Herança cultural polonesa

“Nos peraus do Rio das Antas”

Ao escrever aqui sobre a cultura culinária das margens do Rio das Antas, faltou acrescentar um registro muito importante: a presença polonesa ao longo do rio, passando por vários municípios, desde Veranópolis até Santa Tereza.

E como era a Polônia na época da vinda desses imigrantes?

Situada no nordeste europeu, a Polônia foi objeto de cobiça de países vizinhos, desde o século XVIII até a disputa entre nazismo e comunismo, com Hitler de um lado e Stalin de outro. Seu território é uma extensa planície de terras próprias para o cultivo de cereais, e isso contribuiu, sem dúvida, para que houvesse essa disputa.

A partir de 1775, ela foi riscada do mapa das nações independentes, com sua partilha entre três potências europeias. Com essa submissão, os camponeses tinham cada vez menos acesso às terras. Abria-se assim o caminho para a emigração em massa. A partir de meados do século XIX é que se registra o maior fluxo emigratório polonês.

Os primeiros a migrar para o Rio Grande do Sul vinham da região dominada pela Prússia, e com passaporte desse país. Em 1875, 26 famílias estabeleceram-se na Colônia Conde D’Eu (Garibaldi). Em 1884, outro núcleo fixou-se na Colônia Santa Tereza, na Linha José Júlio. A maior parte dessa corrente imigratória foi encaminhada para terrenos no vale do Rio das Antas.

Os poloneses não tiveram nenhum tipo de apoio oficial para a emigração. Como não tinham alternativa, a não ser emigrarem com a cidadania russa, boêmia ou prussiana, fica difícil definir o número de poloneses entrados no Brasil. No Rio Grande do Sul entraram cerca de trinta mil entre os anos de 1889 e 1914, conhecido na Polônia como “o período da febre brasileira”.

Os poloneses foram distribuídos em áreas em que predominava a cultura de proveniência italiana, tanto por número como por precedência. Com essa dispersão, os poloneses não chegaram a constituir uma cultura peculiar, dentro de um território próprio, como as oriundas das imigrações alemã e italiana.

À situação de inferioridade numérica e de dispersão, acresciam-se outros fatores a dificultar a adaptação ao novo ambiente. João Ladislau Wonsowski, que estudou detidamente a presença polonesa no Vale do Rio das Antas, aponta três deles: a língua, a falta de domínio tecnológico para a agricultura em terrenos íngremes e a falta de assistência religiosa. Sua obra se intitula, não por acaso, Nos Peraus do Rio das Antas (1956/1976).

A inadequação da tecnologia agrícola trazida é assim caracterizada por Wonsowski:

“Na Polônia eram acostumados a cultivar terras planas, sem inços e sem pedras. Lá aravam, gradeavam e semeavam. E aqui? Antes de tudo, tinham de desmatar para arranjar um pedaço de terra cultivável. Mas de que maneira iam dominar o mato? Alguns quiseram valer-se dos métodos empregados na Polônia. Puseram-se a derrubar árvores e arrancar tocos. A tentativa fracassou completamente. Tiveram, então, de seguir o sistema em voga entre os imigrantes italianos: cortar o mato, deixar secar e queimar; e só então lançar a semente no roçado”.

A língua, de tipo eslavo, criou dificuldades para a comunicação e era também motivo de discriminação. Como grupo minoritário, os poloneses é que deviam aprender uma nova língua.

Na cultura polonesa, a religião sempre foi um dos valores básicos de sustentação das famílias e das comunidades, com a presença confortadora do padre católico. Nisso também os poloneses enfrentaram uma carência. Os sacerdotes que atendiam as colônias não falavam polonês. O Pe. Giosué Bardin, pároco nomeado para Santa Tereza, em 1887, empenhou-se em aprender o idioma. De acordo com os registros, foi o único a dar assistência espiritual aos poloneses, circulando pelas capelas e visitando famílias polonesas de todas as colônias.

Por esses fatores, além de outros possíveis, a maioria dos poloneses foi progressivamente abandonando suas primeiras propriedades, num processo de migração interna, na direção da região noroeste do Rio Grande do Sul. Para terras mais planas! Os que permaneceram, assimilaram em definitivo a cultura da imigração italiana, da fala à alimentação, dos usos e costumes à ordem dos valores. Para isso contribuiu a prática dos casamentos interétnicos, levando para o seio da família o processo de assimilação.

Ficaram, portanto, somente “traços culturais” da tradição polonesa, sutilmente escondidos dentro da cultura dominante. Traços que estão presentes também em alguns pratos da culinária…

A linguagem da culinária

A analogia da cozinha com a linguagem pode revelar surpresas culturais inimagináveis

De acordo com Massimo Montanari – docente de História da Alimentação da Universidade de Bolonha, Itália -, a culinária pode ser comparada com a linguagem.

Como a linguagem, ela possui:

– vocábulos: os produtos e os ingredientes utilizados;

– regras gramaticais: as receitas, que organizam e dão sentido aos ingredientes, transformando-os em pratos;

– regras sintáticas: os menus, que determinam a ordem ou a sequência dos pratos;

– regras de retórica: definidoras dos comportamentos sociais a serem observados no comer.

Mas a analogia da cozinha com a linguagem pode ir além do plano estrutural e técnico: ambos os sistemas, o linguístico e o culinário, possuem valores simbólicos e de natureza diferente: econômicos, sociais, étnicos, estéticos, religiosos e outros. E, como a língua falada, todo sistema alimentar contém e expressa a cultura de quem a pratica, aí incluídas suas tradições. Assim, o sistema alimentar funciona como elemento de identidade do grupo.

Várias pesquisas foram realizadas pelo Projeto ECIRS nessa perspectiva, ou seja, observando todos os elementos estruturais da linguagem da cozinha. Uma delas, que foi premiada com sua publicação, teve como objeto A Cozinha Colonial do Rio das Antas.

Livro resultou de pesquisa desenvolvida pelo Projeto ECIRS

A ênfase no caráter “colonial” dessa cultura culinária faz sentido porque todo o vale do Rio das Antas foi ocupado por colonos italianos, dez anos depois de iniciada a imigração. Essa área, de loteamento tardio, era considerada “sobras de terra”, por serem consideradas de mais difícil cultivo. Depois de ocupadas as áreas de mais fácil cultivo, também elas foram loteadas e distribuídas.

A formação do “vocabulário”, isto é, a definição dos ingredientes para a cozinha, passou por dificuldades em seu início. Primeiro, porque, como um velho imigrante relatou ao cônego Barea (que depois seria o bispo Dom José Barea), “se não tivesse os pinhões, não sei como ia terminar”. Segundo, porque os gêneros oferecidos pela administração das colônias, para matar a fome nos primeiros dez dias, eram muito estranhos para os imigrantes: é o caso do feijão-preto e da farinha de mandioca, desconhecidos para os recém-chegados, e do charque, que não era nem um pouco palatável para eles.

O primeiro passo na definição de ingredientes da cozinha regional foi o recebimento de sementes para as primeiras plantações. Relatório de 1877, do Ministério da Agricultura (onde Machado de Assis era funcionário!), registra a distribuição de sementes de trigo e de centeio, para as colônias Conde d’Eu (hoje Garibaldi), Dona Isabel (hoje Bento Gonçalves) e outras.

Da variedade de sementes, surgiu a primeira “regra gramatical”, ou receita, da cozinha colonial: a minestra. (Obs.: a palavra “minestra” está dicionarizada no Houaiss!). Dentre as sopas, ficaria famoso o “minestron”, feito com vários tipos de cereais e legumes: feijão de cor, milho verde, arroz, cevada, repolho, batatas, cenoura, cebola, tudo misturado. Essa sopa de cereais, com inúmeras variações, foi, por quase um século, o prato principal da janta do imigrante italiano e de seus descendentes.

Mas é claro que a saborosa cozinha das colônias italianas não ficou na minestra. Mil variantes aconteceram, com diferentes marcas locais. Sem falar nos segredos da “Nòna”, transmitidos, sob rigoroso controle, como herança de família…

“Canti Rústeghi”: poemas tecidos em Talian

Resgatar e preservar a língua dos imigrantes passa pela reedição de obras cruciais

A Língua Absolvida é o título de uma das obras mais bonitas de Elias Canetti. O autor escreveu também o livro Massa e Poder, com o qual mereceu o Prêmio Nobel, livro que, como costumo dizer, é um dos dez que eu guardaria comigo se fosse obrigado a ter só dez livros.

A Língua Absolvida é outra obra imprescindível. Canetti nasceu na Bulgária e aos oito anos já tinha de lidar com quatro idiomas. É a sina de quem usa uma língua situada nas franjas do poder etnopolítico: a de obrigar-se a pôr de lado a língua que lhe dá identidade.

Nossa cidade de Caxias do Sul e esta região, durante meio século, tiveram sua própria língua, popularmente chamada de Talian, empurrada para os porões por esse poder etnopolítico. Outro meio século depois teve início o seu resgate, levado adiante por iniciativas localizadas de algumas pequenas organizações. Até que, por iniciativa do IPHAN, seguindo diretriz da Unesco, foi implantado um programa de resgate da diversidade linguística do Brasil.

A primeira língua reconhecida como patrimônio nacional nesse programa foi o nosso Talian, denominação que se impôs por razões etnográficas e linguísticas. Tornou-se assim uma “língua absolvida”!

Outra experiência histórica de “absolvição” de uma língua aconteceu na Provença, com a liderança de Frédéric Mistral. Enquanto na França se falava a langue d’oui, na Provença o idioma era a langue d’oc, assinalando com essa denominação uma sutil diferença para dizer “sim”. Da langue d’oc veio a designação “occitano”, a língua usada pelos poetas provençais, iniciadores na Europa de uma poesia em língua vulgar, sem usar o latim.

Pois o occitano passou a ser uma língua condenada na França, quando Napoleão se tornou imperador. Foi então que Mistral criou um grupo em sua defesa. Criaram o Almanaque Provençal, publicação anual, do grupo, lançaram um grosso dicionário provençal-francês, e promoveram um concurso anual, na Provença, de textos escritos em occitano.

O ponto culminante foi um longo poema épico de Frédéric Mistral, Mirèio, escrito em provençal. Para surpresa do próprio autor, a obra fez sucesso até em Paris, onde o consagrado escritor Lamartine publicou um texto em jornal com o título: “Um grande poeta épico nasceu”. E Charles Gounod compôs uma ópera, com o título francês de Mireille, baseada no poema.

Depois disso, o grupo fundou um jornal, o Aïoli, que é o nome de um molho de azeite típico da Provença. Cheguei a cogitar que se podia lançar um jornal em Talian com o nome de Tócio, que é o molho típico das colônias italianas!

Não cheguei até esse ponto, mas um pouco eu já fiz, ao publicar, em edição bilíngue, os poemas de Canti Rústeghi, com tradussión de Cleodes M. Piazza Ribeiro e ilustrassión de Valdir dos Santos. Foram impressas quinhentas cópias numeradas na gráfica da Universidade de Caxias do Sul. E as ilustrações foram todas impiturite a man. Isto é, não foram impressas, mas pintadas individualmente para cada exemplar.

“CANTI RÚSTEGHI”, lançado em 1993

E tudo isso em 1993, vinte anos antes do reconhecimento do Talian como patrimônio linguístico nacional pelo IPHAN.

Agora, falta o passo seguinte: iniciar um processo dinâmico de recuperação desse patrimônio, a começar por nossas escolas. O ponto de partida, na minha opinião, seria pôr novamente em circulação tudo o que já foi publicado em Talian e sobre o Talian. Por exemplo: “Os pesos e as Medidas”, de Italo Balen; o “Nanetto Pipetta” e seus derivados; o “Dicionário Vêneto-Português”, de Alberto Vitor Stawinski, publicado em 1984, quando a designação oficial de Talian ainda não existia. E, é claro, os Canti Rústeghi, dos quais vai uma amostra, em português e em Talian:

ACIMA PIÙ IN SÙ

Acima das louras lavouras Più in sù dele bionde colònie

de trigo e de milho de formento e de panòcie

acima das empinadas encostas più in sù dele rive

a que se agarram parreirais co’i vignai tacadi sù

acima dos telhados das casas più in sù dei coerci dele case

tão vacas plácidas e prenhes che par vache pacifiche e colme

acima, bem acima, está a igrejinha in sù, più in sù, la cieseta

com seus santos co’o sô santi

rubicundos e terrenos rossi, i par persone

e acima da igrejinha E più in sù dela cieseta

o falo cantante do campanário. ‘l batòcio del campanil che canta!

Um inventário do Talian

Dialeto falado pelos imigrantes italianos na Serra Gaúcha é patrimônio linguístico brasileiro

Quando Italo Balen escreveu seu precioso livro Os Pesos e as Medidas – a que deu o subtítulo de Poemeto Caxiense da Década de Vinte –, sua intenção era, como deixou registrado em dedicatória “Ao Leitor”, oferecer sua modesta participação para dar testemunho “de um dos aspectos básicos da cultura de Caxias de antanho”.

Por volta de 1920 e 1930, nessa “Caxias de antanho”, todos falavam, além do português, uma segunda língua, identificada então simplesmente como “dialeto”, e que era uma mistura de diferentes dialetos locais trazidos da Itália, com predominância absoluta do vêneto, junto com palavras retiradas da língua portuguesa.

A obra fundamental de Italo Balen

Moysés Vellinho, que escreveu o prefácio do livro, conta que, desde 1912, guri ainda, tropeçava nas pedras soltas e escorregava no barro das ruas de Caxias, que “não passava de uma cidade de tábua”. Moysés Vellinho veio para Caxias quando era intendente João Penna de Morais (1912-1914), seu padrinho, e tio por parte de mãe. Mais tarde voltaria a Caxias como promotor público, entre os anos de 1925 e 1930.

Esse mesmo testemunho, da existência de uma segunda língua geral em Caxias, é dado por Vellinho. Transcrevo o parágrafo inteiro: “Seria pena que, do ponto de vista do processo aculturativo, tudo se fosse perder com o tempo, e se desmanchar de todo, se alguém, de ouvido alerta, mais interessado nos fatos de natureza cultural que no sacrifício inevitável das araucárias e na faina das serrarias, não andasse recolhendo e guardando, antes que fosse tarde demais, o rude e saboroso falar em que as primeiras levas se entendiam”.

Observe-se sua ironia a respeito das leis que preservam as araucárias e, de outro lado, não cuidam da preservação de um patrimônio cultural, como as línguas. Isso escrito pouco antes de seu falecimento, ocorrido em 1980. Mas as coisas vão mudando também nisso. Desde que a Unesco lançou um alerta mundial sobre a necessidade de salvar as línguas em extinção e sobre a importância de ser preservada a diversidade linguística, o governo brasileiro vem adotando medidas nesse sentido.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que atende pela sigla IPHAN, implantou, na virada do século, um programa de inventário da diversidade linguística brasileira: nele estão contempladas, além das línguas indígenas, afro-brasileiras e de sinais, também as línguas de imigração.

Por uma dessas circunstâncias que seriam do acaso, se o acaso existisse, coube a mim, que em minha infância sequer ouvi uma palavra que não fosse em português, coordenar o trabalho de inventário nacional do Talian, nome já oficialmente adotado para designar a variedade linguística criada nas colônias italianas do Rio Grande do Sul e daqui disseminada, com as migrações, para grande parte do território nacional.

Sob o guarda-chuva da Universidade de Caxias do Sul, e com a parceria do Instituto Vêneto de Caxias do Sul, criado por Luís Brambatti, uma equipe empolgada de pesquisadores trabalhou com a certeza de estarmos todos fazendo história.

O êxito do trabalho foi total. Em novembro de 2014, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico – IPHAN – acolheu o pedido e o Talian foi reconhecido oficialmente como integrante do patrimônio linguístico brasileiro, na categoria das línguas de imigração. A primeira a chegar ao pódio! Uma vitória tanto mais emocionante quanto mais se sabe a restrição que essa língua teve no passado, levando-a à beira da extinção.

Mas para que o Talian se mantenha como língua viva, não basta o reconhecimento oficial. Ele deve ser posto de volta nas ruas, nas casas, nas escolas, nos meios de comunicação. Sem acanhamento. Ao contrário, com a consciência de que estamos dando valor a um tesouro do maior preço.

Defendo, inclusive, a criação de uma instância em nível nacional, que facilite o intercâmbio entre falantes e promotores do Talian e permita a articulação de estratégias conjuntas que evitem a excessiva fragmentação.

Tal instância poderia chamar-se Instituto Nacional do Talian, que integraria vários tipos de participantes: universidades que tenham alguma vinculação, de caráter histórico, geográfico ou de pesquisa, com o Talian; entidades culturais e sociais de todo o país que tenham como objetivo a preservação do patrimônio cultural da imigração italiana; órgãos de comunicação que mantenham programas de valorização do Talian e, também, pessoas isoladas, como professores, estudiosos, artistas e outros interessados.

Ainda chegaremos lá!

Do romance ao filme

José Clemente Pozenato celebra as bodas de prata da transposição de seu livro “O quatrilho” para o cinema

Desde que Méliès, em 1902, resolveu contar em filme a história da Cinderela, e Griffith, em 1915, levou para as telas O nascimento de uma nação, iniciou-se no cinema a caçada em busca de narrativas. Elas foram perseguidas no lendário popular, nas notícias de jornal, nos faits divers, nas memórias individuais e coletivas, na História, na Bíblia, no teatro e, não poderia ser diferente, no romance.

Até porque o romance, nascido num caldo cultural semelhante ao do cinema, parecia oferecer um tipo de narrativa já próximo do modelo da narrativa cinematográfica, desde que feita a devida adaptação. E desde então existe, também, uma discussão jamais concluída sobre quais devam ser as relações entre romance e filme. Se toda tradução já é uma traição, o que dizer de uma adaptação?

Um estudioso do problema, Alain Garcia (ver L’adaptation du roman au film – Diffusion, Paris, 1990), caracteriza pelo menos três modos de adaptar um romance para o cinema: a adaptação propriamente dita, a adaptação livre e a transposição. Esses modos são, na realidade, três graus diferentes de proximidade da narrativa original, sem que em nenhum deles se possa falar em fidelidade.

Adaptar é já ser infiel em algum grau. Adaptar, diz Henri Lemaître em seu dicionário de Literatura Francesa, “é uma operação que consiste em recompor uma obra em um modo de expressão diferente do original: o filme Le rouge et le noir de Claude Autant-Lara é uma adaptação cinematográfica do romance de Stendhal mantendo o mesmo título (…)”.

Vivi de perto essa experiência na adaptação do romance O quatrilho. Antônio Calmon, experiente cineasta e roteirista, autor do chamado primeiro tratamento antes do roteiro, me fez este comentário: desse romance é possível fazer quatro filmes diferentes, vamos ter que escolher um. Nem mesmo o título estava garantido (durante a produção, chegou a ter o título secundário de “Trocando Corações”).

Duas cenas do roteiro final (assinado por Leopoldo Serran), e das mais fortes do filme, não aparecem no romance. Uma delas é quando o personagem Gardone desmancha e queima a cômoda que era a imagem visual da relação de sua mulher com o outro. E a cena dramática da personagem Pierina enfrentando o padre diante dos fieis também foi “transposta”. No romance, toda a fala da Pierina é dita na sacristia, aos sussurros, tendo apenas o sacristão como testemunha.

“O Quatrilho” foi filmado na Serra Gaúcha em 1995

Nos dois casos, o roteiro encontrou uma forma de expressão característica do cinema: aquela em que a narrativa entra pelos olhos, literalmente, e de forma espetacular. O que mostra que o dilema do romancista, de colocar com palavras a cena diante do leitor, está no sentido inverso do dilema do cineasta: como apenas sugerir, à maneira do romance, com imagens escancaradas na tela?

No Brasil o cinema não teve a dimensão que teve nos Estados Unidos, onde a produção de seriados sobre o mesmo tema e suas variações, ao lado das superproduções, serviu de base para uma verdadeira indústria do entretenimento. Aqui, como acontece também com o romance, o cinema foi encarado como obra de arte, nunca como um produto industrial.

Assim, a demanda por narrativas para alimentar uma produção em grande escala, nunca se fez sentir. Os ciclos do cangaço ou da chanchada foram os que mais próximos estiveram dessa situação, sem nunca terem de fato se consolidado.

Nesse contexto, a produção de roteiros com base no “roteiro” de um romance, aparentemente pronto para ser transposto, parece de fato o caminho mais acessível para o cinema. O mais acessível e também o mais limitador. Como romancista, posso dar a impressão de estar dando um tiro no meu próprio pé ao sugerir que o cinema vá buscar narrativas fora do campo das narrativas literárias. Mas, se é verdade que em alguns casos a adaptação para o cinema projeta o romance junto ao público, como de fato sucedeu com O quatrilho, na maioria das vezes ocorre o contrário.

Mais de um romancista lamentou a versão dada ao seu texto no cinema. E isso ocorre por uma razão fundamental. Como diz Milan Kundera, há coisas que só o romance consegue dizer, e não adianta querer fazer isso com outra forma de expressão. Por justiça, deve-se dizer também o inverso: há coisas que só o cinema consegue dizer. E não é o fato de uma narrativa na forma de romance ter obtido força e consistência que vai assegurar que o mesmo vá acontecer com essa mesma narrativa posta no filme.

Para arrematar tantas provocações, vai mais uma. O romance nasceu como um produto industrial, veiculado em folhetins, com o objetivo de ajudar a vender jornais e revistas. O tempo e outras circunstâncias terminaram por lhe dar aura de obra de arte. Com o cinema não foi diferente. As primeiras fitas eram exibidas em barracas de circo, para diversão do grande público. Nos filmes mais recentes, essa dimensão circense foi retomada, com a exploração dos chamados efeitos especiais.

O cuidado artístico deve existir, seja no romance, seja no cinema. Mas sua principal função social, como formas da cultura de massa, deve ser a capacidade de atrair o público leitor e/ou espectador com representações que alimentem e diversifiquem a visão geral de mundo de que todos precisam.

Dante pelo mundo

2021 será “o ano de Dante”, com várias ações marcando os 700 anos da morte do poeta maior da língua italiana

No dia 14 de setembro de 1.321, Dante Alighieri fez sua viagem definitiva para o outro lado do mundo. Daqui a um ano, portanto, ocorre o sétimo centenário da morte do miglior fabbro.

Notícia divulgada pelo Corriere della Sera, na semana passada, informa que o Ministério do Exterior da Itália está promovendo uma série de iniciativas para celebrar “o ano de Dante”, como vem sendo chamado. Vários projetos levarão Dante pelo mundo, envolvendo embaixadas, consulados e institutos italianos de cultura. Um desses projetos é o de um áudio-livro, com a gravação de passagens de quinze cantos da “Divina Comédia” em 33 línguas. Para chegar a esse número dantesco, pela primeira vez na história o poeta vai falar também em indonésio. Para as outras 32, serão aproveitadas traduções já existentes.

Caxias do Sul tem a marca de Dante Alighieri esculpida em sua história e erguida em monumento em sua praça central. Quem deu o nome à praça não foram os imigrantes. A escolha foi feita por funcionários da Comissão de Terras, ao que tudo indica por sugestão de José Bernardino dos Santos.

Busto de Dante foi inaugurado na praça em Caxias do Sul em 15 de novembro de 1914

Poeta, contista e jornalista, José Bernardino era membro do Partenon Literário em Porto Alegre e funcionário da Secretaria da Fazenda. Em função desse cargo, aceitou vir trabalhar na Colônia Caxias, onde faleceu em 1892. Em meu romance A Cocanha, faço dele um personagem, de olhos atentos em observar a cultura e o drama dos imigrantes que chegavam.

Como é sabido, o nome da praça, num ato de insensatez ocorrido no período da Segunda Guerra Mundial, foi mudado para Rui Barbosa, episódio que relato também em meu romance A Babilônia. Um ato de bom senso devolveria a ela o nome original de praça Dante Alighieri.

Por falar em tradução, há um sem número de traduções da Divina Comédia para o português. Até Dom Pedro II se atreveu a traduzir o Canto V do Inferno, aquele de Paolo e Francesca.

Para falar a verdade, nenhuma das traduções existentes me agrada. Ou elas recorrem a uma dicção camoniana, em que predominam os adjetivos, ou, como uma mais recente, buscam no cofre parnasiano rimas ricas para mostrar elegância. Mas como escreveu nossa poeta Vivita Cartier,

Aquele que com esforço

Rimas difíceis alista

Não nasceu para poeta:

Arranja verso: é versista.

Por causa disso, e também estimulado por amigos e por leitores da minha tradução do Cancioneiro de Petrarca, meti-me na empreitada de viajar com Dante e Virgílio e traduzir toda a Divina Comédia. A primeira coisa que descobri nesse mergulho é que Dante faz uma narrativa de cunho visual, com cenas em movimento e diálogos, quase um roteiro de cinema, coisa que as traduções que conheço não levam em consideração. Não por acaso o pintor Sandro Botticelli se empolgou e desenhou todo o poema.

O Inferno, da “Divina Comédia”, na visão do pintor Botticelli

Como ensinou Peter Newark, a tradução literária deve considerar não apenas o nível textual, mas também o que ele chama de referência cultural, o da coesão semântica e, por fim, a impressão de naturalidade do texto traduzido.

Outro mestre, o poeta mineiro Dante Milano, diz que o “certo” é adaptar o verso, sem forçar a nossa língua, e escrever “do modo por que Dante o faria se escrevesse em português”.

È por essa sinalização de rumo que pretendo avançar. Dou uma amostra das diferenças de tradução, com gosto camoniano, com gosto parnasiano e com sabor dantesco.

Modo camoniano:

Da nossa vida, em meio da jornada,

Achei-me numa selva tenebrosa,

Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa

Desta brava espessura a asperidade,

Que a memória a relembra inda cuidosa.

Modo parnasiano:

À meia idade da terrena vida,

Perdido achei-me numa selva escura,

A senda certa estando já perdida.

Quanto, dizer qual era, é cousa dura,

Esta selva selvagem, rude e forte,

Que medo infunde à mente mais segura.

Modo “dantesco”:

No meio do caminho desta vida

Me vi perdido numa selva escura

Com a direção certa esquecida.

Ai, descrever como era, é coisa dura,

Essa selva selvagem, crua e forte,

Que deixa a melhor mente insegura.

Como é possível notar, a terceira versão mantém as rimas usadas por Dante – que não dava muito valor a elas –, segue um fluxo narrativo, e procura manter a naturalidade em nossa língua, sem rebuscamentos. Mas que é “coisa dura” seguir por esse caminho, posso garantir que sim…

Anedotas de Portugal: fatos reais

As situações cômicas que dão origem às anedotas nascem de um fato: são duas as línguas faladas nos dois países

É uma tradição popular no Brasil contar anedotas ou piadas de português. Politicamente incorreto? Pode ser. Mas acontece que em Portugal também circulam anedotas de brasileiro, em menor quantidade, talvez.

Na minha avaliação, as situações cômicas que dão origem às anedotas nascem de um fato: são duas as línguas faladas nos dois países. Não há muito tempo um jornal português publicou uma matéria sobre as queixas que alunos lusófonos, chegados de fora de Portugal, estavam fazendo de professores de universidades e institutos portugueses. Na reportagem, ficou registrado que um professor de uma dessas instituições, quando um brasileiro, ou angolano, fazia uma pergunta, ele retrucava:

– Fale português!

O intercâmbio de professores e estudantes está recheado de situações jocosas, para não dizer cômicas, por causa da diferença de significado que as palavras podem ter de um e de outro lado do atlântico. Vai uma coleção de nada menos que sete anedotas reais, no bom sentido da palavra. O sentido que a palavra anékdota tem em grego, onde ela significa “não editado”, “não divulgado”. Todas elas acontecidas no ambiente universitário.

1. Um paulista, doutor em Letras, passava um período como professor visitante na Universidade de Lisboa. Tinha ele a mania (segundo sua expressão) de usar um lápis vermelho para marcar observações feitas nos trabalhos dos alunos. Mas esquecera de levar um na pasta. Dias depois, andando pela rua, viu uma papelaria e pensou: vou comprar aqui meu lápis. Entrou e foi atendido com a maior cortesia:

– Deseja algo, senhor?

– Um lápis vermelho, se faz favor.

– Vermelho?? Ah, encarnado! Venha, pois sim. Um como este?

E entregou um lápis encarnado. O professor deu uma olhada e disse:

– Mas este lápis é preto. Escreve preto.

– Ah, encarnado por dentro é o que o senhor quer? Podia ter-me falado.

2. Dois universitários de Porto Alegre estavam em Lisboa e decidiram alugar um carro, para fazer um passeio até a Espanha. Tomaram a estrada na direção norte e, num determinado ponto, ficaram em dúvida sobre que rumo tomar. Viram então um cidadão à margem da rodovia e pararam para perguntar:

– Esta estrada vai para a Espanha?

– Se for, ficamos sem – respondeu o português com ar de espanto. – Vai nos fazer falta!

3. Outro professor gaúcho chegou à estação de trem para comprar um bilhete para a cidade do Porto. Já sabia como se diz trem em Portugal e solicitou:

– Quero uma passagem de comboio para o Porto.

– Pois sim. De que tipo deseja?

– O melhor que tiver – retrucou o professor.

– Pois o melhor é o Prêmio, tem restaurante, música ambiental, poltrona-leito. Mas esse já partiu.

E ficou esperando. O professor teve que perguntar:

– E qual é o próximo?

– Ah, o senhor aceita outro comboio?

4. Um grupo de professores brasileiros estava em Portugal participando de um evento de intercâmbio. Num intervalo do encontro, entraram em um café. Chega o garçom até a mesa e pergunta:

– O que os senhores desejam?

Um dos professores, cheio de cortesia, perguntou:

– Eu posso pedir um cafezinho?

– Pois peça! – retrucou o moço. E ficou aguardando a confirmação.

5. Um brasileiro, escritor e professor de História da Arte, estava andando por Lisboa e começou a chover. Por sorte, passava perto de uma loja de guarda-chuvas. Gostava muito de um guarda-chuva alemão da marca Brauer, e pensou: se continuo tendo sorte, vou encontrar essa marca. Chegou ao atendente:

– Os senhores têm para vender um guarda-chuva alemão, da marca Brauer?

– Não senhor, não dispomos – respondeu o vendedor.

E virou as costas. Não se deu o trabalho de oferecer outra escolha!

6. Duas professoras, em passeio por Lisboa, entraram para almoçar num restaurante. Uma delas, já que não havia nenhuma informação na entrada, foi até o balcão da recepção e perguntou, também caprichando na cortesia:

– Podemos saber o que a casa tem para oferecer?

– A casa não oferece nada, minha senhora – retrucou o do balcão. – Aqui tudo deve ser pago.

7. Outro professor, que estava participando de um congresso sobre Lusofonia decidiu, num final de semana, ir com a esposa conhecer o Palácio da Mafra, que fica a uns 25 quilômetros de Lisboa.

Alugou um carro com motorista e, chegando ao Palácio, disse ao motorista:

– Pode nos esperar na saída. Em uma hora devemos estar de volta.

O professor percorreu com a esposa todas as preciosidades históricas ali guardadas e voltou para onde havia entrado. Nem carro nem motorista apareciam. Resolveu então falar com o guarda:

– Não viu um carro com motorista? Ele disse que ia esperar-me na saída.

– Pois aqui é a entrada, meu senhor! Saída é do outro lado do Palácio.

Deram os dois a volta ao redor do Palácio e do outro lado estava o motorista esperando. Na saída!

A alegria de estarmos juntos

A marca pluricultural de Caxias do Sul refletida em sua maior festividade

Todos sabem que a faculdade da memória desempenha duas funções opostas: a de lembrar e a de esquecer. Pesquisas têm demonstrado que a faculdade de esquecer é importante para manter a agilidade da inteligência. O esquecimento impede que o arquivo de informações do cérebro fique demais abarrotado. É o que ocorre com o computador: ele fica lento quando acumula muitos dados na sua memória. Mas também pode acontecer que uma lembrança faça um link e provoque outra lembrança, esquecida no depósito.

Pois bem, foi o que sucedeu comigo. Depois de ter rememorado o drama do tráfico negreiro, lembrei-me de quando tive oportunidade de chamar a atenção para a presença do negro na história de Caxias do Sul. Isso aconteceu na Festa da Uva de 2006. Na época, como Secretário de Cultura do município, fui incumbido da tarefa de propor o tema da festa. E achei então que era um momento importante para a cidade prestar atenção na pluralidade cultural que vinha se tornando cada vez mais evidente.

Cartaz da Festa da Uva de 2006

Tomo a liberdade, imagino que sem ferir nenhum princípio ético, de tornar público o texto que escrevi, em maio de 2005, propondo o tema da Festa da Uva do ano seguinte. Vai ele a seguir, em transcrição integral:

Sobre o tema da Festa da Uva de 2006

1) Olmiro de Azevedo, na primeira divulgação da Festa da Uva, escreveu que o objetivo da Festa era: “mostrar o que somos e o que fazemos”.

2) A Festa da Uva sempre seguiu essa linha: mostrar, em cada fase de sua história, o que era a cidade e o que fazia.

3) Neste início de século e milênio, pode-se dizer que a característica mais marcante de Caxias do Sul é a pluralidade cultural em busca de harmonia.

4) A ideia central da próxima Festa seria portanto esta: PLURALIDADE CULTURAL EM BUSCA DE HARMONIA

5) De fato, desde a origem Caxias traz essa marca pluricultural, seja por seus primeiros habitantes, seja pela vizinhança com os Campos de Cima da Serra. Aí estão, onde era o Campo dos Bugres, primeiro Feijó Júnior com seus escravos e peões (que construíram o barracão dos imigrantes e a casa da diretoria da colônia), os tropeiros estabelecidos na Caipora (e que transportaram os imigrantes desde o Caí), as famílias alemãs (que introduziram o primeiro curtume), os funcionários, alguns deles intelectuais esclarecidos (que criaram um círculo de vida cultural na sede da colônia) e, por fim, os imigrantes italianos, que tiveram seu caminho aberto e preparado pelos que os precederam.

6) A proposta é de que no corso alegórico e na entrada dos pavilhões seja feita a recuperação desta pluralidade expressa nos primeiros povoadores de Caxias: o índio, o negro, o tropeiro, o colono alemão, o funcionário, o imigrante, nas suas facetas mais típicas.

7) A chamada para a festa seguiria dentro da mesma concepção. Podia ser, por exemplo: A ALEGRIA DE ESTARMOS JUNTOS, ou algo do tipo.

8) Feito este acerto histórico (e dos mitos de origem!), a Festa de 2006 poderá mostrar a trajetória da uva e do vinho em suas diferentes etapas.

O que aconteceu a seguir? A proposta foi aceita pela Comissão Comunitária daquele ano. O lema, A ALEGRIA DE ESTARMOS JUNTOS, foi musicado por Mário Michelon, numa canção que fez o maior sucesso, chegando a receber o Disco de Ouro concedido pela Gravadora ACIT, que também tem uma bela história.

O perfil da Festa da Uva, que por décadas teve seu foco na imigração italiana, a partir daí passou a celebrar nossa pluralidade cultural. Seguindo nisso a recomendação do poeta Olmiro de Azevedo, também ele um caxiense adotivo: “A festa deve mostrar o que somos e o que fazemos”.

Um episódio no Teatro Nacional

O que desejava a curiosidade daquelas pessoas? E quem eram elas?

No início da década de oitenta, foi Ministro da Educação e Cultura o general Rubem Ludwig, um gaúcho de Lagoa Vermelha. Como secretário geral do ministério, foi nomeado o coronel Sérgio Mário Pasquali, outro gaúcho, nascido em Guaporé: os dois descendentes de imigrantes, um de alemães, outro de italianos.

Sérgio Pasquali teve, entre outros méritos, o de ter sido o idealizador do Projeto Rondon, destinado a harmonizar as diferentes culturas espalhadas pelo país, com a participação das universidades e de outras instituições de ensino superior.

Em visita que fez à Universidade de Caxias do Sul, quando secretário geral do MEC, estava havendo, no Bloco H, uma exposição fotográfica organizada pelo Projeto ECIRS. Nessa exposição era mostrada a paisagem e a arquitetura das colônias italianas, e também seus afazeres do dia a dia: uma velhinha fazendo trança de palha de trigo, um homem plantando milho, meninas com cestas de flores numa capela do interior, e outras maravilhas para os olhos. Quem quiser ver um pouco desse acervo de imagens pode encontrá-lo no livro ESTAÇÕES – Imagens da Cultura de Imigração Italiana no Rio Grande do Sul, publicado pela EDUCS em 1985.

O Coronel Pasquali, como era chamado, ficou comovido com a mostra, que trazia à tona também as suas raízes de colono em Guaporé. E na mesma hora decidiu que a UCS deveria levar a exposição para Brasília, para ser exibida no Teatro Nacional.

Dá para imaginar a empolgação que se seguiu para organizar o evento na capital da República. O Projeto ECIRS teve para isso duas colaborações importantes. Uma foi a do curso de Gastronomia da escola do Senac de Caxias do Sul, que assumiu a tarefa de servir um coquetel de sabor italiano. Outra foi de um coral de Flores da Cunha, regido pelo maestro Félix Slaviero, dedicado a preservar cantos trazidos da Itália pelos imigrantes.

A exposição foi um sucesso total, com registro em toda a imprensa brasiliense. Um texto que escrevi para a ocasião, com o título de “Elogio da Diversidade”, chegou a ser publicado integralmente num jornal.

Mas o episódio que dá título a esta crônica aconteceu no final da cerimônia de abertura da mostra, feita no início da noite.

Estava sendo servido o coquetel, com o fundo musical do coro de Flores da Cunha, quando apareceram algumas pessoas descendo a escada que dava para o piso de cima. Detalhe: a mostra fotográfica foi feita no saguão de entrada do Teatro Nacional.

E o que desejava a curiosidade daquelas pessoas? E quem eram elas?

Ficamos então sabendo que naquela noite estava havendo no Teatro Nacional um simpósio, com a presença de Gilberto Freyre, para marcar os cinquenta anos da publicação do livro Casa Grande & Senzala, de sua autoria. E fomos informados de que Gilberto Freyre manifestara interesse em ouvir os cantos da tradição italiana. Não tenho certeza se o coral subiu ou não para atender à vontade do mestre.

Mestre, sim. Mestre de todos nós que criamos o Projeto ECIRS, em 1974, na véspera do centenário da imigração italiana, destinado a documentar com método e a interpretar antropologicamente a cultura provinda da imigração italiana. A sigla do Projeto esconde este longo título: “Elementos Culturais das Antigas Colônias Italianas do Nordeste do Rio Grande do Sul”. Minha contribuição nessa pequena epopeia ficou registrada também num livro: Processos Culturais – Reflexões sobre a dinâmica cultural.

Casa Grande & Senzala foi o marco inicial dos estudos de antropologia social no Brasil. Antônio Cândido, outro de nossos grandes mestres, escreveu que os brasileiros “aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil, sobretudo em termos de passado, em função de três livros: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. “São estes os livros que podemos considerar chaves”. Frase que deve ser sublinhada! Os três, e não podia ser diferente, estão aninhados em minha estante.

A cerimônia de abertura da mostra fotográfica, com o selo do ECIRS e da UCS no Teatro Nacional de Brasília, terminou, portanto, com a emoção de uma bênção: a do pai dos estudos de Antropologia Social no Brasil. Só faltou nos ajoelharmos diante dele!

ERA UM SONHO DANTESCO…

TRÁFICO NEGREIRO – Um passado ocultado por empresas europeias

Durante este período de retiro, muito do que acontece pelo mundo passa
despercebido, ou é deixado num segundo plano, sem chamar muito a atenção.
Um desses assuntos eu percebi acessando o jornal francês Le Monde,
do dia oito de agosto corrente. A matéria, assinada por Julien Bouissou, trata
do desmascaramento do tráfico negreiro, oculto na trajetória de empresas
tradicionais da Europa, em especial da Inglaterra e da França. O primeiro
parágrafo já é de espantar:
“Muito antes de aparecer nas prateleiras dos supermercados o célebre
anisete Marie Brizard, nascido em Bordeaux na metade do século XVIII,
enchia os porões dos navios negreiros. Ele era trocado na costa da
África por escravos, levados a seguir para o outro lado do Atlântico para
trabalhar nas plantações de cana de açúcar. O licor figurava na lista das
“mercadorias de troca”, embarcadas nos portos franceses.”
Para quem imagina que o Brasil foi campeão mundial no tráfico de
escravos, pode ser interessante conferir alguns dados dessa reportagem:

  • Mais de quatro mil expedições negreiras saíram da França entre os
    séculos XVI e XIX.
  • Somente as expedições saídas do porto de Liverpool, na Inglaterra,
    foram muito mais numerosas que a soma de todas as que partiram da França.
  • O Banco Central da Inglaterra, O Royal Bank da Escócia e a cervejaria
    Greene King apresentaram suas escusas, por terem se beneficiado no passado
    com o comércio triangular. Nota: Comércio Triangular era o nome dado às
    expedições negreiras que faziam o triângulo Europa-África-América.
  • “A AXA Seguros, o Banco de França, além da fabricante de licores
    Marie Brizard, entre outras empresas francesas, em grau menor que as
    britânicas, foram também beneficiadas com o comércio de escravos” (Le
    Monde).
    Basta essa lista para dar as dimensões desse fenômeno econômico.
    Mas por que essa história está sendo desmascarada?
    Essas tomadas de posição inéditas vêm do movimento ativista Black
    Livers Matter, que teve origem na comunidade afro-americana e deflagrou um
    vigoroso debate no Reino Unido. Numerosos ativistas e historiadores pedem

que seja reconhecido o caráter escravagista do antigo Império Britânico e
reivindicam uma “descolonização” dos espaços públicos.
A “descolonização” começou depois que foi posta abaixo a estátua do
escravagista Edward Colston, em Bristol, no início de junho deste ano. Outra
estátua derrubada foi a do colonizador Cecil Rhodes, removida da frente da
Universidade de Cap, fundada por ele. Uma outra estátua de Rhodes, na
fachada do Oriel College de Oxford, foi alvo de ataque, mas “ela estava num
ponto muito alto e muito bem protegida por policiais em alerta. Mas seus dias
estão contados” (Le Monde).
O papel do Brasil nessa história do tráfico negreiro é bem conhecido.
Mas algumas relações entre fatos podem ser revistas. Por exemplo: o Império
Britânico, depois de liderar mundialmente a prática do tráfico de negros, em
especial nas Antilhas, aboliu a escravatura em 1833. Para isso, criou um fundo
de indenização com quase cinquenta mil beneficiados.
Perguntas: Por que motivo o Império Britânico deflagrou a partir dessa
data uma campanha mundial contra a escravatura? Qual a razão de ele ter
criado um fundo de indenização? O atraso da abolição no Brasil teria sido pela
falta de um fundo de indenização para beneficiar os traficantes e os
proprietários de escravos?
Com o desmascaramento que começou a acontecer agora na Europa,
também a nossa história talvez necessite uma revisão.
Para concluir, vamos relembrar o papel do poeta baiano Castro Alves na
tomada de consciência contra o tráfico negreiro, no Brasil.
Castro Alves publicou seu primeiro poema abolicionista “A Canção do
Africano”, ainda em 1863, com dezesseis anos de idade. Dois anos depois,
começou a escrever o livro Os Escravos, que reuniu 35 poemas sobre o
escravismo. Entre eles, o mais conhecido é sem dúvida “O Navio Negreiro”,
com o subtítulo de “Tragédia no Mar”. É um poema longo, dividido em seis
partes. Uma delas é a que inicia com o verso:
Era um sonho dantesco…
Encerro com uma crônica pessoal. Vivi a emoção de entrar no Solar do
Unhão em Salvador, onde está hoje o Museu de Arte Moderna, Da janela é
possível ver o porto lá embaixo, na Baía de Todos os Santos, aonde chegavam
os escravos. Quando olhei, tive a impressão de que o poeta estava de meu
lado, comentando a chegada de mais um navio negreiro. E dizendo que foram
esses desembarques que o levaram a escrever seu poema trágico…

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