Casa de chão

Nossos vizinhos mais próximos em Santa Teresa, na descida de um morro entre as duas casas, eram o seu Felicício e a dona Angerca. Isso na pronúncia com que eram tratados. Na realidade, em português padrão, eram eles o seu Felício e a dona Angélica.

Seu Felicício trabalhava numa serraria ali perto. Dona Angerca cuidava da casa, das crianças, e tratava duas ou três cabras de leite. Dessas cabras é que minha mãe recebia uma garrafa de leite todas as manhãs, e era esse leite que eu tomava. Em minha primeira fotografia, com um ano e pouco de idade, eu apareço com a garrafa vazia nas mãos. De acordo com o relato de minha mãe, foi o jeito de me fazer parar de chorar diante do retratista. Retratista era o nome dado ao fotógrafo ambulante.

Dona Angerca fazia também uma canjica muito gostosa, que nós, as crianças, comíamos na sua cozinha de chão, que cheirava a picumã. Era o nome que se dava para a fuligem do fogo de chão, que inundava a casa toda.

A gente chamava de casa de chão aquela que não tinha assoalho de madeira, como era a da dona Angerca. O piso era de chão batido. Para ele ficar mais firme era misturado esterco de gado com água na terra, o que também dava um cheiro carregado… A casa não tinha forro no teto, nem sótão. Do chão dava para ver as tabuinhas de madeira do telhado, todas pretas de fuligem. Isto é, de picumã.

Mesmo trabalhando numa serraria, seu Felicício não conseguira madeira serrada para fazer a casa. As tábuas das paredes e as tabuinhas do telhado eram de madeira lascada. As janelas eram também do mesmo tipo de madeira, da largura de duas ou três tábuas, fazendo um tampão. E não tinha dobradiças. Eram “janelas de correr”, numa travessa ao longo da parede. E não tinham também vidraças. Fechadas as janelas, ficava tudo escuro.

Tudo isso aprendi porque meu pai, além de professor e jardineiro, era também carpinteiro e marceneiro. Por sinal, a foto em que apareço com a garrafa de leite nas mãos tem como fundo um pequeno altar de madeira. Esse altar era da capela de Santa Teresa, que meu pai tinha pegado para consertar. Na fotografia, estou sentado num telhado feito de tabuinhas. Não, eu não estava em cima do telhado da casa! O telhado da estrebaria é que tinha ido parar no chão, com uma ventania. E meu pai aproveitou para montar um cenário especial para o primeiro retrato do primeiro filho.

O futuro autor de “O Quatrilho”, com um ano e pouco de idade, esvaziando uma garrafa com o leite das cabras da vizinha (Foto: Arquivo pessoal)

A nossa casa, feita, é claro, por meu pai, era bem diferente da casa de dona Angerca. Era uma casa de assoalho, feita com madeira de serraria. Era construída em cima de cepos de canela preta, que não apodrece quando é enterrada. Sobre os cepos eram colocados baldrames feitos de toras de pinheiro. Em cima dos baldrames era pregado o assoalho, de madeira plainada e depois encerada. As paredes externas eram feitas com tábuas de polegada, e as internas com tábuas de meia polegada. Tanto nas paredes internas como nas externas, a fresta entre as tábuas era coberta com mata-juntas, uma espécie de régua larga e comprida. E, como remate de tudo, a casa era pintada com duas mãos de cal.

Embaixo do assoalho ficava o porão, onde era guardado o trigo, o milho, o feijão, dentro de caixas. E no alto da casa ficava o sótão, com uma escada de madeira para se chegar até ele. No sótão, meu pai tinha a mesa de marceneiro, com torno a manivela e todas as ferramentas: plainas, garlopas, formões planos e côncavos, serrotes, serras, pregos, parafusos, sei lá o que mais… Ah, sim, havia também o diamante para cortar vidro, guardado numa gaveta a sete chaves!

Muitas horas eu passei vendo meu pai fazendo móveis envernizados, caixilhos para janelas, cadeiras de palha, bancos de madeira. Mas o maior capricho dele era fazer instrumentos musicais. Fazia violas, violões, bandolins, cavaquinhos e banjos. Até um violino ele chegou a fazer, a pedido de um vizinho regente da banda, mas prometeu que nunca mais faria, dava muito trabalho. O maior era tornar côncava a caixa do instrumento, com vapor de água. Mas o violino que ele fez foi aprovado pelo violinista.

Assim fui percebendo que eu estava numa família diferente, onde a casa de chão batido era coisa ultrapassada. E onde tocar cavaquinho era um desafio posto diante dos meus olhos, entre outros desafios.

Era de certezas e incertezas

Neste tempo de incertezas, anda todo o mundo em busca de alguma certeza. Dentro da pandemia o grau é mais agudo, mas essa é uma situação de que a humanidade nunca conseguiu fugir: o que vai acontecer no futuro é uma pergunta feita o tempo todo. É dela que surgem os adivinhos, os profetas, os filósofos, os cientistas. E também os cronistas…

Estava eu no último ano de faculdade, com toda a sabedoria dos meus 21 anos, diante da prova final de Psicologia Experimental. Havia estudado as teorias todas, dominava a terminologia técnica e enchi três páginas de papel almaço com extrema segurança. Dias depois, recebo do professor a notícia de que ficara para exame de segunda época.

Como achava ter feito uma prova excelente, fui saber dele onde tinha havido falha. Ele me recebeu mansamente e começou com esta frase: “Em Psicologia Experimental não há tantas certezas como você tentou mostrar na prova”. Engoli em seco e me preparei para a segunda época não lendo mais nada sobre psicologia experimental. Diante das novas questões propostas, tratei apenas de limitar as certezas, de dar caráter provisório às asserções e de deixar aberto o campo para outras hipóteses. Ganhei nota dez. Talvez tenha sido essa a lição mais importante de todo o meu curso de filosofia. Vivi na prática o significado da dúvida metódica de Descartes.

Dessa lição, levei para a vida um estado de alerta permanente contra o excesso de certeza, cuidando para não cair no ceticismo, que é o excesso de incerteza. Devo dizer que me fez bem essa receita, tanto para prevenir contra entusiasmos fáceis como contra pânicos igualmente fáceis.

Por incrível que pareça, em todos os campos de conhecimento o risco do excesso de certeza está permanente. A medicina, por exemplo, demonstrou cabalmente que ovos fritos eram os responsáveis pelo colesterol alto, que o café prejudicava o cérebro, entre outras crendices que logo ali adiante foram desfeitas. Nas ditas ciências ambientais, as certezas são tão grandes que se fazem profecias com data marcada para as futuras catástrofes do planeta.

Norberto Bobbio (1909-2004), cuja obra é quase toda concentrada nessa relação entre certezas e incertezas, considera que nenhum problema tem uma solução permanente. E enumera três razões para isso:

“1.Os problemas estão tão interconectados que não se pode resolver um sem que se suscite outro.

2. Não há qualquer acordo sobre os possíveis remédios que poderíamos usar: nós nos perdemos numa desorientação geral.

3. A dimensão dos problemas é tal que a solução de um único deles produz apenas o efeito de uma gota no mar.” (Elogio da serenidade, pag. 199).

Um campo onde parece haver maior crença em certezas absolutas é talvez o da economia. Os economistas tendem a garantir que lidam com uma ciência exata, em que todas as variáveis podem ser observadas, avaliadas e mantidas sob controle. O que não os impede, como observou com profunda ironia um economista francês, de chamar de “milagre econômico” um fenômeno de crescimento que fuja das certezas previsíveis.

Já houve milagre econômico brasileiro, milagre japonês e agora parece que também milagre chinês. Também quando ocorre uma crise, como a de agora, fico espantado de ver e ouvir com que segurança os economistas nos desenham o futuro se adotadas as medidas que todos eles têm certeza de que vão funcionar se forem implantadas.

O melhor remédio contra o excesso de certezas continua sendo o riso, como ensinou Rabelais no início da idade da razão. Ele falava principalmente das certezas dogmáticas, baseadas em crenças. O que ele não imaginava é que as ciências, nascidas da razão, criariam, elas próprias, seus sistemas de crença.

François Rabelais (1494 – 1553) e a teoria do riso

Para usar uma explicação da psicologia, (matéria em que fui reprovado e aprovado!), poderia ser lançada a hipótese de que é o medo, em busca da segurança, que pede a crença em certezas. E o mundo está hoje com muito medo do rumo que vão tomar nossas economias. E todo o resto…

Um mundo branco de neve

O mundo inteiro já sabe que nasci em São Francisco de Paula, num lugarejo chamado Santa Teresa, no então distrito de Tainhas, onde foi lavrada minha certidão de nascimento. Tainhas era o quarto distrito do município, como aprendi na escola. Ou em casa, porque meu pai era professor do ensino primário e as aulas dele continuavam dentro de casa.

A primeira memória visual de que tenho registro foi a de um mundo branco de neve. Estava com meu pai olhando da janela os bonecos e a escadaria de neve no jardim da frente da casa. Meu pai era um jardineiro caprichoso: fez um jardim em plataformas, para dominar o aclive, e desenhou figuras podando com tesoura um arbusto que ele chamava de tuia.

De repente, estando nós dois ainda na janela, despencou um bloco de neve do telhado de tabuinhas, que passou raspando no meu rosto. Levei um susto. Mais tarde fiquei sabendo que essa grande nevasca tinha acontecido em 1942. Estava eu, portanto, com quatro anos de idade.

Outra lembrança marcante, dessa primeira infância, foi um tombo que levei na estrada de terra, por onde se ia até a capela de Santa Teresa. Eu estava bem contente, com uma roupa nova de brim, casaquinho e calça curta, costurada por minha mãe. Bem contente. Mas tropecei numa pedra, ou em alguma raiz, e caí ao comprido, de bruços. Foi talvez a primeira frustração que experimentei em minha vida

Com quatro anos aprendi também a ler, na Cartilha Maternal do poeta português João de Deus. Isso não foi tarefa de meu pai. Foi minha mãe quem me pôs a Cartilha na mão e me ensinou as letras. Dessa Cartilha duas coisas me ficaram na memória. Uma foi o retrato de João de Deus, na página de abertura, com uma barba enorme: em toda a minha infância imaginei Deus com essa fisionomia A outra lembrança foi o poema que encerrava a Cartilha. Decorei todo ele, porque gostei do som das palavras:

“Andava um dia / em pequenino / nos arredores / de Nazaré / em companhia / de São José / o Deus menino / o bom Jesus. // Eis senão quando / vê num silvado / andar piando / arrepiado / e esvoaçando / um rouxinol. / que uma serpente / de olhar de fogo / e incandescente / como o do sol / tinha imantado / tinha encantado”. E assim por diante.

Havia várias palavras esdrúxulas para mim nesse poema: rouxinol, incandescente, imantado. Mas a que mais me intrigou foi a palavra “silvado”, que associei com Silva, o sobrenome de minha mãe. Precisei crescer para descobrir que o silvado de Portugal era simplesmente a “capoeira”, aquela vegetação rústica que eu conhecia nas lavouras.

A face de Deus na Cartilha Maternal de João de Deus

Essa lembrança me daria, décadas depois, outra felicidade. Estava eu em Lisboa e passei na frente de um colégio, de onde saíam gritos de crianças brincando, com o nome de Instituto Superior de Educação João de Deus, na Avenida Álvares Cabral. Entrei porta adentro e perguntei se poderia conseguir um exemplar da Cartilha Maternal de João de Deus. A atendente abriu um amplo sorriso e me trouxe uma cópia fac-símile, que me devolveu ao começo do mundo escrito.

Outra cena de arquivo aconteceu na escola, para onde às vezes eu ia acompanhando meu pai. Estava sentado no último banco de trás, para não atrapalhar ninguém. Nisso chegou um aluno atrasado, a cavalo, que entrou na sala com um chicote na mão. Foi sentar no último banco, onde eu estava, e enfiou o chicote, que tinha uma argola de metal, debaixo das pernas dele, no chão. Deve ter visto minha cara de menino curioso e falou, baixinho:

– Sabe o que é isso? É um rabo de tatu.

– Rabo de tatu? – perguntei, duvidando. – E o tatu já tem essa argola?

– Já – riu ele. – O tatu já tem essa argola no rabo!

Quando descobri a verdade, que rabo-de-tatu era só um apelido do chicote, fiquei meio decepcionado. A versão original era bem mais bonita. Mas fui descobrindo também que as palavras podem inventar coisas!

A Babel da língua universal

No meu tempo de ginasiano, a língua incluída no currículo, por ser considerada universal, era a Língua Francesa. Fiz tantas leituras e estudos em francês que ele terminou por ser minha segunda língua. A ponto de receber de um professor da Universidade de Marselha este comentário, que até hoje não sei se era elogioso: “Vous parlez un français três littéraire, monsieur!” (O senhor fala um francês bem literário!).

Na nossa cidade de Caxias do Sul, o primeiro sinal da entrada da língua inglesa foi a instalação de um ponto de venda de “hot-dog”, de “hamburguer” e de “x-burguer” – o hambúrguer com queijo que entrou na culinária local com o nome simplificado de “Xis”.

A partir daí o inglês começou a entrar na vida cotidiana. É verdade que nesse período se intensificou também o intercâmbio mundial das empresas da Serra. Começou então a oferta de cursos de inglês, que aos poucos foi tomando o lugar do francês, também nos cursos ginasiais.

Eu me dei conta de quanto o inglês engolira o francês quando uma rádio da cidade anunciou a exibição do filme “A Bela da Tarde”, estrelado por Catherine Deneuve e Michel Piccoli. O locutor, caprichando na dicção – como era da cultura da época – anunciou, com pronúncia inglesa dos nomes dos atores:

– Neste sábado, no Cinema Central, o filme “A Bela da Tarde”, com Kéthrin Diníuv e Máiquel Pícoli.

Quando passei a atuar como professor na Faculdade de Letras, o francês era ainda dominante. A Madre Daniélou comandava o ensino da língua e da literatura francesa, com refinada competência. Mas também na Faculdade o inglês começou a tomar conta. A primeira presença, eu me lembro bem disso, foi a inclusão da Enciclopédia Britânica (British Encyclopaedia) na biblioteca. Mas se algum professor ou aluno desejasse consultar um artigo, teria que apelar para um tradutor, e tradutor do inglês era raro!

Com o passar dos anos, e à medida que crescia o intercâmbio universitário com outros países, a língua inglesa foi ocupando todo o espaço. Um derradeiro programa de intercâmbio com o francês como língua oficial talvez tenha sido a criação da Rede Mediterrânea de Comunicação. Foi falando francês que participei de eventos dessa Rede na França, na Espanha, em Portugal, na Itália, na Romênia, na Grécia…

Exatamente na Grécia ocorreu um episódio parecido com o do anúncio do filme “A Bela da Tarde”. A representante grega no evento encaminhou proposta para que a língua oficial do programa passasse a ser o inglês, com o argumento de que essa era a língua universal. Fiz então uma intervenção contundente, falando em francês, é claro:

– O inglês não é uma língua mediterrânea. E se o inglês for adotado como língua oficial da Rede Mediterrânea, eu me desligo dela no mesmo instante!

Tive o apoio unânime de todos os participantes, e o francês permaneceu como língua do Réseau Méditerranéen.

Anos depois, ao voltar de um evento da Rede em Bucareste, na Romênia, em avião da Alitalia, minha esposa se dirigiu ao balcão de embarque falando em italiano, supondo ser essa a língua falada na empresa. A despachante falou, quase com rispidez:

– Speak english, please!

– Ma l’Alitalia non l’è mia italiana?!

– But the english is the universal language!

A primeira língua que se pretendeu universal foi o grego, ao menos no universo ocidental. A segunda foi o latim. O francês foi quase língua universal por causa de seus filósofos e escritores. O inglês foi ocupando esse posto com a revolução industrial, posição que mantém até hoje, com a explosão da indústria do cinema e a expansão dos esportes de berço britânico.

Mas já há duas teorias sobre qual será a língua universal no futuro próximo. Uma diz que será o inglês com sotaque chinês. A outra prevê que vai ser o chinês com sotaque inglês!

Ou então vai ser restabelecida a Babel… Diante desse quadro, a preservação e o cultivo da diversidade linguística se tornam cada vez mais importantes para a saúde social. Viva o português! E também o Talian!

Da cultura eslava à cultura latina

Uma das cidades que mais gostei de conhecer foi Bucareste, a capital da Romênia.

O nome Bucareste tem origem eslava, e significa “lugar alegre” na primitiva língua local. Algo parecido com o nome do nosso “Alegrete”. E o país se chamava Dácia, antes de o imperador Trajano o ter incorporado como província romana, em 104 d.C., dando-lhe o nome de România, que o sotaque dácio mudou para Romênia.

A partir daí, o latim foi aos poucos transformando a língua dácia em língua latina, mas sem a converter totalmente. Na porta do banheiro masculino, por exemplo, está escrito Barbati e, na do feminino, Femei: duas palavras de origem romana. Mas a moeda tradicional do país – ainda não absorvida pelo Euro, adotado em 2007 – se chama “Leu”, e tem mais ou menos o valor de um Real dos nossos.

Até quase metade do século XX, a Romênia conviveu de perto com a cultura da Europa ocidental, em especial a da França e a da Península Ibérica. Bucareste era chamada de “Picul Paris” – Pequena Paris –, tamanha era a empatia entre as duas cidades. E grande parte da literatura produzida foi escrita em francês e em espanhol.

Essa convivência foi rompida quando o regime estalinista a incorporou à República Socialista Soviética, no final da Segunda Guerra. Mas com a Perestroika e a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Romênia respirou fundo e voltou a conviver com seus antigos parceiros do Ocidente.

O primeiro escritor romeno que chegou a meu conhecimento foi Mircea Eliade (1907-1986). Fugindo do regime soviético, viveu em Portugal, onde escreveu o livro intitulado, com toda a precisão, Os romenos: latinos do oriente, escrito em português (Mircea Eliade falava e escrevia em oito idiomas diferentes). Foi professor também na França e, mais tarde, na Universidade de Chicago, cidade onde faleceu. Sua especialidade era o estudo dos mitos e das relações entre a visão sagrada e a visão profana do mundo. Aspects du mythe, edição francesa de 1963, é um de meus livros prediletos.

Depois do conhecimento bibliográfico, tive a satisfação de conhecer a Romênia, e em especial Bucareste, de onde saí encantado.

A primeira imagem que me ficou, quando o avião desceu no aeroporto de Bucareste, foi a de uma planície de trigais recém-colhidos, a perder de vista. Entre eles, tiras de cor verde que, mais perto do chão, deu para ver serem plantações de milho.

Resultado disso é que, nas mesas de Bucareste, o pão é excelente, e a polenta faz parte dos melhores cardápios. Uma polenta igual à que se faz aqui, com aquela farinha grossa herdada dos moinhos de mós de pedra, e a textura macia que ela tem antes de ser frita ou assada.

Mas a Romênia me impressionou em muitos outros sentidos. Duvido que haja no mundo cidade com parques tão numerosos, tão grandes e tão bem cuidados. Outro detalhe surpreendente: no espaço entre a calçada e os prédios, atrás das cercas, não há gramados cultivados como por aqui. Cresce ali uma vegetação espontânea e silvestre, com toda variedade de abelhas, besouros, insetos e cogumelos.

Tive também o prazer de passar quase uma semana na Universidade de Bucareste, participando de um evento na área de Comunicação. A Faculdade de Jornalismo e Ciências de Comunicação foi a primeira criada pela Universidade assim que caiu o regime soviético. O encontro aconteceu no prédio da Faculdade de Direito, o mais antigo da Universidade, erguido em 1857, um verdadeiro monumento arquitetônico.

A Universidade teve três fases em sua história. A primeira começou em 1864, quando foi criada, juntando as Faculdades de Direito, de Letras e de Ciências e durou até 1944, quando a Romênia foi incorporada à União Soviética. A segunda fase inicia com essa incorporação e vai até a queda do Muro de Berlim, em 1989. De lá para cá, vive ela sua terceira fase, com um lema muito significativo: Cultura e Descobrimento.

Nestes últimos trinta anos, o empenho vem sendo o de recuperar espaços e ganhar avanços que foram limitados pelas autoridades comunistas. Elas mudaram o nome de Universidade de Bucareste para o de Academia do Povo da República Romena. E fecharam três Faculdades. Adivinhem quais: a de Teologia, a de Filosofia e a de Ciências Sociais…

Em 1989, “após abusiva desestabilização de departamentos e faculdades”, conforme consta do catálogo atual da Universidade, havia apenas seis faculdades e menos de oito mil estudantes. Hoje, ela se gloria de ter dezenove faculdades, mais de trinta mil alunos e três mil professores. Dados todos que podem ajudar a pensar…

Mas ainda restou a marca do domínio soviético. Passando no centro de Bucareste, o motorista do táxi comentou, mostrando uma fileira de edifícios altos em estilo de caixotes:

– Isso aí é o que sobrou da burocracia estalinista!

Passagem de peões em Lisboa

Em minha primeira estada em Lisboa, dei-me conta de que precisava aprender outra língua para circular na cidade. O bonde é chamado de trem, e o trem se chama comboio. No ponto em que pedestres podem cruzar a rua, uma placa informa: “Passagem de Peões”. A camiseta dos jogadores do Benfica se chama camisola, e por aí vai.

Um dia desses em que tomei um táxi, ou “carro de praça”, o motorista, percebendo que eu era brasileiro, comentou, ao pararmos numa faixa de pedestres:

– Aqui peão é quem anda a pé. No Brasil, peão é quem cuida dos bois. Aprendi isso na telenovela “O rei do gado”.

Nesta semana, dia 30 de maio, o Diário de Notícias de Lisboa publicou um artigo muito inteligente, assinado por Carlos Fino. Há uma passagem em que ele afirma que “a sensação colhida por alguns, em Portugal, quando se passou a assistir às telenovelas, de que o Brasil estava devolvendo aos portugueses a sua própria língua…”. As reticências são do autor.

O título da matéria: Viva a língua portuguesa, na sua diversidade! Tem a minha total concordância.

O autor aponta duas “atitudes inadequadas” no que respeita à língua.

Uma é a de tentar dividir a língua portuguesa em diversas línguas, conforme a variante de cada país. E relata que, já na Primeira República (1889-1930), o Brasil votou e rejeitou uma proposta de se chamar de “língua brasileira” o português falado aqui. Outro movimento nesse sentido, e que dá motivo à matéria publicada, é o de caracterizar o português brasileiro como uma nova língua. Esse movimento está presente no meio universitário, tendo como base “diferenciações de ordem gramatical, morfológica, lexical, fonética, sintática…”

Outra atitude inadequada é a existente em Portugal, onde “é difundida a ideia de que Portugal é o depositário da versão vernácula e os outros teriam de se conformar às nossas normas”. Esse modo de pensar tem levado a episódios de discriminação, como o ocorrido e denunciado recentemente no modo de professores portugueses tratarem alunos lusófonos de outros países. “Fale português”, diziam, quando um aluno fazia pergunta com fonética, sintaxe e morfologia diferentes da de Portugal…

O articulista concluiu suas considerações de forma incisiva:

“Não há donos da língua, uma vez que ela é de quem a fala. […] A diversidade é um valor inestimável a preservar e defender sem ambiguidades – só nessa base a Lusofonia terá futuro e a língua portuguesa continuará a ser um património comum de que todos se orgulham e compartilham e a todos mutuamente enriquece como capital cultural distintivo no mundo inteiro”.

Cito e assino embaixo. A palavra Património, grafada acima com acento agudo, conforme o original, remete a uma outra “atitude inadequada” ocorrida quando da assinatura do acordo ortográfico alguns anos atrás. O acordo já foi denunciado de várias formas, e chegou a ser chamado de “desacordo ortográfico”.

Património” é pronunciado em Portugal com som aberto, e no Brasil com som fechado. Como grafar então da mesma forma? Se tomarmos a palavra “prêmio”, a situação fica ainda mais complexa. Sem acento, a palavra passa a ser o verbo “premiar” na primeira pessoa do indicativo. O acento é então necessário. E qual deles? O agudo ou o circunflexo?

Em resumo: tentar dividir em diversas línguas é inadequado, mas tentar criar uma uniformidade, mesmo que seja somente para a escrita, também o é: “Viva a língua portuguesa, na sua diversidade!”

Mesmo que seja nas placas de trânsito e na denominação dos meios de transporte…

Dois invernos bem diferentes

O poeta Jorge de Lima, alagoano, autor do monumento épico-lírico intitulado Invenção de Orfeu, escreveu um poema sobre o inverno. O inverno que ele avistava mudando as cores da Serra da Barriga, para a qual escreveu também versos saudosos:

“Serra da Barriga!

Te vejo da casa em que nasci.”

Seu poema sobre o inverno nordestino, onde a neve nem chega perto, e tem a chuva como sinal de sua chegada e presença, começa assim, em ritmo de dança no terreiro:

“ZEFA, chegou o inverno!

Chuva e mais chuva, Zefa!

Vai nascer tudo, Zefa!

Vai haver verde,

verde do bom,

verde nos galhos,

verde em ti, Zefa,

que eu quero bem!”

Já o meu poema sobre o inverno vivido na Serra Gaúcha contrasta frontalmente com o de Jorge de Lima. No dele, tudo fica verde. No meu, tudo fica branco. E com outro ritmo. Não resisto à tentação, neste quase início de junho, com o frio já batendo na porta com toda força, de mostrá-lo às minhas leitoras e aos meus leitores.

Junho, solta-se o vento assobio,

de lambada cortante, repontando

para dentro o que disperso estivera:

o gado no coberto, e o cavalo;

o pessegueiro reflui em si mesmo,

a pastagem para dentro do chão;

também o homem vai para dentro

da casa, e para dentro de si.

Se antes o viras cheio de rompante,

agora discorre em silêncios compridos;

se antes sua língua adaga feria,

ora em mel se dissolve, língua favo.

Mesmo o ódio sai entredentes

semelhando oração murmurada.

E se prestares ouvido, ouvirás

que está ele sempre falando, dentro.

E sua vida toda brota, a mais funda,

e escorre, lenta, pelos olhos baixos,

pelo gesto parado, pelos lábios

mal apenas movidos sob os bigodes.

Em fogo se tempera o ferro, metal;

em gelo o homem, e o pessegueiro:

a casca endurecida, em defesa

à elaboração íntima, de retorta,

que pelo silêncio e asperezas

pareceria de ódio retrabalhada.

E se o vires num poncho enrolado

semelhará a cobra na toca,

o veneno refinando, em si guardando:

melhor é não tocar na pele fria.

Ninguém poderá saber, sabido,

o que destila o coração retorta:

se mel, se veneno, ambos bucais

mas só provados depois de cuspidos.

Sabendo as manhãs, nenhuma é branca

como no inverno: branco rebuscado

de cristais, rendas, vestidos de noivas

ou bem de batizado, de batismo.

O inverno é reconcentrado: tem ritos

de purificação, com vestes alvas,

árvores penitentes, despojadas,

penitência com requintes de frio.

Dois invernos bem diferentes, não é mesmo? Isso é Brasil!

A cerração e suas evocações

A cerração que cobriu a Serra na segunda-feira de manhã, embrulhando a cidade de Caxias do Sul no seu véu úmido, me trouxe um rol de evocações.

A primeira, e não podia deixar de ser, foi a da minha infância em São Francisco de Paula. Nossa casa ficava na Boca da Serra, como se dizia, e quando chegava a cerração, ela durava no mínimo três dias. E era tão espessa que não dava para ver a estrebaria da janela da cozinha. O bom é que a gente passava o dia perto do calor do fogão, comendo pinhão assado na chapa. E algum pé-de-moleque.

A segunda foi a do filme Amarcord, de Federico Fellini, título que no dialeto de Rimini, lugar da infância do cineasta, significa eu me lembro. Pois o filme é repleto de evocações pessoais de Fellini e, não por acaso, envoltas em neblina.

Uma terceira evocação veio à tona ao lembrar a surpresa de um professor que veio de São Paulo para trabalhar na UCS. Um dia ele comentou comigo que estava espantado com o nevoeiro que ele via da janela do apartamento, avançando e cobrindo toda a paisagem. Tanto que um dia ele filmou o fenômeno para enviar aos colegas e amigos dele de São Paulo: “Lá é a terra da garoa, aqui é a terra da cerração”, sentenciou ele.

Neblina, névoa, nevoeiro, bruma, cerração: são muitos os sinônimos desse comportamento climático que envolve a Serra Gaúcha. Mas para quem acha que cerração é um regionalismo serrano, o Dicionário Houaiss informa que é um vocábulo do século XIV. Pode ser usado sem susto!

A evocação mais poderosa foi a quarta. Há uns quarenta anos, acompanhei um estudo sobre qual a melhor localização de um aeroporto de porte internacional na região, combinando ao mesmo tempo duas variáveis fundamentais: melhores condições climáticas e maior proximidade dos potenciais usuários.

Na época, o grupo técnico, focado em planejamento regional, era composto de cartógrafos, geógrafos, economistas, mais algum curioso. Na época, também, não havia imagens de satélite. Havia a cartografia do Exército, feita por aerofotogrametria, e também registros das estações climáticas. Mesmo rudimentares, eram ferramentas confiáveis.

Lembro bem que havia um dado consensual: por efeito do rio das Antas e do rio Caí, em toda área que ia do então Mato Sanvito – hoje bairro Cidade Nova – até Vila Flores, era inviável o aeroporto, porque a neblina podia surgir a qualquer momento e ser tão espessa a ponto de tirar qualquer visibilidade para pouso e decolagem.

Na ocasião, eram apontados dois locais possíveis. O mais próximo era em São Gotardo de Flores da Cunha, onde, por alguma razão que ninguém me explicou, era (ainda é?) rara a formação de neblina. Um piloto amador, que comparecia no grupo, confirmava: ele decolava o teco-teco debaixo de cerração e, chegando a São Gotardo, o céu estava quase sempre limpo. Mas São Gotardo era excluído como possibilidade porque estava, já, num processo de “conurbação” intenso: era assim que os técnicos explicavam. Sobrava então, como ponto mais adequado, algum lugar na direção dos Campos de Cima da Serra.

A opção por Vila Oliva era já pensada dentro do grupo de estudos, no caso de se pretender que o aeroporto internacional regional atendesse também a região de Gramado e Canela, que, todos sabem, fica mais próxima de Vila Oliva, em linha reta, do que a cidade de Caxias.

Essa proposta conflitava com outra: assim como Caxias do Sul, a região das Hortênsias e também a região dos Vinhedos sonhavam com o aeroporto internacional ao pé de casa. A solução seria, então, a construção de três aeroportos…

Um professor italiano, com quem eu comentei essa dificuldade que tínhamos de pensar e agir em conjunto, me respondeu com um sorriso de quem conhecia muito bem a história: “È come in Italia, ciascuno nel suo campanile”. Traduzindo: é que nem na Itália, cada um debaixo do seu campanário!

Ainda bem que as coisas tomaram o rumo certo, e o aeroporto regional em Vila Oliva parece não sofrer mais contradição.

Transmissão do TALIAN pelas três últimas gerações

Uma pergunta que me foi feita por estes dias foi esta: “Os descendentes dos imigrantes continuam a transmitir o Talian dentro de suas famílias?” Trata-se, sem dúvida, de uma pergunta chave dentro de uma política de preservação da língua como signo de identidade cultural.

Como resposta a ela, há um estudo feito pelo jornalista Tales Giovani Armiliato para sua dissertação de mestrado na Universidade de Caxias do Sul, no ano de 2010. Há uma década apenas, o que lhe confere algum grau de atualidade. Acompanhei bem de perto sua pesquisa como professor orientador.

O autor a colocou em domínio público, em matéria com este título: A Comunicação no Rádio e a Preservação de uma Identidade Linguística Regional: o Talian. O texto integral do estudo está, portanto, ao alcance dos interessados.

Ao resumir a história do Inventário do Talian como patrimônio imaterial brasileiro, acentuei a importância do papel dos programas de rádio em língua Talian naquele processo. Pois o estudo de Armiliato toma por base o programa Cancioníssima, veiculado pela Rádio São Francisco SAT, de Caxias do Sul. O programa foi criado nos anos 80 pelo Grupo teatral Miseri Coloni, buscando “preservar a cultura, a história e a língua Talian dos imigrantes italianos que chegaram à região da serra em 1875”, como refere o autor.

A pesquisa não ficou no plano linguístico, mas na dimensão sociocultural adquirida pelo programa. Nesse sentido, a pesquisa se deteve num exame detalhado do “perfil dos ouvintes”. Entre os entrevistados, estavam ouvintes de Caxias do Sul e de mais dez municípios da região, e até mesmo de um de Santa Catarina, que acompanhavam o programa.

Uma das perguntas feitas a cada ouvinte entrevistado foi precisamente esta: como foi feito por ele o aprendizado da língua Talian. Dos dados recolhidos, foi possível esta constatação: quase cem por cento da primeira geração, a dos avós, ensinou o Talian aos filhos; já na segunda geração, a dos pais, o número caiu quase pela metade, sendo pouco mais de cinquenta por cento os que transmitiram a língua; e na terceira geração, o número teve outra queda: menos de trinta por cento repassou o aprendizado da língua à geração seguinte, em que apenas oito por cento entendia e falava o Talian.

Questionados sobre o motivo de acompanharem o programa Cancioníssima, a grande maioria dos ouvintes respondeu que ele evocava lembranças de família. Mas, conclui Armiliato em seu estudo: “O rádio não ajuda na transmissão do Talian, mas na sua valorização. Portanto, auxilia na preservação”.

Estudos sobre a língua Talian continuam sendo objeto de interesse dentro de várias universidades. Mais de uma vez tenho sido convocado para contribuir com pesquisas sobre o tema. De uma delas é que me veio a pergunta citada no começo…

Outra pergunta recebida foi: “Que ações apontaria como importantes para a valorização do Talian como patrimônio cultural?”.

Repito aqui minha resposta:

yes A primeira, reconhecê-la como língua oficial em cada município onde haja falantes e/ou difusores do Talian.

yes A segunda, criar um sistema de ensino da língua, de forma presencial nas escolas, e também nas redes sociais.

yes A terceira, estimular a produção de textos em Talian, podendo ser criados concursos com esta finalidade.

A transmissão da língua, quase interrompida pela via familiar, pode ser retomada por outros instrumentos. Mas o povo que foi capaz de criar uma cultura será capaz também de a reavivar!

Inventário do TALIAN: um pouco de história

O interesse pelo resgate do Talian, a língua comum criada nas regiões de imigração italiana, foi reativado por ocasião da celebração do centenário da imigração, ocorrido em 1975. A Universidade de Caxias do Sul criou um instituto de pesquisas, com a parceria da Universidade de Veneza. E um dos temas desenvolvidos foi o estudo dos dialetos italianos de toda a região e da língua comum deles resultante.

Essa língua foi chamada de “Dialeto Vêneto Sul-rio-grandense”, no Dicionário de Alberto Vitor Stawinski, que teve uma edição preliminar em 1976, e uma nova edição, acrescida de “breves noções gramaticais”, em 1987.

No livro Dialetos Italianos, de Vitalina Frosi e Ciro Mioranza, resultado de pesquisa de março de 1973 a julho de 1979, os autores apontam as características dos diversos dialetos italianos trazidos para a região do Nordeste do Rio Grande do Sul. Para a língua comum, resultado do entrecruzamento dos dialetos e da incorporação de elementos do português, Frosi e Mioranza usaram o termo técnico da dialetologia: koiné, palavra grega que significa língua comum a diversos lugares.

Nesse período de celebração do centenário, surgiram também diversas entidades voltadas para o resgate e a preservação das tradições dos imigrantes, em vários pontos do estado. Uma delas foi a FIBRA-RS, Federação das Associações Ítalo-Brasileiras do Rio Grande do Sul, fundada em 16/12/1995 em Serafina Corrêa. É dentro desse ambiente que a designação Talian, para a língua gerada nas regiões de imigração italiana, aos poucos toma corpo e se consolida.

Em 2000 foi promulgado pelo Governo Federal o Decreto nº 3.551, que criava o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial e o Programa Nacional da Cultura Imaterial, inspirado nas recomendações da Unesco, feitas alguns anos antes.

A FIBRA-RS aproveitou a oportunidade e encaminhou ao IPHAN – Instituto da Patrimônio Histórico e Artístico nacional -, o pedido de registro da língua Talian.

Como o patrimônio imaterial linguístico não estava incluído no Decreto, foi realizado um seminário em março de 2006, em Brasília, sob a coordenação da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos deputados, para discutir a questão. No final do Seminário, foi criado o Grupo de Trabalho da Diversidade Linguística do Brasil (GTDL).

No ano seguinte, o GTDL lançou o programa de Inventário Nacional da Diversidade Linguística, incluídas aí as línguas indígenas, as línguas de imigração, as línguas de sinais e as variantes da língua portuguesa no Brasil. O GTBL lançou também um roteiro para realização do inventário, como mecanismo de reconhecimento patrimonial, para constar no Livro de Registro de Línguas do IPHAN.

Depois de diversas tratativas, com reunião em Brasília em 6 e 7 de maio de 2009, para a qual fui convidado, o Talian foi escolhido para ser o projeto piloto de inventário de línguas alóctones, ou seja, línguas provenientes de imigração.

Convite oficial para o evento do IPHAN em 2009

Em abril de 2010, foi concluído esse Inventário do Talian, com recursos destinados pelo IPHAN. Ele foi coordenado pela UCS, tendo a parceria do Instituto Vêneto, de Caxias do Sul, junto com a FIBRA-RS.

No relatório final, produzido pela equipe interdisciplinar que realizou o inventário nos três estados do Sul, e com base em 1.100 questionários respondidos, constam informações como estas:

– em que estados e municípios do Brasil se localizam falantes do Talian;

– como está o processo de preservação, difusão e promoção da língua;

– com que suportes conta o Talian, seja de instituições públicas ou da sociedade organizada;

– o que existe na literatura de publicações na língua;

– teses, dissertações e outros estudos sobre a língua;

– acervos e depositários do Talian;

– levantamento de palavras representativas do Talian que permanecem na memória coletiva.

Uma importante fonte para a realização desse Inventário foram os programas de rádio transmitidos em Talian. Radialistas filiados à Associação dos Difusores do Talian – ASSODITA – que na época englobava mais de duzentos comunicadores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, foram fundamentais, tanto para a realização do Inventário quanto para reforçar o pedido de registro pelo IPHAN. Foram localizados programas em Talian também nos estados do Espírito Santo, da Bahia e de Tocantins. Efeito das migrações internas acontecidas a partir dos anos 70 do século passado.

Depois de muito empenho e de uma longa espera, finalmente foi aprovado o registro, quase quatro anos depois, em novembro de 2014, com festas pelo Brasil inteiro e também na Itália.

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