É um domingo de sol brilhante, de primavera. Mas o inverno não se desfez de todo. O vento que varre as nuvens e algumas folhas secas pela calçada é ainda frio. Apesar disso, o ar das pessoas, ou por causa do sol, ou do domingo, ou de ambos, é quase de festa. Encosto o carro no meio-fio e, quando abro a porta, dou com um par de olhos grandes e castanhos, tão claros como a manhã. É uma menina, tem o casaquinho de malha cor-de-rosa e calça um tênis sovado. Penso que deve ter uns sete ou oito anos, mas podem ser apenas cinco ou seis, ou também nove ou dez. As meninas pobres nunca mostram a idade. Tanto podem ter mais anos do que aparentam, porque as agruras da vida as envelhecem de modo precoce, como ter menos, porque talvez não tenham comido o bastante para crescer. Mas essa menina tem a pele lisa, as bochechas coradas, deve ter a idade que mostra, uns oito anos de infância querida, que os anos não trazem mais. Ela me pede um troco para comprar comida, num tom de voz que custo a definir. Não é o tom choroso do pedinte, que quer parecer sofrido como realmente é. Nem o tom exigente e duro dos revoltados com a vida. Fala sem nenhuma teatralidade, daquela pequena teatralidade que a vida ensina a usar, mesmo nos íntimos momentos da dor ou do amor. Fala pois com inocência, a mesma dos olhos. Digo a ela que não tenho troco, como de fato não tenho. Vou até o bar, digo ainda, e na saída terei algum dinheiro miúdo para dar. A menina sorri. Não parece ter ficado desiludida com não ter ganho nada, nem mostra a descrença de quem imagina estar sendo enganado. Sorri apenas, tem todos os dentes ainda, e com certeza também todas as esperanças. Entro no bar e na roda de amigos, bebo alguma coisa, converso, mas uma pressa me pede para sair. Digo que tenho um compromisso e saio para a rua. A menina não está ali me esperando e fico um pouco decepcionado. Ela não acreditou na minha promessa, ela já não confia em promessas, penso desiludido. Ando na direção do carro e então vejo, no fim da quadra, o casaquinho cor-de-rosa saltando de cá para lá. É ela, a menina, brincando com um cachorro. Caminho até lá e paro a alguns metros da cena. Há ali uma mulher também olhando, com duas crianças ainda menores que a minha menina, e mais uma no colo. Deve ser a mãe. Espero que a menina perceba a minha presença, mas não. Brincar com o cachorro é tudo o que ela quer agora. Se tem fome, esqueceu a fome. Ou a mãe já resolveu esse problema. Dou-me conta de que estou sendo um pouco ridículo, ali parado, porque um homem passa por mim, olha-me, olha a menina com o cão, e faz um sorriso que não descubro se é de complacência ou de descaso. Resolvo me afastar. Ando alguns passos mas não resisto a olhar para trás. A menina agora me vê. Vai vir ao meu encontro, penso reconfortado, cobrar a promessa que lhe fiz. Mas ela apenas me abana, com um gesto rápido, e torna a pular com o cachorro. Eu sou menos importante que o cachorro, qualquer coisa que eu tenha é menos importante. O cão, também encontrado na rua, deve ter dado a ela uma atenção maior que a minha. Ergo a mão, que a menina não chega a perceber, e vou embora. Talvez nunca mais a torne a ver, e vou ficar com mais essa promessa por cumprir. Vou ficar com mais esse encontro que não chegou a ser encontro. Como tantos outros encontros frágeis, às vezes não maiores que uma troca de olhar, mas que ficam enterrados no solo da alma, latejando, querendo vir cá fora, à luz brilhante do sol.
Tramas de oficina
Nas muitas vezes em que fui convidado a falar sobre a construção de meu romance O Quatrilho, em eventos escolares, uma pergunta era fatal: o que tinha acontecido com o casal que foi embora. Minha resposta era sempre a mesma: isso ficava para outro romance. De fato, no romance A Babilônia, o personagem Lourenço visita a casa de Teresa e Mássimo na Barra Funda, em São Paulo.
Já em Hollywood, a situação foi inversa. Na reunião de entrega do certificado de inscrição para o Oscar, um membro da Academia de Cinema fez este comentário elogioso: o roteiro do filme era original e interessante, ao centrar a ação no casal que ficou, depois da perda, e não no que saiu para outros rumos, o que seria a escolha habitual dos roteiros de cinema.
Mas vou revelar uma pequena curiosidade: tenho em meus arquivos um capítulo escrito para a Terceira Contagem de O Quatrilho, pondo em cena a chegada de Teresa e Mássimo na capital paulista, cena que aqui torno pública, mesmo não tendo a devida sequência.
“Sentada no vagão de segunda classe, com Rosa dormindo sobre os seus joelhos e Mássimo cochilando a seu lado, Teresa viu que a paisagem havia mudado. Não via mais matas e campos, mas casas e edifícios que pareciam correr diante de seus olhos. Essa viagem, de Porto Alegre a São Paulo, tinha chegado ao fim. Uma viagem que parecia não acabar mais. Tinham embarcado sábado à tarde e já era quarta-feira de manhã. O tempo todo aquela batida, sempre igual, tranque, tranque, tranque. Verdade que a cada quatro ou cinco horas o trem fazia uma parada, para se comer alguma coisa. Mas isso atrasava ainda mais a viagem.
Agora o trem seguia mais devagar, rente às casas, e Teresa ia lembrando os dias de sua fuga com Mássimo, saindo de San Giuseppe. Ela se sentia agora livre como um passarinho. Um passarinho que conseguiu fugir da gaiola depois de muito olhar o jardim e cantar atrás das grades. E não eram poucas as grades. Nem fáceis de serem quebradas. E se cantava não era de alegria, e sim para espantar a tristeza.
Mas agora a vontade de cantar era outra, de pura alegria. Quando se deu conta, cantarolava La bela Violeta:
La bela Violeta la và, la và,
la và sui campi, la se risognava
che ghera ‘l so Gingin che la remirava:
– Cosa remiri tu, Gingin d’amor? (*)
Mássimo abriu os olhos, voltou-se para ela com o sorriso mais lindo do mundo, e continuou cantarolando a canção, que nunca faltava nos filós de San Giuseppe:
Io ti remiro perché tu sei bela!
Tu voi venir com me a la guerra? (**)
– Sim, vou contigo para a guerra – riu Teresa.
Desceram do trem e Teresa respirou fundo. Segurando a pequena Rosa pela mão, correu os olhos pela estação que parecia um formigueiro. Gente correndo, gente gritando, gente carregando malas. Não podia negar que sentia um pouco de medo. O que viria pela frente? Sentados num banco da estação, Mássimo lhe devolveu a coragem:
– Já sei para onde vamos e o que vamos fazer. Daqui vamos para a paróquia da Barra Funda. O vigário lá é amigo de meu tio, o Padre Giobbe, que me disse para eu falar com ele. O nome do vigário é Padre Ernesto Vicentin.
– Ah – suspirou Teresa, – uma conversa com ele vai ajudar muito, com certeza
– Sim – concordou Mássimo. – ele pode nos ajudar a encontrar um bom lugar para morar, onde conseguir trabalho, onde buscar parceiros. São Paulo está crescendo muito. Está criando novos bairros, e muitas casas estão sendo construídas neles. E todas essas casas vão precisar de móveis novos, não vão?
– E aquele que fez a minha cômoda – riu Teresa, – está pronto para fornecer móveis para todos!
– É – riu ele, também. – A fortuna abriu o caminho para nós dois!”
NOTAS:
*) A bela Violeta vai, e vai / vai pelos campos, e tem a impressão / de que seu querido Gingin a está olhando. – O que estás olhando, Gingin de amor?
**) Eu te olho porque tu és bela! / Tu queres vir comigo para a guerra?
A bola elétrica em Catar
Foi só eu escrever aqui que o formato da bola na Copa do Mundo do Catar não tinha se tornado assunto da mídia que um fotógrafo flagrou nos bastidores de um estádio uma fila de bolas presas em tomadas elétricas. Feita a inquirição junto às autoridades da FIFA, veio a confirmação: as bolas usadas em campo são, sim, elétricas. Elas estão providas de sensores que enviam mensagens a um receptor do árbitro e à cabine do VAR. Uma tecnologia refinada para evitar erros. O que não impediu erros, reclamações e protestos…
Em minha obscura carreira de futebolista de várzea, travei contato com três tipos de bola de futebol, sem contar aí as bolas de meia e as de borracha colorida.
A primeira era a bola de tento, assim denominada porque tinha um tento, isto é, uma pequena tira de couro com que a bola era amarrada depois de se encher a câmara de borracha. Essa bola tendia, com o tempo e o uso, a adquirir um formato próximo da elipse, o que exigia muito cuidado quando ela clicava no chão: a gente precisava de uma fração de segundo para saber para que lado ela ia saltar, o que não deixava de ser um ingrediente interessante do jogo.
A segunda era a bola de “ventil”, como a gurizada chamava. Era dotada de válvula, que substituiu a costura, por onde se enfiava o bico da bomba para encher a bola de ar. Quem carregava essa bomba debaixo do braço, podia-se saber, era o dono do time. Sem a bomba, não havia bola. Essa bola quicava sem surpresa, mas no momento de cobrar uma falta, era prudente deixar a válvula voltada para o ponto em que ia bater o pé. Acho que por isso é que até hoje os jogadores ficam rodeando a bola no chão até achar o lado de bater nela.
A terceira bola era evolução da segunda, mas com uma proteção externa melhor, o que dava condições de se jogar no barro e na chuva sem ela dobrar de peso. Daí por diante, acho que só houve alterações no formato dos gomos e nas cores. Até que veio a tal da Jabulani. E agora a bola elétrica…
Como não tenho mais pernas nem fôlego para testar pessoalmente esses artefatos, fico com a opinião dos jogadores, que o Dunga também defendeu ao dizer que quem nunca pisou num gramado e nunca chutou uma bola, só sabe falar. Além disso, costumo desconfiar da alta tecnologia. Quase sempre ela vem acompanhada de alguma lacuna a que não foi dada atenção. Por isso cismo até com o computador. Não por acaso apareço em fotografia com uma máquina de escrever!
No caso da bola de circunferência perfeita e peso perfeito, que funciona perfeitamente num túnel de vento, o detalhe desprezado foi o de que a bola “precisa ter lado”. Lado de chutar, lado de pegar, lado de dar a curva. Bom jogador é o que sabe qual é o lado certo da bola: foi por saber disso que Didi se tornou imortal com o gol de “folha seca”, em que o goleiro nunca sabe como defender. Se a bola é certa de todos os lados, ela só pode estar errada!
Bolas de laboratório
Com a Copa do Mundo do Catar já saindo da fase de grupos, não vi nem ouvi notícia ou comentário sobre a bola oficial do certame, a Al Rihla, que significa A Jornada. Tudo bem diferente da Copa de 2010, realizada na África do Sul, em que a bola utilizada foi um dos temas centrais do noticiário, por causa da intensa polêmica provocada pela Jabulani, uma bola que todos devem já ter esquecido.
Depois das reclamações e da grita geral, principalmente dos goleiros, veio um cientista a público assegurar que a Jabulani, alvo dos protestos, era a bola de circunferência mais perfeita jamais produzida para se jogar futebol. Se ela tomava alguns rumos não previstos era exatamente devido à sua perfeição, testada em túnel de vento.
Na prática, porém, a previsão de que essa bola de laboratório seria a mais perfeita da história não se concretizou. Três foram os efeitos negativos provocados pelas suas características técnicas. Um deles atingia os goleiros, outro amargava a vida dos meio-campistas e o terceiro enchia de decepção os atacantes.
O efeito sobre os goleiros foi devastador. Dois deles engoliram “frangaços” jamais vistos em Copas do Mundo. Nas duas situações a bola veio pelo chão, o goleiro jogou-se na grama, certo de que faria a defesa, e a bola escapuliu. Por quê? Porque ela não seguiu a trajetória que faria uma bola que, ao bater no chão, perde parte do seu impulso. Como a bola tecnológica não sofria amassamento ao se chocar com outra superfície, a sua tendência era saltar mais do que a bola rudimentar. Mas o pesadelo dos goleiros não terminava aí. Em todas as bolas vindas pelo alto, a melhor alternativa foi a de espalmar, e não de tentar “segurar a pelota”. Nunca houve tanta bola espalmada pelos goleiros como nessa Copa.
Da mesma forma, nunca houve tantos passes de meio-campistas fugirem pela lateral do gramado. E não porque eles tivessem se tornado pernas-de-pau. O mesmo efeito que não deixava os goleiros preverem o rumo das bombas que deviam defender, não permitia aos “fantasistas” do meio de campo lançar a bola com precisão. Ou seja, a tendência para o erro era maior do que jamais foi. Era enorme a soma de passes errados em cada jogo.
Por fim, havia o calvário dos atacantes, para compensar em parte o dos arqueiros. Muitos chutes de atacantes deixavam incrédulo o próprio chutador. Chutes, que eles quase comemoravam como gol, desapareciam nas nuvens. A soma de todos esses fatores levou a um resultado previsível. Essa foi talvez a Copa com menos média de gols e maior média de frangos.
A perfeição da bola fez com que a mídia exaltasse as imperfeições dos jogadores, para fazer a “desgraça” deles, como disse um jogador nigeriano. Essa opinião dos jogadores foi defendida pelo Dunga, então técnico da Seleção Brasileira, com seu estilo ríspido de costume: “quem nunca pisou num gramado e nunca chutou uma bola, só sabe falar”.
A alta tecnologia vem acompanhada às vezes de alguma lacuna a que não foi dada atenção. No caso da bola de circunferência perfeita e peso perfeito, que funciona perfeitamente num túnel de vento, o detalhe desprezado foi o de que no futebol a bola rola num gramado, que nunca é uma superfície perfeita. Bom jogador é o que sabe qual é o lado certo da bola para passar, para chutar e para encaixar. Como a Jabulani estava certa de todos os lados, ela só provocava erros.
No final da história, a própria Adidas, fornecedora oficial das bolas da FIFA, reconheceu que havia sido perfeita demais. E na Copa do Mundo seguinte, realizada no Brasil em 2014, lançou a bola Brazuca, mais próxima do formato tradicional, com fibras expostas para amortecer o choque no gramado e o percurso pelo ar. Nada como a experiência concreta para comprovar ou modificar a teoria…
Uma visão sem fronteiras
Neste clima de Copa do Mundo, é inevitável que a memória fique recheada de episódios vividos em outras Copas. Não apenas os acontecidos dentro das quatro linhas do gramado. Nas arquibancadas, e também longe delas, sempre acontecem fatos, e surgem personagens, que são lembrados, como são lembrados os gols de placa e seus goleadores.
A lembrança que vou compartilhar aqui é a da figura de um nativo de Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, chamado Aldyr Schlee, de quem fui amigo pessoal. Ele entrou para a história do futebol porque foi quem criou o modelo da camiseta amarela para a seleção brasileira, que ganhou então o apelido de Seleção Canarinho. Ele havia participado do concurso organizado pelo jornal Correio da Manhã, e a camiseta por ele desenhada foi apresentada ao público numa festa no Maracanã, em 1954.
Nesse ponto já cabem algumas confidências dele. A primeira foi a de que ele nunca aceitou a expressão “tragédia do Maracanã” para caracterizar a derrota que o Brasil sofreu diante do Uruguai na Copa de 1950. “Morando em Jaguarão”, me disse ele, “joguei futebol com os uruguaios muitas vezes, dos dois lados da fronteira: ganhei e também perdi, mais de uma vez, e nunca achei que perder fosse uma tragédia”.
Outra revelação foi a de que escolheu a cor amarela para o uniforme da seleção por um motivo óbvio. Na Copa de 1950, o Brasil usara camiseta branca com detalhes em azul, quando o azul era a marca da seleção uruguaia, chamada de “Celeste Olímpica”, por suas façanhas históricas, bem antes do “Maracanazo” de 1950.
Aldyr Schlee era ainda estudante em 1953 e fazia caricaturas para um jornal de Pelotas, quando participou do concurso nacional e conquistou o prêmio, que lhe valeu um estágio no Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, além de uma bela soma em dinheiro. A partir daí, completou seus estudos e fez carreira de jornalista, de professor universitário e de escritor, tendo publicado mais de uma dezena de livros de contos.
Foi quando ele era professor do Programa de Pós-graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre que nos conhecemos e travamos relações. Nas nossas conversas, o tema mais frequente era o das relações de fronteira, já que ele era um fronteiriço e seus contos têm também essa característica, de porem foco nos dois lados do rio Jaguarão.
Foi ele quem me chamou a atenção para o fato de que a cidade uruguaia do outro lado da fronteira, frente à cidade de Jaguarão, chama-se Rio Branco, em língua portuguesa, e não Rio Blanco, como seria em espanhol. A razão disso é que o Barão do Rio Branco definiu que a fronteira entre Brasil e Uruguai seria a linha imaginária do meio do rio Jaguarão, e não na margem uruguaia, como ficara definido desde a Guerra Cisplatina. Além de dar o nome de Rio Branco à cidade, o governo uruguaio fez construir uma belíssima ponte entre as duas cidades, sem custos para o Brasil.
Numa mesa redonda de que ambos participamos, envolvendo questões relacionadas com a cultura e a educação, ele afirmou que, mesmo sendo um fronteiriço, nunca viu a fronteira como divisão. Ao contrário: ele via as diferenças, mas se sentia como parte da mesma identidade. E acrescentou um comentário em tom jocoso: a única vez em que teve a sensação de ter cruzado uma fronteira foi quando esteve na Bahia. Foi lá que se viu num mundo diferente…
A última vez em que nos encontramos (ele faleceu há quatro anos, em 15 de novembro) foi num bar na Rua da Praia, em Porto Alegre. Ele pediu dois cafés e dois copinhos de água. Quando o pedido chegou à mesa, peguei o copo de água para beber antes do café e ele me cortou o gesto, dizendo:
– A água é para tomar depois do café, é assim que se faz no Uruguai.
– Mas isso tira o gosto do café – comentei com estranheza.
– Essa é a ideia – riu ele. – Tira a vontade de acender um cigarro!
Sabedorias de uma visão sem fronteiras…
Preciosidades dos sebos
Acho que não surpreendo ninguém se contar que sou, ou era, um assíduo freguês dos sebos, que é como se chamam no Brasil as livrarias de livros usados. Hoje essa modalidade de compra tomou também o caminho do acesso virtual. Mas guardo ainda algumas preciosidades com a marca indelével de tempos idos.
Uma delas é o livro A Arte de fazer Versos (com iniciais maiúsculas apenas nos dois substantivos), da autoria de Osorio Duque Estrada (1870-1927), com prefácio de Alberto de Oliveira (1957-1937), duas figuras ilustres da poesia parnasiana. A edição que tenho em mãos é a terceira, do ano de 1923. A primeira saiu em 1912, numa prova de que fazer versos sob medida era uma arte com muitos seguidores, para esse livro ter uma edição a cada três anos. Possui 198 páginas e capa dura, publicado pela Livraria Francisco Alves, que tinha na época sucursais em São Paulo e em Belo Horizonte.
Na folha de rosto desse exemplar vindo do sebo está a assinatura de sua proprietária anterior, numa caligrafia muito bem desenhada, como se costumava usar antes da chegada da máquina de escrever. Dou apenas o seu prenome, bem poético: Nylza Silvia.
Joaquim Osório Duque Estrada é um nome que todos conhecemos, desde que entramos na escola. Ele é autor da letra do Hino Nacional, aprovada oficialmente em 1922, no centenário da Independência do Brasil, com música de Francisco Manuel da Silva, composta quase cem anos antes, em 1831, quando Dom Pedro I abdicou e passou a coroa para Dom Pedro II.
Na letra do Hino Nacional, Duque Estrada transgride, na composição das rimas, regras que ele mesmo estabelecera em seu manual, fazendo rimas com base somente no acento de palavras proparoxítonas: plácidas com fúlgidos, vívidos com límpidos, símbolo com flâmula… Os ares da poesia modernista já afetavam a estrutura rígida do parnasianismo.
Em seu A Arte de fazer Versos, Duque Estrada diz no Introito (aqui com a grafia atualizada!):
“A leitura de um livro admirável – L’art des Vers, de A. Dorchain – sugeriu-me o propósito de escrever para os neófitos da arte poética no Brasil um pequeno código de regras e preceitos […]
O livro de Dorchain ocupa-se da métrica francesa, com a qual pouco tem que ver a nossa; mas na parte doutrinária e em alguns pontos comuns à arte poética em geral, pode servir-nos de precioso e interessante modelo. […]
Tomando por guia o laureado autor de La Jeunesse Pensive, certo estou de que me encontro em boa companhia, e de que alguma coisa, ao menos, haverá de útil e proveitoso na farta matéria deste alinhavado compêndio.
Rio, Março, 1912.”
É realmente farta a matéria do compêndio, utilizável ainda hoje, ao menos para trazer ao presente os poetas do passado. Nas minhas traduções de Petrarca e de Dante – poetas que davam o máximo valor à sonoridade dos versos –, muitas sugestões obtive compulsando o manual de Osório Duque Estrada, de cujas iniciais, O.D.E., ele se vangloriava, por evocarem um tipo de poema lírico, vindo dos gregos.
Enfim, sempre se encontram preciosidades nos sebos.
‘Não há cultura superior nem cultura inferior’
Cada vez que ouço ou vejo alguma manifestação, de cunho público ou particular, contra qualquer forma de discriminação, aparece diante de mim a figura impertérrita do antropólogo Claude Lévy-Strauss. É dele a frase do título desta crônica, completada com este esclarecimento: “o que há são culturas diferentes”.
Claude Lévy-Strauss, embora conhecido como um intelectual francês, nasceu na Bélgica, em 29 de novembro de 1908, e faleceu em outubro de 2009, perto de completar cento e um anos de idade. O curioso é que sua carreira de pesquisador de culturas começou no Brasil. Veio para cá bem jovem, em 1935, com 27 anos de idade, para ser professor na recém-criada Universidade de São Paulo: integrava um grupo de docentes universitários franceses, vindos com o objetivo de dar à USP um padrão no nível da Sorbonne.
Como professor, deu aulas de Sociologia. Como pesquisador, mergulhou a fundo na cultura indígena brasileira, em viagens por diversos estados do Centro e do Norte do país, durante quatro anos. Dessa investigação resultou seu livro “Tristes Trópicos”, publicado em 1955, que o tornou imediatamente famoso nos dois lados do Atlântico. Isso por duas razões principais: pelo modo de abordar a cultura indígena, observada de dentro dela, e pelo modo de transmitir suas descobertas, em forma de narrativa de contatos humanos e não de relatório científico.
Essa obra, seguida pelo livro “O pensamento selvagem”, de 1962, o guindou à altura de autoridade mundial sobre duas questões ligadas à diversidade cultural: a de como entendê-la e a de como lidar com ela. Foi com base em seu relatório “Raça e História” que a Unesco criou, em 1966, a política de respeito, de apoio e de preservação da diversidade cultural do planeta, em nome do princípio – fundamental no pensamento de Lévy-Strauss – de que não há cultura superior nem cultura inferior, o que há são culturas diferentes.
Trinta anos depois do primeiro documento, a Unesco o convidou novamente, para fazer uma avaliação do resultado da política de valorização da diversidade cultural. Lá foi Lévy-Strauss, com um longo relatório escrito, recebido com toda a reverência de que era merecedor. Assim que Lévy-Strauss começou a ler o relatório – quem relata o episódio é Clifford Geertz, outro antropólogo do mesmo porte –, o secretário que presidia os trabalhos foi dando sinais de nervosismo e, subitamente, disse: “O senhor tem trinta minutos para concluir sua comunicação”. Lévy-Strauss não retrucou. Acelerou a leitura para que nenhuma das palavras que escrevera deixasse de ser lida e de constar nos anais da Unesco.
Qual tinha sido o problema? Lévy-Strauss começara sua fala criticando a Unesco por ter transformado a política de preservação da diversidade em política contra a discriminação. Uma coisa muito diferente, segundo ele, e muito perigosa: o antirracismo podia levar a um racismo ainda mais forte. O que importa, na visão dele, é saber conviver com as diferenças, e não querer acabar com elas.
Meus heróis preferidos são pessoas assim, que têm a coragem de opor a inteligência aos jogos de interesse do poder. Pessoas como ele deixam sua marca por gerações. De Claude Lévy-Strauss pode-se dizer sem titubear: ficou imortal pelo que ensinou à humanidade.
ALARME
Eu também já acreditei piamente na eficácia dos alarmes. Agora tenho dúvidas, para não dizer descrença. Não quero com isso abalar a fé de ninguém, nem botar água no pudim dos fabricantes, apenas manifestar o que talvez seja apenas incapacidade de compreensão.
Por exemplo. No bairro onde moro há um alarme que tem o mau costume de disparar no meio da noite, ou de madrugada, e ficar horas a latir desesperado. Não, não é um cachorro, apenas fiz uma imagem canina, se bem que o alarme não morde. Outras vezes, dispara em fim de semana e entra domingo adentro, sem aparecer ninguém para pôr fim no suplício do infeliz. Houve uma ocasião, acho que em período de férias, em que o alarme latiu quase uma semana inteira, incrivelmente sem ficar rouco.
Não sei se esse alarme está instalado numa fábrica, oficina ou depósito de coisas preciosas. Nem sei se é um só, ou se há um rodízio de alarmes, disparando por turno. Como o ruído de todos eles têm a mesma tonalidade e estridência, fico sem saber. Às vezes dão a impressão de serem iguais ao canto da saracura, que a gente nunca sabe de onde vem. Mas imagino que esteja instalado para proteger alguma coisa. Não quero acreditar que seja apenas para azucrinar os ouvidos da vizinhança.
Para o alarme funcionar, e acho que não faço com isso nenhuma descoberta importante, falta um requisito essencial: ele deve ser dirigido a alguém que esteja de prontidão para tomar providências de salvamento. Como parece que não existe esse alguém, os gritos de socorro caem no vazio. Ainda mais quando os vizinhos chegam à conclusão de que o alarme disparou sem motivo, por causa de um vento mais forte na janela, ou do espirro de um passante.
O mesmo acontece com o alarme dos automóveis. Parece, não tenho certeza, que tendo alarme no carro, não sei por que razão, baixa a taxa do seguro. Talvez na expectativa de ele dar susto nos ladrões, se é que eles ainda se assustam. Uma vez tive meu carro assaltado na rua, com alarme e tudo, e ninguém socorreu. Os ladrões levaram até o alarme embora. E acho que todos já devem ter ouvido automóveis com o alarme disparado sem que nada aconteça. A tranqüilidade que ele dá ao dono é, portanto, baseada apenas na superstição.
Talvez a pouca atenção que provocam os alarmes venha de eles serem muitos. No tempo em que o alarme era dado pelo sino da igreja, todos corriam para ajudar. Podia ser um incêndio, podia ser uma catástrofe pior. Mas no momento em que há um sino tocando em cada casa, em cada carro, eles se tornam apenas chatos. Não produzem aquela sensação solidária de que é preciso socorrer alguém em apuros.
Em todo o caso, mesmo que por superstição, mesmo sabendo que ninguém vai socorrer, continuo ligando o alarme do carro. A gente precisa também de um pouco de crenças mágicas para se sentir mais seguro. Deve ser por esse mesmo motivo que o incógnito alarme do meu bairro não foi até hoje desativado pelo dono.
Depois das Antas
Para quem nasceu em Antônio Prado (eu não tive essa honra), o Rio das Antas não é um mero acidente geográfico. Sempre foi uma fatalidade histórica. Como foi o Bósforo para os Gregos. Como o Cabo das Tormentas para os Portugueses. Acho que me entendem: atravessar o Rio das Antas era como cruzar o limiar entre dois mundos. Uma coisa para ser cantada em epopeia.
Modestamente, faço aqui minha epopeia. Por volta de 1950, eu estava sobre a carroceria de um caminhão, mais um bando de gurizada, estreando meu amor por Antônio Prado. A estrada era barrenta. Na beira do rio, o chofer, um tipo de cara vermelha e braços cabeludos, berrou para todo o mundo descer. Depois que descemos, o caminhão deslizou, derrapando, até se acomodar com um suspiro sobre a velha balsa de madeira. Deslizando e derrapando atrás dele, formamos alas sobre a balsa. O rio roncava, como se houvesse mil antas bufando (isso era o que eu imaginava). O balseiro não ria. Fazia pior: olhava a gente com um brilho de zombaria no olho. Desde então aprendi, de experiência própria, que atravessar aquele rio, naquela balsa, era aventura para predestinados. Como Odisseu, ou Vasco da Gama.
Para os nascidos Depois das Antas, sobrava a alternativa de sair para o mundo pela Vacaria, seguindo a trilha das tropas dos bandeirantes. Uma escolha simples: ou ficar enfurnado no fundo dos vales, ou ser de vez um cosmopolita. E foi esse o dilema vivido por gerações de pradenses. Uns fizeram uma escolha, outros a outra. E tudo ficou registrado na fisionomia de Antônio Prado, para quem quiser ver: agora existe ponte e a estrada se alarga e perde novecentas de suas mil curvas.
Quem chegar lá pode pedir, por exemplo, uma “sopa da imperatriz”, que é um verdadeiro luxo da nobreza. Ou comer uma pizza igual à de cem anos atrás, ouvindo cantar a Dona Lombarda na mesma versão cantada na Idade Média, e que só foi guardada lá, Depois das Antas. Pode se surpreender com vitrais civilizadíssimos na igreja matriz ou encontrar, de repente, uma velha senhora ainda cozinhando sobre as cinzas e brasas de um fogolar centenário. Envolta em fumaça como um anjo no meio do incenso.
E o que dizer das casas de Antônio Prado? São casas para se ficar olhando, em êxtase, rezando para que nunca terminem. Também elas, as casas, são um retrato do dilema histórico dos pradenses. São de madeira, a mesma rude madeira dos primeiros tetos dos primeiros desbravadores. Mas ao mesmo tempo ostentam o rendilhado dos lambrequins, faceirice de moça de cidade. Por nada não anda por lá, por estes dias, um punhado de arquitetos do Brasil e do mundo, reverenciando essas casas. Que outra imagem posso dar delas? Mulher com ramos de flores silvestres na cabeça. Ou coisa igualmente simples e bonita.
Alguns anos atrás, havia quem dissesse, até em para-choque de caminhão: “Visite Antônio Prado antes que desapareça”. Eles não sabiam que Antônio Prado estava se preservando, amadurecendo a sua fisionomia. O meu medo agora é que se tenha que advertir: “Visite Antônio Prado antes que a invadam e desfigurem”. Por excesso de amor, talvez, ou por obsessão possessiva.
Não estou bem certo se isto que escrevo seja uma boa homenagem ao centenário que os pradenses estão comemorando. Mas acho que consegui disfarçar a emoção. A emoção que me assalta cada vez que vou até Depois das Antas.
OBS.: Esta crônica, que para mim é ainda atual, foi escrita em dezembro de 1986, quando se comemorava o centenário da criação da Colônia de Antônio Prado por Dom Pedro II. Pouco tempo depois, em 1990, as casas do centro da cidade foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional. E minha emoção se tornou plena quando, em 1995, a cidade serviu de cenário para o filme O Quatrilho, levando as belas imagens de Antônio Prado para o mundo inteiro!
La Lumièra, o Boitatá e o Fogo-Fátuo
Está próximo o dia do Halloween, que é também o Dia das Bruxas, que ocorre a 31 de outubro, na véspera do Dia de Todos os Santos e antevéspera do Dia de Finados. As pessoas ficam perguntando: o que motivou a escolha dessas datas para lembrar seres fantásticos?
Acontece que o ente fantástico mais disseminado na imaginação ao redor do planeta é a lâmina de fogo que surge e circula em banhados e cemitérios. Na tradição portuguesa, foi chamada de Bicho-Papão. No Brasil, ganhou o nome de Boitatá, que em tupi-guarani significa cobra de fogo. Em todas as culturas, essas luminosidades que serpenteiam no escuro da noite são almas de defuntos, em busca de auxílio ou trazendo uma punição.
Na tradição vêneta, recolhida por Cecília Battaglin Ignazzi na obra aqui já citada – “Le storie dei filò” – essas chamas que evocam um mundo oculto têm o nome de lumete, com a variante dialetal lumiere, que pode ser traduzido por “luzinhas”.
O livro dessa pesquisadora (do qual possuo um exemplar, com dedicatória e autógrafo concedidos em 8 de novembro de 1991, aqui em Caxias do Sul) traz um elenco inumerável de personagens fantásticos, em versão popular de diferentes lugares do Vêneto. Cada uma delas vem acompanhada por uma ou mais histórias contadas nos filò. São fadas, bruxas, fantasmas, magos, animais assustadores e, entre eles, a popularíssima figura do Orco, um atributo do Diabo, de onde nasceu a expressão “Orco Diáol”, dita diante de algum dissabor ou desastre. Ela é assim descrita:
“O Orco era um homem grande como uma casa e até mais; com as pernas, uma de cá e outra de lá, fazia uma ponte no Vale del Sasso, e quando um passava por baixo, ouvia uma voz grossa e rouca que dizia: “Passa, não passa, passa, não passa”. Se a pessoa seguisse adiante, não acontecia nada, mas se alguém respondesse podia ser sufocado ou despedaçado”.
Em outra variante narrativa, ele é visto com este formato:
“O Orco era um homenzarrão feio com um chapéu grande na cabeça. Ele se escondia no Vale del Sasso e, quando passavam por lá as cabras, ele as pegava no colo e as afogava. De noite, andava girando vestido de preto e cheio de sininhos. Se visse uma cruz, desaparecia”.
Nas histórias infantis, ele aparece como devorador de crianças que se arriscam a sair de casa à noite. E aparece também na forma feminina, a Orchessa, da qual consta esta historieta:
“A Orchessa vagando à noite
Uma vez um homem saiu bem cedo para ir ao mercado de Maróstica. Caminhando ao longo da estrada, viu no campo uma plataforma de dança, cheia de bailarinos e músicos. Parou para olhar e os músicos o chamaram, para que fosse até eles. O homem não sabia o que fazer e, enquanto decidia, ouviu bater três horas. E disse: ‘São três horas?! Esqueci de olhar’. Fez o sinal da cruz, como é costume quando batem três horas: e desapareceram plataforma, bailarinos e músicos. Era a Orchessa que estava em giro!”.
Desse acervo popular de histórias imaginárias é que surgiu um novo gênero literário, o das histórias fantásticas, inaugurado por Charles Perrault (1628-1703). Foi seguido e imitado por Jacob e Wilhelm Grimm na Alemanha e Hans Christian Andersen na Dinamarca, para citar os nomes mais famosos. No Brasil, basta lembrar Monteiro Lobato e, no Rio Grande do Sul, Simões Lopes Neto, com sua incrível história da “Salamanca do Jarau”. É um veio que continua inesgotável…