Os melhores vinhos de Caxias

Um importante evento está chamando a atenção de todos para os vinhos produzidos em Caxias do Sul. Trata-se do 26º Concurso dos Melhores Vinhos, Sucos e Espumantes, ainda em andamento.

É um evento de suma importância porque quase todo mundo esquece que o município, hoje um famoso polo metal-mecânico, em nível internacional, continua cultivando os produtos que deram origem à indústria local, e também à sua cultura. Por sinal, o atual concurso está sendo realizado em São Romédio, que já foi chamado de “berço de Caxias”, porque foi o primeiro núcleo urbano da cidade, e a Igreja local foi declarada Patrimônio Histórico e Cultural do Estado.

O Concurso é promovido pelas cantinas do município, que integram a Rede de Vinícolas de Caxias do Sul – Revinsul, e pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Smapa, com vários patrocinadores.

Para dar ideia da dimensão a que chegou esta edição de 2023, vão alguns dados:

– 39 vinícolas caxienses participam do concurso, e concorrem a quatro Troféus: Grande Ouro, Ouro, Prata e Bronze, em diversas categorias;

– 295 amostras foram inscritas, número recorde do evento, em vinhos de diversas variedades viníferas, nas categorias de tinto, rosé e branco, mais os sucos e espumantes (brut e moscatel);

– 27 profissionais fizeram a degustação, no dia 25 de julho: os avaliadores foram divididos em três bancas, degustando vinhos de mesa, sucos e espumantes.

O próximo passo será a festa de divulgação dos premiados, também na localidade de São Romédio.

Na grande maioria, as vinícolas participantes são familiares, o que mostra que as raízes plantadas um século e meio atrás continuam dando fruto. E em cada uma delas persiste a busca pela inovação e o investimento na qualidade dos vinhos. Uma e outra, inovação e qualidade, são os objetivos testados no Concurso.

Não apenas dou meu aplauso a esta 26ª edição do Concurso de Melhores Vinhos de Caxias do Sul: sou um inveterado apreciador dos vinhos aqui produzidos. Minha cantina predileta está também participando da degustação, e tenho certeza de que ela vai fazer bonito. Como sempre fizeram bonito os vinhos de Caxias do Sul.

Conflitos da crítica literária

A segunda conferência do II Simpósio de Língua e Literatura Portuguesa, no Rio de Janeiro, teve como estrela o eminente Afrânio Coutinho (1911-2000). Ela aconteceu no dia 16 de janeiro de 1968, terça-feira, sobre o tema A Nova Crítica.

Afrânio Coutinho começou esnobando os que afirmavam que a Nova Crítica procedia do New Criticism anglo-americano, que é do século XX. E disse que bastava abrir os olhos para perceber que a Nova Crítica começou bem antes, ainda no século XIX, quando teve início uma reação contra a historiografia, contra o cientificismo de Taine, contra o positivismo de Comte e a ênfase dada às biografias.

Não teve um inventor, mas “procede de vários núcleos culturais”, que desembocaram no formalismo russo, no Círculo de Praga, nos estudos estilísticos na Espanha e Alemanha e, mais tarde, também no new criticism.

A seguir, prosseguiu com uma aula magistral sobre a “Genealogia da Nova Crítica”, a partir de seus antepassados, que são inúmeros, a começar pelo maior deles, Coleridge (1772-1834), que, além de poeta, foi o “mais lúcido dos críticos”. Depois dele, a lista cresce em todo o Ocidente: Oscar Wilde, Gourmont, Ezra Pound, T. S. Eliot, Benedetto Croce, Bachelard, Lévy-Strauss… E, no Oriente, René Welleck e o Círculo Linguístico de Praga, mais o Formalismo Russo, em direção ao estruturalismo.

Feito esse longo percurso histórico, Afrânio Coutinho passou a defender o que chamou de Ideias fundamentais para a crítica literária no Brasil, que anotei no caderno:

1 – Necessidade da criação de uma consciência crítica para a literatura.

2 – Valorização do estudo superior, nas Faculdades de Letras, sistematizado: assim está se produzindo uma consciência crítica.

3 – Reconsideração dos aspectos técnicos da poesia e prosa.

4 – Valorização do estético na obra de arte. E criar métodos que penetrem o intrínseco.

5 – Estabelecer critérios estéticos com objetivos científicos (no sentido de exatos, rigorosos, adequados ao fenômeno estético).

6 – Relegação da biografia a plano secundário com os outros fatores: sociológico, ambiental etc.

7 – Periodização: rever o conceito do estilo de época a partir das grandes criações individuais.

Para dar ideia do ambiente, registrei também estas observações:

Afrânio não preparou a conferência: repetia-se, lia um papel aqui, outro ali. E falou duas horas. As perguntas (por escrito), apresentadas no fim, foram um pretexto que as moças aproveitaram para desfilar na passarela, e bem elegantes. Posta a palavra à disposição, falou o prof. Emanuel Pereira Filho: badalou Afrânio e enrolou algumas frases de efeito. Talvez para não ficar esquecido.

Não fiz perguntas nem pedi a palavra, embora tivesse uma dúvida: essa preocupação científica pretende transformar a crítica literária numa ciência exata? Parece-me que ela não atinge o cerne da obra de arte, que é o seu sentido. Em outras palavras: há necessidade de se responder o que é a estética, e essa é uma questão metafísica.

Perguntas que só ficaram no meu caderno de anotações…

Felicidade

Perguntaram a um sujeito, que todos tinham na conta de ser um cara feliz: “Qual é a tua receita de felicidade?” Ele respondeu: “Muito simples: não penso nos problemas de amanhã, vivo um dia por vez”. A mesma pergunta foi feita a um outro, também considerado feliz, e a resposta foi: “Penso que amanhã ainda vou ter problemas para resolver, isso me anima a não entregar os pontos hoje”. Existem outras versões da historieta. O primeiro teria respondido: “Penso que amanhã pode ser pior, então não me queixo de hoje”. E o outro: “Penso que amanhã pode ser melhor, e por isso suporto o dia de hoje, numa boa”.

         Quer dizer, se existe um assunto em que parece haver mais divergência do que concordância é esse do caminho da felicidade. Agora fico sabendo que a ciência resolveu entrar em campo para aviar, finalmente, uma receita de como ser feliz. Há quem não dê à ciência mais crédito do que a qualquer outra superstição. Mas há os que crêem piamente que a ciência resolve todos os problemas, e pode portanto resolver também este, o mais antigo da humanidade. Não fico com uma nem com outra opinião, porque as duas têm sólidas razões para se sustentarem.

         Mas parece que a tarefa dos cientistas não está sendo fácil. Primeiro, é meio complicado estabelecer um consenso sobre o que se deve entender por felicidade. Digamos, de modo provisório, que ser feliz signifique estar de bem com a vida, que parece ser a opinião geral. Nesse caso, o estar de bem depende de componentes químicos, do genoma ou de uma atitude mental? A discussão continua, pelo visto, do mesmo jeito que começou.

         Como não posso esperar pela solução científica, continuo adotando uma receita que, mesmo usada por um sujeito indisciplinado como eu, sempre dá algum resultado. É aquela do evangelho: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Examinando bem a frase, ela sugere duas coisas: primeiro, querer bem a si e, nessa medida, querer bem aos outros. Quer dizer, o começo de tudo é gostar de si próprio. A experiência, aliás, demonstra isso mesmo, quem não gosta de si acaba sendo um grande chato com os outros. A insatisfação consigo próprio se esparrama ao redor, num contágio de peste. E uma vez espalhada a peste, o ambiente fica irrespirável.

         Mas a receita só é simples na aparência. A grande questão é descobrir o que é gostar de si mesmo, com tantos motivos, que todos temos, para nos desgostar. Quem pensou no assunto, dos poetas aos filósofos, dá esta dica: é a gente tratar de não se incomodar com os próprios limites. Se possível, rir um pouco deles. Quem consegue rir de si mesmo está salvo. Quem não consegue rir de si, só vai rir dos outros, e aí está feita a desgraça. Claro que o mundo está cheio de tragédias, algumas grandes, outras que só parecem grandes. Mas ter olhos apenas para o lado trágico da vida é, no fundo, presunção: não há nenhum motivo razoável para nos levarmos tanto a sério.

Preciosidades de gaveta

Assim que foi criada a Universidade de Caxias do Sul (UCS), em 1967, fui contemplado com uma bolsa da Fundação Ford para participar, no Rio de Janeiro, do II Simpósio se Língua e Literatura Portuguesa.

Ele aconteceu de 15 a 27 de janeiro de 1968, em pleno verão carioca, na Universidade do Estado da Guanabara, que mudaria seu nome, em 1975, para UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, depois que a capital da República mudou-se para Brasília. (Nota: a partir do III Simpósio, esse evento foi transferido para o mês de julho, de clima mais ameno, a rogo dos participantes!).

Disciplinado como sempre, usei um Caderno de Anotações, que guardei na gaveta como uma preciosidade. Não tinha sido ainda inventado o lap-top… No caderno ficaram registrados os nomes de todos os conferencistas, uma síntese de cada palestra e, o que não podia faltar, um comentário pessoal do então jovem professor de Literatura de Língua Portuguesa…

A primeira conferência, no dia 15 de janeiro, segunda-feira, às nove horas da manhã, teve o título de Norma Gramatical Brasileira, e foi proferida por Dirce Côrtes Riedel, catedrática de Literatura Brasileira na UEG.

A ilustre docente, de atuação tão marcante que deu seu nome à Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel, vinculada à UERJ, teve a ousadia de propor que devia haver no Brasil uma norma gramatical “brasileira”, e não “portuguesa”. Em defesa da proposta usou estes argumentos:

1. Quem define a norma da língua é a sociedade que a utiliza.

2. Essa norma deve ser um instrumento de ação desde a escola.

3. Ela responde também a um sentimento estético, do qual há Modelos na literatura brasileira, em especial a moderna.

A norma brasileira deve contemplar Variantes sem cunho normativo, como os Regionalismos, o Vulgarismo e os Idioletos, definindo sua Ortografia e Pronúncia. Castro Alves, por exemplo, no poema Navio Negreiro, rima mães com vãs, que têm a pronúncia baiana de mãis com vãis.

A gramática brasileira deve admitir também regras como estas:

– Mudar a regência dos verbos de movimento, como em “chegar em”, no lugar de “chegar a”…

– Usar “lhe” como objeto direto em construções típicas.

– Usar o gerúndio adjetivo, como em “está cantando”, no lugar da variante portuguesa “está a cantar”.

– Usar o imperfeito do indicativo com função de futuro do pretérito.

– Admitir a colocação de pronomes átonos no início da oração: “me lembrei”, ao invés de “lembrei-me”.

– Usar “ter” por “haver” em determinadas construções: ao invés de “Há na Bíblia”, “Tem na Bíblia”.

Ao final da conferência de Dirce Côrtes Riedel, que se prolongou com inúmeros outros exemplos de mudança, o Prof. Antenor Nascentes, que coordenava a mesa, fez a seguinte intervenção:

“Eu acrescentaria aos pontos enumerados pala professora Dirce mais o seguinte: permitir o uso do pronome reto como objeto direto, no lugar do oblíquo. Dou em exemplo: se vejo uma moça bonita no jardim, não vou dizer vi-a no jardim. É mais brasileiro dizer vi ela no jardim”.

Essa intervenção teve, se me lembro bem, mais aplausos que a conferência!

Um contador de histórias

A recente eleição de Francisco Michielin para ser o Patrono da 39ª Feira do Livro de Caxias do Sul coloca na frente do leitor um fascinante contador de histórias, capaz de fazer uma reconstituição concreta de tempos passados.

Seus dois livros mais conhecidos têm como tema histórias do futebol. O primeiro, Assim na terra como no céu, conta o nascimento do clube de futebol Juventude e a sua trajetória. Trajetória que não se limita aos gramados, mas tem ligação com “gentes e coisas” da história da cidade de Caxias do Sul. Como assinala o autor na introdução da obra:

Foi, lhes asseguro, uma aventura magnífica e que me obrigou a repensar posições e estratégias, recompondo o rumo com que eu pretendia definir a linha mestra do livro. A conclusão ressaltou clara: seria impossível, e até desagradável, para não dizer ingrato, que fosse eu o responsável pela dissociação do Juventude com a cidade de Caxias do Sul. Essa dicotomia jamais, no meu entendimento e sob minha ótica, poderá ser feita em tempo algum. Seus caminhos não se bifurcam. Há, na verdade, um enraizamento tão forte que vincula a ambas no mesmo tronco comum.

O resultado desse propósito de Michielin é que o livro passou a ser uma importante contribuição para a história de Caxias do Sul, vista em seus menores detalhes. Com isso ele tem as características de um “livro-reportagem” juntando as duas histórias: a do clube e a da cidade. Os sete primeiros capítulos dão uma imagem bem viva da vila de Caxias, que não é encontrada normalmente nos livros de história. Só para dar uma ideia, é esta a primeira frase da narrativa:

Fazia quase uma semana que não parava de chover.

Como se ensina nas oficinas literárias, uma boa narrativa se define pela primeira frase, capaz de abrir a cortina do cenário para o leitor. E é com personagens bem definidos que a história prossegue. Como dito, uma história que não é apenas do clube, mas de toda a cidade.

Médico e escritor Francisco Michielin é o Patrono da Feira do Livro de Caxias do Sul em 2023 (Foto: Arquivo pessoal)

O outro livro bem conhecido de Francisco Michielin trata também de futebol: A primeira vez do Brasil – Campeão Mundial em 1958.

Como na obra anterior, também nesta história da Copa do Mundo de 1958, realizada na Suécia, Michielin usa de recursos para colocar o leitor dentro dos cenários: das ruas, dos estádios, dos vestiários. Como observa o jornalista e “professor” Ruy Carlos Ostermann na apresentação do livro, a que dá o título de A arte da bola e da palavra:

A paixão deste livro é a sua preocupação com os fatos e as pessoas, elucidando muitas das zonas obscuras que todo grande épico não pode deixar de ter, mas deixando muito para a imaginação, que é o modo de sabermos completar a realidade como se fosse uma conquista pessoal e intransferível, que só assim cabe, de fato, ser contemporâneo de Pelé.

Devo esta reconquista ao Chico e ainda vou agradecê-lo muitas vezes.

Por isso tudo, a escolha do médico e escritor Francisco Michielin para Patrono da Feira do Livro deste ano estará sendo aplaudida por muita gente, dentro e fora da cidade. Dou a ele também o meu voto pessoal.

Sopas para o inverno

inverno sempre convida a privilegiar uma sopa quente no cardápio. E a região da Serra Gaúcha é rica em variedade de sopas e sabores. É possível que o frio, que volta e meia traz a neve, esteja na raiz dessa tendência culinária.

Entre os anos de 2003 e 2007, período em que se construíram as usinas de energia elétrica no Rio das Antas, os pesquisadores da cultura regional do Projeto ECIRS, da UCS, percorreram as duas margens do rio, dentro do programa “Salvamento do Patrimônio Histórico e Cultural”, no trecho entre as usinas hidrelétricas de Monte Claro, Castro Alves e 14 de Julho. A área atingida pelas barragens inclui os municípios de Veranópolis, Cotiporã, Antônio Prado, Nova Roma do Sul, Nova Pádua, Flores da Cunha e Bento Gonçalves.

De todos os elementos culturais registrados, o de maior impacto foi o da riqueza das receitas de cozinha. Tanto que foi publicado um livro com o título de “A cozinha colonial do Rio das Antas”, em 2009, do qual fui coautor. E, no conjunto de uma centena de receitas registradas, ganha relevo o das receitas de sopas, incluindo o bròdo, as minestre, o minestron e, como não podia deixar de ser, a sopa de agnolini, ou capelêti, dois nomes diferentes dados para a mesma sopa. E a pergunta era: qual é o nome certo?

Essa dúvida levou a que se fizessem outras pesquisas, de cunho histórico, sobre as origens dessa sopa na Itália. E a conclusão foi de que também na Itália os dois nomes coexistem.

Mergulhando mais ainda no passado, a gente fica sabendo que a sopa de agnolini teria nascido de uma prática de cunho religioso. Ocorre que o prato festivo do almoço no domingo de Páscoa na Itália, seguindo uma inspiração de origem bíblica, é de longa data o cordeiro, preparado de diversas maneiras, de acordo com tradições locais.

Para os mais pobres, que não conseguiam reunir a família ao redor de um cordeiro pascal assado, inventou-se a sopa de “cordeirinhos”, que é o que significa agnolini. Ela era feita com pequenas porções de carne de cordeiro, bem temperadas e enroladas numa fatia de massa, dobrada de modo a dar a ela o formato parecido com o de um cordeirinho. Segundo os registros, a invenção teria ocorrido entre as regiões de Mântua e da Lombardia. As paróquias reuniam as famílias para essa sopa festiva no domingo de Páscoa. Depois o hábito derivou para outras festas religiosas, costume que veio para a Serra Gaúcha com os imigrantes.

Dessas duas regiões, a sopa de agnolini foi migrando para outras regiões da Itália, com variações também no tipo de carne utilizada para o recheio, ganhando o nome de capelèti. A origem deste último nome tem duas explicações. A primeira é a de que o formado dos agnolini lembra o formato de um “chapeuzinho”, os capelèti, diminutivo de cappello, chapéu em italiano. Outra versão é de que o nome surgiu em homenagem aos membros do clero, que usavam o barrete, um “chapéu quadrangular e rígido”, como parte da indumentária. Formato que se assemelhava ao dos agnolini.

Qualquer que tenha sido a origem desses dois nomes, a sopa de agnolini, ou de capelêti, está incorporada ao patrimônio cultural da imigração italiana. Patrimônio que deve ser preservado com o máximo cuidado. Cuidado que uma senhora de Antônio Prado detalhou desta forma: numa sopa de agnolini bem feita, tem que caber pelo menos três dentro da colher, junto com o bròdo.

Um patrimônio cultural a ser preservado e também saboreado, aceitando o convite insistente do inverno…

Boas-vindas ao Dissionàrio Talian Brasilian

Mais um passo importante acaba de ser dado para a preservação da língua Talian, com a publicação do Dissionàrio Talian Brasilian. Com uma novidade: além da edição impressa, foi ele também publicado em versão digital, o que permite que o dicionário seja guardado no bolso, e não apenas na prateleira…

O primeiro dicionário dessa língua construída pelos imigrantes italianos no Brasil, ainda chamada de “dialeto vêneto”, foi o organizado pelo frei capuchinho, de origem polonesa, Alberto Vitor Stawinski, que teve uma edição oficial em 1987, pela EDUCS, com o título de Dicionário VÊNETO Sul-rio-grandense PORTUGUÊS e com o patrocínio de diversas entidades. Em sua apresentação, o jornalista Mário Gardelin escreveu:

“Este dicionário é um marco. É evidente que, a nível popular, o vêneto regredirá, pois a integração do filho de migrantes italianos se faz rapidamente. Há de permanecer, porém, elevado número de pessoas que escreverão e falarão. E estes encontrarão no Dicionário um sustentáculo de primeira ordem.”

Estas palavras proféticas podem ser transpostas para este novo dicionário, que traz duas novidades já no título: o nome da língua dicionarizada passa de Vêneto para Talian, e a língua para a qual é traduzida muda de Português para Brasilian.

Esta última escolha é assim justificada por seus organizadores, Loremi Loregian-Penkal, Juvenal, J. Dal castel e Wilson Canzi:

“Iniciemos pelo nome do Dissionàrio Talian Brasilian. Por que não Dissionário Talian Portoghese? Essa questão nos remete ao próprio nome que os nossos antepassados deram a sua língua. Do Norte da Itália os imigrantes trouxeram os seus falares vênetos, friulanos, trentinos, piemonteses, lombardos e, também, os que vieram da Toscana, da Ligúria e da Emilia-Romanha. {…} “No Brasil se fala Brasileiro”, era assim que os imigrantes nominavam a língua que os brasileiros chamavam de Português”.

Essa decisão é plenamente justificável, porque a língua Talian nasceu de uma fusão dos dialetos italianos, ainda dentro dos navios, com a fala popular que encontraram nas zonas de colonização. Uma fala realmente brasiliana, depois de séculos de vida própria, distante da fala portuguesa…

Como coordenador do projeto que levou ao reconhecimento do Talian como patrimônio linguístico nacional, entre 2009 e 2010, fico exultante com mais este passo dado para a sua permanência em estado vivo!

Cabe também informar que “A produção e tiragem foi realizada com recursos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio do Pró-Cultura RS FAC, Fundo de Apoio à Cultura”. A publicação foi feita pela Editora Unicentro, da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná, instituição que mantém um programa de ensino do Talian que conta atualmente, segundo informações, com mais de quatrocentos inscritos. E vamos repetir a frase do Dissionàrio Talian Brasilian para exemplificar o uso da palavra Avanti:

Ndemo avanti cole lession de Talian! Vamos em frente com as aulas de Talian!

Acesse o Dissionàrio clicando AQUI

125 anos de cinema brasileiro

A data dos 125 anos do cinema brasileiro foi comemorada dia 19 de junho, e estão previstos diversos eventos no decorrer deste ano, para marcar a celebração junto ao público.

Essa data de 19 de junho, oficializada como Dia do Cinema Brasileiro, foi escolhida porque nesse dia, no ano de 1898, teria sido feita a primeira filmagem no país, realizada por Afonso Segreto, um italiano radicado no Brasil. Voltando da Europa, ele teria filmado a Baía da Guanabara de dentro do navio chegando ao porto, fato que foi registrado nos jornais da época.

As datas comemorativas nem sempre têm base factual, bastando que tenham valor simbólico. O Dia Internacional do Cinema teve também origem num episódio não documentado, ocorrido a 28 de dezembro de 1895, menos de três anos antes de nossa data nacional. Teria sido nesse dia que, numa sala nos fundos do Grand Café, no Boulevard des Capucines, em Paris, foi exibido o primeiro filme dos Irmãos Lumière. A plateia levou um susto quando viu um trem chegando na estação, parecendo que vinha para cima do público. Um evento marcante, em definitivo, para a “imagem em movimento”.

O fato é que, a partir dessas datas, o cinema passou a ser uma poderosa ferramenta para contar histórias, para registrar cenários e acontecimentos e para provocar debate sobre questões sociais, culturais e políticas. Com o passar de mais alguns anos, o cinema passou a ser chamado de Sétima Arte. Lembro que uma vez, em aula, um aluno me perguntou quais eram as outras seis artes, e tive de pedir para dar a resposta na aula seguinte. Depois de pesquisar, consegui enumerá-las: a música, a dança, a pintura, a escultura, a arquitetura e a poesia. Houve protestos por não aparecerem na lista o teatro e a narrativa em prosa…

Quanto a esta última, tive oportunidade de demonstrar aos alunos o quanto o cinema havia influenciado a forma literária de contar histórias, tornando o cenário, a presença física das personagens e a linguagem direta mais importantes que o vocabulário sofisticado do romance do século dezenove. A mudança começou no romance norte-americano, se expandiu na Europa e chegou ao Brasil pelas mãos de Erico Verissimo.

Como tradutor de romances para a Editora Globo, de Porto Alegre, ele percebeu como a força da imagem era neles maior que a força das palavras, e adotou esse estilo em suas obras. A ponto de um crítico literário do centro do país, chamado Álvaro Lins, ter escrito que Erico Verissimo não era um escritor, mas um “contador de histórias”. Erico não se incomodou com essa opinião. Pelo contrário, a assumiu como sua marca pessoal. Nos “quarenta anos de sua carreira literária”, em 1972, foi publicada uma obra em sua homenagem, com o título de “O Contador de Histórias”, organizada pro Flávio Loureiro Chaves, que teve estreita convivência com Erico e toda sua produção, não apenas literária, mas também jornalística.

Já deixei claro a meus leitores, mais de uma vez, que o cinema serviu também de marco referencial para minhas novelas e meus romances. São duas as raízes desse meu estilo: a lição aprendida com Erico Verissimo e os truques descobertos nas sessões dos cineclubes de que fiz parte, onde tive ocasião de apreciar obras magistrais do cinema brasileiro, como O Cangaceiro, O Pagador de Promessas e por aí afora. Não é, portanto, mero acaso que minhas obras tenham chamado a atenção do mundo do cinema.

Celebrar os 125 anos do cinema brasileiro é, por tudo isso, algo a que me associo com o coração e a inteligência!

Pablo Neruda e a “Isla Negra”

Neste ano de 2023, completa-se meio século da morte de Pablo Neruda, data que coincide com os 50 anos do golpe militar de Augusto Pinochet. Coincidência que parece não ter sido casual.

Pinochet comandou a tomada de poder em setembro de 1973, e no mesmo mês Pablo Neruda morreu depois de sair do hospital, com suspeita, até hoje não rejeitada, de que foi envenenado por ordem do ditador.

Neruda fez carreira política na esquerda, e chegou a ser conselheiro de Salvador Allende, o presidente deposto no golpe de setembro.

Mas o principal legado de Neruda foi sua produção literária, pela qual recebeu o Prêmio Nobel em 1971, como cinco outros escritores hispano-americanos. São eles:

– Gabriela Mistral, também chilena, em 1945.

– Miguel Angel Asturias, da Guatemala, em 1967.

– Gabriel García Márquez, da Colômbia, em 1982.

– Octavio Paz, do México, em 1990.

– Mario Vargas Llosa, do Peru, em 2010.

Isso sem contar os seis que ganharam o Prêmio Nobel da Paz, mais três o de Medicina e dois o de Química. Nenhum brasileiro foi até hoje contemplado com essa condecoração, nem na literatura, nem nas ciências, nem na política.

Em 2023, meio século sem o poeta Pablo Neruda (Foto: Divulgação)

Outro rico legado de Neruda é a casa que construiu e onde morou na Isla Negra, num terreno de meio hectare, e onde colocou “brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não poderia eu viver”. Essa casa está hoje transformada em museu e é ponto obrigatório de visita para quem viaja ao Chile.

Ela serviu de modelo para o cenário do filme O Carteiro e o Poeta, baseado no romance de Antonio Skarmeta, dirigido por Michael Radford, em 1994. Nesse filme, Neruda é personagem de uma história fictícia. Sendo uma produção italiana, foi ele rodado na ilha de Capri, reproduzindo a Isla Negra.

A casa museu de Isla Negra reflete bem a imaginação do poeta, na construção de um mundo surrealista, bem estranho. Tudo começa nos jardins que cercam a casa, onde há a reprodução de um barco, de um campanário, de uma fonte de água. Dentro, há várias salas cheias de figuras mitológicas e folclóricas, desde a Medusa até os Piratas. Há máscaras e figuras de todos os tipos, espalhadas pelos dormitórios e refeitórios.

Num de seus poemas, Neruda constrói esta imagem da mesa, que ele reproduziu em madeira, com quatro patas de cavalo, dentro da casa em que viveu:

Sobre as quatro patas da mesa

desembrulho minhas odes.

A mesa fiel

sustenta

sonho e vida

titânico quadrúpede.

O autor chileno Jorge Barros organizou um álbum fotográfico da casa, que mostra todos os ambientes construídos por Pablo Neruda, com fotografias de Antonio Larrea e versos do poeta. E faz a seguinte observação:

“A casa e o lugar estão vinculados a Neruda de tal forma, que em qualquer parte de nossa América, ou do mundo, Isla Negra e Neruda são um só”.

Álbum fotográfico esquadrinha os recantos da Isla Negra (Foto: Kenia Pozenato)

Apertos de mão indeléveis

Quando vi a notícia de que 21 de junho é o Dia Internacional do Aperto de Mão, lembrei logo de alguns apertos de mão que recebi e ficaram indeléveis na memória, e não apenas nos dedos. Cada um deles me trouxe uma mensagem diferente, e fácil de ser captada.

O primeiro de que tenho registro foi o do aperto de mão do sublime poeta lírico Mario Quintana. Estava eu cursando mestrado na Ufrgs e o professor Guilhermino César, sempre inventivo, organizou um evento no auditório da Assembleia Legislativa, onde cada aluno deveria fazer uma conferência. A mim coube falar sobre “A essência da poesia lírica”, numa manhã cheia de sol em Porto Alegre.

Para meu encanto, e temor ao mesmo tempo, na segunda fila de cadeiras estava Mario Quintana. Me ouviu o tempo todo sem pestanejar e, quando concluí a fala, veio na minha direção e me deu um aperto de mão macio e prolongado. Sem soltar a minha mão, como se fizesse um pacto de amizade, elogiou a minha palestra que, segundo ele, todos os poetas deveriam conhecer.

O segundo aperto de mão indelével aconteceu no saguão de entrada da TV Globo, no Rio. Na ocasião, estava eu negociando com Daniel Filho e Antônio Calmon a produção do roteiro da novela O Caso do Martelo, para ser gravada dentro do programa de Casos Especiais. Estávamos dentro do prédio quando apareceu, na porta de entrada, ninguém menos que Roberto Marinho, seguido de um grupo reverente de assessores, como se fosse uma corte palaciana. Antônio Calmon me levou até ele, me apresentou e explicou o objetivo de eu estar ali. Roberto Marinho disse: – Seja sempre bem-vindo! – E me deu um aperto de mão tão forte que quase me esmigalhou os dedos.

Comentei com Calmon o que tinha sentido e ele, com seu bom humor costumeiro, me disse: – Ele sempre quer deixar bem claro que é ele quem decide tudo… E sabe como é chamado o escritório dele, aqui na Globo? “Sala do trono!”

O terceiro caso – e isso também faz parte de minha história – aconteceu em Los Angeles, na sala de coordenação da Academia de Cinema. Fui levado até lá no dia da entrega do certificado aos concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O coordenador era ninguém menos que Gene Hackman, astro consagrado nos filmes Operação França, Mississipi em Chamas e outros mais. Ele se levantou de trás da escrivaninha, abriu um sorriso e estendeu a mão. Estendi a mão também e recebi um aperto bem forte, mas amigável. Era como se ele estivesse me recebendo no seu mundo, que é o mundo do cinema.

Em resumo: cada um desses apertos de mão trazia uma mensagem clara, que não precisava ser expressa em palavras. Por isso é que, embora possa parecer estranho, faz sentido haver um Dia Internacional do Aperto de Mão. Esse é um gesto que não apenas aproxima as pessoas como cria algum laço de convivência entre elas. Coisa de que o mundo continua sempre necessitando, e cada vez mais.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora