OS QUE NÃO RIEM

Foi Rabelais, o criador de Pantagruel, quem reabilitou o riso na cultura ocidental. Durante a Idade Média não se ria, o riso era considerado sinal de estupidez: de estultícia, como se escrevia na época. Rabelais, na contramão da Igreja e dos barões feudais, afirmou que “rir é humano”, expressão que entrou para a fala de todos os dias, e que “rir é o melhor remédio” para os males humanos, sejam eles físicos ou do espírito. Ele inventou inclusive um povo fictício, que chamou de Agélastes, que significa em grego “os incapazes de rir”.

Como a Idade Média ainda se prolonga dentro da modernidade e da pós-modernidade, não é da estranhar que ainda existam “agélastes”. Onde existe algum tipo de fundamentalismo, seja ele religioso ou político, lá estão eles brandindo ameaças contra os que não levam tudo a sério. Quando Jesus disse a célebre frase, “deixai vir a mim as criancinhas”, ele estava inovando, porque as religiões primitivas não permitem crianças rindo no espaço sagrado. Alguns anos atrás, houve uma confrontação entre Europa e mundo islamita por causa de uma charge humorística sobre a figura de Maomé. Rushdie, por causa dos “Versos Satânicos” e as brincadeiras nele contidas, foi sentenciado à morte por líderes islamitas. Agora, o presidente do Irã acaba de excomungar todo o ocidente, porque nele as pessoas acreditaram nas previsões de um polvo sobre os resultados do futebol. Sério como ele é, decidido a ter um mundo perfeito, foi incapaz de perceber que tudo isso não passou de uma grande diversão, que não era para ser levada a sério.

O retorno de Fidel Castro à cena, ressuscitado dos mortos, traz de volta à cena um outro tipo de “agélastes”: o fundamentalista político. Se ele e seus seguidores me permitirem uma frase de humor, Fidel acaba sendo o último estalinista sobrevivente no planeta, depois que o estalinismo em que ele se escorou sumiu há mais de 20 anos. E o estalinismo foi um regime político extremamente sério. Ninguém na União Soviética podia se arriscar a fazer piada com nada que fosse assunto de governo. Exatamente como na Ilha de Fidel. Reinaldo Ariel, escritor cubano que contestou o regime, deixou escrito em seu imperdível livro “Antes que Anoiteça”: “Uma das características mais lamentáveis de todas as tiranias é que levam tudo a sério e fazem desaparecer o senso de humor. Historicamente, os cubanos sempre fugiram da realidade através da sátira e da zombaria, mas com o advento de Fidel castro o senso de humor foi desaparecendo até ser totalmente proibido”. 

Arenas experimentou isso na carne, literalmente. Ele e todos os que tiveram coragem de rir de ditadores. Aqui no Brasil não foi diferente, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Onde o riso morre, instala-se o autoritarismo, e vice-versa: onde houver um autoritário, seja em nome de que princípio for, o riso desaparece.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 8

OS ANIMAIS AO REDOR –

Não é possível trazer à tona as memórias de minha infância, sem falar dos animais que nos rodeavam. Um item que exige um pouco de método para não parecer uma babel, pois eram muitas as espécies. 

Começo pelos animais domésticos, na nossa casa e na casa dos vizinhos. 

Em casa tínhamos o cavalo, a vaca de leite, de nome Mansinha, com seus terneiros periódicos, a cabrita com os cabritinhos, os porcos no chiqueiro, as galinhas com o galo e os pintinhos no galinheiro. Nas casas dos vizinhos havia também mulas, ovelhas, patos, gansos.

Fora do mundo doméstico, e começando pelo espaço aéreo havia o gavião, que adorava atacar pintinhos, mas comia também carrapatos e bernes do gado.  A curicaca, que gritava o nome dela – cu! ri! ca! ca! – e não deixava sobrar pinhão, na época do pinhão, mas também comia os bernes do gado. As tirivas, parentes do papagaio, que andavam em bandos barulhentos, comiam frutinhas das árvores  e também sumiam com os pinhões. Os urubus, sempre farejando alguma carniça. O jacu, que às vezes a gente ouvia cantar nalguma árvore, mas nunca deixava ser visto: só uma vez, bem cedo, apareceu um no meio das galinhas, quando foi espalhado milho para elas no chão.

O chopim era outro passarinho que nunca chegava perto: era bem preto e só era visto no alto das árvores. Só com bodoque, ou funda, para derrubar algum, porque não caiam na armadilha do mundéu ou da arapuca. Em geral, eles faziam manchas pretas, em bando nas zonas de campo. Punham os ovos nos ninhos dos tico-ticos, para não terem que chocar nem alimentar os filhotes. O modelo do parasita completo, dizia meu pai. 

O mundéu e a arapuca eram usados para apanhar pássaros que atacavam as plantações. Em especial as do trigo e do milho. O mundéu era feito de uma tábua de meio metro, com uma pedra em cima, e uma isca que, beliscada, derrubava a tábua. Era mais usado para pegar tico-ticos assim que era semeado o trigo. A arapuca era uma gaiola de vime, ou de taquara, também com uma armadilha, usada para caçar tirivas e papagaios quando o milho começava a formar espigas e era atacado por esses predadores. Como isca, punham-se debaixo dela grãos de milho maduro. 

Na família dos insetos, é difícil recuperar a variedade que se escondia por toda parte. Isso sem falar nas pulgas e nos piolhos que, vez por outra, tinham que ser eliminados do corpo e dos lençóis. No paiol havia os carunchos roendo as espigas de milho e as aranhas fazendo teias. Na estrebaria, os carrapatos apareciam no lombo da vaca ou de um terneiro. Na horta, a minhoca era a principal frequentadora dos canteiros. Mas havia também a centopeia e a escolopendra, devidamente identificadas pela quantidade de pernas de cada uma. Havia também os insetos que não se deixavam ver, mas marcavam presença pelos ouvidos, como a cigarra e os grilos.

Um cuidado permanente era com as cobras. A que mais rondava as casas e lavouras era a jararaca, uma cobra venenosa e traiçoeira, marrom, de um metro e meio de comprimento. Mais de uma vez assisti meu pai esmagando a cabeça delas a porretadas. 

Uma história que ele nos contava era de que, quando moço, foi mordido por uma jararaca. Para tirar o veneno, mergulhou a perna num arroio de água corrente e foi raspando o local da dentada com uma faca, até achar que tinha tirado todo o veneno. E deu certo, não precisou de nenhum outro remédio.

Lembro também que ele aprendeu, imagino que nalgum dos livros de medicina de sua estante, ou nalgum almanaque, uma técnica para eliminar o veneno da cobra. Pegava um chifre de veado do campo, cortava em pedaços de uma a duas polegadas, passava no rebolo até a peça ficar plana nas quatro faces e depois a punha no fogo, debaixo da cinza, para carbonizar. Era a “pedra de cobra”, que era aplicada sobre os orifícios provocados pela dentada e absorvia o veneno. Quando a pedra caísse, estava completa a operação. Depois ela era deixada numa vasilha com leite para ficar limpa do veneno e poder ser usada novamente. Várias pessoas da vizinhança, adultos e crianças, foram salvos por essa técnica de meu pai. 

Um episódio inesquecível aconteceu num final de manhã, quando eu mais dois irmãos voltávamos, enxada ao ombro, da lavoura de feijão. De repente o Anísio começou a gritar, olhando para as pernas, que tentavam se livrar de alguma coisa que as prendia. Olhamos e vimos uma cobra enrolada nelas, pelo jeito sem vontade de sair. Com nossa ajuda, o Anísio finalmente se desvencilhou. Mas nenhum de nós três ficou alarmado: sabíamos que não era uma cobra venenosa, mas uma cobra d’água, que por algum motivo resolvera dar um passeio.

Um inimigo mortal das cobras era o lagarto, tanto que eles não eram enxotados do redor da casa, mesmo quando vinham para roubar os ovos que as galinhas punham nalguma touceira de capim. Lagarto era um bicho amigo.

Nem um pouco amigos eram os gambás. Lembro a cena em que meu pai descobriu um ninho deles num tronco podre de árvore. A mamãe gambá estava com dois filhotes na bolsa da barriga, no mesmo estilo dos cangurus que eu via nos livros. Inesquecível também era o fedor que deixavam.

Outro bicho intolerável era o zorrilho. Felizmente eram raros os exemplares deles em São Chico. Mas um deles provocou certa noite uma pequena tragédia. Minha mãe acordou com as galinhas gritando e fazendo estrepolia e resolveu ir ver o que estava acontecendo. No que abriu a porta do galinheiro, um esguicho de urina de zorrilho a atingiu nos olhos, escorrendo pelo rosto e pela roupa. Ela passou bastante tempo tratando dos olhos, com chás indicados por meu pai. E nos dizia que a roupa, mesmo depois de lavada duas ou três vezes, ainda fedia.

Um animal que a gente também só conhecia pelo som era o bugio. O ronco do bugio, no meio do mato, era sinal de que vinha chuva. Um vizinho nosso, o seu Natal, contava uma história que meu pai dizia ser invenção. Tinha ele entrado no mato, com uma espingarda, e de repente viu um bugio em cima de uma árvore. Apontou a arma e o bugio, que era na verdade uma fêmea, ergueu o filhote diante dos olhos. O seu Natal não sabia dizer por que ela tinha feito isso, se era para se proteger, ou para avisar que tinha filho pequeno para cuidar. O fato é que seu Natal baixou a espingarda e saiu do mato.

De uns anos para cá acontece em São Francisco de Paula o Festival Ronco do Bugio. Esse não tem nada a ver com o bugio, pelo menos não de forma direta. Acontece que algum gaiteiro inventou lá um ritmo ao qual deu esse nome, de “ronco do bugio”. Daí nasceu um concurso anual de gaiteiros para preservar esse gênero de música.

Havia também os habitantes da água do arroio, além das cobras d’água. Os mais comuns eram os sapos e as rãs. Mas no Arroio Goiabeira, que tinha água suficiente para mover um moinho, a gente podia ver pequenos lambaris. 

Caçar não fazia parte dos hábitos de nossa família nem dos vizinhos. Só em Caxias fiquei sabendo que a caça podia ser uma paixão… A partir dessa descoberta é que escrevi a novela “O caso da caçada de perdiz”.

Catarse: uma saída no confinamento

Começo com uma historieta engraçada, mas baseada em fatos reais, como é de bom tom avisar o leitor.

Nos anos 70, meu colega de profissão e de poesia, Ary Nicodemos Trentin, de saudosa memória, ministrava a disciplina de Teoria da Literatura, no curso de Letras da UCS. Num intervalo das aulas, quando os professores se encontravam para descontrair com um cafezinho e um cigarro, o Ary chegou na sala com ar entre furibundo e divertido. Não foi preciso cobrança para ele contar o motivo.

O motivo era que ele tinha passado a aula inteira explicando para as alunas e os alunos o conceito de “catarse”, introduzido por Aristóteles na Poética, quando analisa a função da tragédia. Começou dando a etimologia da palavra grega: katá+ársis, em que ársis significa eliminação, purgação, e katá é um advérbio que significa “para baixo”: desse advérbio provêm palavras como cataclismo, catástrofe etc. Depois, passou a analisar o conceito e a dar exemplos, citando antigos mitos. Terminada a explanação, resolveu testar o quanto a turma havia captado da doutrina aristotélica. E perguntou:

– Então. Alguém pode agora dizer o que é catarse?

Silêncio. O silêncio do receio e da ignorância.

– Será que ninguém entendeu o que significa catarse?!

Uma aluna se animou e ergueu o braço:

– Professor. “Catarse” é “se encontrar”, “se reunir”. Não é isso?

Silêncio ainda mais profundo. O silêncio da expectativa de julgamento.

O professor Ary respirou por duas ou três vezes e resolveu ser tolerante:

– Tudo bem, vamos para o intervalo. Estou mesmo precisando de catarse! Depois a gente volta ao assunto.

O que o deixara furioso era ter gasto uma aula inteira sem resultado nenhum no campo da teoria literária. Mas se divertia porque a explicação da aluna era a fiel tradução de uma palavra da língua Talián (na época discriminada, mas hoje reconhecida como Patrimônio Nacional). Com certeza a aluna aprendera a palavra em casa, porque no italiano, como língua oficial, a palavra usada com o sentido da “catarse”, do Talián, é “trovarse”.

Pois bem. Não é nesse sentido de se reunir, se encontrar, que a catarse é uma boa saída para o confinamento. Pelo contrário: quanto menos a gente se aglomerar, melhor para todos. Para isso é que foi decretado o distanciamento social.

Na teoria de Aristóteles, catarse é o extravasamento das emoções provocado pela poesia, especialmente na tragédia. Por isso ele se posicionava a favor dessa arte grega, contrariando Platão, que era contra tudo o que não fosse pura manifestação do mundo das ideias. Sem lugar para emoções, nem fantasias, que são a matéria poética por excelência.

No Brasil, um sinônimo para catarse seria “descarrego” (com acento fechado no ê: vejam a falta que faz o acento diferencial, eliminado por políticos travestidos de sábios da língua!). Pois o descarrêgo (acabo de incluir a palavra com acento no dicionário do meu computador, só para fazer mais uma catarse!) também significa a eliminação de coisas que pesam na gente, no plano físico, no emocional e no mental. No caso, pelo uso de recursos mágicos, que não deixam de ser parentes próximos da poesia. É uma contribuição trazida pelas religiões de origem africana, como o candomblé e a umbanda.

Bem, fazer um banho de descarrêgo durante a quarentena não parece adequado, já que a ordem é “fique em casa”.

Sobra então a catarse aristotélica. A melhor maneira de ter acesso a ela é pela leitura: leitura de poesia, de romances, de contos, de novelas. Se alguém não é muito dado à leitura, pode optar pelos filmes, ou somar as duas formas narrativas. O mundo da ficção descortina ambientes variados – e põe variado nisso! – que ajudam a diminuir a sensação de confinamento.

E se alguém achar que a tragédia é a melhor forma de catarse, pode rever o vídeo da vitória da Alemanha sobre o Brasil, por sete a um, com o Brasil jogando em casa… Uma tragédia completa, inclusive com um gol depois de haver sofrido sete.

Toda tragédia sempre termina com um sopro de esperança de que tudo poderá ser melhor em outra oportunidade. É assim que vai terminar também com esse “maldito homicida”, como Armindo Trevisan qualificou o vírus que está no ar.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 7

– AS PRIMEIRAS LEITURAS –

O leitor inveterado que eu era, a ponto de tirar retrato com um livro na mão, aos oito anos de idade, teve contato com diversos textos que foram abrindo os horizontes do mundo, para além de São Roque da Goiabeira!

Um livro fundamental foi a Seleta em Prosa e Verso, da autoria de Alfredo Clemente Pinto. O fato de ele se chamar Clemente, um tocaio meu (como a gente denominava o homônimo, ou xará), já era motivo de interesse. Era um livro dedicado “à mocidade estudiosa”, como escreveu seu autor no prefácio, “pondo diante dos olhos trechos que possam servir de modelo nos exercícios de redação”.

Da variedade de textos da Seleta, lembro alguns que me marcaram.

O mais decisivo foi, com certeza, o conto “Um Apólogo”, de Machado de Assis, que narra um diálogo entre a agulha e a linha sobre qual das duas era mais importante.. O apólogo termina com a consideração de um professor, de que “também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária”. Esse apólogo eu aprendi de cor para fazer parte de uma declamação na escola.

Outro foi o soneto de Artur Azevedo: “Tertuliano, frívolo, peralta,” que aprendi de cor, e por diversas vezes recitei quando aparecia algum narcisista na minha frente… Entre outros sonetos da Seleta, guardei ainda “Vai-se a primeira pomba despertada”, de Raimundo Correia, “Meu ser evaporei na lida insana”, de Bocage, “Velhas árvores”, de Olavo Bilac, e “Sete anos de pastor Jacó servia”, de Camões. 

De Olavo Bilac aprendi de cor outros dois sonetos, para declamar; “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste” e o “Ora direis, ouvir estrelas”.

Na Seleta havia ainda fábulas e vários textos mostrando paisagens do Brasil. Outro texto que me encantava era o de abertura do livro, com a história do “ovo de Colombo”: as coisas são fáceis para quem sabe fazer!

Outro livro decisivo  foi “Histórias do Arco da Velha”, que meu pai mandou buscar pelo correio nada menos que na Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro. De todas as histórias do livro, traduzidas de Perrault e dos Irmãos Grimm, a de que eu mais gostava era a que tinha por título “A Pele de Asno”.  Conta a história de uma princesa que fugiu para a floresta vestida com uma pele de asno. Sucedem-se inúmeras peripécias, típicas dos contos de Perrault. 

Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, também estava na prateleira da biblioteca, como meu pai chamava sua estante de livros. Dessas lendas, a que me encantava era a da “Salamanca do Jarau”. Depois dela “O negrinho do Pastoreio” e “A Mboitatá”. 

Havia um vizinho nosso, amigo de meu pai, que inspirou o personagem Scariot, de meu romance O Quatrilho. O sobrenome dele era Lazzaroto, mas todos o chamavam de “Scariot”. Isso porque ele se negava a frequentar a igreja e se dizia anarquista. Era também um beberrão, daqueles de dormir na estrada. Isto é, tinha tudo para ser personagem de romance! Um dia ele deu de presente para meu pai um livro em italiano, “Le mille e una notte”. O italiano eu não entendia, por isso não li as histórias, mas não me cansava de folhear o livro para ver as ilustrações coloridas, com sultões e odaliscas… E um tapete voador! 

Outra de minhas leituras permanentes era a do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, da autoria de Gustavo Barroso. Eu gostava de ver palavras novas e buscar o seu significado.

De todas essas leituras acabei criando um gosto parnasiano  também na escrita. Tanto que no seminário, num tema de redação escrevi: “Nuvens plúmbeas cobriam o céu”. O professor leu a frase em voz alta, diante da turma, e perguntou:

– “Plúmbeas” por quê?

– Porque elas eram cor de chumbo, professor – respondi.

– Mas então escreva “nuvens cor de chumbo cobriam o céu”. Assim todos vão entender – disse ele, com um riso simpático.

Talvez tenha sido essa a mais importante aula de estilística que tive. O modo parnasiano, de usar adjetivos para enfeitar as frases, foi claramente posto em questão. 

No seminário também descobri, num livro de Manuel Bandeira, “Apresentação da Poesia Brasileira”, que para escrever bonito não era preciso “ouvir estrelas” nem falar de “céu plúmbeo”. Mas isso fica para quando eu falar de meu itinerário na poesia.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 6

– São Roque da Goiabeira –

Santa Teresa esgotou suas terras à venda. Mas, como o projeto dera bons resultados, a Prefeitura de São Chico o expandiu para o lado do Arroio Goiabeira, que tinha às suas margens terras férteis e de futuro. No local foi erguida a capela de São Roque e, atrás dela, uma nova escola municipal, para atender à demanda que crescia.

Sempre atento a novas possibilidades, não deu outra: meu pai pediu transferência para a Escola São Roque e se mudou para a Goiabeira, onde construiu uma casa nova.  Em anexo, fez um paiol, um chiqueiro, um galinheiro e uma estrebaria. 

Já éramos seis irmãos, registrados em fotografia no alpendre da casa. Apareço nela com um livro na mão, intitulado “Crestomatia Cívica”, de Radagásio Taborda. Era uma antologia de textos de teor patriótico, que meu pai encomendou, pelo correio, da Editora O Globo, de Porto Alegre. Era o livro que eu estava lendo quando foi tirado o “retrato”, como a gente chamava a fotografia.

A Segunda Guerra Mundial havia terminado há pouco, e todos falavam que tinha chegado ao fim a “carestia”, palavra presente em nosso cotidiano. Na biblioteca de meu pai havia almanaques e revistas com notícias da guerra. De uma delas lembro em detalhe: numa fotografia apareciam dois soldados estadunidenses, fardados, e fumando sorridentes. Ao pé do retrato vinha uma legenda mais ou menos nestes termos: “A espera tranquila antes de entrar em combate”. E lembro que eu me perguntava: como é que eles estão tranquilos se podem morrer a qualquer hora?

Meu pai acompanhava o andamento da guerra na venda do João Santos, aonde ia duas vezes por semana, ao menos. O João Santos era o único na redondeza que tinha rádio. Um rádio com bateria de caminhão, que ele mandava carregar na vila de São Chico. Ele tinha duas baterias, como me explicou meu pai, para ter uma de reserva enquanto mandasse alguém a cavalo até a vila para recarregar a outra.

Nessas idas à venda do João Santos, que ficava a dois quilômetros de nossa casa, vez por outra eu era levado na garupa do cavalo branco. A venda ficava a meio caminho entre São Roque e Santa Teresa, em posição estratégica para atender a freguesia dos dois lados. Assim fiquei conhecendo seu João Santos, que tinha uma barriga grande, e o caixeiro, que se chamava Alcides. Na venda tinha de tudo, até açúcar branco, caramelos e chocolate. Na prateleira de cima, que o Alcides só alcançava com uma escada, estavam os penicos e as peças de seda. Na frente do balcão se formavam rodas de conversa e a cuia de chimarrão circulava, servida pelo Alcides.

Quando terminou a guerra, meu pai me levou até a venda do João Santos. O rádio havia noticiado que o presidente Getúlio Vargas ia fazer um discurso no programa A Voz do Brasil. Era já noite quando chegamos. O programa começava sempre às sete horas da noite. Do discurso só lembro as palavras iniciais: “Brasileiros e brasileiras! Trabalhadores do Brasil!”. Ditas numa voz mais fina do que grossa. Não sei se por causa do rádio ou porque a voz do Getúlio era mesmo essa.

Meu pai sempre teve grande admiração por Getúlio Vargas, a partir de um episódio que ele volta e meia relembrava. Quando ele servia no quartel em Quaraí, o comandante avisou que no dia seguinte, às dez horas, estaria no quartel o Presidente do Estado, Getúlio Vargas. O sargento chamou o destacamento e deu as ordens: “Deixem as fardas em dia, com todos os botões, lustrem as perneiras, escovem os cavalos, aparem as crinas, alisem os cascos!”. 

No dia seguinte, na hora marcada, todo o pelotão se pôs a desfilar, disciplinadamente, diante do palanque onde estavam Getúlio Vargas e as autoridades do quartel. Nisso começou a pingar, chegando a chuva, e alguns soldados “se coçaram” para pegar a capa que vinha na garupa do cavalo, na “mala da capa”. O sargento então berrou para a tropa:

– Em forma! Sem capa! O comandante maior também está sem capa!

Todos olharam para o palanque e, de fato, viram que Getúlio Vargas estava perfilado, sem se proteger da chuva, como se nada estivesse acontecendo. Depois se ficou sabendo que Getúlio estava fazendo essa visita a todos os quartéis do estado, preparando a Revolução de 30.

Nesse período da guerra mundial foi que eu mergulhei nos livros. A ponto de minha mãe me pedir que eu não ficasse tanto tempo lendo: “assim tu vais estragar a vista”, me dizia ela. À noite, só se podia ler com a luz do lampião a querosene, ou da pixirica, como a gente chamava a lamparina a querosene.

Eu dominava tanto a leitura que meu pai me encarregou de ajudar dois irmãos meus – a Inês e o Teodorico. Aconteceu então uma cena que ficou nos anais da família. Estávamos cada um dos três com o mesmo livro de leitura na frente e eu ia lendo as frases que os dois iam repetindo. Quando percebi que eles não liam, só repetiam, eu disse, fingindo estar lendo no livro: “um papagaio”. Eles repetiram: “um papagaio”. Continuei: “dois papagaios”. E eles: “dois papagaios”. Nisso, meu pai estava passando perto da mesa e percebeu a brincadeira. Deu uma risada e ficou do meu lado: “Agora deixa os papagaios lerem sozinhos!” 

Foi nessa época também que cometi uma pequena atrocidade em defesa da língua nacional. Trabalhava lá em casa uma empregada, de nome Rosalba, vinda de uma família de origem italiana, os Barcarolo. Um dia, ela se preparava para amassar o pão e me falou:

– Pode me alcançar a farrinha? 

– Não é farrinha que se diz. É farinha – corrigi eu.

E ela:

– Mas eu disse farrinha, eu não disse farrinha.

É claro que caí na risada, repetindo a frase dela, dobrando os erres com força: “eu disse farrinha, eu não disse farrinha!”. A Rosalba ficou tão furiosa que pegou as coisas dela e foi para casa, dizendo que não ia mais voltar. Foi preciso meu pai ir falar com os pais dela para que tudo voltasse ao normal e a Rosalba mudasse de ideia, para alívio de minha mãe. Foi então que aprendi que não se deve rir dos erros dos outros.

Nessa idade tive também meu primeiro contato com o latim. Meu pai, além de ser professor, fazia também o papel de catequista e de zelador da capela de São Roque. Fui então escalado por ele para ser coroinha. E me passou um livrinho com as frases em latim que eu deveria decorar. A resposta ao “Dominus vobiscum “ era fácil: “Et cum spiritu tuo”. Mas a de “Introibo ad altare Dei”, por sinal a primeira da missa, era bem complicada: “Ad Deum qui laetificat animam meam”. Mas decorei, com o padre Pedro corrigindo a pronúncia das palavras. 

Nessa experiência aprendi também os nomes dos paramentos – amicto, alva, cíngulo, estola, manípulo, casula, sobrepeliz – e dos móveis e objetos. O armário de gavetões em que eram guardados os paramentos tinha um nome estranho: arcaz! 

Desse aprendizado resultaria a primeira grande mudança em minha vida: sair de casa e ir para o seminário. Mas isso fica para depois.

Um mistério da literatura: Shakespeare era italiano?

Em 1927, um jornalista italiano, chamado Santi Paladino, publicou uma reportagem em que defendia a tese de que William Shakespeare era italiano. De lá para cá, muitos estudos foram feitos para examinar essa hipótese, que parece cada vez mais verdadeira. Pessoalmente, meu voto é a favor dela.

Sempre me pareceu estranho que duas das tragédias shakespearianas de maior sucesso se passam na Itália; Romeu e Julieta, na cidade de Verona, e Otelo, o Mouro de Veneza, em Veneza. Tudo bem, Hamlet se passa na Dinamarca, e ninguém cogitou que o autor pudesse ser dinamarquês…

Mas há outros dados a serem considerados. Shakespeare escreveu dezesseis comédias. Dessas, apenas quatro não têm relação com a Itália ou com obras de autores italianos. Mas as quatro são de temas clássicos ou do folclore europeu, sem relação com o mundo britânico. Veja-se a relação das outras doze:

– Os dois fidalgos de Verona: ambientada em Verona.

– As alegres comadres de Windsor: baseado em Le tredici piacevoli notte, de Gianfrancesco Straparola, ambientada em Pisa.

– Medida por medida: a peça é ambientada em Viena, mas é baseada em Hecatommithi, de Giraldi Cinthio. E os nomes dos personagens não têm nada de vienense: Vincenzo, Ângelo, Scalo, Giulieta, Francesca etc.

– A comédia dos erros: trama ambientada em Siracusa, cidade da Sicília.

– Muito barulho por nada: ambientada em Messina, na Sicília.

– O mercador de Veneza: cenário, personagens, tudo é veneziano. Baseada no conto Il Pecorone, de Giovanni Fiorentino.

– A megera domada: a trama se passa em Pádua, e todos os personagens são italianos.

– Tudo está bem quando termina bem: trama ambientada em Paris, mas Inspirada na história de Giglietta di Narbona, do Decamerão de Boccaccio (nona novela do terceiro dia).

– Noite de reis – ou o que quiserdes: personagens italianos, a começar por Viola. Baseada na peça italiana Gl’ingannati, de 1531.

– Cimbelino: até o título (que poderia ser traduzido por Sininho) é italiano. Baseada na nona história do segundo dia do Decamerão de Boccaccio.

– A tempestade: os personagens principais são Alonso, rei de Nápoles, e Próspero, duque de Milão.

– Conto de inverno: peça ambientada na Sicília, quando pertencia à Grécia.

Além disso, há ainda as tragédias com temas e tramas da Roma Antiga: Coriolano, Tito Andrônico, Júlio César, Antônio e Cleópatra. Só não têm relação com a Itália cinco das onze peças trágicas, entre elas Macbeth, ambientada na Escócia, Hamlet, na Dinamarca e Rei Lear, extraída do folclore bretão. De tema exclusivamente inglês, ficaram apenas os dramas históricos, em número de sete.

E o que o jornalista Santi Paladino tinha para contar? Como bom siciliano, percebeu que a comédia “Muito Barulho por Nada” continha, em inglês, expressões verbais típicas de Messina, cidade da Sicília. Descobriu ainda que havia uma peça em dialeto siciliano com o título de “Troppu trafficu per nnenti”, isto é, muita confusão por nada. E caiu em suas mãos o livro de um desconhecido, chamado Michelangelo Florio, com trechos parecidos com diversas passagens de Hamlet.

Saiu então a investigar quem seria esse Michelangelo Florio. E descobriu que um Michele Agnolo Florio nascera em Messina, em 1564. O sobrenome da mãe era Crollalanza. Curiosamente, traduzido para o inglês, Crolla é igual a Shake, e Lanza é igual a Speare, o que dá Shakespeare, que pode ser traduzido por “sacode a lança”!

Seguindo na investigação, descobriu que Michelangelo Florio era de religião calvinista e, por causa disso, tivera que fugir da Sicília para não acabar na fogueira da Santa Inquisição. Depois de perambular por várias cidades da Itália, da França, da Espanha, acabou indo para Stratford, na Inglaterra. Nessa época, desde 1534, a Igreja Anglicana, também de inspiração calvinista, já havia se separado de Roma. Não havia, portanto, nenhum problema para o herege exilado permanecer na Inglaterra.

Outra coincidência: segundo a história da literatura, foi em Stratford-on-Avon que nasceu William Shakespeare. Pois em Stratford vivia também um Crollalanza, oriundo da Itália, talvez parente de sua mãe, que perdera um filho com o nome de William. Ele teria adotado o fugitivo, dando-lhe o nome do filho e também seu sobrenome já traduzido para o inglês. Ali nasceu, então, William Shakespeare: em Stratford-on-Avon!

Como tinha bastante erudição, transferiu-se para Londres em busca de um espaço em que houvesse mais vida cultural, e ali se inscreveu num clube, registrando-se com o nome de Michelangelo Florio. Um clube que a tradição atesta ter sido muito frequentado por Shakespeare, embora seu nome não conste nos registros.

Com tantas coincidências, é difícil não admitir que Shakespeare era, de fato, um emigrado italiano. E a história não termina aqui. Os poemas e sonetos de Shakespeare também escondem segredos de origem.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 5

Parentes bem longe –

Uma carência na minha infância – que eu sentia como carência – era a de não conhecer de perto os parentes da família. Com exceção, é claro, de meus irmãos. Não conheci avós, com exceção do vovô Guilherme, nem tios, nem primos. 

Acontece que meus pais, assim que casaram no município de Osório, mudaram-se para a vila de Santa Teresa, em São Chico, onde ele havia comprado dois lotes de terra. Em Santa Teresa a prefeitura tinha implantado um projeto de colonização, por ser uma área de mato e não de campo aberto, permitindo o cultivo agrícola. Para ali migraram famílias de origem alemã, procedentes na maioria da região de Nova Petrópolis, e de origem italiana. Destes, a maior parte era de Santa Lúcia do Piaí, pertencente a Caxias, e da Barra do Ouro, pertencente a Osório.

Ainda lembro os nomes da maioria dessas famílias. Alemãs: Lauxen, Ritter, Ternus, Schmitt, Paffrat, Schwaab,.. Italianas: Lazzarotto, Barcarolo, Martini, Rech, Casagrande, Tomasini, Pioner, Bonatto, Mazzurana, Silvestri, Muraro…E havia também os “turcos”, como eram chamados os sírio-libaneses. Dois deles tinham casa de comércio; Elias Scander e João Gantus, o “João Turco”. E também negros, como nossos “vizinhos de porta” seu Felicício e dona Anjerca. 

Ali meu pai construiu a casa e abriu uma oficina de móveis. Fabricava cadeiras de palha, baldes de madeira, tinas, mesas, guarda-louças…E começou também a consertar e fazer instrumentos de corda. Foi nomeado professor da escola municipal, em caráter provisório, enquanto se preparava para fazer concurso para o cargo de professor, que aconteceria alguns meses depois.

Como era do seu estilo, concentrou-se tanto em estudar que chegava a sonhar em voz alta. Minha mãe contava, rindo, que numa noite ela acordou com meu pai dizendo: “uma lufada de vento, vírgula, duas lufadas de vento, ponto e vírgula”. Foi por causa desse concurso que eu, nascido nesse ano, ganhei o nome de José Clemente. Estudando a história do Brasil, meu pai ficou encantado com a figura de José Clemente Pereira, um obcecado pelos estudos como ele. E me deu esse nome de presente, fora da tradição de atribuir aos filhos nomes já existentes na família. 

Com a mudança para Cima da Serra, ficamos sem contato com as famílias dos avós, tanto paternos quanto maternos. A gente sabia os nomes de todos eles, mas as distâncias e a dificuldade de viajar impediam o encontro pessoal. 

Do lado materno, meu avô se chamava Antônio da Silva, que minha mãe dizia ser filho de uma índia caçada no mato, e a avó se chamava Maria Carlota dos Santos, de origem açoriana, como descobri mais tarde. Com as raríssimas cartas que eram trocadas, ficamos sabendo que a família toda havia se mudado para Palmares (hoje município de Palmares do Sul), para trabalhar nas lavouras de arroz. Ficaram mais longe ainda… O plano de minha mãe, de ir a cavalo até Osório e lá tomar o trem para Palmares, nunca se concretizou.

Por parte de pai, meu avô se chamava Guilherme Pozenato. Na origem, Guglielmo Posenato: meu pai foi quem trocou, no quartel, o s pelo z no sobrenome. E a avó tinha o nome de Maria Madalena Debastiani, nascida em Beluno, na Itália. A primogênita da família era a tia Virgínia, que não mantinha correspondência. Sabia-se que ela morava em Caxias. Meu avô Guilherme, ficando viúvo, mudou-se com os filhos para Cacique Doble, na época um distrito de Lagoa Vermelha. Com eles a correspondência era mais assídua. De lá, um dos tios se mudou para o Paraná e outros dois para Santa Catarina. Era a época da forte migração interna das colônias italianas e alemãs para o norte do estado e para os estados vizinhos. O tio Antônio fez o percurso inverso, indo morar em Caxias.

Com essas andanças, as cartas começaram a minguar. Minha mãe então nos confortava dizendo: se não vêm notícias, é porque todos estão bem; notícia ruim sempre vem voando…

Um resultado desses deslocamentos foi o de meu avô Guilherme ter ido passar um tempo em nossa casa. Eu devia ter uns oito ou nove anos na época. Não preciso dar aqui detalhes de sua figura: ela está desenhada, em detalhes, no personagem Aurélio Gardone, do romance O Quatrilho. Aurélio era o nome do único irmão de meu avô, que teve mais quatro irmãs. 

Cabe aqui registrar também um pouco da história das origens do vovô Guilherme. Até para elucidar o que parece ser um DNA dos Pozenato: o de não se fixarem em lugar nenhum e o de não manterem relações dentro da família.

Os meus bisavós paternos emigraram da Província de Verona já casados, e se estabeleceram na colônia de Nova Vicenza, hoje município de Farroupilha, onde receberam um lote de terras para ser pago a prazo, como determinava a lei para os imigrantes. Ali tiveram seis filhos: dois meninos e quatro meninas. Por uma fatalidade, faleceram os dois, por causas nunca identificadas pela família, antes de meu bisavô quitar o pagamento das terras. A consequência direta foi que os filhos todos ficaram sem propriedade nenhuma, e foram acolhidos e criados pelos vizinhos.

Guilherme e Aurélio, os dois mais velhos dos irmãos, como não tinham terra para cultivar, foram buscar outro tipo de trabalho. Foi assim que meu tio-avô Aurélio se tornou carreteiro, morrendo num acidente, próximo a Ana Rech, como consta dos registros. E meu avô Guilherme virou tropeiro, trabalhando para uma loja da vila de Nova Vicenza. Viajava com os cargueiros de mulas até Barra do Ouro, próxima a Osório, levando queijos, salames, vinho, e de lá trazia açúcar, rapadura, cachaça e banana. Depois de casado, e já com alguns filhos, decidiu mudar-se com a família para o município de Osório, que na época tinha o nome de Nossa Senhora da Conceição do Arroio, indo instalar-se num lugar chamado Mundo Novo. 

No Mundo Novo foi que meu pai Jerônimo conheceu minha mãe Deotilia. Começava ali um mundo novo…

Uma virada de rumo, ou só um parêntese?

Leio num jornal francês que o discurso político atual oscila entre “Nada mais será como antes” e “Vão voltar os dias felizes”. E o articulista lança esta pergunta: a pandemia atual mudará o rumo da história, ou será apenas um parêntese?

Essa pergunta, se ainda não se tornou explícita, está com certeza latejando na mente de todo mundo, em todos os campos de atividade, da econômica à cultural, da política à social, da esportiva à religiosa.

Admitindo-se a hipótese de estarmos vivendo apenas um parêntese, que será encerrado voltando tudo ao que era antes, a pergunta passa a ser esta: qual vai ser a duração desse parêntese? Será medido em meses, ou em anos?

No caso de ser uma virada histórica, qual vai ser o rumo? Teremos um mundo melhor, como creem os otimistas, ou vamos mergulhar num mundo apocalíptico, como há também quem esteja temendo?

As leituras otimistas, ou progressistas, se baseiam no precedente das duas Guerras Mundiais e da Grande Depressão para acreditar que uma catástrofe pode levar a reformas que favoreçam a qualidade de vida: novos empreendimentos, novas normas de vida social. Desses cataclismos surgiu uma revolução tecnológica da indústria e também, coisa que não havia antes, nasceram os planos de previdência e a valorização do trabalho feminino.

Para os negativistas, essas mudanças todas significaram uma invasão da vida privada, com instrumentos de controle, seja por parte do capital, como reclama a esquerda, seja por parte do estado, como reclama a direita

Para nos prepararmos para uma virada histórica, valem as lições do passado. A humanidade tem assistido a mudanças de rumo, em média, uma vez a cada século. Sem querer desenhar um esquema didático, vão aí algumas pistas. Elas podem ajudar nossa mente a buscar caminhos nesse horizonte por enquanto totalmente nebuloso.

No século XVI, com a descoberta do Novo Mundo, a velha Europa descobriu que a terra é redonda, e não plana, e que há povos que não se imaginava existirem. Navegações comerciais e guerras de conquista de povos e territórios começaram aí.

No século XVII, quando Descartes lançou a dúvida como método para o conhecimento, tudo o que era baseado em crença começou a despencar, como numa pandemia mental.

No século XVIII, que se concluiu com a Revolução Francesa, a ideia de “liberdade, igualdade e fraternidade” derrubou reis, senhores feudais e potentados religiosos. Todas as estruturas de poder, em todas as instituições, foram atacadas pelo vírus da ordem democrática.

No século XIX aconteceu a revolução industrial, que deu origem à internacionalização da economia e de tudo o mais. É então que Marx cria um vírus destinado a atacar as forças do capital e do capitalismo.

O século XX começou com a revolução comunista, efeito do vírus marxista. A luta contra ele esteve na raiz não só das guerras mundiais como também da Guerra Fria.

E este século, recém-iniciado, já está vivendo a revolução digital nas comunicações e em todas as atividades profissionais. Todas as regras de convivência, da familiar à escolar, da social à do trabalho, estavam já em processo de mudança. Bastava esse vírus para mudar o rumo da história, sem necessidade desse outro intrometido…

O otimismo de Cândido – ou um pouco de filosofia

Tomei conhecimento da história, intitulada “Cândido ou o Otimismo”, de Voltaire, lendo Machado de Assis. Tanto nas Memórias Póstumas de Braz Cubas quanto no Quincas Borba, sem falar nas suas crônicas, Machado sempre citou esse texto para fazer ironia sobre o otimismo defendido pelo Doutor Pangloss, para quem “vivemos a melhor das vidas no melhor dos mundos”.

De Machado de Assis fui ao original de Voltaire. A trajetória percorrida pelo personagem Cândido (o nome escolhido por Voltaire não é casual), dando de frente com problemas em toda parte, permite a ele, e ao leitor, testar o otimismo do Dr. Pangloss.

Cândido enfrentou uma sequência de peripécias ao redor do mundo. No primeiro capítulo, é expulso a pontapés de um castelo na Vestfália. No segundo, leva uma surra de um grandalhão na Bulgária. Foge da Bulgária e toma um navio para Lisboa. E o que acontece em Lisboa?

“Mal chegaram à cidade, sentiram que sob seus pés a terra tremia; o mar, encapelado, avançava no porto, destroçando os navios ancorados. Chamas e cinzas cobriam ruas e praças; as casas desmoronavam, os telhados desabavam sobre os alicerces e os alicerces desmanchavam; trinta mil habitantes de ambos os sexos e de todas as idades foram esmagados sob os escombros”.

Era o famoso Terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755. Na realidade foi um maremoto, que hoje seria chamado de tsunami. O Marquês de Pombal ficaria famoso depois dele, por ter planejado e executado a reconstrução da cidade. Também Cândido achou que o terremoto fora uma coisa ótima: dava chance de se fazerem casas novas e de limpar as ruas…

Depois disso, na Espanha, Cândido mata sem querer um bispo e tem de fugir para a Santa Inquisição não o condenar à fogueira. Anda trinta milhas a cavalo e embarca num navio para a América Espanhola. O mundo continuava maravilhoso: ele conseguira fugir!

Atravessa o oceano e vai dar no Paraguai, onde enfrenta problemas nas missões dos jesuítas. Passa pelo Peru, que os espanhóis chamavam de Eldorado, e ali consegue juntar pedras preciosas e criar carneiros. Perde depois tudo, é claro. Vai até o Suriname, onde encontra holandeses, e chega finalmente a Caiena, na Guiana Francesa. Embarca então para a França e desce em Bordeaux, que os portugueses chamam de Bordéus.

De Bordeaux, ou Bordéus, como nas tabernas todos falavam de Paris, é para lá que Cândido se dirige. Mas antes o navio passa por Veneza e pela Inglaterra, para o circuito ficar completo. Ou quase! Em Paris termina a viagem pelas maravilhas, e pelos horrores, do mundo. Lá reencontra o doutor Pangloss, que o conforta com estas palavras:

“Tudo o que acontece se encaixa no melhor dos mundos possíveis: se não tivesses sido expulso do castelo a pontapés, se não tivesses ido parar no tribunal da Inquisição, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses perdido teus carneiros no Eldorado… não estarias agora comendo biscoitos de pistache em Paris!”.

E conclui: “Quando puseram o homem no jardim do Éden, foi para que ele trabalhasse; isso prova que o homem não nasceu para o repouso”. Cândido então arremata: “Muito bem, vamos cuidar de nosso jardim”.

Certamente esta seria a filosofia do doutor Pangloss para os dias que estamos vivendo. E Voltaire, certamente, faria humor com ela…

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 4

– A COZINHA DE MINHA MÃE –

É crença comum de que não existe lembrança mais persistente do que a dos “sabores de infância”.  Sabores no sentido literal, ou bucal. Aqueles que ficam registrados para sempre no aparelho gustativo. Aparelho cheio de truques e segredos, como aprendi de um sommelier, porque nele convergem todos os sentidos do corpo, mais a imaginação e a memória.

É somando todos esses registros que recordo a cozinha de minha mãe, onde entrava atraído, de manhã cedo, pelo cheiro quente do café sendo torrado numa panela de ferro. Vinha a seguir o som do café tornado pó no moedor manual, enquanto subia da frigideira o cheiro do “açúcar queimado”, que iria ser acrescido ao café para complementar o seu gosto. 

O “açúcar queimado” era feito com açúcar amarelo, como chamávamos o mascavo. Depois de ficar escuro, era despejado numa tábua até esfriar e endurecer. Era então moído com um rolo de madeira e acrescentado ao pó de café, para dar a ele um tom de amargo. 

Outro aroma, de quase todas as manhãs, era o do cuscuz. Como ajudante de minha mãe, aprendi também a fazê-lo. Punha-se farinha de milho numa bacia, com uma colher de açúcar amarelo e um pouco de água para “engrossar a farinha”, sem fazer dela uma massa. A farinha umedecida ia para o cuscuzeiro, um vaso de barro com furinhos no fundo. O cuscuzeiro era posto dentro de uma panela com um pouco de água. Para o vapor da água não sair pela junta do cuscuzeiro com a panela, ela era bloqueada com massa crua. A panela era então colocada ao fogo, na chapa do fogão, e ficava fervendo até  o cuscuz ficar cozido, pronto para ser comido com o café da manhã. 

Outro prato feito de milho era a canjica. Há vários modos de se fazer canjica pelo Brasil afora. A de minha mãe seguia a seguinte receita: debulhar algumas espigas de milho amarelo, de grão arredondado; despejar o milho no pilão, que era feito de um tronco de madeira, escavado por meu pai; sobre o milho, desfiar a palha das espigas e respingar um pouco de água para umedecer; aí, pegar a “mão de pilão” e ficar socando até os grãos do milho soltarem a casca: os grãos não se quebravam por causa da palha com que eram socados. Não é preciso dizer que bati mão de pilão muitas vezes, em rodízio com minha irmã, porque dava para cansar.

Feito isso, a canjica ia para a panela para ser cozida. Quase sempre, ela era dividida em duas panelas, uma temperada com sal e outra temperada com açúcar: almoço e sobremesa. 

De milho era também a pamonha, da qual me tornei especialista. Sendo feita de milho verde, minha mãe plantava “milho pra pamonha” por quatro meses seguidos, de agosto a novembro. Com isso, a gente podia fazer pamonha também por quatro meses a fio. 

Modo de fazer a pamonha: fazer um corte circular na base das espigas para poder descascar deixando as palhas inteiras; ralar espiga por espiga no ralador, dentro de uma bacia, para não se perder o suco do milho; temperar com sal a gosto, ou açúcar, se preferir; embrulhar o milho ralado e temperado nas palhas verdes e amarrar o embrulho com tiras da mesma palha verde; ferver numa panela até a pamonha ficar cozida. 

Na linha de comidas feitas de massa, minha mãe tinha uma verdadeira linha de montagem: massa cozida, pão de milho, pão misto, pão de trigo, bolachas e até mesmo cucas. Com o tempo, percebi que ela seguia nesse ponto diversas tradições culinárias. A massa cozida, que depois aprendi a chamar de taiadèle, tinha origem italiana, por parte de meu pai, como também o pão de trigo. O pão de milho era tradição da família de minha mãe, que vinha de Santo Antônio da Patrulha. As bolachas e cucas eram da tradição alemã, com receitas ensinadas por uma vizinha, a dona Carolina.

Da farinha de mandioca, minha mãe só fazia paçoca, que em Caxias do Sul aprendi a chamar de farofa. Ela se negava a fazer pirão dessa farinha. Até já escrevi isso nalgum lugar: minha mãe aprendeu desde menina a dividir o mundo entre os comedores de paçoca e os comedores de pirão. Estes eram pescadores que moravam na beira do mar. Os da paçoca eram agricultores que plantavam arroz, milho, trigo e feijão. E mandioca.

Ela até nos contava uma historinha trazida de Santo Antônio. Uma vez, pouco depois do meio-dia, quando a família já tinha almoçado, chegou um viajante que vinha das praias, morto de fome. A dona da casa ofereceu a paçoca que tinha sobrado e o viajante recusou: não comia “engasga gato”, mas aceitava um pirão, se tivesse. “Aqui não se come cocô de gato”, foi a resposta que teve de ouvir. A contragosto, já que estava faminto, ele aceitou comer paçoca. E não se engasgou!

A paçoca preferida de minha mãe era feita com charque picado. Mas podia ter variações, conforme o que houvesse da despensa.

A farinha de mandioca era também usada para fazer o “feijão mexido”, que em outros lugares é chamado de “virado de feijão”, “tutu de feijão”, entre outras designações, o que mostra o quanto essa prática era generalizada. Estudos dão conta de ser essa uma tradição vinda do tropeirismo. São Chico, e também Santantonho (como minha mãe chamava Santo Antônio da Patrulha), foram importantes caminhos de tropeiros.

Nosso feijão mexido era feito com sobras de feijão, temperadas com o que houvesse à mão. Na frigideira punha-se uma colher de banha de porco, fritava-se nela charque ou linguiça em pedacinhos e, depois, despejava-se sobre ela o feijão cozido. Quando o feijão estivesse aquecido, punha-se a farinha de mandioca, mexendo até se formar uma pasta. Um ovo frito, ou estrelado, como a gente dizia, era o acompanhamento. Não havia janta melhor do que essa.

As verduras não faziam parte de nosso cardápio, pelo menos não em forma de salada, que só aprendi a comer depois de me mudar para Caxias do Sul. Mas minha mãe preparava “verdura cozida”, bem temperada e bem saborosa. Também, para quem comia feijão todos os dias, com exceção dos domingos, não havia necessidade de salada. 

Fiquei feliz no dia em que foi divulgada a notícia de que uma pesquisa, realizada numa universidade norte-americana, tinha chegado à conclusão de que o feijão é “um alimento completo”. Isto é, aglutina todas as substâncias necessárias ao reabastecimento do corpo, em todos os seus sistemas: digestivo, nervoso, sanguíneo e tudo o mais.

O fato de ele estar na mesa toda a semana não nos provocava nenhum fastio. Tanto que um irmão meu costumava cobrar no almoço de domingo, em tom brejeiro, onde estava o feijão.

O domingo era dia de comermos galinha ao molho com massa. E, de sobremesa, arroz doce com canela, ao qual meu pai deu o nome de “prato do paraíso”

Sem querer parecer exagerado, todos os pratos que minha mãe fazia eram pratos do paraíso!

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