Se beber, não dirija!

Relendo as poesias dispersas de Joaquim Maria Machado de Assis, dei de frente com um poema exaltando o conhaque. Na época, em 1856, ainda se escrevia com a grafia francesa. No título, Machado acrescentou à palavra um ponto de exclamação seguido de reticências, para dar destaque e deixar suspeitas em aberto. Ficou assim:

COGNAC!…

Quando escreveu o poema, o ainda desconhecido Joaquim Maria estava para completar dezessete anos. Outros tempos, com outras leis! (O poema tem data de 12 de abril de 1856, e Machado nasceu a 21 de junho de 1839). Passo ao leitor duas estrofes, a primeira e a última, em que aparece o tom empolgado do jovem poeta, mesmo não usando rimas:

Vem, meu cognac, meu licor d’amores!…

É longo o sono teu dentro do frasco;

Do teu ardor a inspiração brotando

O cérebro incendeia!…

*****

Que poeta que sou com teu auxílio!

Somente um trago teu m’inspira um verso;

O copo cheio o mais sonoro canto;

Todo o frasco um poema!

Na terceira estrofe, Joaquim Maria informa também como ele gostava de beber o conhaque: Tomado com o café em fresca tarde. Como no Rio de Janeiro as tardes frescas são raras, é de imaginar que ele passasse o verão inteiro sem seu querido “licor d’amores”.

Faço essa observação baseado em experiência pessoal. Estava eu no Rio de Janeiro, num mês de julho, participando de um Seminário de Língua e Literatura. O evento, no começo, era realizado em janeiro. Um abaixo-assinado dos participantes conseguiu que fosse transferido para o “inverno” carioca.

Naquela oportunidade, presenciei a seguinte cena: estava eu no Teatro João Caetano, à noite, para assistir a uma peça moderna, com a plateia quase vazia. Duas senhoras na fila de cadeiras à minha frente olhavam para os lados e para trás, estranhando a ausência de público. Uma delas falou: “Por que será que veio tão pouca gente?” A outra respondeu: “Também, com um frio desses!” O frio era de mais de vinte graus, tanto que eu estava em mangas de camisa…

Nesse mesmo inverno, fui ver um filme no bairro de Botafogo – na realidade, dois filmes, porque havia um cinema ao lado de outro – e, ao voltar para o centro, despencou uma chuvarada, também típica do clima carioca. Desci do ônibus e fui debaixo de chuva até um bar, bem no Largo da Carioca, e pedi um conhaque, para me prevenir de algum resfriado.

O moço do balcão foi até a prateleira e voltou com uma garrafa de conhaque Dreher. Isso mesmo, um conhaque produzido em Bento Gonçalves, parece que o primeiro feito no Brasil. O que ele me cobrou por um cálice – disso eu me lembro também – daria para comprar um litro aqui em Caxias. Como na época do jovem Machado de Assis só havia cognac francês, devia sair bem cara uma dose para tomar com café numa tarde fresca. Ou molhada.

As poesias dispersas de Machado guardam outras pedras preciosas. Um desses poemas tem o título de “Teu Canto”. É dedicado “A uma italiana” e começa com esta epígrafe do autor:

É sempre nos teus cantos sonorosos

Que eu bebo inspiração.

Por aí já dá para imaginar o tom do poema. Essa italiana deve ter sido uma diva cantora de ópera, tipo de espetáculo que, nesse ano de 1855, já fazia parte da programação cultural da corte. Na época, as companhias líricas italianas faziam ponte entre o teatro Colón, de Buenos Aires, e o teatro Dom Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro.

A soprano Carolina Marea, por exemplo, fez sucesso lá e aqui como protagonista da ópera “La sonnambula”, de Vincenzo Bellini, compositor muito estimado na segunda metade do Novecento, em que predominava o espírito romântico. Não duvido que seja ela a cantora italiana homenageada pelo jovem Machado de Assis. O jornal La Nación traçou dela este perfil: “voz aguda y ligera, con poco volumen, pero de gran virtuosismo”. Com todas as condições, portanto, para o poeta principiante beber inspiração.

Dom Pedro II, promotor das temporadas de ópera e de peças teatrais no Theatro Imperial do Rio, encantou-se também com uma atriz dramática italiana, Adelaide Rístori. Tive a honra e o prazer de ajudar a organizar uma edição dessa história. Mas isso fica para uma próxima conversa.

EPIGRAMAS (1962)

Da chatitude 

Chato chato chato 

tábua, cachorro esmagado, 

barata metida em fresta 

sem relevo, chato inteiramente 

lâmina estendida no chão 

quadro sem pintura 

papel sem inscrição 

tapete posto ao comprido 

chato e raso e plano 

lagoa de água parada 

espelho embaciado e cego 

prego mil vezes batido 

parede nua, o chato 

essência e essencial. 

Sentimento da noite

Fechar a casa é fechar a vida  

de um dia. A noite é inconveniente. 

Permaneçamos pois fora dela  

as pudicas janelas fechadas  

a porta bem trancada. Não venha 

o ladrão nos roubar o sono. 

Ao redor da lâmpada acesa  

o nosso mundo construamos. 

A conversa disfarce o medo,  

defendamos nossa paz. 

Como meninos espantados  

façamos histórias de esquecer. 

(1960) 

As muletas

Além (e) aquém (e) dentro (e) fora 

ao redor (e) sobre e toc e toc 

vão as muletas de meu verso 

tateando pelos espaços, tudo 

buscando situar. Amarei mais 

sabendo como um topógrafo 

o local preciso das coisas 

no giroscópio do universo? 

Mas como despegar-me das muletas  

sem tombar paralítico, 

com a nebulosa silabação 

dos guardadores de estrelas? 

Devo abdicar da linguagem? 

Será o silêncio uma paralisia,  

ou o movimento total, 

conquanto não mensurável? 

Aí está o tormento do poeta  

fabricador de palavras. 

Elas são traição do mistério entrevisto  

e no entanto um gesto irreprimível. 

As visões alucinadas se reduzem  

a um punhado de sons, um resto de borra. 

Essa a inglória faina do poeta,  

a de tudo macular 

na tentativa de clarear, 

a de dizer errado 

a luminosa verdade. 

(1959) 

A chave e a mão

Tem a palmeira a chave de si mesma? 

Sabe o pássaro onde a sua porta? 

Em que pedra ou caverna  

deverei cavar minha chave? 

Enquanto apenas conjeturo  

vou batendo em portas fechadas 

com seu mistério particular: 

o dente cravado na gengiva 

o azul de certos olhos 

o grosso cimento de tua casa 

as verdes batatas enfileiradas 

(como letras de um poema antigo). 

Canta a árvore no jardim,  

o pássaro dentro dela reverdece em cores, 

a escada sobe, o guindaste a ultrapassa, 

o guerreiro destrói a espada 

e dela faz belíssima granada. 

Em todo esse tempo procuro a chave  

ou a mão em que ela se esconde 

dissimulada entre dois dedos. 

(1959) 

OS QUE NÃO RIEM

Foi Rabelais, o criador de Pantagruel, quem reabilitou o riso na cultura ocidental. Durante a Idade Média não se ria, o riso era considerado sinal de estupidez: de estultícia, como se escrevia na época. Rabelais, na contramão da Igreja e dos barões feudais, afirmou que “rir é humano”, expressão que entrou para a fala de todos os dias, e que “rir é o melhor remédio” para os males humanos, sejam eles físicos ou do espírito. Ele inventou inclusive um povo fictício, que chamou de Agélastes, que significa em grego “os incapazes de rir”.

Como a Idade Média ainda se prolonga dentro da modernidade e da pós-modernidade, não é da estranhar que ainda existam “agélastes”. Onde existe algum tipo de fundamentalismo, seja ele religioso ou político, lá estão eles brandindo ameaças contra os que não levam tudo a sério. Quando Jesus disse a célebre frase, “deixai vir a mim as criancinhas”, ele estava inovando, porque as religiões primitivas não permitem crianças rindo no espaço sagrado. Alguns anos atrás, houve uma confrontação entre Europa e mundo islamita por causa de uma charge humorística sobre a figura de Maomé. Rushdie, por causa dos “Versos Satânicos” e as brincadeiras nele contidas, foi sentenciado à morte por líderes islamitas. Agora, o presidente do Irã acaba de excomungar todo o ocidente, porque nele as pessoas acreditaram nas previsões de um polvo sobre os resultados do futebol. Sério como ele é, decidido a ter um mundo perfeito, foi incapaz de perceber que tudo isso não passou de uma grande diversão, que não era para ser levada a sério.

O retorno de Fidel Castro à cena, ressuscitado dos mortos, traz de volta à cena um outro tipo de “agélastes”: o fundamentalista político. Se ele e seus seguidores me permitirem uma frase de humor, Fidel acaba sendo o último estalinista sobrevivente no planeta, depois que o estalinismo em que ele se escorou sumiu há mais de 20 anos. E o estalinismo foi um regime político extremamente sério. Ninguém na União Soviética podia se arriscar a fazer piada com nada que fosse assunto de governo. Exatamente como na Ilha de Fidel. Reinaldo Ariel, escritor cubano que contestou o regime, deixou escrito em seu imperdível livro “Antes que Anoiteça”: “Uma das características mais lamentáveis de todas as tiranias é que levam tudo a sério e fazem desaparecer o senso de humor. Historicamente, os cubanos sempre fugiram da realidade através da sátira e da zombaria, mas com o advento de Fidel castro o senso de humor foi desaparecendo até ser totalmente proibido”. 

Arenas experimentou isso na carne, literalmente. Ele e todos os que tiveram coragem de rir de ditadores. Aqui no Brasil não foi diferente, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Onde o riso morre, instala-se o autoritarismo, e vice-versa: onde houver um autoritário, seja em nome de que princípio for, o riso desaparece.

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