Os animais ao redor

Não é possível trazer à tona as memórias de minha infância sem falar dos animais que nos rodeavam. Um item que exige um pouco de método para não parecer uma babel, pois eram muitas as espécies.

Começo pelos animais domésticos, na nossa casa e na casa dos vizinhos.

Em casa tínhamos: o cavalo, a vaca de leite, de nome Mansinha, com seus terneiros periódicos, a cabrita com os cabritinhos, os porcos no chiqueiro, as galinhas com o galo e os pintinhos no galinheiro. Nas casas dos vizinhos havia também mulas, ovelhas, patos, gansos.

Fora do mundo doméstico, e começando pelo espaço aéreo, havia o gavião, que adorava atacar pintinhos, mas comia também carrapatos e bernes do gado. A curicaca, que gritava com estridência o nome dela – cu! ri! ca! ca! – e não deixava sobrar pinhão, na época do pinhão, mas também comia os bernes do gado.

As tirivas, parentes do papagaio, que andavam em bandos barulhentos, comiam frutinhas das árvores e também sumiam com os pinhões. Os urubus, sempre farejando alguma carniça. O jacu, que às vezes a gente ouvia cantar nalguma árvore, mas nunca deixava ser visto: só uma vez, bem cedo, vi aparecer um jacu no meio das galinhas, quando foi espalhado milho para elas no chão…

O chopim era outro passarinho que nunca chegava perto da gente: era bem preto e só era visto no alto das árvores. Só com bodoque, ou funda, dava para derrubar algum, porque não caiam na armadilha do mundéu ou da arapuca. Em geral, eles formavam manchas pretas, em bando, nas zonas de campo. Punham ovos nos ninhos dos tico-ticos, para não terem de chocar nem alimentar os filhotes. O modelo do parasita completo, dizia meu pai.

O mundéu e a arapuca eram usados para apanhar pássaros que atacavam as plantações. Em especial as do trigo e do milho. O mundéu era feito de uma tábua de meio metro, com uma pedra em cima, e uma isca que, beliscada, derrubava a tábua. Era mais usado para pegar tico-ticos assim que era semeado o trigo.

A arapuca era uma gaiola de vime, ou de taquara, também com uma armadilha, usada para caçar tirivas e papagaios quando o milho começava a formar espigas e era atacado por esses predadores. Como isca, punham-se debaixo dela grãos de milho maduro.

Na família dos insetos, é difícil recuperar a variedade que se escondia por toda parte. Isso sem falar nas pulgas e nos piolhos que, vez por outra, tinham de ser eliminados do corpo e dos lençóis. No paiol havia os carunchos roendo as espigas de milho e as aranhas fazendo teias.

Na estrebaria, os carrapatos apareciam no lombo da vaca ou de um terneiro. Na horta, a minhoca era a principal frequentadora dos canteiros. Mas havia também a centopeia e a escolopendra, devidamente identificadas pela quantidade de pernas de cada uma. Havia também os insetos que não se deixavam ver, mas marcavam presença pelos ouvidos, como a cigarra e os grilos.

Um cuidado permanente era com as cobras. A que mais rondava as casas e lavouras era a jararaca, uma cobra venenosa e traiçoeira, marrom, de um metro e meio de comprimento. Mais de uma vez assisti meu pai esmagando a cabeça delas às porretadas.

Uma história que ele nos contava era de que, quando moço, foi mordido por uma jararaca. Para tirar o veneno, mergulhou a perna num arroio de água corrente e foi raspando o local da dentada com uma faca, até achar que tinha tirado todo o veneno. E deu certo, não precisou de nenhum outro remédio.

Lembro também que ele aprendeu, imagino que nalgum dos livros de medicina de sua estante, ou em algum almanaque, uma técnica para eliminar o veneno da cobra. Pegava um chifre de veado do campo, cortava em pedaços de uma a duas polegadas, passava no rebolo até a peça ficar plana nas quatro faces e depois a punha no fogo, debaixo da cinza, para carbonizar.

Era a “pedra de cobra”, que era aplicada sobre os orifícios provocados pela dentada e absorvia o veneno. Quando a pedra caísse, estava completa a operação. Depois ela era deixada numa vasilha com leite para ficar limpa do veneno e poder ser usada novamente. Várias pessoas da vizinhança, adultos e crianças, foram salvos por essa técnica de meu pai.

Um episódio inesquecível aconteceu num final de manhã, quando eu mais dois irmãos voltávamos, enxada ao ombro, da lavoura de feijão. De repente o Anísio começou a gritar, olhando para as pernas, que tentavam se livrar de alguma coisa que as prendia. Olhamos e vimos uma cobra enrolada nelas, pelo jeito sem vontade de sair. Com nossa ajuda, o Anísio finalmente se desvencilhou. Mas nenhum de nós três ficou alarmado: sabíamos que não era uma cobra venenosa, mas uma cobra d’água, que por algum motivo resolvera dar um passeio.

Um inimigo mortal das cobras era o lagarto, tanto que eles não eram enxotados do redor da casa, mesmo quando vinham para roubar os ovos que as galinhas punham nalguma touceira de capim. Lagarto era um bicho amigo.

Nem um pouco amigos eram os gambás. Lembro a cena em que meu pai descobriu um ninho deles num tronco podre de árvore. A mamãe gambá estava com dois filhotes na bolsa da barriga, no mesmo estilo dos cangurus que eu via nos livros. Inesquecível também era o fedor que deixavam.

Outro bicho intolerável era o zorrilho. Felizmente eram raros os exemplares deles em São Chico. Mas um deles provocou certa noite uma pequena tragédia. Minha mãe acordou com as galinhas gritando e fazendo estrepolia e resolveu ir ver o que estava acontecendo. No que abriu a porta do galinheiro, um esguicho de urina de zorrilho a atingiu nos olhos, escorrendo pelo rosto e pela roupa. Ela passou bastante tempo tratando dos olhos, com chás indicados por meu pai. E nos dizia que a roupa, mesmo depois de lavada duas ou três vezes, ainda fedia.

Um animal que a gente também só conhecia pelo som era o bugio. O ronco do bugio, no meio do mato, era sinal de que vinha chuva. Um vizinho nosso, o seu Natal, contava uma história que meu pai dizia ser invenção. Tinha ele entrado no mato, com uma espingarda, e de repente viu um bugio em cima de uma árvore. Apontou a arma e o bugio, que era na verdade uma fêmea, ergueu o filhote diante dos olhos. O seu Natal não sabia dizer por que ela tinha feito isso, se era para se proteger, ou para avisar que tinha filho pequeno para cuidar. O fato é que seu Natal baixou a espingarda e saiu do mato.

De uns anos para cá acontece em São Francisco de Paula o Festival Ronco do Bugio. Esse não tem nada a ver com o bugio, pelo menos não de forma direta. Acontece que algum gaiteiro inventou lá um ritmo ao qual deu esse nome, de “ronco do bugio”. Daí nasceu um concurso anual de gaiteiros para preservar esse gênero de música.

Havia também os habitantes da água do arroio, além das cobras d’água. Os mais comuns eram os sapos e as rãs. Mas no Arroio Goiabeira, que tinha água suficiente para mover um moinho, a gente podia ver pequenos lambaris, ou, tendo sorte, algum jundiá.

Caçar não fazia parte dos hábitos de nossa família nem dos vizinhos. Só em Caxias fiquei sabendo que a caça podia ser uma paixão… A partir dessa descoberta é que escrevi a novela policial “O caso da caçada de perdiz”.

As primeiras leituras

O leitor inveterado que eu era, a ponto de posar para fotografia com um livro na mão, aos oito anos de idade, teve contato com diversos textos que foram abrindo os horizontes do mundo, para além de São Roque da Goiabeira.

Um livro fundamental foi a Seleta em Prosa e Verso, da autoria de Alfredo Clemente Pinto. O fato de ele se chamar Clemente, um tocaio meu (como a gente denominava o homônimo, ou xará), já era motivo de interesse. Era um livro dedicado “à mocidade estudiosa”, como escreveu seu autor no prefácio, “pondo diante dos olhos trechos que possam servir de modelo nos exercícios de redação”.

Da variedade de textos da Seleta, lembro alguns que me marcaram.

O mais decisivo foi, com certeza, o conto “Um Apólogo”, de Machado de Assis, que narra um diálogo entre a agulha e a linha sobre qual das duas é mais importante. O apólogo termina com a consideração de um professor, de que “também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária”. Esse apólogo eu aprendi de cor para fazer parte de uma declamação na escola. Acho que não por acaso o professor, que era meu pai, deu tanta importância ao conto machadiano. Ele também devia se sentir uma agulha…

Outro texto inesquecível foi o soneto de Artur Azevedo, “Tertuliano, frívolo, peralta”, que aprendi de cor, e muitas vezes o recitei comigo mesmo, quando aparecia algum narcisista na minha frente. Entre outros sonetos da Seleta, guardei ainda na memória: “Vai-se a primeira pomba despertada”, de Raimundo Correia, “Meu ser evaporei na lida insana”, de Bocage, “Velhas árvores”, de Olavo Bilac, e “Sete anos de pastor Jacó servia”, de Camões. Não por acaso meu ouvido lida bem com o decassílabo!

De Olavo Bilac aprendi de cor outros dois sonetos, para declamar na escola: “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste” e o “Ora direis, ouvir estrelas”.

Na Seleta havia ainda fábulas e várias ilustrações mostrando paisagens do Brasil. Outro texto que me encantava era o da abertura do livro, com a história do “ovo de Colombo”: as coisas são fáceis para quem sabe fazer!

Outro livro decisivo na minha infância foi Histórias do Arco da Velha, que meu pai mandou buscar pelo correio nada menos que na Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro. Livraria que fiz questão de conhecer, na primeira vez que fui ao Rio. De todas as histórias do livro, traduzidas de Perrault e dos Irmãos Grimm, a de que eu mais gostava era a que tinha por título “A Pele de Asno”. Conta a história de uma princesa que fugiu para a floresta vestida com uma pele de asno. Sucedem-se inúmeras peripécias, típicas dos contos de Perrault.

Lendas do Sul, de Simões Lopes Neto, também estava na prateleira da biblioteca, como meu pai chamava sua estante de livros. Dessas lendas, a que mais me encantava era a da “Salamanca do Jarau”. Depois dela vinham “O negrinho do Pastoreio” e “A Mboitatá”.

Havia um vizinho nosso, amigo de meu pai, que inspirou o personagem Scariot, de meu romance O Quatrilho. Todos o chamavam de “Scariot”. Isso porque ele se negava a frequentar a igreja e se dizia anarquista. Era também um beberrão, daqueles de dormir na estrada. Isto é, tinha tudo para ser personagem de romance. Um dia ele deu de presente para meu pai um livro em italiano, Le mille e una notte (As mil e uma noites). O italiano eu não entendia, por isso não li as histórias, mas não me cansava de folhear o livro para ver as ilustrações coloridas, com sultões e odaliscas… E um tapete voador! Talvez tenha nascido aí meu interesse pela dimensão visual da narrativa, consolidada depois pelas sessões de cinema.

Outra de minhas leituras permanentes era a do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, da autoria de Gustavo Barroso. Eu gostava de ver palavras novas e buscar o seu significado.

De todas essas leituras acabei criando um gosto meio parnasiano, ou rebuscado, também na escrita. Tanto que no ginásio, num tema de redação, comecei com esta frase: “Nuvens plúmbeas cobriam o céu”. O professor a leu em voz alta, diante da turma, e me perguntou:

– “Plúmbeas” por quê?

– Porque elas eram cor de chumbo, professor – respondi.

– Mas então escreva “nuvens cor de chumbo cobriam o céu”. Assim todos vão entender – disse ele, com um riso simpático.

Talvez tenha sido essa a mais importante aula de estilística que tive. O modo parnasiano, de usar adjetivos para enfeitar as frases, foi claramente posto em questão por esse professor. Depois, lendo Machado de Assis, descobri que também ele buscava o que Mário de Alencar chamou de “perfeição da simplicidade”, baseada numa “linguagem coloquial”, como a qualificou Mattoso Câmara.

No ginásio também descobri, num livro de Manuel Bandeira, intitulado Apresentação da Poesia Brasileira, que para escrever bonito não era preciso “ouvir estrelas” nem falar de “céu plúmbeo”. Mas isso fica para quando eu falar, se falar, de meu itinerário na poesia.

O poeta economista

Fernando Pessoa é conhecido como o poeta dos heterônimos – o de muitos nomes – que costumam ser atribuídos às várias personalidades que o próprio Pessoa reconhecia dentro dele: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Coelho Pacheco e… Fernando Pessoa ele mesmo.

O que poucos sabem é da existência de outra de suas personalidades: a de economista interessado em questões de comércio e indústria em Portugal e no mundo inteiro. E não era um interesse eventual: Fernando Pessoa fundou e dirigiu, com seu cunhado, uma revista mensal, com o nome de Revista de Commercio e Contabilidade. Nela publicou artigos e comentários diversos, alguns de caráter rigorosamente teórico e científico, outros de análise de situações e fatos que chamavam sua atenção de economista.

O curioso é que fiquei sabendo desta faceta do autor por intermédio de um estudioso italiano, Brunello de Cusatis, que traduziu e editou na Itália uma coletânea de artigos publicados na Revista de Commercio, de 1926 em diante. Se alguém pensa que são textos de um poeta fingindo que entende de comércio internacional, vai se surpreender. Verdade que é dele o verso de que “o poeta é um fingidor”, mas não parece que a fórmula se aplique ao caso.

Só para dar uma amostra, ponho aqui o tema de alguns de seus ensaios:

yesa cotação da moeda;

yesa organização de arquivos;

yesa inutilidade dos conselhos fiscais;

yesa necessidade de organizar as organizações;

yesa concentração industrial;

yesos preceitos de Henry Ford;

yeso papel da publicidade.

E por aí afora. Todos eram assuntos da atualidade econômica de seu tempo. Para quem tinha construído (e não me excluo dessa categoria) a figura imaginária de um poeta exclusivamente dedicado aos versos, como se não tivesse tido uma vida real no mundo concreto, é uma bela revelação.

O poeta Fernando Pessoa, na caricatura clássica de Almada Negreiros

Um dos seus ensaios mais interessantes se dedica à análise e à proposição de alternativas para “a indústria editorial e o comércio de livros”, para aplicação em Portugal e no Brasil. Inicia dizendo que, de um e de outro lado do Atlântico, os editores não se deram conta de quem são os seus leitores: pessoas que leem pouco e fogem de pegar em mãos um livro mais volumoso.

No entanto, parecem escolher de propósito editar livros enormes e de leitura pesada. Como terão poucos leitores, os preços terão de ser elevados, o que impede de atrair novos leitores. É preciso publicar livros mais baratos, em tiragens maiores. E Fernando Pessoa não fica na teoria: desenvolve todo um cálculo contábil sobre os lucros possíveis dentro dessa nova concepção industrial e comercial.

Num outro breve comentário, sob o título de “A essência do comércio”, ele se diverte com o episódio de a indústria alemã ter desbancado, na Índia, os fabricantes ingleses no mercado de suportes para comer ovos quentes.

Os alemães entraram vendendo os suportes pelo mesmo preço praticado pelos ingleses, que não desconfiaram de nada. Em pouco tempo, o comércio só vendia o produto alemão. Onde estava o mistério? Os ovos das galinhas indianas eram maiores que os das galinhas inglesas. Os alemães simplesmente fizeram o suporte um pouco maior e ganharam o mercado. Isso, conclui Pessoa com certa solenidade, “em linguagem científica, se chama adaptação ao ambiente”.

Um poeta, portanto, bem ajustado a uma publicação como esta, “onde economia e cultura se encontram”!

Aprendizados em São Roque da Goiabeira

A colônia de Santa Teresa, onde nasci, esgotou suas terras à venda. Mas, como o projeto de atrair agricultores dera bons resultados, a Prefeitura de São Chico o expandiu para o lado do Arroio Goiabeira, que tinha às suas margens terras férteis e de futuro. Nesse local foi erguida a capela de São Roque e, atrás dela, uma nova escola municipal, para atender à demanda que crescia.

Sempre atento a novas possibilidades, não deu outra: meu pai pediu transferência para a Escola São Roque e se mudou para a Goiabeira, onde construiu uma casa nova. Em anexo, fez o paiol, o chiqueiro, o galinheiro e a estrebaria.

Já éramos seis irmãos, registrados em fotografia no alpendre da casa. Apareço nela com um livro na mão, intitulado “Crestomatia Cívica”, de Radagásio Taborda. Era uma antologia de textos de teor patriótico, que meu pai encomendou, pelo correio, da Editora O Globo, de Porto Alegre. Era o livro que eu estava lendo quando foi tirado o “retrato”, como a gente chamava a fotografia.

“Retrato” da família Pozenato em 1946, o futuro escritor à esquerda, já apegado aos livros. Na pose, o casal Jerônimo e Deotilia, com os filhos, a partir da esquerda: José Clemente, Neli (no colo), Gilson (em pé, ao centro), Inês e, ao fundo, Teodorico e Anísio. (Foto: Álbum de família)

A Segunda Guerra Mundial havia terminado há pouco, e todos falavam que tinha chegado ao fim a “carestia”, palavra de forte presença em nosso cotidiano. Na biblioteca de meu pai havia almanaques e revistas com notícias da guerra. De uma delas lembro em detalhe: numa fotografia apareciam dois soldados norte-americanos, fardados e fumando, sorridentes. Ao pé do retrato vinha uma legenda mais ou menos nestes termos: “Esperando tranquilos antes de entrar em combate”. E lembro que me perguntava: como é que eles estão tranquilos se podem morrer a qualquer hora?

Meu pai acompanhava o andamento da guerra na venda do João Santos, aonde ia duas vezes por semana, ao menos. O João Santos era o único na redondeza que possuía rádio. Um rádio com bateria de caminhão, que ele mandava carregar na vila de São Chico. Na realidade eram duas baterias, como me explicou meu pai, para ter uma de reserva enquanto mandasse alguém a cavalo até a vila para recarregar a outra.

Nessas idas à venda do João Santos, que ficava a dois quilômetros de nossa casa, vez por outra eu era levado na garupa do cavalo branco. A venda ficava a meio caminho entre São Roque e Santa Teresa, em posição estratégica para atender a freguesia dos dois lados. Assim fiquei conhecendo seu João Santos, que tinha uma barriga grande, e o caixeiro, que se chamava Alcides. Na venda tinha de tudo, até açúcar branco, caramelos e chocolate.

Quando terminou a guerra, meu pai me levou até a venda do João Santos. O rádio havia noticiado que o presidente Getúlio Vargas ia fazer um discurso no programa A Voz do Brasil. Era quase escuro quando chegamos. O programa começava sempre às sete horas da noite. Do discurso só lembro as palavras iniciais: “Brasileiros e brasileiras! Trabalhadores do Brasil!”. Ditas numa voz mais fina do que grossa. Não sei se por causa do rádio ou porque a voz do Getúlio era mesmo essa. Do resto não lembro. Ou era difícil demais para mim, ou caí no sono.

Meu pai sempre teve grande admiração por Getúlio Vargas, a partir de um episódio que ele volta e meia relembrava. Quando servia no quartel de cavalaria em Quaraí, o comandante avisou que no dia seguinte, às dez horas, estaria no quartel o Presidente do Estado, Getúlio Vargas. O sargento chamou o destacamento e deu as ordens de praxe: “Deixem as fardas em dia, com todos os botões, lustrem as perneiras, escovem os cavalos, aparem as crinas, alisem os cascos!”.

No dia seguinte, na hora marcada, todo o batalhão se pôs a desfilar, disciplinadamente, diante do palanque onde estavam Getúlio Vargas e as autoridades do quartel. Nisso começou a pingar, chegando a chuva, e alguns soldados “se coçaram” para pegar a capa que vinha na garupa do cavalo, na “mala da capa”. O sargento então berrou para a tropa:

– Em forma! Sem capa! O comandante maior está sem capa!

Todos olharam para o palanque e, de fato, viram que Getúlio Vargas estava perfilado, sem se proteger da chuva, como se nada estivesse acontecendo. Depois fiquei sabendo que Getúlio fez essa visita a todos os quarteis do estado, preparando a Revolução de 30.

Nesse período da guerra mundial foi que eu mergulhei nos livros. A ponto de minha mãe me pedir que eu não ficasse tanto tempo lendo: “assim tu vais estragar a vista”, me dizia ela. À noite, só se podia ler com a luz do lampião a querosene, ou da “pixirica”, como a gente chamava a lamparina a querosene.

Eu dominava tanto a leitura que meu pai me encarregou de ajudar dois irmãos meus. Aconteceu então uma cena que ficou nos anais da família. Estávamos, cada um dos três, com o mesmo livro de leitura na frente. Eu ia lendo as palavras e os dois iam repetindo. Quando percebi que eles não liam, só repetiam, eu disse, fingindo estar lendo no livro: “Um papagaio”. Os dois repetiram: “Um papagaio”. Continuei: “Dois papagaios”. E eles: “Dois papagaios”. Nisso, meu pai estava passando perto da mesa e percebeu a brincadeira. Deu uma risada e ficou do meu lado:

– Agora deixa os papagaios lerem sozinhos!

Amigo à primeira vista

Neste momento em que o Brasil lamenta a despedida de Paulo José, figura marcante do teatro e da narrativa visual no cinema e na televisão, não posso me furtar de trazer à lembrança algumas passagens que vivemos juntos.

Tudo aconteceu quando ele dirigiu a gravação de O Caso do Martelo para a TV Globo, em maio de 1991. Ele chegou elogiando o ângulo de luz do outono, que ele considerava perfeito: não é “chapado” como o do sol do centro do país, disse ele, e isso ressalta o perfil das imagens.

Antes de colocar a câmera em movimento, ele se movimentou em busca de cenários em Caxias do Sul e vizinhança. O primeiro lugar visitado, comigo e a equipe de produção, foi o Mato Perso, que Paulo José apreciou muito. De lá saímos em direção a Nova Pádua, por uma estrada de chão. E quando chegamos no Travessão Alfredo – nome usado comumente para o Travessão Alfredo Chaves – ele foi taxativo: “Vai ser aqui a Santa Juliana!”, que é o nome do lugar do crime narrado na novela.

Os amigos ator/diretor e escritor saboreiam a fartura gastronômica da Serra Gaúcha (FOTO: Carla Pauletti/Arquivo pessoal)

Ao entrar ali numa casa típica das nossas colônias, para ver se poderia ser usada como cenário, uma integrante da equipe de produção reclamou que a mesa da cozinha era de fórmica. Fora da época do roteiro, portanto. Paulo José reagiu, rindo:

– Vocês acham que é fácil lavar mesa de madeira todos os dias?! A gente põe uma toalha em cima.

Mas o problema foi logo resolvido, porque a dona da casa tinha a mesa velha guardada no porão. Para alegria do Paulo José.

O bando de gansos que aparece na frente do carro do detetive Pasúbio – representado por Lima Duarte – foi gravado a partir de uma sugestão do Ary Trentin. Uma tarde, na casa do Travessão Alfredo, foi necessário lavar uma peça de roupa, e a dona da casa ofereceu um lugar para secá-la:

– Podem pendurar ela nos “ganso” ali da frente.

Paulo José, discretamente, se divertiu com a frase:

– Ela chama o ganso de “gancho” e o gancho de “ganso”!

Aí expliquei a ele que na realidade ela pronunciava as duas palavras de um modo em que o “ch” e o “s” sibilante tinham a mesma pronúncia: quem ouve é que faz a distinção. Ele riu e comentou:

– E com os “erres” é a mesma coisa, então?

– Sim. Quando dizem “farinha” parece “farrinha”; e quando dizem “farrinha” parece “farinha”.

A gravação do vídeo durou uma semana, com Paulo José atento aos mínimos detalhes: de cenário, de posição do corpo, de modo de olhar. Para se ter ideia do seu quase preciosismo, basta ver uma foto em que ele aparece deitado no chão, atrás de uma câmera, para verificar se aquele ângulo era de fato o que ele imaginava.

Preciosismos do diretor Paulo José em busca dos melhores ângulos para filmar “O Caso do Martelo” (FOTO: Carla Pauletti/Arquivo pessoal)

Mas a imagem mais forte que guardo dele é a de uma cordialidade que nunca o abandonava, com nenhuma pessoa e em nenhuma situação. Até para resolver problemas, usava o tom divertido com que falou da mesa de fórmica do Travessão Alfredo.

Paulo José foi, por isso tudo, um amigo à primeira vista.

Os parentes bem longe

Uma carência na minha infância – que eu sentia como carência – era a de não conhecer de perto os parentes da família a não ser, é claro, meus irmãos e irmãs. Não conheci avós, com exceção do vovô Guilherme, nem tios, nem primos.

Acontece que meus pais, assim que se casaram no município de Osório, mudaram-se para a vila de Santa Teresa, em São Francisco de Paula, onde ele havia comprado dois lotes de terra. Em Santa Teresa a prefeitura tinha implantado um projeto de colonização, por ser uma área de mato e não de campo aberto como na maior parte do município, permitindo o cultivo agrícola.

Para ali migraram famílias de origem alemã, procedentes na sua maioria da região de Nova Petrópolis, e de origem italiana. Destas, a maior parte era de Santa Lúcia do Piaí, pertencente a Caxias, e da Barra do Ouro, onde havia também uma colônia de italianos, alemães e poloneses, e hoje distrito do município de Maquiné. Antes deles haviam migrado para lá açorianos de Santa Catarina, dos quais descendia minha avó materna.

Ainda lembro os sobrenomes da maioria das famílias que migraram para São Chico. Entre as Alemãs: Lauxen, Ritter, Ternus, Schmitt, Paffratt, Schwaab e outras. Entre as Italianas: Lazzarotto, Barcarolo, Martini, Rech, Casagrande, Tomasini, Pioner, Bonatto, Mazzurana, Silvestre, Muraro… E havia também os “turcos”, como eram chamados os sírio-libaneses. Dois deles tinham casa de comércio; um era o Elias Scander e o outro o João Gantus, o “João Turco”. E também negros, como nossos “vizinhos de porta”, o seu Felicício e a dona Angerca.

Com a mudança para Cima da Serra, ficamos sem contato com as famílias dos avós, tanto paternos quanto maternos. A gente sabia os nomes de todos eles, mas as distâncias e a dificuldade de viajar impediam o encontro pessoal. Era um mundo mais velho que o de hoje…

Do lado materno, meu avô se chamava Antônio da Silva, que minha mãe dizia ser filho de uma índia caçada no mato, e a avó se chamava Maria Carlota dos Santos, de origem açoriana, como descobri mais tarde. Com as raríssimas cartas que eram trocadas, ficamos sabendo que a família toda havia se mudado para Palmares (hoje município de Palmares do Sul), para trabalhar nas lavouras de arroz. Ficaram mais longe ainda do que estavam antes E nunca se concretizou o sonho de minha mãe, de a gente ir a cavalo até Osório e lá tomar o trem para Palmares. E essa estrada de ferro Osório-Palmares entrou para a história, merecendo investigação.

Por parte de pai, meu avô se chamava Guilherme Pozenato. E a avó tinha o nome de Maria Madalena Debastiani, nascida em Beluno, na Itália. A primogênita da família era a tia Virgínia, que não mantinha correspondência. Sabia-se que ela morava em Caxias. Meu avô Guilherme, ficando viúvo, mudou-se com os filhos para Cacique Doble, na época um distrito de Lagoa Vermelha. Com eles a correspondência era mais assídua. De lá, um dos tios se mudou para o Paraná e outros dois para Santa Catarina. Era a época da forte migração interna das colônias italianas e alemãs para o norte do estado e para os estados vizinhos. O tio Antônio fez o percurso inverso, voltando a morar em Caxias do Sul.

Com todas essas andanças, as cartas, que já eram raras, começaram a minguar. Minha mãe então nos confortava dizendo: “se não vêm notícias, é porque todos estão bem; notícia ruim sempre vem voando”.

Um resultado desses deslocamentos foi o de meu avô Guilherme ter ido passar um tempo em nossa casa. Eu devia ter uns oito ou nove anos na época. Não preciso dar aqui detalhes de sua figura: ela está desenhada, em detalhes, no personagem Aurélio Gardone, do romance “O Quatrilho”. Aurélio era o nome do único irmão de meu avô, que teve mais quatro irmãs.

Os meus bisavós paternos emigraram da Província de Verona já casados e se estabeleceram na colônia de Nova Vicenza, hoje município de Farroupilha. Perto de Santa Rita receberam um lote de terras para ser pago a prazo, como determinava a lei para os imigrantes. Ali tiveram seis filhos: dois meninos e quatro meninas. Por fatalidade, faleceram os dois, por causas nunca identificadas pela família, antes de meu bisavô quitar o pagamento das terras. A consequência direta foi que os filhos todos, ainda crianças, ficaram sem propriedade nenhuma, e foram acolhidos e criados pelos vizinhos.

Guilherme e Aurélio, os dois mais velhos dos irmãos, como não tinham terra para cultivar, foram buscar outro tipo de trabalho. Foi assim que meu tio-avô Aurélio se tornou carreteiro, morrendo num acidente, próximo a Ana Rech, como consta dos registros. E meu avô Guilherme virou tropeiro, trabalhando para uma loja da vila de Nova Vicenza. Viajava com os cargueiros de mulas até Barra do Ouro, levando queijos, salames, vinho, e de lá trazia açúcar, rapadura, cachaça e banana. Depois de casado, e já com alguns filhos, decidiu mudar-se com a família para o município de Osório, que na época tinha o nome de Nossa Senhora da Conceição do Arroio, indo instalar-se num lugar chamado Mundo Novo.

No Mundo Novo foi que meu pai Jerônimo conheceu minha mãe Deotília da Silva. Começava ali, de fato, um mundo novo!

Afinidades sempre existem

Quando meu romance O Quatrilho atravessou o Oceano Atlântico, um crítico português o elogiou, comparando-o, na forma e no tema, com os do escritor italiano Cesare Pavese, nascido em 1908. Obra e autor que eu nunca havia lido.

A partir daí fui à sua procura e, de fato, encontrei vários pontos de afinidade com ele. Também ele fez poesia, também ele foi professor de Literatura, também ele foi tradutor e também ele não tinha estômago para suportar ditaduras.

Li então seu romance mais famoso, La Luna e i Falò, de 1949, traduzido também para o português com o título de A Lua e as Fogueiras. E achei que o crítico de Portugal tinha toda razão em comparar com ele O Quatrilho.

O primeiro livro publicado por Cesare Pavese foi de poesia (como aconteceu também comigo!), com o título provocativo de Lavorare stanca: em português, Trabalhar cansa. Sofreu com a censura fascista para ser editado: o título era visto como uma provocação ao regime, que colocava a dedicação ao trabalho como a principal virtude patriótica. Como os extremos se tocam, a esquerda comunista pôs o foco no trabalhador, com uma diferença: a direita sacralizando o trabalho e a esquerda sacralizando o trabalhador. É o que ensinava Norberto Bobbio, pensador italiano, que viveu no mesmo período.

Outro poema de Pavese, Il dio caprone (“O deus bode”, de 1933) foi visto pela censura como uma caricatura de Mussolini, talvez não por acaso… Fosse esta ou não a intenção do poeta, foi ele condenado a anos de isolamento na Calábria, quando a cidade em que Pavese vivia era Turim. Foi jogado do extremo norte para o extremo sul da Itália, para cortar os contatos que cultivava.

Esse episódio fez com que se percebesse que censurar os poetas não foi só obra do fascismo. Durante o regime estalinista, um poeta russo, Osip Mandelstam, foi condenado a trabalhos forçados em Vladivostok, na Sibéria, por causa de uns versos em que fazia humor com os bigodões, o uniforme, os gritos e as botas lustrosas de Stalin. Estilo que Nicolás Maduro, na Venezuela, repete com toda a devoção…

Mandelstam não publicou o poema, nem o deixou escrito, para não correr risco nenhum. Mas uma noite, empolgado, numa roda de amigos tomando vodca, resolveu declamar os versos: e não é que havia ali num canto um delator que taquigrafou tudo e entregou para a polícia? Foram dezesseis versos que significaram sua sentença de morte: morreu na Sibéria de “paralisia cardíaca”, de acordo com a versão oficial.

Cesare Pavese, ao menos, pôde ainda dar o troco com estes versos que escreveu depois do exílio, e que vão aqui, em tradução livre:

“Privando-me do mar, do espaço para andar e voar

forçando-me a deixar o rastro dos pés em terra distante,

o que vocês conseguiram? Cálculo brilhante:

vocês não conseguiram extirpar

os lábios que se movem!”.

Afinidades existem sempre entre os poetas e os artistas. Como existem entre os ditadores, não importa a bandeira que ergam…

À cozinha de minha mãe

É crença comum de que não existe lembrança mais persistente do que a dos “sabores de infância”. Sabores no sentido literal, ou bucal. Aqueles que ficam registrados para sempre no aparelho gustativo. Aparelho cheio de truques e segredos, como aprendi de um sommelier, porque nele convergem todos os sentidos do corpo, mais a imaginação e a memória.

É somando todos esses registros que recordo a cozinha de minha mãe, onde entrava atraído, de manhã cedo, pelo cheiro quente do café sendo torrado numa panela de ferro. Vinha a seguir o som do café tornado pó no moedor manual, enquanto subia da frigideira o cheiro do “açúcar queimado”, que iria ser acrescido ao café para complementar o seu gosto.

O “açúcar queimado” era feito com açúcar amarelo, como chamávamos o mascavo. Depois de ficar escuro, era despejado numa tábua até esfriar e endurecer. Era então moído com um rolo de madeira e acrescentado ao pó de café, para dar a ele um tom de amargo.

Outro aroma, de quase todas as manhãs, era o do cuscuz. Como ajudante de minha mãe, aprendi também a fazê-lo. Punha-se farinha de milho numa bacia, com uma colher de açúcar amarelo e um pouco de água para “engrossar a farinha”, sem fazer dela uma massa. A farinha umedecida ia para o cuscuzeiro, um vaso de barro com furinhos no fundo. O cuscuzeiro era posto dentro de uma panela com um pouco de água. Para o vapor da água não sair pela junta do cuscuzeiro com a panela, ela era bloqueada com massa crua. A panela era então colocada ao fogo, na chapa do fogão, e ficava fervendo até o cuscuz ficar cozido, pronto para ser comido com o café da manhã.

Outro prato feito de milho era a canjica. Há vários modos de se fazer canjica pelo Brasil afora. A de minha mãe seguia a seguinte receita: debulhar algumas espigas de milho amarelo, de grão arredondado; despejar o milho no pilão, que era feito de um tronco de madeira, escavado por meu pai; sobre o milho, desfiar a palha das espigas e respingar um pouco de água para umedecer; aí, pegar a “mão de pilão” e ficar socando até os grãos do milho soltarem a casca: os grãos não se quebravam por causa da palha com que eram socados. Não é preciso dizer que bati mão de pilão muitas vezes, em rodízio com minha irmã, porque dava para cansar.

Feito isso, a canjica ia para a panela para ser cozida. Quase sempre, ela era dividida em duas panelas, uma temperada com sal e outra temperada com açúcar: almoço e sobremesa.

De milho era também a pamonha, da qual me tornei especialista. Sendo feita de milho verde, minha mãe plantava “milho pra pamonha” por quatro meses seguidos, de agosto a novembro. Com isso, a gente podia fazer pamonha também por quatro meses a fio.

Modo de fazer a pamonha: fazer um corte circular na base das espigas para poder descascar deixando as palhas inteiras; ralar espiga por espiga no ralador, dentro de uma bacia, para não se perder o suco do milho; temperar com sal a gosto, ou açúcar, se preferir; embrulhar o milho ralado e temperado nas palhas verdes e amarrar o embrulho com tiras da mesma palha verde; ferver numa panela até a pamonha ficar cozida.

Na linha de comidas feitas de massa, minha mãe tinha uma verdadeira linha de montagem: massa cozida, pão de milho, pão misto, pão de trigo, bolachas e até mesmo cucas. Com o tempo, percebi que ela seguia nesse ponto diversas tradições culinárias. A massa cozida, que depois aprendi a chamar de taiadèle, tinha origem italiana, por parte de meu pai, como também o pão de trigo. O pão de milho era tradição da família de minha mãe, que vinha de Santo Antônio da Patrulha. As bolachas e cucas eram da tradição alemã, com receitas ensinadas por uma vizinha, a dona Carolina.

Da farinha de mandioca, minha mãe só fazia paçoca, que em Caxias do Sul aprendi a chamar de farofa. Ela se negava a fazer pirão dessa farinha. Até já escrevi isso nalgum lugar: minha mãe aprendeu desde menina a dividir o mundo entre os comedores de paçoca e os comedores de pirão. Estes eram pescadores que moravam na beira do mar. Os da paçoca eram agricultores que plantavam arroz, milho, trigo e feijão. E mandioca.

Ela até nos contava uma historinha trazida de Santo Antônio. Uma vez, pouco depois do meio-dia, quando a família já tinha almoçado, chegou um viajante que vinha das praias, morto de fome. A dona da casa ofereceu a paçoca que tinha sobrado e o viajante recusou: não comia “engasga gato”, mas aceitava um pirão, se tivesse. “Aqui não se come cocô de gato”, foi a resposta que teve de ouvir. A contragosto, já que estava faminto, ele aceitou comer paçoca. E não se engasgou!

A paçoca preferida de minha mãe era feita com charque picado. Mas podia ter variações, conforme o que houvesse na despensa.

A farinha de mandioca era também usada para fazer o “feijão mexido”, que em outros lugares é chamado de “virado de feijão”, “tutu de feijão”, entre outras designações, o que mostra o quanto essa prática era generalizada. Estudos dão conta de ser essa uma tradição vinda do tropeirismo. São Chico, e também Santantonho (como minha mãe chamava Santo Antônio da Patrulha), foram importantes caminhos de tropeiros.

Nosso feijão mexido era feito com sobras de feijão, temperadas com o que houvesse à mão. Na frigideira punha-se uma colher de banha de porco, fritava-se nela charque ou linguiça em pedacinhos e, depois, despejava-se sobre ela o feijão cozido. Quando o feijão estivesse aquecido, punha-se a farinha de mandioca, mexendo até se formar uma pasta. Um ovo frito, ou estrelado, como a gente dizia, era o acompanhamento. Não havia janta melhor do que essa.

As verduras não faziam parte de nosso cardápio, pelo menos não em forma de salada, que só aprendi a comer depois de me mudar para Caxias do Sul. Mas minha mãe preparava “verdura cozida”, bem temperada e bem saborosa. Também, para quem comia feijão todos os dias, com exceção dos domingos, não havia necessidade de salada.

Fiquei feliz no dia em que foi divulgada a notícia de que uma pesquisa, realizada numa universidade norte-americana, tinha chegado à conclusão de que o feijão é “um alimento completo”. Isto é, aglutina todas as substâncias necessárias ao reabastecimento do corpo, em todos os seus sistemas: digestivo, nervoso, sanguíneo e tudo o mais.

O fato de ele estar na mesa toda a semana não nos provocava nenhum fastio. Tanto que um irmão meu costumava cobrar no almoço de domingo, em tom brejeiro, onde estava o feijão.

O domingo era dia de comermos galinha ao molho com massa. E, de sobremesa, arroz doce com canela, ao qual meu pai deu o nome de “prato do paraíso”

Sem querer parecer exagerado, todos os pratos que minha mãe fazia eram pratos do paraíso!

O cavalo branco na memória

No primeiro livro de poesia de que participei, livro a que demos o título de Matrícula, compareço com um poema sobre o cavalo, com este desejo:

“Ah, não ser eu como o cavalo,

não ter um mundo sereno

em que me detenha tranquilo

e paste em segurança.”

A figura do cavalo retorna em todos meus livros de poesia. Nenhuma imagem se apoderou tanto de mim como essa do “cavalo branco na memória”, que pus num poema com o título de “Signo do Cavalo”.

O começo de tudo também tem ligação com a história de meu pai. Ele serviu o exército no Regimento de Cavalaria de Quaraí, cidade que faz fronteira com a vizinha Artigas, do Uruguai. Do quartel ele trouxe para a vida dele, e da família, uma série de regras e comportamentos, que aos poucos irei desfiando nestas memórias.

No que diz respeito ao cavalo, as regras eram bem claras. Devia ser tratado com alfafa e espigas de milho na estrebaria, no começo da noite, e ter um curral com grama e capim para pastar durante o dia. Devia ser escovado uma vez por semana e ter as crinas do pescoço, e a cauda, aparadas uma vez por mês. O cavalo devia também aprender a marchar: meu pai não tolerava cavalo que andasse no trote, como era comum na vizinhança. E devia também aprender a saltar, diante de uma poça de água ou no atravessar uma sanga.

Consequência de tudo isso era que cavalo de meu pai ninguém mais conseguia montar sem fazer fiasco. Era a cavalo, em marcha, que ia de Santa Teresa até a vila, como era chamada a sede de São Francisco de Paula, por conta de seus compromissos como professor municipal. A distância percorrida nessa viagem era de seis léguas, passando pelo Sumidouro, que era um atalho. Isso somava trinta quilômetros e quatro horas para ir e outras tantas para voltar, sobrando quatro horas para despachar e honrar compromissos na vila. Viagem que começava assim que clareava o dia e terminava, na volta, na boca da noite.

Lembro de uma vez em que meu pai levou um irmão meu até a vila para ser atendido pelo médico. A história toda começou com minha mãe comprando um cacho de bananas que um tropeiro trazia “da serra abaixo”, como a gente dizia, porque em Santa Teresa o frio não permitia cultivar bananeiras. Eram bananas verdes, para aguentarem o tranco da viagem, e ficavam uma semana à espera de ficarem maduras. Mas meu irmão, que devia ter uns três anos, sem ninguém perceber, comeu bananas ainda verdes. De noite começou a chorar e a se queixar de dor na barriga. Até que minha mãe atinou e foi conferir o cacho de bananas. Lá estava o problema!

Meu pai encilhou o cavalo branco, ainda de noite, e marchou para a vila, para a criança ser atendida de manhã cedo. A saída foi uma aflição para todos nós. Mas no final da tarde foi uma festa. Meu irmão voltava são e salvo. O médico que o atendeu fez uma lavagem intestinal com clister, como explicou meu pai. Esse médico era um pediatra chamado doutor Ordovás. Não se espantem, era o mesmo doutor Henrique Ordovás Filho, que depois se transferiu para Caxias e se tornou aqui uma celebridade, dando seu nome ao Centro de Cultura da cidade.

O cavalo branco de meu pai continuou fazendo parte de minha infância. O poema “O cavalo e o menino”, publicado em meu livro de poesia Meridiano, é todo ele recriação dessa experiência. Lá eu digo:

“A primeira lição de mundo,

em plena manhã da infância

havia de ser esse cavalo.

O imprevisto perfeito

era subir no seu lombo:

seria dócil às rédeas

ou tomaria nos dentes

o seu livre galope?

O senhor era o cavalo,

por mais atado que fosse

com cincha, freio e espora

– que ele aliás detestava.

…….

Escravo era o menino

despoticamente obrigado

a servir-lhe palha e bebida,

pentear-lhe pelos e crina

serviços mal tolerados

pois que deixava bem claro

não se vender por afagos.

Não é preciso dizer mais nada! A não ser que ele acabou me jogando num barranco, numa vez em que fiz a bobagem de montar nele. Fraturei o punho do braço esquerdo, que meu pai consertou aplicando clara de ovo batida e depois entalando o local com pequenas barras de madeira.

Por sinal, as atividades medicinais exercidas por meu pai eram tantas e tão variadas que merecem outro capítulo.

A relação entre o autor e o leitor

Antonio Candido (1918-2017) foi, e continua sendo, um mestre insubstituível para quem quer conhecer a fundo a literatura no Brasil. Sua obra fundamental, e insubstituível, é Formação da literatura brasileira – Momentos decisivos, em dois volumes. De uma honestidade também exemplar, diz ele ao leitor, no prefácio do primeiro volume:

“Este livro foi preparado e redigido entre 1945 e 1951. Uma vez pronto, ou quase, e submetido à leitura dos meus amigos (e enumera alguns) foi, apesar de bem recebido por eles, posto de lado alguns anos e retomado em 1955. (…) Não tenho ilusões excessivas quanto à originalidade, em livro de matéria tão ampla e diversa”.

Era assim Antonio Candido, rigoroso e modesto! Modéstia que ele esperava também dos escritores que eram objeto de seu trabalho de pesquisador e professor. A principal afirmação nesse sentido foi a de que uma literatura não existe apenas porque existem escritores. É preciso também haver leitores e, entre os dois, um meio de transmissão, constituído pela linguagem. Aí vai a citação literal, em que o autor explica como se constitui a “literatura como sistema”, com esses três elementos organizados:

“- a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel;

– um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive;

– um mecanismo transmissor (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros”.

Isto é, para haver literatura, é preciso haver este trio de elementos: autor-linguagem-leitor. Sem leitor, não há autor, e para que haja leitor, o autor precisa usar uma linguagem que o ligue com o leitor.

Lições do mestre Antonio Candido seguidas à risca (Foto: Divulgação)

Em minha experiência pessoal como escritor, sempre levei ao pé da letra a concepção de Antonio Candido. Ao fazer uma narrativa, escrevo pensando se a linguagem que estou usando vai fazer o leitor imaginar a cena como eu estou imaginando. Se a linguagem não me ligar ao leitor, é uma linguagem ruim.

Para comprovar isso, posso relatar dois episódios. Quando terminei de escrever O Quatrilho, que foi minha primeira entrada no mundo da narrativa longa, resolvi, antes de procurar uma editora, fazer um teste com dois tipos de leitor: um crítico literário, que sempre lê o texto com lupa à procura de alguma falha, e um apreciador de romances do tipo best-seller, aquele gênero de romance que mais agrada ao grande público. Ao crítico literário, pedi que apontasse os defeitos que encontrasse nos originais. E ao leitor representante do grande público, só pedi que me dissesse se havia ou não gostado da leitura.

O resultado foi este: o representante da crítica literária me disse que nas duas ou três primeiras páginas ele tentou olhar criticamente a linguagem, mas dali em diante a narrativa tomou conta dele, e envolvido por ela foi até o final da obra; o representante do grande público respondeu que foi um dos romances mais envolventes que havia lido.

Bem, a partir daí, não tive receio em sair à cata de editor. O resultado, todos já sabem: a história contada foi para o teatro, para o cinema, para a ópera. Além de ter servido de inspiração, ou provocação, para outras narrativas.

Quando terminei de escrever A Babilônia, o terceiro romance da minha trilogia, passei também os originais para apreciação de um professor de literatura e crítico literário. Depois de ler, me ligou para dizer que tinha gostado muito do texto, e acrescentou uma exclamação:

– E que mulher é essa Sílvia!

Depois disso, precisava dizer mais alguma coisa?!

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