A BELA DA TARDE

A Bela da Tarde foi mais um desses filmes dos anos 60, do século passado, que sinalizou a virada geral que estava acontecendo nos costumes e, portanto, nas convenções. Mas antes de entrar no assunto, me lembro de um detalhe. Quando o filme foi anunciado aqui em Caxias, pela rádio, o locutor de plantão caprichou na pronúncia dos nomes dos dois atores principais: “Kéthrin Diníuv e Máiquel Piccoli”, como se fossem astros americanos. Na realidade, os dois são franceses da gema, pelo menos por nascimento, e se chamam Catherine Deneuve e Michel Piccoli. Quer dizer: o filme sinalizava também, ao menos aqui em Caxias, o fim da hegemonia da língua francesa e o início da ascensão avassaladora do inglês, para meu desgosto pessoal.

         O filme, além dessa dupla de atores, trazia também um diretor que foi uma espécie de guru daquela geração em briga com as convenções. Quem era? Luis Buñuel. E não é preciso dizer mais nada. A história? Séverine – notem a sutileza na escolha do nome – é uma mulher bonita, jovem, rica, casada com um sujeito de prestígio social e… insatisfeita. Até aí, uma história mais ou menos normal. O impacto está na solução que Séverine busca para abastecer de alguma emoção o seu vazio: procura um bordel e oferece seus serviços, no rigoroso horário entre as duas e as cinco da tarde, quando pode fazer um intervalo em sua vida convencional. Na época, exibido nas melhores salas, o filme deu o que falar, dos bares às rodas de chá.

         Semana passada revi o filme. Claro que depois de todo esse tempo e das sucessivas quebras de convenções havidas, o filme está longe de ser chocante como foi. Mas um detalhe em especial me deixou intrigado: a performance de Catherine Deneuve no papel título nem de longe se parecia com a que me ficou na memória. Ela não apenas está fria, com a fisionomia sob aparente controle, o que já é um contraste agressivo, quase brutal, com a fogueira dos sentidos em que Séverine se arriscou. Ela dá a impressão de estar enfrentando um suplício. É isso, tem um ar sofredor, como se fazer o que estava fazendo, para sair da infelicidade, a tornasse ainda mais infeliz.

         Se a Deneuve fosse má atriz, e Luis Buñuel não fosse o diretor lúcido que sabemos que foi, seria o caso de pensar que, nos anos 60, por um desses efeitos de ilusão ótica, a gente supervalorizou o filme. Mas é evidente que não é nada disso. Buñuel quis que Séverine mostrasse as suas tardes como um suplício não para enganar o marido ou quem quer que a visse por acaso. É porque ela sofria mesmo. A lição subliminar de Buñuel, vejo agora, era exatamente essa, para a geração que queria transgredir as regras: vão em frente, mas não pensem que vai ser uma festa, vocês vão sofrer muito para transgredir. Aliás, é com essa mensagem que o final do filme adquire seu maior sentido.

         Para isso é bom que os filmes sejam guardados. De antes do século vinte, além da poesia e do romance, poucos indícios se tem de como as pessoas viviam sua sensibilidade. Do último século se tem tudo, ou quase, no cinema.

A ERA DO APRENDIZADO

Na década final do século passado tornou-se convicção geral de que havíamos entrado na sociedade do conhecimento. O argumento básico para essa convicção, que se tornou lugar comum e quase uma crença, era o de que o conhecimento tinha passado a ser o principal fator de produção e de desenvolvimento, como tinham sido a matéria-prima, e depois a mão-de-obra treinada, nas fases iniciais do capitalismo. A descoberta desse papel do conhecimento, como fator de produção e de inovação, levou a que se falasse, com boa dose de entusiasmo, que o mundo tinha ingressado na “economia do conhecimento”.

            Hoje o entusiasmo, que é sempre ingênuo, cedeu lugar a uma visão mais crítica do que realmente aconteceu e ainda está acontecendo.

            A primeira constatação é a de que se confundiu conhecimento com informação. Informação é apenas uma forma de conhecimento, aquela em que está contido o “saber que”. Toneladas de informação não garantem o fim da ignorância. O fato de haver televisão em todas as casas, por exemplo, aumentou espantosamente o estoque de informação dos indivíduos. Mas isso não os fez mais inteligentes, capacitados a tomar decisões não previamente programadas. Foi um equívoco, portanto, dizer que estávamos na sociedade do conhecimento. A ignorância se manteve, não foi capaz de impedir a manipulação das pessoas por parte dos detentores do poder: o econômico, o político, o mediático, o ideológico. Ao contrário, o volume de informação empanturrou a ponto de se tornar, para muitos, indigerível.

            A informação contém somente o “saber que”. Para ser completo, o conhecimento precisa incluir também o “saber quem”, o “saber como”, o “saber por quê”. Só assim se elimina a ignorância. A chamada sociedade do conhecimento continua a ser uma sociedade da ignorância. Ela só desaparece quando se faz um real aprendizado.

            Talvez seja conveniente começarmos, já, a substituir o lugar comum de “era do conhecimento” e “economia do conhecimento”, por “era do aprendizado” e “economia do aprendizado”. Isso não é apenas mudança de palavras. É mudança de foco. É mudança de referência. Exatamente por haver aumentado o estoque de informação disponível, a importância do aprendizado cresceu também como nunca.

            E aprendizado não se faz, como parece ser outro mito em moda, pelo uso entusiástico das TICs, sigla que os íntimos dão às tecnologias da informação e da comunicação. O aprendizado, como sempre foi na história da humanidade, se faz na relação interpessoal, em que mestre e aprendiz estabelecem consenso entre o saber antigo e o novo saber. Eu poderia ser mais explícito, talvez. Mas para bom entendedor estas palavras bastam.

TOLERÂNCIA ZERO

Acho que todos ainda se lembram de que foi com este mote – Tolerância Zero – que o lendário prefeito Giuliani fez Nova Iorque despencar no ranking das cidades de maior criminalidade no mundo. Mas muitos imaginam que a Tolerância Zero tenha sido nada mais, nada menos, que pôr a polícia nas ruas e encher os presídios. Isto é, não deixar de reprimir nenhuma contravenção, desde a menor até a maior. Não. Não foi uma operação tão simples assim.

            O rumo da operação Tolerância Zero foi convencer os cidadãos de Nova Iorque, aqueles chamados de cidadãos de bem, de que todos estavam sendo prejudicados em seus negócios naquele ambiente de crimes desenfreados. Falar em prejuízo nos negócios, para o americano em geral, não apenas para o novaiorquino, é tocar na fibra mais sensível do ser. O prefeito Giuliani teve esse mérito: lançou o mote e conseguiu mobilizar os cidadãos. Na prática, cada cidadão estava convocado a, também ele, praticar a Tolerância Zero.

            Tolerância Zero, por exemplo, seria todos os comerciantes cumprirem a lei de não vender bebida alcoólica para menores. Não só isso. Seria qualquer testemunha da venda ilegal protestar no ato e em bom tom. Mais ainda, seria denunciar o caso à polícia, se o vendedor não voltasse atrás, também no ato, de sua atitude potencialmente criminosa. Mais ainda, era o próprio empregado do dono do negócio negar-se a pegar na mão a bebida para entregá-la a um menor. Foi mais ou menos isso a Tolerância Zero.

            Todos sabem que o americano, quando se trata de tomar atitudes como essas, não tem medo do ridículo. Por isso lá a receita teve mais sucesso do que teria, talvez, no Brasil, onde existe a cultura de que cumprir e fazer cumprir a lei é ser careta. Aqui o slogan tivesse que ser este: cumprir a lei não é caretice. Um amigo que estudou alguns anos nos Estados Unidos sempre conta que uma vez, no supermercado, comprou algumas cervejas. A moça do caixa negou-se a pô-las no pacote, alegando ser menor de idade e não poder tocar em bebida alcoólica. Aqui no Brasil isso é anedota. Lá é exemplo de virtude.

            Quem quiser saber mais sobre como foi a queda da criminalidade em Nova Iorque leia o livro “O ponto de desequilíbrio”, de Malcolm Gladwell, editado pela Rocco. Lá ele explica que a fórmula foi, contra a epidemia do crime, lançar com sucesso uma epidemia contra o crime. Para dar certo, a epidemia “do bem” precisa de três coisas: pessoas com capacidade de deflagrar o processo, uma idéia forte o suficiente para ser lembrada e fazer agir e, terceiro, criar clima favorável à nova epidemia. Ou seja, o fim da criminalidade passa por reeducar toda a sociedade. É difícil, mas, como mostrou Nova Iorque, não é impossível.

AS CERCAS DO MEDO

Um grupo de pesquisadores que percorre as zonas rurais de Caxias do Sul, atualizando o inventário do patrimônio cultural e paisagístico dessas localidades, está surpreso com um fenômeno. Os moradores estão com medo de abrir as portas e conversar com os visitantes, temendo estarem sendo vítimas de assalto. A qualquer movimento que percebem, vindo de fora, fecham janelas e portas e, possivelmente, alguém fique de olho na estrada, escondido, de trás da mira de uma espingarda.

         Há vinte anos, um pouco mais, fiz também esse percurso por dentro do município. Um pouco do que vi na época está na novela O Caso do Martelo: estava começando uma mudança de hábitos nas casas da colônia, com toalhas de renda de plástico e a televisão na mesinha da sala, no lugar antes ocupado pela imagem de um santo. Mas a vida ainda era tranqüila. As janelas não se fechavam, as portas se abriam, e a gente podia entrar, ver toalhas de crochê plástico, e conversar. A novela trata de um assassinato, baseada num episódio real, que na ocasião sacudiu uma comunidade inteira, de tão extraordinário que era o fato. Tão extraordinário que virou novela policial e terminou indo para a televisão.

         Hoje, não. Assaltos e assassinatos pelos pacatos lugares de nossas colônias se tornaram um pesadelo, uma preocupação a mais, a ser somada aos outros cuidados diários. Uma ameaça muito mais assustadora que a dos primeiros tempos da colonização, quando os moradores trancavam-se em casa com medo “da tigre”. E já se começa a perceber, nas moradias do meio rural, a adoção de um uso que na cidade de Caxias é quase universal: erguer grades de ferro para proteger as casas. Tenho um vizinho serralheiro cuja oficina fica zumbindo até altas horas da noite. Não estão lhe faltando encomendas. 

Enquanto isso, ficamos todos batendo cabeça para entender o que está acontecendo e para encontrar uma fórmula de dar um basta nessa situação. Endurecer a repressão, pelo que se vê, parece não estar dando o resultado esperado. A tática da queda de braço entre polícia e delinquente, a solução simples que todos pediam, não vai resolver o problema da criminalidade violenta. Vamos ter de pensar a questão com mais profundidade. O caso de Nova Iorque, que de cidade totalmente insegura passou a exibir notáveis índices de alívio para quem anda nas ruas, poderia servir como referência. Prometo falar desse caso na sequência.

DÁBLIU E DOBRE VÊ

Quando o, na época, assim chamado esporte bretão invadiu o Brasil, junto com ele o país foi inundado por uma enxurrada de palavras inglesas. Os jornais e os speakers de rádio (hoje chamados de locutores) falavam em penalty, center-forward, referee. Umas dessas palavras, com o tempo, simplesmente se aportuguesaram, como pênalti, córner, beque e a própria palavra futebol. Outras encontraram sua substituta gramatical, como árbitro, impedimento, zagueiro e assim por diante. A acomodação lingüística demorou mais de 50 anos, mas prosseguiu inexorável, mesmo com a oposição dos gramáticos. Houve um deles que inventou a palavra ludopédio, usando duas raízes latinas, para chamar o futebol. Foi uma palavra natimorta. A língua do povo foi mais forte que a vontade da gramática.

         Nos últimos 15 anos o país foi invadido por outra onda de palavras inglesas, desta vez importadas pela informática e pela Internet. Como aconteceu com a língua futebolística, também esta outra invasão está em processo de acomodação em terra estranha. Enquanto deletar e escanear parece que já se incorporaram à nossa língua, web e download, e muitas outras, estão esperando para ver como é que ficam.

         A moda da Internet trouxe consigo também os endereços eletrônicos, começados pelo código w.w.w. Meus ouvidos sempre se sentiram chocados com a pronúncia dada ao trio de vês duplos: dábliu, dábliu, dábliu. Os meus ouvidos e também os de meu amigo, e também escritor, Assis Brasil. Ocorre que na escola aprendemos a ler o w como dobre vê. Podia-se dizer também vê duplo, ou vê dobrado, mas nunca se ouviu professor nenhum dizer dábliu. Nas férias, vendo um canal português de televisão, o locutor lá deles anunciou um endereço também com o sacrílego dábliu, dábliu, dábliu. Primeiro pensei em escrever ao Assis Brasil e dizer que tínhamos perdido a nossa guerra a favor do dobre vê, pois nem em Portugal se dizia mais dobre vê. Depois, com calma, fui consultar as fontes da língua e descobri, para meu espanto que, é verdade, a Academia portuguesa não tem nada contra o dábliu. E que, de acordo com o Houaiss, o dábliu pode ainda aceitar as variantes dáblio e dabliú. Isto é, o Assis Brasil e eu fomos triplamente derrotados.

A MÁQUINA DE HEMODIÁLISE

Esta é uma historinha contada por Clifford Geertz, um antropólogo que influenciou todas as ciências do homem, pelo menos nos últimos 30 anos, e uma inteligência de que a espécie humana pode se orgulhar. Ninguém como ele pensou a questão das diferenças culturais, como “conhecedor por excelência das mentalidades alheias”, na definição que ele mesmo dá do etnógrafo. Generoso, estende a definição também ao romancista. Os dois são “profissionalmente obcecados com mundos situados noutros lugares e com o torná-los compreensíveis, primeiro para nós mesmos e, depois, para nossos leitores”. Nunca li elogio maior para o trabalho do romancista. Mas vamos ficar na seara desse nosso parceiro, o etnógrafo.

            A historinha de Geertz aconteceu no sudoeste dos Estados Unidos, num programa do governo, dirigido, como é natural nessa circunstância, “por jovens médicos idealistas”. Havia muitos necessitados de diálise e havia somente uma máquina. Organizou-se então uma lista de pacientes, como é também comum nesses casos. Entre eles, conseguiu lugar na fila um índio bêbedo. Os médicos exigiram, para que o tratamento desse efeito, que o índio parasse de beber ou que no mínimo controlasse a quantidade espantosa que ingeria diariamente. O índio simplesmente recusou-se a dar ouvidos. E, por um desses mecanismos da psique que ninguém sabe explicar, comparecia pontualmente nos horários em que tinha direito à máquina de hemodiálise.

Os médicos, na sua lógica de buscar o máximo de eficiência no trabalho, se irritaram. O índio bêbedo, na opinião deles, além de não ter proveito nenhum, tirava a oportunidade de outra pessoa ser beneficiada. Mas o índio continuou surdo aos apelos e continuou a usar o aparelho, anos a fio. Até que morreu, conforme imagina Geertz, orgulhoso de si e agradecido aos deuses por ter tido uma máquina que lhe permitiu continuar prolongar a vida bebendo. Em síntese, os médicos e o índio bêbedo tinham uma lógica oposta, cada um deles baseado nos seus próprios valores. Os médicos entendiam que o índio devia parar de beber porque estava fazendo hemodiálise. O índio, inversamente, entendia que podia continuar bebendo porque estava fazendo hemodiálise.

            O episódio tem seu lado cômico, mas ilustra bem como é difícil penetrar nas mentalidades alheias. E como é difícil, também, fazer julgamento de quem está certo ou errado numa situação em que os dois lados são fiéis a uma ordem de valores diferente, mas que cada um considera justa. Clifford Geertz, o antropólogo, confessa ao final da narrativa que, tudo somado e diminuído, simpatiza mais com o índio bêbedo que com os médicos. Já que entrei na roda, confesso que, para o romancista, seria também o índio o objeto da simpatia.

O TREM DO PAPAI NOEL

Faltava só uma semana para o Natal.

Papai Noel tinha recebido encomendas do mundo inteiro, do Polo Norte até o Polo Sul: eram pedidos de bonecas, de carros, de roupas, de livros, de sapatos e muita coisa mais. 

Papai Noel já tinha conferido na sua lista esses pedidos, para ver quais vinham de crianças bem comportadas, que tinham largado a chupeta, que tinham estudado direitinho, que não tinham brigado com ninguém, que tinham obedecido aos mais velhos. Só quem estava na lista ia ganhar os presentes.

As encomendas estavam já todas prontas, em pacotes coloridos, amarrados com fitas. Os duendes do papai Noel tinham feito esse trabalho, dia e noite, noite e dia. O depósito estava entupido até em cima. Sem contar que na última semana podiam ainda chegar outros pedidos, daqueles que deixam para a última hora.

Pois, uma semana antes do Natal, Papai Noel foi ver como estava o trabalho dos duendes. Estava tudo certo, bem feito, como todos os anos.

Então aconteceu uma coisa que Papai Noel não esperava…

Um grupo de duendes fez uma roda ao redor dele e um deles pediu para falar:

– Pai Noel, a gente nunca pediu nada para o senhor. Mas desta vez tivemos uma ideia…

Parou, meio encabulado, nunca tinha feito uma coisa dessas. Papai Noel abriu um sorriso e disse:

– Pode falar, estou curioso..

O duende ganhou coragem e continuou:

– Acontece que a gente nunca viu tantos presentes. É uma montanha de pacotes.

Interrompeu-se de novo. Papai Noel esperou.

– A ideia que a gente teve foi a seguinte:. ao invés de usar o trenó, que é pequeno, a gente podia usar um trem, que é bem grande.

Papai Noel deu uma risada:

– E as renas vão conseguir puxar o trem? Pobrezinhas!

O duende já tinha a resposta pronta:

– O trem é elétrico, não precisa ninguém para puxar. As renas podem ficar aqui descansando. Ou então, só fazem as entregas nas casas que têm chaminé. Os edifícios nas cidades, hoje, quase nenhum tem chaminé.

Papai Noel coçou a barba, pensando. Depois de um tempo falou:

– Não é uma má ideia, essa de vocês. Podemos pensar no caso.

Os duendes bateram palmas, contentes. Papai Noel agradeceu, rindo, e depois falou:

– Sabem que isso me deu outra ideia? Quando a gente for entregar os presentes, podemos aproveitar o trem e dar uma carona para as crianças que a gente encontrar. As crianças bem comportadas, é claro. Elas vão ficar felizes.

Se alguém encontrar um trem cheio de crianças, no Natal, pode ter certeza: é o trem do Papai Noel!

UM OLHAR CARINHOSO

A República, no Brasil, sempre tratou o Império, e a memória do Império, não apenas com maus modos, mas também com maus bofes. É como se o estouvamento fosse necessário para ser republicano, como o refinamento era a marca do gosto imperial.

         Esse contraste está num poema de Murilo Mendes, quando ele imagina a cena do Marechal Deodoro, todo nos trinques, tomando conta do poder: “Seu Imperador, dê o fora!” Dom Pedro II sai com toda a calma, pedindo apenas que não mexam nas obras de Vitor Hugo. Mas até mesmo esse contraste entre estouvado e refinado tem jeito de achincalhe.

         O poder republicano foi auxiliado, nessa empreitada de pôr em ridículo o período imperial, pela História, pela literatura, pelo teatro, pelo cinema, pela televisão. O tom com que a época e seus personagens são mostrados, quando o são, é o do deboche, o do escracho, o do ridículo.

 Hoje, no imaginário popular, o tempo do Império serve apenas como assunto de comédia ou tema de carnaval. Esse encarniçamento em querer cortar o umbigo da nação com tudo o que existiu antes da República só pode ser resolvido no divã. Esse e o de outros estúpidos iluminados, que acham que o passado não existe senão para ser esquecido, porque a vida, triunfal, começa apenas quando eles entram em cena.

         Por isso um texto e imagens como os desta ficção de Rita Brugger são um benefício para a inteligência e a sensibilidade. Pelo filtro dos olhos de Marie Louise, européia esclarecida, e de Mercedes, mucama de imperatrizes, somos levados para as pequenas coisas do dia e da noite, e convidados a olhar para elas com atenção, despidos de preconceitos. Junto com a autora, as duas personagens fazem um trio de mulheres que, como soem as mulheres, pedem que se dê valor à vida antes de tudo, antes de outros interesses e negócios.

         Além do olhar carinhoso sobre os tempos do Primeiro Império, temos a saborear a linguagem também afetuosa desta memória fictícia. E ainda, como verdadeiro presente, ganhamos a sutileza das aquarelas criadas para serem um novo suporte da nossa imaginação, sempre que quisermos lembrar a imperatriz Leopoldina e aqueles dias em que o espírito de urbanidade mal começava a vingar no Brasil.

ONDE ESTÃO AS HISTÓRIAS

Na primeira vez em que me encontrei com Ignácio de Loyola Brandão, perguntei se ele era mineiro. É claro que se eu prestasse atenção nas orelhas de seus livros, não faria a pergunta. Mas, sei lá por que razão, seus romances sempre me passaram a impressão de haver neles um olhar mineiro, pousado sobre os espantos que provoca a enorme cidade de São Paulo. Meio ofendido, pareceu-me, ele me retrucou que era paulista. Paulista de Araraquara. Para ele isso, com certeza, faz uma grande diferença. Para mim, que olho de mais longe, Araraquara não parece tão longe assim de Minas. Mas todos sabem a importância que ganham as, pequenas na aparência, diferenças locais.

            Nas outras vezes em que nos encontramos, sempre nalguma feira do livro, nunca mais pisei nesse calo melindroso. Desta vez, em que ele veio à Feira do Livro de Caxias do Sul, foi ele quem entrou no assunto. Falou o tempo todo, ou quase, de Araraquara, tema de seu último livro. O assunto que lhe cabia abordar era de onde saem as histórias, onde elas estão, como trazê-las para o papel. E aí é inevitável remexer o baú da memória, desde que se começou a guardar coisas dentro dela. E não há época em que se guardem mais tralhas na memória do que no tempo de criança.

            Ignácio começou contando de onde tirou histórias de seu tempo de menino em Araraquara. Essas vieram sem o uso de nenhum recurso, nenhuma muleta, nenhuma pinça. Mas quando passou a demonstrar de onde saiu o turbilhão de cenas e histórias que nos dá de São Paulo, tirou do bolso uma caderneta minúscula. Sai tudo daqui, disse ele triunfante. Tudo o que vejo e ouço, e que parece interessante, anoto aqui para depois usar quando escrevo. Fiquei pensando em quantas cadernetinhas teria ele, guardadas com método. Pois Ignácio sabia o número exato delas: três mil e tantas e tantas, contadas, uma por uma, pela mulher. Em resumo, era o que Ignácio queria nos dizer, as histórias saem da observação, da escuta, da atenção ao que acontece.

            Saí da palestra impressionado com tanta disciplina e organização. No café, minutos depois, manifestei essa minha admiração e confessei que eu não era capaz de tanto. No começo fazia anotações que ia empilhando numa gaveta, em folhas soltas. Até o dia em que descobri que não aproveitava nada do que tinha anotado. Aquilo que realmente podia ser aproveitado ficava na memória. E o que eu esquecesse, foi a regra que estabeleci, não sei se para me consolar das perdas, é porque realmente não tinha importância.

            Ignácio riu: “você acha que aproveito tudo o que está nas cadernetas?”, perguntou. E terminou confessando que é também na cabeça que vai juntando as peças de suas histórias. As cadernetas são para não sentir culpa de estar desperdiçando coisas interessantes. Isto é, Ignácio de Loyola Brandão pode não querer ser, por fora. Mas por dentro é igual a mineiro.

O QUE É SÓLIDO DESMANCHA

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”. Essa frase do Manifesto Comunista de 1848 dava idéia de como Marx e Engels estavam espantados com as mudanças que começavam a ser introduzidas pela modernidade. Uma frase mais profética do que real: o mundo estava ainda muito sólido naquele ano do Manifesto. Um século e meio depois, sim, não há quem não perceba que tudo o que era sólido está desmanchando num grau que nenhum dos dois autores da metáfora conseguiria imaginar. No tempo de Marx e Engels, eram velhas instituições que vinham abaixo para dar lugar a outras tidas como modernas. Hoje é a própria idéia de instituição que corre perigo de desmanchar.

         O sociólogo Alain Touraine, num ensaio recente, introduziu o conceito de “dessocialização” para descrever de que forma os padrões convencionais de organização social estão se desfazendo. Não se trata apenas da “anomia”, ou ausência de regras que garantam o funcionamento da sociedade com o mínimo de conflitos. Não são apenas regras que faltam. Falta é sociedade.

         Outro dia, em sala de aula, meus alunos fizeram um breve exercício para verificar que instituições ainda estariam sobrevivendo, neste início de século, para assegurar um mínimo de agregação social. O resultado foi melancólico. Não há instituição que não esteja sendo agredida e esvaziada de alguma forma: a família, a escola, a igreja, o estado, até mesmo os clubes de futebol. Nem mesmo a universidade foge a esse quadro geral. Hoje fala-se abertamente em “naufrágio” da universidade, pelo menos daquela que foi construída ao longo de quase um milênio, também ela condenada, ao que parece, a ser substituída por algo bem menos sólido.

         Diante de tantas constatações desalentadoras, é inevitável a pergunta: o que virá depois disso? Como sempre ocorre em situações caóticas, ou pelo menos problemáticas, a tendência é a de dar respostas extremadas. Uma é pensar que a dessocialização possa abrir espaço para que o indivíduo, finalmente livre de todas as convenções, possa marchar soberano, sem dar satisfações a nada e a ninguém. Outra resposta seria exatamente a oposta. A de imaginar que o espaço do indivíduo, de alguma forma preservado pelas instituições que ora desmancham definitivamente no ar, termine totalmente eliminado por uma ou mais formas de totalitarismo. Algumas dessas formas totalitárias estão, por sinal, dando o ar de sua desgraça. Cada uma delas tem potencial suficiente para suprimir o espaço da individualidade. Aí estão, por exemplo, o fundamentalismo, o terrorismo, o mercado, a realidade virtual.

         Diante do prenúncio de tantas catástrofes que ameaçam o futuro da humanidade, sobra o consolo da esperança. De uma réstia de esperança de não estarmos marchando, solidários, para o suicídio. Talvez ainda reste um pouco de bom senso no planeta.

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