Um olhar atento: o segredo das novelas policiais

A primeira variante é a da charada. O autor da obra monta uma série de pistas, como num labirinto, e o leitor é convidado a descobrir quem é o criminoso. Essa modalidade se consagrou com sir Arthur Conan Doyle, que por sinal fazia aniversário no mesmo dia que eu: 22 de maio.

Suas sessenta histórias sobre o detetive Sherlock Holmes tornaram imortal o personagem. Até o neologismo “cherloque” foi inventado na gíria para designar um bom investigador. Na mesma trilha seguiu Agatha Christie, que escreveu uma quantidade ainda maior de novelas e foi lida no mundo inteiro.

O problema de Agatha Christie, que tirou meu interesse em continuar lendo suas novelas, é que o criminoso é sempre aquele sobre o qual nenhuma suspeita é levantada! E nessa mesma vertente está Andrea Camilleri, na Itália, que fez do Comissário Montalbano um mestre em decifrar charadas policiais.

Uma segunda variante é a que põe o foco de atenção do leitor na violência e na crueldade dos crimes investigados. Esse estilo nasceu e foi cultivado nos Estados Unidos, e lá mesmo migrou da literatura para o cinema.

Com exceção de Alfred Hitchcock, que inventou o suspense para substituir a truculência de Hollywood. O pai literário dessa variante, de atmosfera carregada, foi certamente Dashiell Hammett, autor de “O Falcão Maltês”.

A terceira variante foi criada por Georges Simenon, belga que escreveu em francês. Seu Comissário Maigret comparece em quase duzentas novelas, em que a charada fica em segundo plano e onde a violência não comparece.

O foco do detetive Maigret é observar os comportamentos das pessoas e, com base no que observa, chegar ao autor do crime investigado. Maigret é tão fixado em observar hábitos e costumes que, num crime que ele ajuda a investigar nos Estados Unidos, ficamos sabendo mais do comportamento dos policiais norte-americanos do que de qualquer outra coisa. Principalmente a compulsão deles para beber uma cerveja e para tomar um uísque.

Para quem leu minhas novelas policiais, com as histórias do Comissário Pasúbio, não é preciso dizer que optei pela variante de Simenon, de usar os olhos de um investigador atento para surpreender detalhes de comportamento das pessoas em vários ambientes culturais. A importância atribuída a essa investigação é tão grande que a solução da charada se torna quase irrelevante.

Em O Caso do Martelo, o foco estava no registro do modo de agir das pessoas de nossas colônias quando chega alguém de fora: vivi essa situação fazendo pesquisa sobre usos e costumes nesse ambiente. Em O Caso do Loteamento Clandestino, o cenário é o de um bairro, da metrópole que é Caxias do Sul, onde se instalam migrantes da região serrana.

Em O Caso do Email, a intenção era captar comportamentos de quem mergulha a fundo nas redes sociais (na época só havia o email…) e não percebe mais nada ao redor. E, em O Caso da Caçada de Perdiz, o centro da investigação é o confronto de dois códigos: o estabelecido pela lei e o mantido pela tradição cultural dos Campos de Cima da Serra, de onde também eu venho. As peripécias do detetive Pasúbio têm como objetivo, como as do Comissário Maigret, levar o leitor a prestar atenção no ambiente da narrativa.

O interessante é que em todas as minhas novelas, o crime como ponto de partida foi um acontecimento real. O Nane Tamanca, de O Caso do Martelo, foi até fotografado numa pesquisa de campo: ele foi morto num assalto à casa dele, numa colônia de Farroupilha, e a polícia não descobriu nada.

O Caso do Loteamento Clandestino também teve um caso policial na origem: um homem encontrado morto, sem roupas, sendo que no dia seguinte, no mesmo local, encontradas as roupas dele, num bairro de Caxias.

Em O Caso do Email, o ponto de partida foi um assassinato num prédio de escritórios na cidade de Caxias. Em O Caso da Caçada de Perdiz, o gancho foi a morte do noivo na porta da igreja, história que me foi contada em Lagoa Vermelha.

Simples, não é? A ficção ajuda a ver a realidade, e vice-versa, a realidade ajuda a ficção!

Nas diferenças, o amparo para a saúde social

Neste mês de maio de 2020, completam-se 145 anos da imigração italiana. Em maio de 1875, depois de cruzar o oceano sonhando com a Terra da Cocanha, chegaram os primeiros imigrantes a esta região. Mais cinco anos, e estaremos celebrando o sesquicentenário dessa façanha histórica.

Revisitar essa história exige algumas cautelas. A primeira é de assegurar um ponto de vista equidistante, tanto dos sucessos como dos eventuais insucessos havidos ao longo do caminho. Assegurar também um olhar ajustado aos tempos, para não ver o passado com os olhos e os critérios de avaliação de hoje, e não ver o presente com os olhos enfeitiçados pelo passado.

Outra cautela, decorrente das primeiras, é a de não cair na tentação do simplismo, que pode levar a uma avaliação talvez em excesso laudatória ou, também em excesso, depreciativa. Tomados esses cuidados, o viajante ao passado estará em condições de fazer um balanço do que aconteceu e, a partir dele, desenhar como poderá ser o futuro.

Uma imigração é sempre um fenômeno complexo. No centro dele está o fato de que duas culturas são postas em questão, a dos que já estão no território e a dos que chegam. E é preciso admitir que o primeiro sentimento, de ambas as partes, é o de algum grau de receio, porque os dois estão diante do desconhecido.

O receio maior é o de quem chega, pois tem a desvantagem de não conhecer nada do território em que está se instalando. Mas há um receio também dos já estabelecidos, que não sabem se e em que a sua ordem cultural será modificada. Só depois de superados esses receios – e isso terá de ser um aprendizado feito pelos dois lados – é que um processo de trocas e de partilhas culturais poderá ter início. E que nunca estará concluído, é bom que se saiba também.

No caso da Colônia Caxias – e de outras Colônias vizinhas – o início desse processo foi retardado por praticamente uma geração, uma vez que, salvo situações pontuais, não se estabeleceu desde a chegada dos imigrantes um sistema de comunicação e de intercâmbio com a cultura já estabelecida, o que só vai ocorrer, em definitivo, com a implantação do transporte ferroviário, em 1910.

Essa demora deve ser levada em conta para se compreender a formação cultural de Caxias e da região. Ela permitiu que se consolidasse uma tradição cultural construída pelos imigrantes, a começar pela língua falada. Isso trouxe duas decorrências: uma, a de que ficaram mais evidentes as diferenças entre as duas culturas; outra, a de que esse aprofundamento das diferenças aumentou as possibilidades de confronto, o que também aconteceu.

A imigração italiana produziu um patrimônio cultural inestimável. Patrimônio imaterial, bem entendido. Um patrimônio múltiplo, que pode ser classificado em pelo menos três níveis: o dos valores, o dos saberes e o dos fazeres. Em cada um desses níveis, o imigrante italiano contribuiu com elementos não existentes na cultura que o recebeu. Não é o caso aqui de se inventariar essa contribuição, o que em grande parte já foi e vem sendo feito.

No plano dos valores, costuma-se destacar a disciplina do trabalho e a disciplina religiosa, mas não menos importante foi o do sentido da posse da terra e a da importância atribuída às instituições, coisas todas não muito robustas num povo de tradição quase nômade como é o gaúcho.

No plano dos saberes, igualmente, tem-se apontado a contribuição de novas técnicas no trabalho agrícola e o domínio de diversas técnicas artesanais, que serão um patrimônio que multiplicará seus efeitos com o advento da industrialização.

No plano dos fazeres, basta citar a recriação de uma culinária que, para muitos, é a face mais conhecida da tradição cultural do imigrante. E, como ensina Montanari, a cultura da comida é por onde as trocas culturais têm mais condições de êxito.

Mas o imigrante teve também o benefício de usufruir do patrimônio cultural dos que habitavam o território que os recebia, a tal ponto que os seus filhos já não se identificam, pura e simplesmente, com os filhos dos que ficaram na Itália. Também não é aqui o lugar de levantar uma lista das aquisições que os imigrantes e sua descendência obtiveram na nova terra, que não se resumem, com certeza, no uso da bombacha e do chimarrão…

Depois de 145 anos de “coabitação” cultural, parece finalmente claro para todos, ou quase todos, que as diferenças culturais são um patrimônio que não faz sentido ser eliminado. Ao contrário, a diferença deve ser cultivada, como uma riqueza a ser compartilhada. Onde não há diferenças, não há também trocas, não há comércio, não há nem mesmo sabor de viver.

O antropólogo Lévi-Strauss, na última vez que teve ocasião de falar sobre políticas culturais para o mundo, fez questão de frisar a necessidade da diferença, para que haja saúde social. Chegou a dizer que a afirmação da diferença exige até mesmo certo grau de discriminação, contanto que esta não seja agressiva nem excludente.

Caxias, depois de 145 anos, é uma cidade pluricultural: além da cultura dos habitantes da província gaúcha, com a qual o imigrante italiano iniciou o processo de mútuo aprendizado, conta ela hoje com a contribuição de inúmeras outras fisionomias culturais, do Brasil inteiro e, também isso começa a ser visível, do mundo inteiro.

Será ela no futuro uma cidade quase anônima, igual a qualquer cidade de seu porte no mundo? Certamente não. A identidade nela criada é tão peculiar que certamente resistirá à incerteza provocada pelas mudanças. Há nela um patrimônio gravado fundamente na mente e no coração das pessoas, tanto das que nela nasceram como das que aprendem essa sua história, que resistirá à corrosão do tempo.

E esse patrimônio, não há exagero na afirmação, tem seu marco de referência na cultura construída pelo imigrante italiano nos difíceis anos iniciais de insulamento.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 3

O cavalo branco na memória.

No primeiro livro de poesia de que participei, livro a que demos o título
de Matrícula, compareço com um poema sobre o cavalo, com este desejo:

“Ah, não ser eu como o cavalo,
não ter um mundo sereno
em que me detenha tranquilo
e paste em segurança.”


A figura do cavalo retorna em todos meus livros de poesia. Nenhuma
imagem se apoderou tanto de mim como essa do “cavalo branco na memória”,
que pus num poema com o título de “Signo do Cavalo”.
O começo de tudo também tem ligação com a história de meu pai. Ele
serviu o exército no Regimento de Cavalaria de Quaraí, cidade que faz fronteira
com a vizinha Artigas, do Uruguai. Do quartel ele trouxe para a vida dele, e da
família, uma série de regras e comportamentos, que aos poucos irei desfiando
nestas memórias.
No que diz respeito ao cavalo, as regras eram bem claras. Devia ser
tratado com alfafa e espigas de milho na estrebaria, no começo da noite, e ter
um curral com grama e capim para pastar durante o dia. Devia ser escovado
uma vez por semana e ter as crinas do pescoço, e a cauda, aparadas uma vez
por mês. O cavalo devia também aprender a marchar: meu pai não tolerava
cavalo que andasse no trote, como era comum na vizinhança. E devia também
aprender a saltar, diante de uma poça de água ou no atravessar uma sanga.
Consequência de tudo isso era que cavalo de meu pai ninguém mais
conseguia montar sem fazer fiasco. Era a cavalo, em marcha, que ia de Santa
Teresa até a vila, como era chamada a sede de São Francisco de Paula, por
causa de seus compromissos como professor municipal. A distância percorrida
nessa viagem era de seis léguas, passando pelo Sumidouro, que era um
atalho. Isso somava trinta quilômetros e quatro horas para ir e outras tantas
para voltar, sobrando quatro horas para despachar e honrar compromissos na
vila. Viagem que começava assim que clareava o dia e terminava, na volta, no
começo da noite.
Lembro de uma vez em que meu pai levou um irmão meu até a vila para
ser atendido pelo médico. A história toda começou com minha mãe comprando um cacho de bananas que um tropeiro trazia “da serra abaixo”, como a gente
dizia, porque em Santa Teresa o frio não permitia cultivar bananeiras. Eram
bananas verdes, para aguentarem a viagem, e ficavam uma semana à espera
de ficarem maduras. Mas meu irmão, que devia ter uns três anos, sem
ninguém perceber, comeu as bananas ainda verdes. De noite começou a
chorar e a se queixar de dor na barriga. Até que minha mãe atinou e foi conferir
o cacho de bananas. Lá estava o problema!
Meu pai encilhou o cavalo branco, ainda de noite, e marchou para a vila,
para a criança ser atendida de manhã cedo. A saída foi uma aflição para todos
nós. Mas no final da tarde foi uma festa. Meu irmão voltava são e salvo. O
médico que o atendeu fez uma lavagem intestinal com clister, como explicou
meu pai. Esse médico era um pediatra chamado doutor Ordovás. Não se
espantem, era o mesmo doutor Henrique Ordovás Filho, que depois se
transferiu para Caxias e se tornou aqui uma personalidade, dando seu nome ao
Centro de Cultura da cidade.
O cavalo branco de meu pai continuou fazendo parte de minha infância.
O poema “O cavalo e o menino” , publicado em meu livro de poesia Meridiano,
é todo ele recriação dessa experiência. Lá eu digo:

“A primeira lição de mundo,
em plena manhã da infância
havia de ser esse cavalo.
O imprevisto perfeito
era subir no seu lombo:
seria dócil às rédeas
ou tomaria nos dentes
o seu livre galope?
O senhor era o cavalo,
por mais atado que fosse
com cincha, freio e espora

– que ele aliás detestava.
…….
Escravo era o menino
despoticamente obrigado

a servir-lhe palha e bebida,
pentear-lhe pelos e crina
serviços mal tolerados
pois que deixava bem claro
não se vender por afagos.

Não é preciso dizer mais nada! A não ser que ele acabou me jogando
num barranco, numa vez que fiz a bobagem de montar nele. Fraturei o punho
do braço esquerdo, que meu pai consertou aplicando clara de ovo batida e
depois entalando o local com pequenas barras de madeira.
Por sinal, as atividades medicinais exercidas por meu pai eram tantas e
tão variadas que merecem outro capítulo.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO 2

Casa de chão

Nossos vizinhos mais próximos em Santa Teresa, descendo um morro
entre as duas casas, eram o seu Felicício e a dona Anjerca. Isso na pronúncia
com que eram tratados. Na realidade eram eles o seu Felício e a dona
Angélica.
Seu Felicício trabalhava numa serraria ali perto. Dona Anjerca cuidava
da casa, das crianças, e tratava duas ou três cabras de leite. Dessas cabras é
que minha mãe recebia uma garrafa de leite todas as manhãs, e era esse leite
que eu tomava. Em minha primeira fotografia, com um ano e pouco de idade,
eu apareço com a garrafa nas mãos. De acordo com o relato de minha mãe, foi
o jeito de me fazer parar de chorar diante do fotógrafo.
Dona Anjerca fazia também uma canjica muito gostosa, que nós, as
crianças, comíamos na cozinha de chão, cheirando a picumã. Era o nome que
se dava para a fuligem do fogo de chão, que inundava a casa toda.
A gente chamava de casa de chão aquela que não tinha assoalho de
madeira, como era a da dona Anjerca. O piso era de chão batido. Para ele ficar
mais firme era misturado esterco de gado com água na terra, o que também
dava um cheiro carregado… A casa não tinha forro no teto, nem sótão. Do chão
dava para ver as tabuinhas de madeira do telhado, todas pretas de fuligem. Isto
é, de picumã.
Mesmo trabalhando numa serraria, seu Felicício não conseguira madeira
serrada para fazer a casa. As tábuas das paredes e as tabuinhas do telhado
eram de madeira lascada. As janelas eram também do mesmo tipo de madeira,
da largura de duas ou três tábuas, fazendo um tampão. E não tinha dobradiças.
Eram “janelas de correr”, numa travessa ao longo da parede. E não tinham
também vidraças. Fechadas as janelas, ficava tudo escuro.
Tudo isso aprendi porque meu pai, além de professor e jardineiro, era
também carpinteiro e marceneiro. Por sinal, a foto em que apareço com a
garrafa de leite nas mãos tem como fundo um pequeno altar de madeira. Esse
altar era da capela de Santa Teresa, que meu pai tinha pegado para consertar.
Na fotografia, estou sentado num telhado feito de tabuinhas. Não, eu não
estava em cima do telhado da casa! O telhado da estrebaria é que tinha ido
parar no chão, com uma ventania. E meu pai aproveitou para montar um
cenário especial para a primeira fotografia do primeiro filho.
A nossa casa, feita, é claro, por meu pai, era bem diferente da casa de
dona Anjerca. Era uma casa de assoalho, feita com madeira de serraria. Era

construída em cima de cepos de canela preta, que não apodrece quando é
enterrada. Sobre os cepos eram colocados baldrames feitos de toras de
pinheiro. Em cima dos baldrames era pregado o assoalho, de madeira plainada
e depois encerada. As paredes externas eram feitas com tábuas de polegada,
e as internas com tábuas de meia polegada. Tanto nas paredes internas como
nas externas, a fresta entre as tábuas era coberta com mata-juntas, uma
espécie de régua larga e comprida. E, como remate de tudo, a casa era pintada
com duas mãos de cal.
Embaixo do assoalho ficava o porão, onde era guardado o trigo, o milho,
o feijão, dentro de caixas. E no alto da casa ficava o sótão, com uma escada de
madeira para se chegar até ele. No sótão, meu pai tinha a mesa de
marceneiro, com torno a manivela e todas as ferramentas: plainas, garlopas,
formões planos e côncavos, serrotes, serras, pregos, parafusos, sei lá o que
mais… Ah, sim, havia também o diamante para cortar vidros, guardado numa
gaveta a sete chaves!
Muitas horas eu passei vendo meu pai fazendo móveis envernizados,
caixilhos para janelas, cadeiras de palha, bancos de madeira. Mas o maior
capricho dele era fazer instrumentos musicais. Fazia violas, violões, bandolins.
cavaquinhos e banjos. Até um violino ele chegou a fazer, a pedido de um
vizinho, mas prometeu que nunca mais faria, dava muito trabalho. O maior era
tornar côncava a caixa do instrumento, com vapor de água. Mas o violino que
ele fez foi aprovado pelo violinista.
Assim fui percebendo que eu estava numa família diferente, onde a casa
de chão batido era coisa ultrapassada. E onde tocar cavaquinho era um desafio
posto diante dos olhos, entre outros desafios.

MEMÓRIAS DE SÃO CHICO

1.

Branco de neve

O mundo inteiro já sabe que nasci em São Francisco de Paula, num lugarejo chamado Santa Teresa, no então distrito de Tainhas, que era o quarto distrito do município, como aprendi na escola. Ou em casa, porque meu pai era professor e as aulas dele continuavam dentro de casa.

A primeira memória visual de que tenho registro foi a de um mundo branco de neve. Estava com meu pai olhando da janela os bonecos e a escadaria de neve no jardim da frente da casa. Meu pai era um jardineiro caprichoso: fez um jardim em plataformas, para dominar o aclive, e desenhou figuras podando com tesoura um arbusto que ele chamava de tuia. De repente, estando nós dois ainda na janela, despencou um bloco de neve do telhado de madeira, que passou raspando no meu rosto. Levei um susto. Mais tarde fiquei sabendo que essa grande nevasca tinha acontecido em 1942. Estava eu, portanto, com quatro anos de idade.

Outra lembrança marcante, dessa idade, foi um tombo que levei na estrada de terra, por onde se ia até a capela de Santa Teresa. Eu estava bem contente, com uma roupa nova de brim, casaquinho e calça curta, costurada por minha mãe. Bem contente. Mas tropecei numa pedra, ou em alguma raiz, e caí ao comprido, de bruços. Foi talvez a primeira frustração que experimentei.

Com quatro anos aprendi também a ler, na Cartilha Maternal do poeta português João de Deus. Isso não foi tarefa de meu pai. Foi minha mãe quem me pôs a cartilha na mão e me ensinou as letras. Dessa cartilha duas coisas me ficaram na memória. Uma foi o retrato de João de Deus, na página de abertura, com uma barba enorme: em toda a minha infância imaginei Deus com essa fisionomia. A outra lembrança foi o poema que encerrava a Cartilha. Decorei todo ele, porque gostei do som das palavras: 

“Andava um dia / em pequenino / nos arredores / de Nazaré / em companhia / de São José / o Deus menino / o bom Jesus. // Eis senão quando / vê num silvado / andar piando / arrepiado / e esvoaçando / um rouxinol. / que uma serpente / de olhar de fogo / e incandescente / como o do sol / tinha imantado / tinha encantado”. E assim por diante. 

Havia várias palavras esdrúxulas para mim nesse poema: rouxinol, incandescente, imantado. Mas a que mais me intrigou foi a palavra “silvado”, que associei com Silva, o sobrenome de minha mãe. Precisei crescer para descobrir que o silvado era simplesmente a “capoeira”, aquela vegetação rústica que eu conhecia nas lavouras.

Essa lembrança me daria, décadas depois, outra felicidade. Estava eu em Lisboa e passei na frente de um colégio, de onde saiam gritos de crianças brincando, com o nome de Instituto Superior de Educação João de Deus, na Avenida Álvares Cabral. Entrei porta adentro e perguntei se poderia conseguir um exemplar da Cartilha Maternal de João de Deus. A atendente abriu um amplo sorriso e me trouxe uma cópia fac-símile, que me devolveu ao começo do mundo escrito. 

Outra cena de arquivo aconteceu na escola, para onde às vezes eu ia acompanhando meu pai. Estava sentado no último banco de trás, para não atrapalhar ninguém. Nisso chegou um aluno atrasado, a cavalo, que entrou na sala com um chicote na mão. Foi sentar no último banco, onde eu estava, e enfiou o chicote  debaixo das pernas dele, no chão. Deve ter visto minha cara de menino curioso e falou, baixinho:

– Sabe o que é isso? É um rabo de tatu.

– Rabo de tatu? – perguntei, duvidando. – E o tatu já tem essa argola?

– Já – riu ele. – O tatu já tem essa argola no rabo!

Quando descobri a verdade, que rabo-de-tatu era só um apelido do chicote, fiquei meio decepcionado. A versão original era bem mais bonita. Mas descobri também que as palavras podem inventar coisas!

Rubem Fonseca: um nome para não esquecer

Numa entrevista que dei pouco mais de trinta anos atrás, e que foi publicada pelo Instituto Estadual do Livro, na série Autores Gaúchos, fiz esta afirmação: “Para mim, Rubem Fonseca é o maior escritor brasileiro atual. Ele é o que realmente está com uma linguagem moderna”.

Em minhas aulas sobre literatura brasileira – invoco os que foram meus alunos como testemunhas –, também sempre dei destaque à sua obra. E já que estamos em tempos de memória, aí vão mais algumas de sala de aula.

Costumo traçar uma trajetória do romance e do conto brasileiro nas seguintes etapas: na primeira, com José de Alencar e o romantismo, o escritor tentava pôr no papel a música da ópera, com adjetivos retumbantes e coloridos; na segunda, com Machado de Assis, a referência passou a ser a linguagem jornalística: Machado defendeu isso diretamente num artigo intitulado “O jornal e o livro”; na terceira, na virada para o século vinte, a linguagem telegráfica, de frases curtas e sem adjetivos foi propagandeada como moderna, mas não deixou nenhuma grande obra, tirando alguns rascunhos de Oswald de Andrade.

A quarta etapa, dos anos trinta em diante, foi marcada pela linguagem narrativa do cinema: Erico Verissimo foi quem tomou esse rumo, inspirado pelos escritores norte-americanos que ele traduziu para a Editora Globo, sendo xingado pelo crítico Álvaro Lins por causa disso. A seguir veio um período de saudosismo, com a proposta de um romance regionalista, com sabor da linguagem oral do povo, um pouco inspirada nas novelas de rádio, então em moda, da qual Guimarães Rosa foi o chefe de batalhão.

E então entra em cena a televisão. A narrativa da televisão não é nem redonda como a da ópera, nem plana como a do jornal, nem de grandes cenários como a do cinema, nem puramente verbal como a do rádio. É uma narrativa com o rosto das personagens em primeiro plano e com mil detalhes que as câmeras vão bisbilhotando. É nesse contexto que Rubem Fonseca se torna o novo mestre da ficção. Um exemplo, para começar, pode ser o conto “Lúcia McCartney”, todo ele narrado na forma de roteiro para tevê.

Além da proposta de uma nova linguagem narrativa, Rubem Fonseca captou também um novo momento da cultura brasileira: o da migração em massa das populações rurais para as cidades. Leiam os contos e romances de Rubem Fonseca e verão que os maiores dramas nascem do conflito entre valores rurais em decadência e valores urbanos ainda não dominados. Como primeiro exercício pode ser lido o conto “Relato de ocorrência”, em que uma vaca marrom é atropelada por um ônibus numa ponte entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

A herança que Rubem Fonseca nos deixou é de não esquecer. Por isso, já tirei da estante as obras que tenho, para matar saudades: “A Grande Arte”, “O Selvagem da Ópera” (que conta como Carlos Gomes compôs a ópera “O Guarani”), “Agosto”, “Feliz Ano Novo” e companhia.

Continuo com a mesma opinião de três décadas atrás. Rubem Fonseca, mesmo tendo saído do meio de nós, é o melhor escritor de nosso tempo.

COBERTA DA ALMA

Quem leu minha novela O Caso da Caçada de Perdiz, ambientada nos Campos de Cima da Serra, deve ter ficado se perguntando de onde saiu a cena em que Pasúbio é aconselhado por Nhá Inácia a fazer uma “coberta d’alma”. 

A cena é a seguinte: Nhá Inácia acha que a alma do morto no crime que Pasúbio está investigando não está deixando o detetive em paz. Pasúbio deve então pedir para a família que dê a ele uma roupa completa do falecido para vestir, do calçado até o chapéu. Pasúbio deve também usar o nome do morto por sete dias. No sétimo dia, deve fazer uma reza com a família, um terço, uma ladainha. Aí pode pegar as roupas que usou e queimar no fogo. Pronto. Fica livre da alma do morto.

De onde saiu essa cena? É pura ficção ou tem alguma base real? Pois bem, vamos às fontes.

A primeira informação que me chegou consta dos Anais do Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense, realizado em 1935, por ocasião do centenário da Revolução Farroupilha. Nesse congresso, um pesquisador apresentou um trabalho sobre a “Coberta d’Alma”, dizendo que se tratava de uma tradição açoriana.

Trinta anos depois, outro pesquisador encontrou esse costume no município de Osório. Procurou por ele nos municípios da fronteira com Uruguai e Argentina e não encontrou vestígio. Concluiu então, também, que se tratava de uma tradição vinda dos Açores. Com o passar do tempo, e as mudanças de lugar, muitas variantes foram acontecendo. Mas parece inquestionável que sua origem é realmente açoriana.

Em 2005, integrando uma equipe que esteve pesquisando aspectos históricos e culturais nas duas margens do rio Pelotas, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, dei de frente com a mesma tradição em Bom Jesus, em São José dos Ausentes e, do outro lado do rio, no município de Lages. Dona Naná, de Bom Jesus, foi uma das entrevistadas, dando detalhes do ritual. 

Quando escrevi essa novela, pouco tempo depois, na realidade estava desenhando quadros da vida e dos costumes da região dos Campos da vacaria. E uma tradição forte como essa tinha que entrar em cena. Desde Homero, as narrativas são feitas para mostrar detalhes que os manuais de História não registram, ou não percebem.

A velhice e as relações de poder

Na semana passada citei Norberto Bobbio, o grande jurista e filósofo do Piemonte. Volto a ele, para abordar um assunto que certamente interessa a todos os que estamos no “grupo de risco” e, portanto, em rígida quarentena… E que pode interessar aos que cuidam carinhosamente de nós.

Bobbio escreveu aos 85 anos um livro com o título De senectute (isto é, “Sobre a velhice”), que foi publicado em português com o título aguado de Tempo da Memória (1997).

Ou para evitar o latim, talvez demasiado erudito para os novos, ou para não ferir suscetibilidades dos velhos, que não gostam que se use a palavra velhice. Tanto que o politicamente correto é chamá-los de idosos. Quer dizer, até na tradução do título de um livro sobre a velhice, o jogo do poder se faz presente, de forma camuflada.

Pois bem, nesse texto Bobbio começa dizendo que até a quantidade de anos para alguém ser considerado velho mudou, desde que Cícero escreveu o seu De senectute:

“Aqueles que escreveram obras sobre a velhice, a começar por Cícero, tinham por volta de sessenta anos. Hoje, um sexagenário está velho apenas no sentido burocrático, porque chegou à idade em que geralmente tem direito a uma pensão. O octogenário, salvo exceções, era considerado um velho decrépito, de quem não valia a pena se ocupar. Hoje, ao contrário, a velhice, não burocrática mas fisiológica, começa quando nos aproximamos dos oitenta […]”.

A mudança é tanta que, diz ele, não se fala mais em terceira, mas em quarta idade. No seu modo peculiar de pensar geometricamente, Bobbio caracteriza três tipos de velhice: a burocrática, a biológica e a psicológica (que para ele, observa com humor, começou ainda na juventude!). A esses três tipos poderia ser acrescentado um quarto, por minha conta: a velhice como representação cultural.

É no plano da prevenção e da recuperação do envelhecimento biológico que o conhecimento humano tem obtido mais êxitos. A medicina deslocou a idade da velhice em pelo menos vinte anos, com promessa de prolongar ainda mais essa passagem. E é a medicina que vem ampliando as possibilidades do que se convencionou chamar de “qualidade de vida” nessa fase. O envelhecimento psicológico também vem sendo objeto de estudos e de procedimentos que permitem manter ou recuperar o “espírito de juventude”. Já no plano da representação cultural da velhice parece que se acumulam apenas perdas: para usar a expressão dolorida de Bobbio, nosso tempo é o tempo da “velhice ofendida”.

A arte do queijo

Nestes tempos de retiro geral, uma compulsão quase incontrolável é a de escarafunchar o fundo do baú. Até a televisão está fazendo isso, com filmes, grupos musicais, jogos de futebol e outros feitos trazidos à tona da memória.

A minha compulsão é a de mexer com antigos escritos, e confesso que até eu mesmo me surpreendo com o que encontro, ou reencontro. Um desses achados foram as anotações que fiz sobre a presença do queijo na mais alta antiguidade. E num dos mais consagrados escritos do planeta: a Odisseia de Homero.

A produção e o consumo de leite, queijo e manteiga como alimentos estão presentes nos mitos de origem de várias culturas. Se a história da cultura pode ser dividida em três estágios, nos seus inícios – o dos povos coletores, o dos povos pastores e o dos povos agricultores – o leite como alimento situa-se no estágio de passagem entre o nomadismo total, dos coletores, e o da fixação permanente num território para o cultivo agrícola. Mas, também neste terceiro estágio do cultivo da terra, o leite e seus derivados continuarão tendo lugar importante.

Homero, poeta grego que teria vivido no século X ou IX antes de Cristo, é particularmente explícito sobre a produção de leite e queijo quando narra a história de como viviam deuses e homens na Grécia clássica. Na Odisséia, Homero talvez nos tenha dado a primeira descrição literária do que seriam hoje o galpão, a mangueira, a ordenha e uma queijaria.

Em seu périplo de volta para casa, Ulisses encontra o ciclope Polifemo. É um gigante pastor que ordenha cabras e ovelhas, no seu estábulo, duas vezes por dia: de manhã e à tarde. O leite que sobra da mamada dos filhotes ele o divide em duas metades: de uma delas faz queijo, da outra faz sua janta.

Vai a seguir uma tradução livre:

“Para dentro da caverna espaçosa Polifemo levou o rebanho que pretendia ordenhar, deixando de fora, num pátio cercado, todos os machos: carneiros e bodes.

Logo depois se sentou, para tirar o leite das ovelhas e cabras e, como de costume, deixando cada uma com o filho de mama.

Pôs então para talhar a metade do branco leite e depois o espremeu nuns cestos tecidos com vime.

A outra metade guardou em vasilhas, para beber quando quisesse e, mais tarde, servir na ceia.”

Entrando na gruta de Polifemo, Ulisses vê esta cena:

“Os secadores de queijo se achavam repletos.

Cabritos e cordeiros apertavam-se no estábulo, todos bem separados: os mais velhos, os menores e, por fim, os recém-nascidos. De muitas vasilhas escorria o soro e havia tarros, e gamelas bem feitas, cheias de leite. Meus companheiros então me pediram para sairmos logo, levando uma porção desses queijos”.

Sempre é bom revirar o baú!

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