003.

Sua biografia é repleta de lances curiosos. Nasceu de pai russo e mãe norte-americana na localidade de Monte Vêneto. Naquele tempo, Monte Vêneto pertencia à colônia de Alfredo Chaves, que em 1943 mudou o nome para Veranópolis. Antes disso, Monte Vêneto, no período do nacionalismo feroz dos anos trinta, já havia passado a se chamar Cotiporã. Hoje, Cotiporã é também município.

Vivendo numa colônia italiana, José Lewgoy aprendeu a falar o Talian. E, com a mãe, aprendeu inglês na cozinha. A mãe o colocou numa escola metodista americana em Porto Alegre, e ali ele começou a carreira de ator no Teatro do Estudante. De ator, de tradutor de peças teatrais, de diretor. Na estreia de uma peça de Jean Anouilh, que ele traduzira do francês, o jovem José Lewgoy conheceu Erico Verissimo.

Abriu-se então um novo capítulo. Erico Verissimo vivia nos Estados Unidos – onde seu filho Luís Fernando aprendeu a tocar saxofone em banda de jazz! -, e estava acompanhado do adido cultural americano, que gostou tanto da atuação de Lewgoy que ofereceu a ele uma bolsa na Universidade de Yale, onde se formou em direção teatral.

José Lewgoy interpretando “Rocco”, em cena de “O Quatrilho”, filmado na Serra Gaúcha em 1995 (Foto de Fernanda Davoglio, banco de dados do jornal “Pioneiro”)

De volta ao Brasil, fez sua estreia no cinema, em “Carnaval no Fogo” (1949). Ao lado de quem? De Oscarito – que hoje é nome de troféu no Festival de Cinema de Gramado – e de Grande Otelo, tornando-se famoso pelo modo como representou o bandido “Anjo”: “fiz um bandido suave, irônico, cínico e ameaçador”.

A partir daí, consagrou-se com um dos ícones do cinema chanchada, momento em que o Brasil viveu sua única experiência de cinema como indústria de entretenimento. Sonho que Luiz Carlos Barreto, produtor do filme “O Quatrilho”, tinha em mente ressuscitar, e que foi um dos objetivos buscados por ele nesse filme. Do cinema, onde fez mais de cem filmes, sendo o ator brasileiro mais conhecido fora do país, Lewgoy foi para as novelas de televisão, tornando-se ainda mais popular.

Por essas e mil outras razões, receber José Lewgoy em Caxias do Sul, para fazer o papel do Rocco, foi para mim uma emoção sem tamanho. Conversando sobre o personagem, me disse que o Rocco era igual a um dono de hotel que ele conhecia em Veranópolis. Passou a falar com saudades do tempo em que viveu em Monte Vêneto, quando menino. E revelou:

– Mudaram o nome para Cotiporã, mas, para mim, vai ser sempre Monte Vêneto. “Monte Vêneto” é o nome da pessoa jurídica que sou obrigado a usar para assinar meus contratos.

Foi esse o Lewgoy que conheci pessoalmente. Para quem quiser saber mais detalhes do perfil e da trajetória dele, há um “Memorial José Lewgoy” na Casa de Cultura de Veranópolis. Nele se encontra um acervo precioso de imagens e documentos. E salve o seu centenário!

Pequenos segredos revelados

“Buena La Bailanta!”: a incrível saga de Ivan Pedro Martins

Já citei aqui uma frase do Barão de Itararé, que não era barão coisa nenhuma. Foi um jornalista gaúcho, de Rio Grande, que fez carreira no Rio de Janeiro como humorista. Assinava sua coluna também como Apporelly, que reduzia a uma palavra a extensão de seu nome completo: Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelly.

Dessa lembrança, outro nome inesquecível entrou em cena na minha memória: o de Ivan Pedro de Martins. Tive a fortuna de o conhecer em Porto Alegre num evento intitulado CULTUR, organizado por Mario Bernardino Ramos no final dos anos setenta, juntando Cultura com Turismo. Só para lembrar: Mário Bernardino Ramos renunciou ao cargo de prefeito de Caxias do Sul em 1975, para assumir a Secretaria de Turismo no governo de Sinval Guazzelli.

Convidado para participar do evento, fiquei hospedado no mesmo hotel em que estava Ivan Pedro de Martins, também conhecido como Ivan Martins, autor da “Trilogia da Campanha”, que inclui os romances: Fronteira Agreste, Caminhos do Sul Casas Acolheradas. Na época, ele morava em Portugal, na cidade de Cascais, depois de passar alguns anos na Inglaterra. Com ele estava a esposa, Elsie Lessa, outro nome famoso do jornalismo brasileiro.

Tivemos longas conversas, em que me contou episódios dignos de irem para um romance… Disse como havia ido morar em São Gabriel, na “fronteira agreste” do Rio Grande do Sul, respondendo à minha primeira pergunta. Acontece que ele era dirigente da Juventude Comunista, no Rio, na época de Luiz Carlos Prestes. Com o fracasso da “Intentona Comunista”, nome com que a imprensa designou o levante de 1935, ele teve de fugir para não ser preso, como aconteceu com Prestes e outros líderes do partido.

Numa das escapadas para despistar os “tiras”, pegou uma carona no Ford Bigode de Apporelly, que morava em Copacabana e era também do partido comunista. Quando estavam chegando na praia do Flamengo, apareceu na frente deles um pneu rodando sozinho:

– Quem foi o louco que perdeu o pneu? – gritou o Apporelly.

Nem tinha terminado de gritar, o carro travou e quase capotou: o pneu que estava rodando tinha saído da dianteira do carro dele!

A fuga do Rio de Janeiro foi com nome falso e em hidroavião: em Santos, o avião despencou e caiu num mangue, mas ninguém se feriu. Em Florianópolis, passou por debaixo da ponte Hercílio Luz, quase matando de susto os passageiros. Em Porto Alegre, o hidroavião baixou no rio Guaíba, e de lá Ivan Martins foi levado por um companheiro de partido para a estação ferroviária, onde embarcou para Santa Maria e, de Santa Maria, para São Gabriel, onde foi trabalhar numa estância.

Lá, mergulhou tão fundo na cultura do peão de estância que escreveu sua famosa trilogia. Ele me contou que, até para despistar a polícia, absorveu todo o jeito de ser da peonada. Vivia feliz, porque tinha conseguido driblar os seus caçadores.

Mas – toda boa história sempre tem um “mas” –, num final de semana, foi convidado para uma festa do outro lado da fronteira, no Uruguai. Pensou consigo mesmo: vestido de peão, do outro lado da fronteira, não vai haver perigo nenhum. E foi. A festa era num galpão grande, com um monte de fardos de alfafa numa das pontas, e todo mundo dançava com música de gaita. Ivan Martins, que não sabia dançar, foi até o fundo do galpão e sentou num cubo de alfafa.

De repente, apareceu na porta um militar uruguaio, fardado. Correu os olhos pelo galpão e viu aquele sujeito sentado no pasto. Em passo marcial, avançou na direção dele. Ivan Martins ficou gelado; depois de ter passados por tantas peripécias, ia terminar preso durante uma festa e fora do Brasil. Mas aguentou firme. O militar, que devia ser um sargento, chegou na frente dele, bateu continência e disse, todo feliz:

– Buena la bailanta, no?!

Ivan Martins terminou de contar essa história soltando um suspiro. Deve ter sido o mesmo que soltou quando o militar sentou ao lado dele e puxou uma conversa em portunhol.

Alguns anos depois, em 1994, Ivan Pedro de Martins publicou o livro A FLECHA E O ALVO – A Intentona de 1935. Nessa obra ele conta todos os bastidores da revolução fracassada, um dos meus livros preferidos. Para terminar, mais um pequeno segredo: Ivan Martins foi quem serviu de modelo para o personagem Lourenço, de meu romance A Babilônia!

A cultura da cachaça

“O uísque é uma cachaça metida a besta” (Barão de Itararé)

A frase do Barão de Itararé pode ser politicamente incorreta, como era do feitio do seu humor, que começava com a frase na entrada de sua sala de trabalho: “Entre sem bater!”. Mas também marca com força uma tradição cultural brasileira.

A cachaça, ou aguardente de cana-de-açúcar, vincula-se a essa tradição desde os albores da colonização portuguesa, no século XVI. A cana-de-açúcar foi introduzida na Europa pelos árabes, via Andaluzia, e no século XIV era já cultivada em todo o Mediterrâneo.

Os portugueses a levaram para a Ilha da Madeira e as primeiras mudas, oriundas de lá, chegaram ao Brasil em 1502. Isto mesmo: dois anos depois do descobrimento. Cinquenta anos depois, já havia numerosos engenhos de cana pelo litoral brasileiro, iniciando o ciclo econômico do açúcar.

Na antiguidade havia bebidas alcoólicas fermentadas, como o vinho e a cerveja. As aguardentes, produzidas por destilação, só vieram muito mais tarde, em data e local não totalmente precisos. O certo é que num manuscrito do início do século XIV descreve-se a destilação de aqua ardens, de onde o nome da aguardente.

Alambiques presentes na história do Brasil desde o início da saga do descobrimento

O imigrante italiano teria conhecido a cachaça no navio em que vinha para o Brasil. Essa é a versão que dou em meu romance “A Cocanha”. O regulamento das companhias de transporte naval previa a distribuição de “aguardente” aos adultos nos domingos e dias santos. Não era definido que tipo de aguardente, mas por que não poderia ser a cachaça?

O certo é que, ao chegarem ao Brasil, a cachaça foi uma forte tentação, tendo dado origem a uma série de conflitos nas colônias italianas. Paolo Rossato, em carta à família, já se referia a ela como a bebida mais comum no Campo dos Bugres.

O vale do Rio das Antas, com menor incidência de frio, foi utilizado desde o início da imigração para o cultivo da cana-de-açúcar, que já integrava a produção agrícola do Rio Grande do Sul desde, pelo menos, a chegada de açorianos, em 1742. Tanto os imigrantes italianos ali estabelecidos, como os poloneses, dominavam as técnicas de destilação.

Nas colônias italianas, a destilação era de conhecimento generalizado para a produção da graspa (designação da grappa em Talian), obtida pela destilação do bagaço da uva, um subproduto da fabricação do vinho. Os alambiques, por sua vez, eram também produzidos localmente, por artesãos funileiros.

A imersão da cachaça na cultura regional pode ser documentada com uma canção, composta em Antônio Prado, com o título de Caciassa caninana, e recolhida em inventário realizado pelo Projeto ECIRS da UCS.

Cachaça é produto integrante da cultura regional

É uma longa canção em Talian, na qual se mescla o desejo de beber cachaça com a condenação desse hábito. Para dar uma pequena amostra, vão aí alguns versos, já traduzidos:

Cachaça caninana

chamada a assassina;

mas é a melhor caninha,

conhaque nacional.

Foi o diabo que inventou

essa bebida potente

para assassinar a gente

para a gente embriagar.

Não sei por que se bebe:

esse é um vício maldito

ela queima a boca e o peito

o estômago e o intestino.

Em remédio o Senhor a muda

para servir de medicina

quando se tem dor de cabeça,

de goela, pescoço, barriga.

A história de um ferreiro

“Uma profissão a gente nunca aprende que chega! Sempre tem alguma coisa nova pra aprender”

Ofícios e fazeres característicos de um período ainda pré-industrial foram trazidos pelos imigrantes vindos do Norte da Itália. Entre esses ofícios estavam o da moagem de grãos, o da destilação, o da fabricação de queijos, os ofícios da madeira, como a marcenaria e a carpintaria.

Mais importante que todos, porque determinante dos demais, foram os ofícios da forjaria e da ferraria, responsáveis pela produção das ferramentas agrícolas e dos implementos para o transporte, como as carretas e carroças. Moinhos, alambiques, queijaria, marcenaria, fabricação de carretas, tudo dependia do ofício do fabro ferraio.

Por essa razão, em regiões como a de Trento, houve época em que os ferreiros eram proibidos de trabalhar fora de seu paese e mesmo de migrar, tal a importância atribuída a seus conhecimentos, que eram transmitidos rigorosamente dentro da própria família, como segredo industrial. Essa concepção da importância desse e de outros ofícios foi transplantada para todas as colônias italianas da Serra – com os imigrantes, grande parte deles procedente precisamente da região de Trento.

O fato de a indústria metal-mecânica ter se tornado o carro-chefe da produção industrial das cidades oriundas da imigração italiana, como Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Garibaldi e outras, tem suas raízes nessa tradição.

Conheci, durante uma pesquisa, um dos últimos representantes do ofício de ferreiro em Santa Tereza, pequena cidade histórica entre Garibaldi e Bento Gonçalves. O nome dele é Ivanor Abramo Caumo, e se dispôs a contar a sua história e a mostrar, ao vivo, a sua habilidade na bigorna.

Sua família emigrou de Trento trazendo os conhecimentos da profissão. Seu avô e seu pai, além de ferramentas, faziam também carroças e carretas. Mas a produção maior se concentrou na produção de ferramentas agrícolas, das quais deu uma lista:

– arado para lavrar a terra

– foicinha para o corte manual do trigo;

– gadanho de cortar o feno;

– machado para derrubar árvores e fazer lenha;

– machadinha para falquejar madeira;

– a vanga, ou pá, para cavar buracos, abrir valetas, fazer canteiros na horta e outras coisas mais;

– a máquina de plantar milho;

– mais a enxada, a cavadeira, o ancinho, o enxadão, a picareta, o estribo para os arreios, a ferradura, e assim por diante…

Caumo conta que iniciou seu aprendizado com o avô:

“Eu tinha oito, dez anos, eu era pequeno, e meu avô precisava de alguém que batesse a marreta pra ele, porque era tudo manual. Então, eu botava uma caixa no chão, subia na caixa pra ficar um pouco mais alto e bater na bigorna pra ele. Eu comecei a gostar daquilo. Com o tempo fui aprendendo, vendo como se fazia… Uma profissão a gente nunca aprende que chega! Sempre tem alguma coisa nova pra aprender. E isso é muito interessante!”.

Muita coisa mudou com o tempo: o tipo de material utilizado, as ferramentas de trabalho:

“Antigamente era o martelete, era o pica-pau, hoje eu tenho o martelo pneumático; meu avô trabalhava a carvão, eu já não uso carvão, trabalho com óleo. Mudei um pouco a coisa…”.

Numa coisa a tradição não mudou: a obrigação de fazer bem feito o que se faz. Disso o ferreiro Caumo se declarou orgulhoso: nunca alguém voltou para reclamar de uma ferramenta quebrada, de uma foice sem fio, de uma ferradura torta… Essa sempre foi a marca de seu trabalho:

“Fazer bem feito é uma coisa que te deixa com tranquilidade. E com orgulho de poder dizer: eu estou contente com o que estou fazendo, porque acho que estou fazendo uma coisa perfeita, que é aquilo que eu quero…”

E, para concluir, Caumo deu uma lição sobre o que é preciso, no seu oficio, para produzir uma coisa bem feita: fazer a ságoma. Traduzindo do italiano: respeitar o modelo projetado, em sua forma estética e funcional.

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