A Festa da Uva está chegando

Uma festa é sempre feita de muitas dimensões. Principalmente quando ela acontece dezenas de vezes, ao longo de várias gerações, como é o caso da Festa Nacional da Uva de Caxias do Sul, em sua 34ª edição. Em cada uma delas, estão guardados sabores do passado, enriquecidos por novos sabores a cada nova edição.

Na Festa de 2024, que já está chegando, o sabor particular vem do fato de que nela é dada a arrancada para a celebração dos cento e cinquenta anos do início da imigração italiana na Serra Gaúcha. Sesquicentenário que já vem ganhando diversas promessas para sua comemoração.

Para a Festa da Uva deste ano, o tema escolhido, para começo de celebração do sesquicentenário, foi o dos caminhos percorridos pelos imigrantes e dos lugares que ficaram marcados por sua presença e sua ação ao longo do tempo. Essa temática deverá estar presente em toda a programação da Festa. Imagino que esteja nela o eixo do corso alegórico, peça principal a ser apreciada com os olhos e a imaginação dos caxienses e dos visitantes, agora com o título de Desfile cênico-musical.

Num apanhado geral, no item caminhos, podem ser apontados os seguintes percursos históricos;

O primeiro, e talvez mais simbólico por suas raízes, é o caminho da busca do Paese di Cucagna, que no período da emigração na Itália teve o seguinte slogan: La Mèrica è il vero Paese di Cucagna. Acho que esse caminho foi bem explorado em meu romance A Cocanha.

Outros caminhos trilhados foram estes: o caminho da religiosidade e da fé; os caminhos do trabalho: o trabalho agrícola, o trabalho artesanal, tanto rural quanto urbano, e o trabalho industrial; os variados caminhos da cultura, como os da gastronomia, do cancioneiro popular, da arquitetura, e, talvez o mais importante, o da língua Talian, uma “nova língua” neolatina criada nas colônias italianas e reconhecida como patrimônio linguístico nacional…

Todos esses caminhos deixaram muitos lugares marcados. O caminho da fé está presente em capiteis, capelas e igrejas de várias idades: o lugar mais visitado desse caminho é a igreja de São Pelegrino, que enche os olhos dos turistas com as pinturas de Locatelli. O caminho do trabalho, no meio rural, está na presença de dezenas de vinícolas, todas com vinhos saborosos. No meio urbano, o ponto chave é sem dúvida a Maesa: mesmo ainda em fase de montagem, ali está uma amostra gigante do que foi a indústria da cidade nos anos passados. O caminho da gastronomia está recheado de lugares bem atrativos, a começar pelos restaurantes do galeto, também uma invenção para substituir a passarinhada dos primeiros colonos imigrantes. Por fim, no caminho da cultura a lista é enorme e bem recheada. Cite-se apenas o fato de que a Universidade de Caxias do Sul estará lançando o quinto volume do Cansioniero Popolar, também um rico patrimônio da imigração italiana.

Para completar o espírito de celebração, vale contemplar de perto, com muita reverência, o Monumento Nacional ao Imigrante, cuja inauguração está completando 70 anos exatamente em 2024.

Uma festa é sempre preparada para satisfazer todos os sentidos do corpo humano, mais a sua imaginação e a sua inteligência. Vamos viver plenamente esta Festa Nacional da Uva que está chegando!

ENCHENTE DE SÃO MIGUEL

Contam que é assim, eu não sei se é.

            Uma vez o padroeiro desta terra aqui do pampa era São Miguel. Mandava na chuva, no vento, na geada. Na neve, se fosse o caso. Foi no tempo em que os castelhanos eram donos, mandavam e desmandavam na indiada toda. Ainda está lá, para quem quiser ver, o que sobrou da igreja de São Miguel das Missões, uma senhora igreja.

            Acontece que um tempo depois chegaram os portugueses pelo lado do mar e botaram São Pedro de padroeiro,  o São Pedro do Rio Grande. E foram avançando, e avançando, até tomar a terra toda dos castelhanos. E deram, a essa terra toda, o nome de Continente do Rio Grande de São Pedro. Depois, muito depois, é que mudou o nome para Rio Grande do Sul.

            São Pedro, todo mundo sabe, é o dono das chaves do céu. Nuvens, vento, chuva, é tudo controlado por ele. O pobre do São Miguel ficou sem o pedaço de mando dele no céu, igual aos castelhanos que perderam o mando na terra. Aí, numa boa, São Pedro autorizou São Miguel a mandar uma chuva por ano, que era para ser a chuva de São Miguel.

            Então, contam, São Miguel aproveita para tirar o atraso. Manda chuvaradas e chuvaradas, quase sempre aí pelo fim de setembro, perto do dia dele, que é o dia 29 desse mês. Por isso é que elas ficaram conhecidas por esse nome de enchente de São Miguel.

            De uns tempos para cá, a data não é muito respeitada, mas a enchente de São Miguel acontece sempre. Ou seis meses antes ou seis meses depois, mas acontece.

            Contam que é assim, eu não sei se é.

O Trem do Papai Noel

Faltava só uma semana para o Natal.

Papai Noel tinha recebido encomendas do mundo inteiro, do Polo Norte até o Polo Sul: eram pedidos de bonecas, de carros, de roupas, de livros, de sapatos e muita coisa mais.

Papai Noel já tinha conferido na sua lista esses pedidos, para ver quais vinham de crianças bem comportadas, que tinham largado a chupeta, que tinham estudado direitinho, que não tinham brigado com ninguém, que tinham obedecido aos mais velhos. Só quem estava na lista ia ganhar os presentes.

As encomendas estavam já todas prontas, em pacotes coloridos, amarrados com fitas. Os duendes do Papai Noel tinham feito esse trabalho, dia e noite, noite e dia. O depósito estava entupido até em cima. Sem contar que na última semana podiam ainda chegar outros pedidos, daqueles que deixam para a última hora.

Pois, uma semana antes do Natal, Papai Noel foi ver como estava o trabalho dos duendes. Estava tudo certo, bem feito, como todos os anos.

Então aconteceu uma coisa que Papai Noel não esperava…

Um grupo de duendes fez uma roda ao redor dele e um deles pediu para falar:

– Pai Noel, a gente nunca pediu nada para o senhor. Mas desta vez tivemos uma ideia…

Parou, meio encabulado, nunca tinha feito uma coisa dessas. Papai Noel abriu um sorriso e disse:

– Pode falar, estou curioso…

O duende ganhou coragem e continuou:

– Acontece que a gente nunca viu tantos presentes. É uma montanha de pacotes.

Interrompeu-se de novo. Papai Noel esperou.

– A ideia que a gente teve foi a seguinte: ao invés de usar o trenó, que é pequeno, a gente podia usar um trem, que é bem grande.

Papai Noel deu uma risada:

– E as renas vão conseguir puxar o trem? Pobrezinhas!

O duende já tinha a resposta pronta:

– O trem é elétrico, não precisa ninguém para puxar. As renas podem ficar aqui descansando. Ou então, só fazem as entregas nas casas que têm chaminé. Os edifícios nas cidades, hoje, quase nenhum tem chaminé.

Papai Noel coçou a barba, pensando. Depois de um tempo falou:

– Não é uma má ideia, essa de vocês. Podemos pensar no caso.

Os duendes bateram palmas, contentes. Papai Noel agradeceu, rindo, e depois falou:

– Sabem que isso me deu outra ideia? Quando a gente for entregar os presentes, podemos aproveitar o trem e dar uma carona para as crianças que a gente encontrar. As crianças bem comportadas, é claro. Elas vão ficar felizes.

Se alguém encontrar um trem cheio de crianças, no Natal, pode ter certeza: é o trem do Papai Noel!

Um livro que é um museu

Acaba de vir à tona, vindo da profundeza das memórias da II Guerra Mundial, tal como vivida em Caxias do Sul, um livro que já é por si só um museu. Seu título é de cunho intencionalmente didático, e por isso mais longo que de costume:

MUSEU DOS EX-COMBATENTES

DA FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

(CAXIAS DO SUL):

HISTÓRIA E MEMÓRIAS

A obra foi organizada pela pesquisadora Rosana Peccini, autora de outra obra importante para a história da cidade, A Invenção da Galeteria, que levou ao reconhecimento do Galeto al Primo Canto como patrimônio cultural imaterial de Caxias do Sul.

Neste livro-museu estão relatos de pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, a FEB, e de seus familiares, junto com artigos reconstituindo a história com base em pesquisas, além de cópia de documentos e de notícias e muitas fotografias. Com todo esse material, é possível ter-se uma visão cheia de detalhes e de grande força emotiva.

Quando escrevi o romance A Babilônia, que tem seu foco principal no conflito de ideologias, de direita e de esquerda, no período entre as duas guerras mundiais, não cheguei ao ponto de mostrar a repercussão da II Guerra dentro da então pequena cidade de Caxias do Sul. Não deixa de ter um forte teor dramático o fato de uma cidade fundada por imigrantes italianos, onde foi proibida a língua que trouxeram e continuavam a falar, ter fornecido soldados para lutarem dentro da Itália contra nazistas e fascistas.

Um teor dramático que esta publicação, patrocinada pela Prefeitura, deixa bem encenado. Esse episódio começou a ser registrado e resgatado ainda em 1946, na primeira tentativa de criar uma associação dos ex-combatentes de Caxias do Sul. Após diversas tentativas, acabou sendo fundado o Museu dos Ex-Combatentes da FEB na II Guerra Mundial, que ganhou sede própria em 1975, em lei aprovada pelo então Prefeito Municipal Mario David Vanin.

Depois de mais de duzentas páginas, o livro-museu fecha com outra preciosidade na contracapa: é a Canção do Expedicionário, cuja letra foi composta pelo poeta paulista Guilherme de Almeida, um dos mentores da Semana de Arte Moderna. Ainda tenho na memória os versos iniciais que aprendi ainda menino, na escola:

Você sabe de onde eu venho?

Venho do morro, do Engenho,

Das selvas, dos cafezais,

De boa terra do coco,

Da choupana onde um é pouco,

Dois é bom, três é demais.

Venho das praias sedosas,

Das montanhas alterosas,

Do pampa, do seringal.

Como se informa numa das páginas de rosto, “Este livro não pode ser comercializado, pois destina-se à distribuição para escolas”. Exatamente onde deve começar o cultivo da memória do passado.

Publicada pela Educs, a obra pode ser acessada em download no site da Editora.

As ‘Montanhas Azuis’ de Oscar Bertholdo

Este ano vai ficar na história da literatura serrana, rio-grandense e brasileira com uma marca especial: o lançamento de Montanhas Azuis, outro livro inédito de poemas deixado por Oscar Bertholdo (1935 – 1991). O lançamento oficial dessa obra póstuma ocorreu na Feira do Livro de Farroupilha, realizada há pouco, de 7 a 11 de novembro de 2023, na Praça da Emancipação, depois de sete anos de interrupção do evento.

Em matéria publicada pelo jornal O Farroupilha (em 10/11/23), uma sobrinha do poeta, Tânia Bertholdo, que organizou a publicação dessa obra, relata que seu tio, ao falecer, deixou muitos inéditos, a maioria deles já organizados para a impressão. Os cinco herdeiros dividiram esse tesouro, com a responsabilidade de encaminhar sua publicação. A primeira obra a ser publicada foi Bocca Chiusa. Logo depois, o pai de Tânia, de nome Ulisses Bertholdo, decidiu publicar O Fazedor de Lonjuras.

Para a edição deste, em 2011, Tânia Bertholdo me solicitou que escrevesse um prefácio, a que dei o título de “Lonjuras”. E pediu também que fizesse uma revisão do texto original. Duas tarefas que realizei com o máximo de emoção. Uma delas foi a de descobrir em Oscar Bertholdo um poeta que eu não conhecia. O poeta conhecido até então tinha seu olhar concentrado nas paisagens e nos personagens da Serra Gaúcha, marcados pela cultura do imigrante italiano. Nesse livro inédito, o poeta fazia uma viagem pela Europa. Por isso o título de “O Fazedor de Lonjuras”.

Dividido em quatro partes, Bertholdo deu a cada uma delas, escritas a mão na folha de rosto, os seguintes títulos:

a) andei e fiquei andando europeu

b) memorial para o meu vêneto avô Luiz

c) o avesso de dentro

d) de profundis.

Já na divisão dos arquivos originais, aparecem os seguintes títulos definitivos:

1ª parte: O AVESSO DE DENTRO

2ª parte: ALUMBRAMENTO EUROPEU

3ª parte: CANTO DO IMIGRANTE

4ª parte: DE PROFUNDIS.

Na segunda parte, a do Alumbramento Europeu, datado de 1973-1974, ficou registrada no final de cada poema a cidade europeia em que foi escrito, com a respectiva data. O primeiro foi escrito em Padova, em junho de 1973. Os seguintes têm data de novembro do mesmo ano, nas seguintes cidades: Bruxelas, Londres, Veneza, Trieste, Cortina d’Ampezzo, Roma (Fontana di Trevi), Florença, Orvietto, Sorrento, Nápoles, Valle de los Caídos (na Espanha) e Lisboa. A coletânea se encerra com um poema escrito na Úmbria, em maio de 1974.

Em Montanhas Azuis, o tema volta a se concentrar na paisagem serrana. Oscar Bertholdo deixou o livro pronto para a edição, inclusive com prefácio de Jayme Paviani. O texto pode ser acessado por download no site da Editora da Universidade de Caxias do Sul. Lá estão estes dois versos de encantamento:

“Só os poetas sabiam que as montanhas

são realmente azuis em minha terra”.

O palco do Maracanã

O estádio do Maracanã, cujo nome oficial é Estádio Jornalista Mário Filho, tem sido apelidado, não apenas no Brasil, de palco do futebol, o que ele tem sido de fato.

Como em todo palco, as cenas montadas nele incluem todos os gêneros dramáticos, da tragédia à comédia. E como o palco é todo o estádio, e não apenas as quatro linhas do gramado, os atores não são somente os jogadores de futebol: também a plateia desempenha papéis bem variados durante os jogos.

Já no primeiro jogo oficial, no dia de sua inauguração, em 1950, houve uma cena triunfal seguida de uma cena funesta. A cena triunfal foi o gol do craque Didi, um carioca, que ficou marcado como o gol inaugural do estádio. Era um jogo entre a seleção carioca e a seleção paulista, quando Rio e São Paulo assumiam a hegemonia do futebol brasileiro. Tanto que não havia campeonato nacional. Havia era o Torneio Rio-São Paulo. Para desgosto dos donos do estádio, a seleção paulista venceu esse jogo de abertura por 3 x 1.

Mas essa foi uma tragédia pequena, comparada com a que viria logo depois, na decisão da Copa do Mundo de 1950, entre Brasil e Uruguai. Depois de festas e festas, o Brasil acabou perdendo o jogo, e a Copa. Os uruguaios apelidaram essa vitória heroica com o nome de Maracanazo, que depois foi incorporado ao dialeto carioca como maracanaço, para designar as cenas mais espantosas nele realizadas.

A sucessão de triunfos e fracassos prosseguiu ao longo das décadas. Momentos gloriosos foram encenados por Pelé. O primeiro foi quando ele estreou na seleção brasileira aos 16 anos, marcando um gol. O segundo foi quando marcou aquele gol que foi chamado de “gol de placa”, de tão brilhante. O terceiro foi o dia em que Pelé marcou seu milésimo gol, que também teve um sabor amargo para os cariocas: quem levou o gol foi o time do Vasco, num jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo.

Pessoalmente, tive a oportunidade de ver dentro do Maracanã um lance histórico, no final dos anos sessenta. Não foi um lance trágico nem dramático, mas cômico. Por sinal, um lance que nunca foi realçado pela mídia.

Foi também num jogo do Torneio Rio-São Paulo, entre o Santos e um time carioca. Na metade do segundo tempo a partida seguia empatada. De repente, a bola sobrou na frente de Pelé, na entrada da área adversária. Ele olhou para a goleira e armou o chute. Por incrível que possa parecer, ele errou a bola, dando um “chute no ar”, como se diz na gíria futebolística. O estádio inteiro caiu na gargalhada. Ainda lembro esse momento. Fiquei surpreso por não ter havido vaia, como é comum nesses lances. Acho que foi uma espécie de demonstração cordial, para aquele que já era chamado rei do futebol.

Outro momento marcante na minha memória foi a conquista da Copa do Brasil pelo Juventude, em 1.999, diante do Botafogo carioca. O Juventude precisava apenas de um empate, já que havia vencido o primeiro jogo no Alfredo Jaconi. Pois bem, ele resistiu aos ataques maciços do time carioca até o último minuto, e sagrou-se Campeão do Brasil. Dizem os que estavam presentes nessa epopeia que foi a segunda vez em que o Maracanã silenciou, depois da derrota para o Uruguai em 1950. Foi outro maracanaço

Já as cenas do último final da semana, envolvendo o jogo entre Brasil e Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, foram de uma teatralidade do mais baixo nível. Foi de fato uma “noite de terror”, como a batizou a mídia. Uma noite que não condiz com a história do Maracanã, e que mostra como mudou o comportamento dos atores das arquibancadas, num maracanaço bem sórdido.

Mas, como dizia Camões num de seus sonetos:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança,

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Que ao menos não seja mudança para pior, o que parece estar acontecendo até no futebol dentro de campo…

Longe da sala de aula

O ensino a distância, EaD, vem ocupando cada vez mais o campo da educação superior no mundo inteiro. No Brasil, dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) apontam que no período de dez anos, entre 2012 e 2022, o número de alunos matriculados em cursos de graduação a distância passou de 1,1 milhão para 4,3 milhões. Isto é, o número mais que triplicou em uma década.

Comparando com as matrículas presenciais, os dados são ainda mais espantosos. Em 2012, o número de alunos presenciais nas universidades e faculdades chegava perto da faixa dos seis milhões. Em 2022, o total havia caído já para a casa dos cinco milhões. E o que mais chama a atenção é que o crescimento das matrículas a distância foi maior nos cursos de licenciatura, que são os que formam professores para diversas áreas da educação básica.

O forte do EaD está nas instituições privadas, que conseguem aumentar o número de alunos reduzindo o número de professores. Dados do INEP foram levantados para uma comparação entre duas instituições, uma de ensino presencial e outra de ensino a distância. Na primeira, para cerca de 60 mil alunos matriculados, havia quase seis mil professores. Na outra, que realiza EaD para mais de 650 mil alunos, o número de docentes não chega a trezentos.

A questão que se levanta é esta: isso é bom ou é ruim para a educação no Brasil, desde o ensino fundamental até o superior? Como ocorre nesses casos que envolvem comportamentos, a resposta tende a ser complexa: se há perdas, pode também haver ganhos. As perdas estariam na falta de contatos pessoais entre docentes e discentes. Os ganhos estariam no aumento de oportunidades e de possibilidades de formação superior, sem ter de sair de casa.

O ensino presencial teve forte presença na história. A universidade, instituição criada no século XIII, foi definida como “congregação de professores e alunos”: congregação que exigia a presença física de uns e outros. O ensino médio, por sua vez, era ministrado nos colégios, com alunos convivendo dentro do mesmo espaço, que ganhou o nome de internato, ou colégio interno.

No Brasil, os primeiros cursos superiores, na área jurídica, foram criados logo depois da Independência. A Faculdade do Largo de São Francisco, em São Paulo, foi instalada num antigo convento, hoje tombado pelo patrimônio histórico, para permitir a internação de alunos procedentes de vários estados do país. A peça teatral Os bacharéis, de Simões Lopes Neto, encenada há pouco em Porto Alegre, dá bem uma ideia de como se dava essa convivência.

No ensino médio, outra obra clássica mostra seu perfil nas origens, no período imperial: é ela O Ateneu, de Raul Pompeia, que inicia com esta frase:

“Vais encontrar o mundo, disse meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões da criança criada exoticamente na estufa de carinho que é o regime de amor doméstico, diferente do que se encontra fora”.

O romance de Raul Pompeia, precursor do realismo, mergulha no ambiente do internato, com o autoritarismo do diretor e os atritos e amizades com os colegas. A história termina com um incêndio no colégio, numa espécie de condenação metafórica insinuada pelo autor.

Os colégios internos espalharam-se depois pelo Brasil inteiro, quase sempre sob a orientação de congregações religiosas, criadas para esse fim na Europa e que migraram também para a Serra Gaúcha. Temos, portanto, condições de comparar esses dois extremos: o internato e o ensino a distância…

Mundo rural e mundo urbano

Um tema recorrente na análise dos processos culturais é o da relação entre campo e cidade, ou entre colônia e cidade, para usar termos locais.

Em meu romance O Quatrilho, todo ele com base nos hábitos culturais da época e dos lugares, coloco esta situação dramática: a de um casal da colônia que decide mudar-se para a cidade, em busca de novas oportunidades, principalmente econômicas.

Na “Última Contagem”, a cena se concentra na personagem Pierina assumindo, com estranheza, o modo de se vestir e de se aprumar, na cidade, para receber uma visita:

O vestido de seda custou a entrar no corpo. […] Pena que não fosse um vestido longo, como se usava antigamente. Não se acostumara ainda com essa moda de vestido pelo joelho, mas era o que todas usavam na cidade.

Na literatura esse tema é frequente e, até, um dos temas básicos da poesia lírica. As Bucólicas de Virgílio, em que um citadino romano vê no mundo rural um universo perfeito, são até hoje uma referência para os poetas. Os poetas da Serra Gaúcha, pelo menos, antes mesmo do livro Matrícula, não se afastam um palmo da visão do mundo rural, como nestes versos de Virgílio (em tradução livre):

“Títiro, deitado à sombra dessa imensa faia

tocando para a musa tua flauta silvestre,

nós deixamos teu solo, os doces campos deixamos.”

Ao ler Drummond de Andrade, ou qualquer outro poeta contemporâneo, percebe-se como esse tema é recorrente E não apenas com a visão do poeta que, na cidade, recupera a memória do campo. Em Drummond, também oriundo do meio rural, a visão virgiliana está presente, como se vê, por exemplo, no poema Lembrança do mundo antigo, cheio de pontos de exclamação.

“Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

A água era dourada sob as pontes […]

Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!”

Mas imagens do mundo oposto, com o espanto causado pelos hábitos urbanos, também percorrem toda sua poesia, de que se tem amostra no poema Edifício Esplendor:

No cimento, nem traço

da pena dos homens.

As famílias se fecham

em células estanques.

O elevador sem ternura

expele, absorve,

num ranger monótono

substância humana.

Entretanto há muito

se acabaram os homens.

Ficaram apenas

tristes moradores.

Hoje vivemos num ambiente em que o mundo rural e o mundo urbano convergem cada vez mais, com o aumento e a diversidade dos meios de comunicação, que praticamente eliminam fronteiras. Mas, ainda assim, cada um deles guarda traços culturais que sobrevivem, e que ainda são lembrados em meio a festas, como a que há pouco se viu no festival da FenaMassa de Antônio Prado, num completo retorno ao inesquecível ambiente cultural das colônias!

As incontáveis situações dramáticas

Existe um livro, no mínimo curioso, para não dizer espantoso, intitulado As Duzentas Mil Situações Dramáticas. Seu autor é Etienne Souriau (1892 – 1979), pensador francês, que dirigiu a Revue d’esthétique e se dedicou a desvendar os meandros do teatro, por primeiro, e posteriormente do cinema, como um dos fundadores da filmologia. A obra foi editada em francês em 1970 e, em português, pela Editora Ática S. A., em 1993, com tradução de Maria Lúcia Pereira.

Metódico, Souriau começa pondo a pergunta: o que é uma situação dramática? Gasta trinta páginas para responder, concluindo com este resumo: “a situação dramática é um sistema de oposições e de atrações, de convergências em choque de cunho moral construtivo ou de explosão destrutiva, de alianças ou de divisões hostis”. Nascem desse entrevero de forças as funções dramatúrgicas, que são “os componentes dinâmicos” das situações dramáticas. Elas são como as “notas da escala musical”, que podem gerar um número infindável de combinações sonoras.

O estudo das funções ganha do autor sessenta páginas de análise, postas “num cadinho, se posso chamar assim”. Começa citando um inventário feito por outro pensador francês, George Polti (1868-1946), em livro por ele editado em 1895, com o título de As Trinta e Seis Situações Dramáticas. Souriau faz uma crítica veemente a esse inventário, mostrando que as 36 situações relacionadas por George Polti são na realidade funções que constroem os enredos dramáticos: “são essas mesmo as situações dramáticas? São situações? São todas as situações?”, questiona ele.

O restante do livro leva adiante o cálculo das situações possíveis, a partir de autores como Sófocles, Shakespeare, Corneille, Racine, Molière, Brecht, Ibsen e muitos outros dramaturgos, romancistas e mesmo cineastas. Tudo somado, ele chega, não sem ironia, a um número preciso: “210.141” situações possíveis, considerando os seguintes itens:

– o número de personagens

– o tipo de funções

– a combinação de funções

– as situações fortes e as situações fracas

– os recursos do ponto de vista

– a “comédia dos erros”

– a intervenção do sentido.

Ainda se divertindo com seus cálculos complexos, Souriau conclui dizendo:

“Não gostaríamos de cansar o leitor, esgotando (o que aliás exigiria 20 volumes!) nossa matéria […] Viver dramaticamente é viver em união e em conversação íntima com o quase-infinito”.

De minha parte, não considero um exagero esse número proposto por Souriau. Considerando todas as variantes possíveis para os sete quesitos definidos pela retórica jurídica romana para caracterizar uma situação – quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando – o número de situações dramáticas passa a ser incontável.

Tudo isso serve de elemento motivador, tanto para quem escreve como para quem lê. O escritor tem à sua frente inúmeras possibilidades de montar um drama: o tipo de personagem (quis), que ação ela leva em frente (quid), que meios, recursos ou parcerias utiliza (quibus auxiliis), quais os motivos de seus atos (cur), de que modo age ou que posições assume (quomodo) e em que época da história tudo acontece (quando).

Para o leitor, as inúmeras situações dramáticas possíveis são um elemento motivador para a leitura: cada livro que ele tomar na mão esconde, certamente, novidades com que se surpreender…

Migrações internas

Em meu romance O Quatrilho, coloquei, como nó dramático para os dois jovens casais da trama narrativa, a necessidade de procurarem novas terras, ou de encontrarem outro ramo de atividade que não a de agricultores.

Não foi uma situação inventada: no início do século XX, com o aumento de habitantes do meio rural, consequência das famílias com dezena ou mais de filhos, as migrações internas marcaram a história das colônias italianas. Municípios vizinhos criaram programas para atrair as famílias desses migrantes, e proprietários de latifúndios também aproveitaram a ocasião para bons negócios.

Em suas memórias, meu pai registrou a experiência de sair de Nova Vicenza, hoje Farroupilha, onde nasceu, para as colônias de “serra abaixo”, em Conceição do Arroio, hoje a região do município de Osório. O pai dele, meu avô, ficara sem terras para trabalhar, e tropeava açúcar mascavo, rapadura e banana para um armazém, produtos que ele buscava na Barra do Ouro, perto de Osório, onde um cunhado dele residia. Casado, com os primeiros filhos chegando, decidiu que iria também buscar terras por aqueles lados.

O primeiro trecho da viagem com a família foi de trem, entre Nova Vicenza e Caxias, num vagão de segunda classe. A seguir vieram outras peripécias, assim descritas por meu pai, que tinha apenas quatro anos na ocasião dos fatos:

Daqui por diante, conforme contava minha mãe, a viagem foi longa e penosa (uns cinco ou seis dias de viagem), andando um pouco a pé outro pouco a cavalo, dormindo ao relento ou em barracas, conforme o tempo…

Para o transporte tínhamos só dois animais. Um, para o transporte da mudança, toda dentro de duas caixas de tábua e o outro para a cavalgadura de toda a família…

Atravessando densas matas, subindo e descendo encostas, atravessando campos, contornando coxilhas e descendo serra, desembocamos finalmente na então famosa “Barra do Ouro” (que de ouro nada tinha), onde ficamos descansando uns quinze dias na casa do meu tio Pedro Debastiani, irmão de minha mãe.

A Barra do Ouro era um pequeno burgo com meia dúzia de casas cercadas por altos morros.

Refeitos dessa longa e exaustiva caminhada, retomamos a viagem, porém agora confortavelmente instalados numa carretinha a tração animal, puxada por duas gordas e anafadas mulas.

Ao cabo de umas oito horas de viagem de carreta, chegamos finalmente ao nosso destino, um lugar chamado “Mundo Novo”.

Ali chegados, nos instalamos provisoriamente num galpão, gentilmente cedido pelo seu Gervásio e aí ficamos instalados até construirmos a nossa própria casa, que seria num descampado que havia à beira da estrada que atravessava a frente da nossa colônia, comprada por intermédio do meu tio, lá da Barra do Ouro, e que custara, $500.000 réis (mais ou menos).

Construímos uma casinha tosca, de quatro compartimentos, de chão batido, paredes de talas de palmeira pregadas em forma de grade e rebocadas de barro amassado com os pés.

De lá, meu pai migrou para Santa Teresa, em São Francisco de Paula, e o restante da família seguiu para o norte do estado, em Lagoa Vermelha, e outra parte para Santa Catarina e Paraná. As migrações internas se multiplicavam, enfraquecendo com isso os laços de família, mas abrindo novas oportunidades…

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