Poema do Outro

O vento levantou-se de manhã

vestiu-se todo de azul

pôs um botão de sol

a passear pela roupa

e saiu devagarinho

sorrindo para todos.

Entrou no jardim

sem passar pelo portão

derrubou uma porção

de gotas de orvalho

pisando por tudo

enquanto nos canteiros

as florinhas se inclinando:

– Bom dia, senhor vento!

   Como vai?

– Vou bem, vou muito bem.

   Obrigado!

– Vai passear hoje?

– Não, minhas flores,

   (e com um sorriso)

   Vou amar.

Vi  ontem um pessegueiro

que nesta primavera

não pôde florir.

Há também numa janela

como um vaso de terra seca

um homem que nunca sorriu.

– Nunca sorriu?

– Nunca. E eu quero levar aos dois

um grão da alegria dos outros.

Eu queria…

levar-lhes perfumes de flores!

– Pois não, senhor vento,

   leve quanto quiser.

*****

O vento saiu todo de azul

com os braços tão cheios de perfumes

que os ia perdendo pela estrada

despertando risos das pedras

e ligeiro balanço das folhas.

De mansinho

chegou-se ao pessegueiro

chegou-se ao homem triste

e lançou-lhes na face

a alegria das flores.

O pessegueiro não pôde falar:

sacudiu os braços orvalhados

e chorou…

No quadro da janela ficou pairando

como o primeiro vagalume do mundo

um sorriso branco e vermelho.

(1956)

SONETOS DE GIÀCOMO DA LENTINI:

1.

O lírio, se colhido, logo é passo,           Lo giglio quando è colto tost’è passo

pois que sua natureza não vem junta:       da poi sua natura non è giunta:

e eu, assim que me afasto um passo          ed io, da c’unche son partuto un passo

de vós, senhora, dói-me toda junta,           da voi, mia donna, dolemi ogni giunta,

porque no amar a todo amante eu passo,  perché d’amare ogni amadore passo,

e na altura meu coração se junta:                 in tanta altezze il mio core giunta:

assim me fere Amor, por onde passo,          così mi fere Amor , là ‘vunque passo,

como águia quando à caça é junta.               com’aghila quand’a la caccia è giunta.

Ai de mim, que fui nascer em um ponto      Oi lasso, me, che nato fui in tal punto

de só amar a vós, não outra gente!               c’unque non amasse se non voi, chiù gente!

Isto saibas, senhora, desta parte:                 questo saccia, madonna, da mia parte:

assim que eu vos vi ficou-me o ponto,        in prima che vi vidi ne fui punto, 

eu vos servi e louvei p’ra toda gente,          serviivi ed inoraivi a tutta gente,

de vós, bela, meu coração não parte.          da voi, bela, il mio core non parte.

2.

Como pode mulher tão grande entrar         Or come pote sì gran donna intrare

por meus olhos, que tão pequenos são?     per gli occhi mei, che sì piccioli sone?

E como dentro pode ela ficar                         E nel mio core come pote stare

e, aonde vou, levá-la no coração?                 che nentr’esso la porto laonque i´vone?

Onde ela entra não se vê o lugar,                   Loco laonde entra già non pare,

o que me dá grande admiração;                     ond’io gran meraviglia me ne done;

mas quero-a qual lanterna semelhar             ma voglio lei a lumera asomigliare,

e os olhos meus no vidro pôr então:              e gli occhi mei al vetro ove si pone:

o fogo incluso passa ao exterior                      lo foco inchiuso poi passa di fore

o seu lustro, e sem fazer ruptura;                   lo suo lustrore, sanza far rottura;

assim dos olhos passa ao interior,                   così per gli occhi mi pass’a lo core,

não a pessoa, mas a sua figura.                       no la persona, ma la sua figura.

Renovar-me eu quero de Amor,                      Rinovellare mi voglio d’Amore,

pois trago o emblema de tal criatura.            poi porto l’insegna di tal creatura.

3.

Eu pus no coração a Deus servir,              Io m’agio posto in core a Dio servire

para que possa ir ao paraíso,                     com’io potesse gire in paradiso,

santo lugar no qual, sei por ouvir,            al santo loco, c’agio audito dire

há sempre diversão, e jogo e riso;            si mantiene sollazo, gioco e riso;

sem minha senhora não queria ir,            sanza mia donna non vi vorria gire,

aquela de cabeça loira e claro viso,          quella c’ha blonda testa e claro viso,

que sem ela eu não poderia fruir,             ché sanza lei non poteria gaudire

estando da minha dona diviso.                  estando da la mia donna diviso.

No que digo não há o entendimento       Ma non lo dico a tale intendimento

de que eu quisesse com ela pecar,           perch’io peccato ci volesse fare,

mas só ver o seu belo paramento,            se non veder lo suo bel portamento,

o belo rosto e o morno seu olhar,             lo bel viso e lo morbido sguardare,

pois eu teria grande contentamento,       ché lo mi terria in gran consolamento

vendo minha senhora em glória estar.     veggendo la mia donna in gloria stare.

O INVENTOR DO SONETO

Os sonetos de Francesco Petrarca foram um modelo de poesia lírica para toda a literatura ocidental. Ronsard, da Plêiade, que sonhava ser “o Petrarca francês”,  Shakespeare na Inglaterra, Francisco de Quevedo na Espanha, Sá de Miranda e Camões em Portugal, Gregório de Matos no Brasil, todos eles referência de base nas respectivas literaturas nacionais, juntaram  água dos sonetos de Petrarca nas suas jarras.

No Brasil, depois de Gregório de Matos, o soneto voltaria ao topo da glória na poesia de Cláudio Manuel da Costa. Teve um parêntese de sombra no romantismo e retornou com toda a pompa e circunstância no parnasianismo, que inventou o final com “chave de ouro”, e no simbolismo. Nem mesmo Machado de Assis foi imune ao seu feitiço. Pelo menos dois de seus sonetos ficaram na memória nacional: o alexandrino “Bailando no ar, gemia inquieto vagalume” e o “Querida, ao pé do leito derradeiro”, na despedida a Carolina, sem dúvida nenhuma a sua Laura.

Os modernistas lançaram diatribes contra o soneto e tudo o que soasse a parnasiano, mas nem os maiores deles conseguiram resistir à tentação do poema de quatorze versos. Drummond usaria o soneto alexandrino, com rimas completas, rima interna e tudo o mais, para declarar seu Legado: “Que lembrança darei ao país que me deu / tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?” Manuel Bandeira no seu Lira dos cinquent’anos, passada portanto a febre demolidora, dá-se ao desfrute de escrever poemas com os títulos de “Soneto italiano” e “Soneto inglês”, isto é, rigorosamente no modelo de Petrarca e no de Shakespeare. E quem não conhece o “Soneto do amor como um rio”, do Mário Quintana, com assonâncias internas como requinte? Mas fiquemos por aí, para não expor outras celebridades.

Depois de haver traduzido os 317 sonetos de Petrarca, com o cuidado de eles não perderem de todo as rimas, saí à procura dos mestres do Poeta, que ele não deixa de homenagear em seu poema I Trionfi. Em particular, saí à procura do inventor do soneto como forma lírica. A única certeza que os arqueólogos da literatura têm assente é que o primeiro de que se conhecem os sonetos foi um poeta da “escola siciliana”, de nome Giàcomo da Lentini, também conhecido pelo nome de Jàcopo da Lentini. Era um importante notário, ou escrivão, da corte de Frederico II, que estimulou a produção de poesia em língua vulgar, a ponto de tornar a poesia siciliana uma referência para toda a Itália, em especial a Firenze de Dante Alighieri e a Toscana de Petrarca. Dante cita o poeta no Canto XXIV, que mostra o sexto círculo do Purgatório, com o nome pelo qual era conhecido por antonomásia, O Notário (Notaro).

À falta de outras provas, Giàcomo da Lentini é então considerado como o inventor dessa  forma métrica. Não há também certeza sobre as datas de seu nascimento e morte, mas seu nome é mencionado como membro da corte em escritos com data de 1233 e 1240. Dante nasceria em 1265 e Petrarca em 1304, ou seja, há uma geração separando entre si os três poetas. Giacomo da Lentini deixou 38 poemas de autenticidade reconhecida, mais dois ou três de autoria duvidosa. Desse total, 17 têm o nome de “Rime”, com o formato que em Petrarca e em Camões é chamado de Canção. Os outros 21 são sonetos.

COZINHA E FOGÃO

Quando saímos, minha mulher e eu, a comprar nosso primeiro apartamento – ninguém está livre desse tipo de sonho – encontramos este em que estamos morando até hoje, numa relação de absoluta fidelidade dele conosco e nossa com ele. Foi um desses casos raros de amor à primeira vista que continuam pelo resto da vida. Mas mesmo essa espécie de amor, que se costuma considerar mágico, tem suas razões bem objetivas. No caso do apartamento foram duas essas razões. Três, na realidade, lembro-me agora. A primeira delas era que ele ficava longe do barulho do centro da cidade. Essa razão já se esboroou, porque debaixo de minha janela passa metade do trânsito de Caxias. Mas sobraram as outras duas. E essas duas são suficientes para que o amor antigo continue perseverante, mesmo com a corrente de tráfego rugindo do lado de fora da janela. São elas a cozinha e o fogão. Duas razões cuja virtude se renova agora, quando o inverno chega de novo com sua cara cinzenta e fria. Mas virtudes que têm sua importância também pelo ano afora, mesmo no verão.

         Assim que vimos o apartamento pela primeira vez, vindos de longa via-sacra de procura, sentimos o coração se alargar com o tamanho da cozinha. Uma cozinha em que era possível ter a cozinha propriamente dita, mais a mesa de comer, ou de jantar, como queiram, e de quebra um lugar para leitura e para ver televisão. Em resumo, tirando-se o espaço específico para dormir, todo o resto da vida cotidiana podia, e pode, se desenrolar nessa peça. Mais que isso. Descobrimos depois que a cozinha superava com vantagem também a sala de visitas: nada mais gostoso do que conversar com amigos ao lado do fogão, mesmo que ele não esteja aceso, ao invés de ficar rodeando um vaso de flores na sala.          Sempre senti necessidade de elaborar conceitos para entender melhor as coisas da vida, mesmo as corriqueiras. E o conceito a que cheguei é de que a cozinha é o melhor espaço de convivência da casa, pela simples razão de ser esse também o lugar dos elementos básicos de sobrevivência: o calor e a comida. Daí que nesse espaço as relações parecem sempre mais íntimas e substanciais. Depois enveredei para outras análises, e concluí que esse tipo de cozinha era uma herança cultural, das antigas casas desta região, tanto da colônia como da cidade. Estou a ponto de dizer que o sinal mais claro da mudança de valores culturais na nossa região é a aceitação da quitinete, onde não cabe nada, muito menos um fogão a lenha e gente conversando ao redor. Por fim, descobri também que ter encontrado um apartamento com cozinha grande e fogão a lenha não era um acaso, embora fosse um presente do céu. O construtor do prédio decidira ser essa a última construção de sua carreira. E decidiu também que, a carreira encerrada, ia morar nele. Por isso fez a cozinha de que ele gostava e pôs chaminé para o fogão de lenha, de que ele sentia necessidade. Por isso, Deus seja louvado, peguei talvez o último exemplar de cozinha grande, com fogão a lenha, da velha cultura colonial.

CHINESARIA

Shan Sa era uma garota de 16 anos que fazia poemas, em Pequim, quando o regime mandou metralhar 5 mil estudantes na praça da Paz Celestial, em junho de 1986. A imagem que correu mundo, do estudante solitário desafiando um tanque que avançava sobre ele, num daqueles dias da revolta estudantil, ficará como a melhor imagem já vista do confronto entre o poder assustado e a juventude destemida.

         No dia do massacre, Shan Sa chegou na praça e não encontrou seu grupo de amigas. Começou a conversar com um garoto e saíram os dois a passeio. Foi o dia em que Shan Sa deu seu primeiro beijo. Ao chegar em casa, no fim da tarde, abriu a porta e encontrou a mãe em prantos. Achava que a filha estava entre os mortos da praça da Paz Celestial.

         Acontecem mais algumas peripécias e Shan Sa decide que não mais ficará na China, no país que matou suas amigas, que no entanto só queriam o bem da China. Entre ir para os Estados Unidos, ela que sabia falar inglês, e ir para a França, ela que não sabia francês, escolheu ir para a França. Por que? Porque na França tinha certeza de que ia encontrar cultura, e nos Estados Unidos não, pensava a garota chinesa.

         Mas seu primeiro contato com Paris foi decepcionante. Não conseguia ver a “luz” da cidade, a “lumière” de que tanto falavam. O Jardim de Luxemburgo lhe pareceu pífio comparado aos jardins do imperador (da China). Shan Sa levou algum tempo para descobrir que no ocidente a arte se faz de medida e proporção. Só aí, então, entendeu o Jardim de Luxemburgo, Paris, a França e quase que todo o ocidente.

         Tanto que a menina poeta de Pequim sentiu vontade de escrever suas fantasias em língua francesa. O primeiro romance foi – imaginem – a  história de uma garota que sai a passeio com o namorado e não vê os horrores que, naquele dia, mancham de sangue a praça da Paz Celestial. Mas Shan Sa chegou a seu terceiro romance e está na televisão, diante de seu entrevistador, Bernard Pivot, que quer saber como é escrever romance e poesia numa língua que não é a materna:

– É uma luta com as palavras, ou contra as palavras?

A moça chinesa não tem pressa de responder:

– Não é luta, é espera. A gente fica esperando as palavras e elas não vêm. No meu primeiro livro, quando as palavras não vinham, eu preenchia os furos com palavras chinesas, depois ia ao dicionário buscar a tradução. Aí descobri outra coisa. Descobri que eu não sabia a música das palavras em francês. Em chinês as palavras são pinturas, em francês são música, e eu não sabia a música. Mas agora aprendi. Ainda escrevo com alma chinesa, mas em francês.

Bernard Pivot na frente dela, e eu na frente da televisão, deixamos cair o queixo.

Um dos romances dela, A Jogadora de No, conta a história de uma garota que aprendeu que nenhum jogo se ganha ou se perde de todo. Em todas as perdas restam alguns ganhos. Em todos ganhos, ficam algumas perdas.

CÉREBRO

Perdi a conta das vezes que contei aqui resumos de conversas com taxistas. Os leitores não vão se aborrecer se conto mais uma. Os motoristas de táxi, de tanto conduzirem a gente pelas ruas, se tornam uma espécie de condutores também pelos caminhos da vida. Não é difícil de explicar: a profissão deles, que os obriga a ouvir de tudo, os faz repositórios da pouca sabedoria humana que resta desde que as pessoas deixaram de ouvir os outros.

         Este de que vos falo, assim que parou na primeira sinaleira voltou-se para mim e comentou: “Interessante, o pé pisa no freio antes de a gente saber que o sinal fechou”. Apanhado de surpresa por uma conversa tão fora da rotina, dei apenas um resmungo de assentimento. Ele prosseguiu: “Não é o pé, é o cérebro, que comanda o pé; antes de a gente saber, o cérebro sabe e passa o comando”. Tive vontade de perguntar de onde ele tirou essas teorias, ou leis científicas, ou meros comentários de quem pegou um programa de variedades, mas entrei no jogo dele e disse: “Antes de dar o comando ao pé, o cérebro registra o que o olho viu: faz a conexão entre o pé e o olho”. Ele se entusiasmou: “Isso, isso mesmo, o cérebro faz a conexão, sem a gente saber”. Essa idéia de um cérebro funcionando como um motor de carro, sem a gente  ter consciência dele, me fez lembrar Paul Chauchard, o primeiro neurologista que li, ainda quando cursava filosofia, e que tentava aproximar, sempre respeitoso da fé cristã, a teoria espiritualista e a teoria biologista da alma. Em língua vulgar, se é possível violentar assim as sutilezas científicas e filosóficas de Chauchard, a alma teria que comer pela mão do cérebro. Mais ou menos como supunha meu taxista.

         Mas o sinal abriu e o taxista tomou uma rua à esquerda. Nesse ponto, o cérebro dele já andava também em outro rumo. Começou me inquirindo: “O que está achando do Lula?” Prudente, retorqui: “Fala bem, pelo menos”. O taxista riu: “Fala bem demais. É muito esperto o sujeito. É como diz o ditado: quando Deus tira o dente alarga a goela”. Não achei que o ditado viesse tão a propósito, mas ele logo esclareceu: “Quem não consegue meter os dentes, tem é que passar muita saliva, para descer pela goela”. Não era ainda muito lógico, mas passava. “É muito malandro esse Lula – continuou ele – se faz de morto pra comer o coveiro”. Era uma versão mais radical de outro provérbio que eu conhecia, e uma versão também mais macabra, principalmente depois que ele criou um diálogo fictício entre o aparente morto e o coveiro, que não reproduzo por respeito à etiqueta, digamos. E arrematou: “Um cara que diz eu tenho só nove dedos mas sei contar até dez, esse sabe agradar o povo, é que nem esses vendedores de esquina”. Fiquei na minha, como se diz. E foi bom, porque o cérebro do taxista dava já o comando para outra conversa: “E o que achou dessa lei do churrasco?” Não tive tempo de dar minha opinião. Tínhamos chegado ao meu destino. Deixei com ele o troco, merecido, pelo tanto que aprendi.

CARANDIRU

Seguidamente visito escolas pelo Rio Grande afora, de Iraí ao Chuí, e acabo vendo e ouvindo coisas lá dentro da cozinha, como se diz. Sou convidado, como seria de esperar, para falar (bem) de minha obra e contar curiosidades do making of de um escritor. Mas sempre uma professora, ou mais raramente a diretora (há poucos homens dentro das escolas), vêm me encarecer que fale sobre a necessidade da leitura, porque elas insistem nisso sem resultado, e esperam que um santo de fora faça milagre. Dou meu recado, também sem muita fé, mas assim mesmo me agradecem sorridentes.

         Além da inapetência para ler, outro problema que provoca comentários amargos é o esvaziamento da autoridade escolar. A queixa é de ser quase impossível manter a disciplina na escola quando a professora pode ser chamada ao conselho tutelar por dá cá aquela palha, ou quando a diretora pode ser convocada pela secretaria de educação para receber a ordem de suspender a suspensão de um aluno. Um princípio que eu achava que era sagrado em educação – o da autonomia do educador – parece ir-se também pelo ralo, nesta época em que vão no mesmo saco democracia e quebra da autoridade. Eleição de diretor é apenas outra concessão demagógica, como dizia Darci Ribeiro, para destruir a relação educativa da escola: quem sabe a gente vai fundo nisso e faz logo uma lei para os filhos votarem quem querem ter como pais?

         Estive também em escolas particulares. Neste campo, o drama é igualmente visível: os colégios mais tradicionais, em quase todas as cidades, vão um por um fechando as portas. O lugar deles é ocupado por outras escolas particulares, com um perfil diferente: têm “leigos” à sua frente, têm regras que todos devem respeitar, os alunos são exigidos a cumprir metas de aprendizagem e, em muitos casos, até uniforme escolar é imposto: ele não é visto como um trambolho autoritário, mas uma vestimenta igualitária. O diretor de um desses empreendimentos vitoriosos me sussurrou a sua receita: “Passamos longe dessas pedagogias modernas, em que o aluno é quem manda. Os pais querem escolas em que os filhos tenham que entrar nos eixos”. Era o que uma vez se esperava do quartel, pensei. E, como não há mais quartéis…

         A mesma coisa vi numa escola pública estadual. Mais de dois mil alunos, professores empolgados com seu trabalho, alunos interessados que me crivaram de perguntas. Quis saber qual era o segredo: “Aqui há regras e todos têm que cumpri-las”, me disse uma assistente da direção. E me contou que dias antes tinha chamado um aluno e cobrado dele o descumprimento de uma regra da escola. O aluno reagiu furioso: “Isto aqui é um Carandiru!” A professora não se abalou: “Se acha que isto é um Carandiru, não tem grade na porta, pode sair”. O aluno assustou-se: “Não, profe, eu estava brincando, não quero sair daqui não”. A moral dessa pequena história é clara: o aluno pode chamar sua escola de Carandiru porque gosta de agredir com palavras, é próprio da idade, mas ele precisa sentir segurança nesses carandirus.

BOQUIRROTO

Uma noite dessas, zapeando, peguei já na metade o poeta João Cabral de Melo Neto numa entrevista, gravada na certa há mais de 30 anos pela televisão cultural do governo (não sei que nome tinha ela na época). João Cabral estava com um desses óculos de aro grosso, que também já usei, e que dava ao rosto o ar de um intelectual francês da nouvelle vague. Ao lado dele estava Fayga Ostrower, encabuladíssima, não sei se porque estava sentada ao lado de um poeta tão importante, se porque estava assustada com as câmaras do estúdio, ou se porque ela era assim mesmo. Completava o trio o até hoje bibliófilo José Mindlin, só que com quase todos os cabelos. O entrevistador, fiel ao princípio de que o jornalista não deve aparecer mais que os fatos, era apenas uma voz vinda do espaço neutro, em preto e branco.

         Parei e fiquei olhando, e ouvindo. Uma, porque nunca tivera antes a oportunidade de ver João Cabral falando. Outra, que a fama do poeta era a de ser ele um turrão, seco, de meias palavras. E me surpreendi vendo um sujeito de língua solta, quase boquirroto, falando mais que os demais entrevistados e o entrevistador juntos. Em alguns momentos, mais tenso, repetia a pergunta “compreende?”, quatro ou cinco vezes na mesma frase. Mas logo deslanchava e esquecia o cacoete.

         Falou coisas interessantíssimas, contou segredos de oficina, como qualquer mortal. Contou, por exemplo, que quando fazia poesia tinha que se concentrar naquilo e não pensar em mais nada. Então, enquanto era simples funcionário de embaixada, tudo bem. Terminava o trabalho e ia para casa de cabeça fresca para a poesia. Mas quando foi nomeado chefe de missão, no Senegal, descobriu que saía do trabalho e levava os problemas da embaixada para casa, dentro da cabeça. Aí era impossível fazer poesia. Estava, no dia (ou noite) da entrevista, esperando a aposentadoria para poder se dedicar aos seus versos.

         Aos versos, sim, porque – e João Cabral endureceu a voz neste ponto – a poesia se faz com versos, e não com palavras soltas como queriam os concretistas. E confessou que era um poeta visual, que suas metáforas podiam ser desenhadas, que ele de alguma forma as desenhava na mente antes de pô-las no papel. Por isso ele se socorria dos artistas, como Fayga, para ilustrarem seus poemas. Por isso ele imprimia seus próprios livros numa tipografia que encontrou na embaixada brasileira da Espanha. (Por isso, acrescento eu agora, o desespero em que ficou, nos últimos anos antes de morrer, com a cegueira de que foi atacado).

         Tanto falou e tanto disse o poeta, que José Mindlin, diante das câmaras, se declarou estupefato: nunca vira João Cabral tão eloqüente. Não acho, porém, que o motivo tenha sido o de querer deixar um longo e minucioso depoimento para a posteridade, em som e em imagem. Pode ser que estivesse com alguma paixão nova, o que explica arroubos repentinos. Mas o mais provável é que ele ficou boquirroto de nervoso. Acontece nas melhores famílias.

BALUARTE

Todo o mundo é composto de mudança, lamentava Camões, que depois de uma certa idade, como nós, também não conseguia se acostumar com a idéia da fugacidade das coisas. O pior, dizia ele no final do soneto, é que até a mudança muda: nem ela muda mais como antigamente, nem ela é mais “como soía”. A constatação melancólica do vate presta-se a muitas considerações. Uma delas é a de que, por vermos tudo mudando ao nosso redor, às nossas costas, na nossa frente, pegamos o costume, não sei se bom ou mau, de procurar, no meio da avalanche das coisas que mudam, alguma que dure, que permaneça. Alguma coisa que sirva de tábua de salvação nesse redemoinho, para a gente ter ao menos uma idéia de onde está e quem a gente é. Por isso talvez se dê tanta importância à memória, às tradições, aos sinais de que tivemos uma história. Mas não era preciso fazer toda essa meditação grave para falar do que vou falar, um assunto quase leviano. Atribua-se isto ao outono, que nos empurra para dentro de nós e nos faz mais reflexivos. E também a Camões, de quem fui me lembrar logo agora.

         A questão quase leviana era esta. Numa roda de amigos conversávamos sobre como tem mudado nossa cidade, digamos, nos últimos quarenta ou cinqüenta anos, que a tanto ia a memória de todos nós. A constatação, camoniana e óbvia, era de que tudo mudou, ou quase tudo. Mas de repente a conversa tomou o rumo inverso. Ao invés de inventariar o que mudou, saímos à cata do que não mudou. Como era também óbvio e camoniano, vimos que poucas eram as coisas que não tinham sofrido mudança. Uma delas eram alguns hábitos alimentares, alguns tipos de prato da culinária local.  E aí chegamos ao fulcro da descoberta: nem os nomes de determinadas coisas de comer mudaram até hoje. Ficaram eles como um baluarte resistindo a tudo.

         Um parêntese: discute-se muito em antropologia que elementos de uma cultura mais resistem ao contato com outras culturas. É a língua, são as crenças, as técnicas de trabalho? Quem já lidou com a questão sabe como é difícil chegar a constatar alguma regularidade. Então, a idéia de que os nomes de comidas peculiares têm essa força de resistência não deixa de ser uma constatação interessante.          A leitora ou leitor pode fazer a sua lista, como fiz a minha, que começa pela palavra codeguin. Não há palavra em português para designar esse embutido que só tem a ver com a tradição italiana. A lista pode prosseguir com pien, um outro embutido imaginoso, feito na pele do pescoço da galinha. Ou com outros nomes (e pratos, ou quitutes) mais conhecidos: a fortaia, o anholine, o fregolá, o grôstole, e daí por diante, até ficar com água na boca. Um dia essas palavras (e outras que ainda sobrevivem no uso cotidiano da cidade) serão capazes de entrar no dicionário da língua portuguesa, sem mais discriminações. Como já foram para lá as palavras minestra e galeto. Se o mundo é todo feito de mudança, nada a estranhar que ocorra também essa.

Padre Giobbe

Padre Giobbe pôs em operação, item por item, seu método para descer do automóvel, como se tivesse o corpo dividido em partes. Escancarou a porta, pôs para fora a bengala e depois, com os dois pés no estribo, girou sobre as nádegas o corpo velho e pesado. Segurou-se então com força na bengala e deu um impulso continuado nas pernas, escorregando aos poucos do assento. Finalmente encontrou-se de pé na calçada. Só não conseguiu conter o gemido.

Voltou-se e viu o sorriso de Ambrósio. Zombava de seus achaques de velho? Não. O sacristão ficava com esse ar superior sempre que usava o boné de chofer. Parecia se resignar ao ofício de ajudante da missa para ter seus momentos de glória como chofer, e ao mesmo tempo mecânico, da paróquia. Seu sorriso beatífico era o de quem se deliciava com um pecado secreto. É assim, o prazer mundano sempre encontra uma brecha por onde se insinuar, pensou padre Giobbe. Lidava há muitos anos com o Maligno para se deixar enganar por seus truques. De tanto encontrá-Lo, enfiado nas dobras das almas mais virtuosas, havia entre eles uma quase camaradagem de velhos inimigos. Às vezes, o Senhor o perdoasse, tinha a impressão de sentir-se mais à vontade falando com Ele do que com Deus. Quando o apanhavam falando sozinho, padre Giobbe costumava dizer que estava falando com o diabo. Riam, achando que era brincadeira. Se soubessem… Mas era no que podia dar uma tão longa convivência.

Trecho de “A Babilônia” da trilogia “O Quatrilho”

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