O recado da contracapa

Quando os livros deixaram de ser uma preciosidade das bibliotecas e entraram na rede do comércio, a sua contracapa passou a ter uma importância capital.

Nela, o leitor interessado na compra ou na leitura da obra encontra uma informação sucinta sobre seu autor e seu conteúdo, na forma de uma sinopse ou, também, da transcrição de uma passagem do texto, oferecida como uma amostra do seu sabor.

Não se tem ideia de com quem, onde e quando teve início essa prática. Tudo indica que ela tenha surgido com a era da publicidade e propaganda, que ganhou força no início do século XX, como diz Drummond de Andrade em seu poema “Nosso Tempo”:

No céu da propaganda

aves anunciam

a glória.

O fato é que, nos dias de hoje, em qualquer lugar do planeta em que se editem livros, seja em que língua for, a contracapa é utilizada para um rápido anúncio da “glória”, como ironiza Drummond. Anúncio que é também uma pista dada ao autor de como o mundo dos leitores, ou pelo menos parte deles, verá seu escrito.

Tive essa experiência ampliada com a edição da novela policial O Caso do Martelo em italiano e em espanhol. Compartilho aqui a contracapa das duas traduções, trazida de volta numa versão em português.

Em italiano, Il caso del martello traz um resumo da biografia do detetive:

“Pasúbio era dos tempos em que um filho de um colono, com alguma inquietação no cérebro, tinha como alternativa apenas a de seguir a carreira clerical. Ou, em último caso, a militar. Depois de ter deixado o seminário, com sua rígida formação jesuítica, conseguiu aproximar-se de uma profissão de peso, do ponto de vista econômico e social. O emprego provisório na polícia terminou, porém, por inculcar nele o fascínio de lidar com as motivações secretas das mais absurdas ações humanas.”

Em espanhol, El caso del martillo vem com uma sinopse do conflito central da novela, em que uma comunidade inteira resiste à investigação de Pasúbio:

“Novela policial envolvente, num cenário excêntrico. Dessa forma sintética poderia ser caracterizado El caso del martillo, do escritor brasileiro José Clemente Pozenato (1938). Um crime terrível ocorre numa pequena e tranquila colônia italiana. O inspetor Pasúbio viaja no dia mesmo do assassinato e dá de encontro com a resistência de toda a comunidade. No começo da narrativa, o autor dá uma pista ao leitor. Um investigador diz a outro: “isto aqui não é polícia de filme norte-americano”. Isto é, esta é uma história do sul do Brasil, e portanto o compromisso de quem investiga com os investigados está bem longe da falsa espetacularidade, das soluções providenciais, com o exagero de tiros e de sangue”.

Como autor, sempre tenho surpresas com os comentários dos leitores. Mas, como ensinava o mestre Antonio Candido, em sua clássica obra Formação da Literatura Brasileira (Momentos Decisivos), de 1957: o sistema da literatura é feito de três elementos básicos: a obra, o autor e o leitor. Com a falta de um deles, não existe literatura.

Poema manifesto do ‘Stil Nuovo’

A canção “Al cor gentil rempaira sempre amore” (“No coração gentil paira sempre o amor”) tem sido considerada uma espécie de manifesto, ou uma “canção doutrinária”, referencial para a poesia de Guido Guinizzelli. Composta por seis estâncias de dez versos cada uma, tem um caráter próximo da reflexão filosófica sobre o tema da nobreza de coração.

Nela, o poeta aborda o tema da relação entre o sentimento de amor à mulher com a nobreza de ânimo do amante. Busca demonstrar que amor e nobreza de ânimo não podem ser pensados separadamente, e que a nobreza de ânimo é superior à nobreza de sangue. A técnica de argumentação é a da analogia, característica da filosofia medieval, que em Bolonha teve a primeira sede universitária. Em cada estância, ou estrofe, é feita a analogia entre um princípio da ordem do amor e um princípio do mundo físico natural, para demonstrar a teoria do amor defendida pelo poeta.

Primeira estância, versos iniciais:

No coração gentil paira o amor

qual pássaro no verde da floresta

Guinizzelli retoma aqui um tema da poesia provençal, dando-lhe a forma de uma doutrina filosófica: o amor habita o coração nobre, como o pássaro habita os bosques e as árvores; o amor não foi criado antes do coração nobre, nem o coração nobre antes do amor. O amor e a nobreza foram criados juntos, como o sol com a luz que ele espalha, ou como o calor que deriva da chama brilhante.

Segunda estância, versos iniciais:

Fogo de amor na gentileza se prende

como a virtude na pedra preciosa,

O “fogo de amor” é uma imagem que o poeta retoma e transforma em metáfora. A pedra preciosa só adquire essa virtude depois que o sol tira dela toda impureza. Da mesma forma, só depois de o coração se tornar “eleito, bom, gentil” pode encontrar sua estrela numa mulher.

Terceira estância, versos iniciais:

O amor está no coração gentil

como o fogo aceso no pavio

Continuam as analogias: o amor se entranha no coração nobre como o fogo no pavio da lâmpada, e como o diamante na mina de ferro.

Já na quarta estância, o poeta enfrenta a polêmica entre nobreza de sangue – que não tira ninguém do charco – e a nobreza conquistada pela virtude: esta sim, é “água iluminada pelas estrelas”.

Nas duas últimas estâncias, o tom se torna metafísico e teológico. O poeta compara o esplendor da amada nos olhos do amado com o esplendor de Deus sobre as inteligências. Deus cobra então da alma do amante uma reparação por essa heresia: este se justifica explicando que a amada “era igual a um anjo” e que por isso “não tive culpa se amor lhe dei”.

Tudo isso é apenas uma amostra da riqueza dessa Canção Manifesto.

O “pai” do Dolce Stil Nuovo

O poeta Guido Guinizzelli, que Dante Alighieri chamou de “pai” do Stil Nuovo, nasceu em Bolonha entre os anos de 1230 e 1240, e morreu em Monselice em 1276. Há poucos dados sobre sua identidade e muitas discordâncias. A versão mais aceita é de que foi um juiz, ou jurisperito, filho de Guinizzello da Magnano, sendo sua mãe da família Ghisleri, ligada aos gibelinos. De fato, Guinizzelli aparece em atos notariais de 1266 como sendo da facção gibelina.

Os guelfos eram partidários da supremacia do papa sobre o império germânico e a favor de um regime democrático nas cidades italianas. Os gibelinos eram seus adversários, sendo contra o poder temporal do papa e a favor do poder pleno dos senhores das cidades. Em Florença, os guelfos se dividiram em dois partidos, o dos Bianchi, que se opunham ao papa e dialogavam com os gibelinos, e os Neri, fiéis ao poder do papa. Dante foi um guelfo Bianco, e por isso foi exilado.

Com a tomada do poder pelos guelfos, em Bolonha, em 1274, Guinizzelli foi exilado em Monselice, na província de Pádua, onde morreria dois anos depois. Um documento notarial, com data de 14 de novembro de 1276, atribui à mulher de Guido, Bice dela Frata, a tutela do filho menor de idade.

Da sua obra poética restaram vinte poemas de atribuição segura. São cinco canções e quinze sonetos, mais dois fragmentos. Há outras três canções de atribuição duvidosa. É uma poesia que mescla elementos da tradição siciliana e da influência de Guittone d’Arezzo, com traços inovadores, apontados por Dante Alighieri na obra Vita Nova.

Essa inovação tem sua raiz na intensa atividade intelectual da cidade de Bolonha, com sua Universidade de estudo de ciências naturais, de medicina, de filosofia e de teologia. Guinizzelli introduz no tecido dos seus poemas a indagação filosófica, a ponto de Bonagiunta, um poeta seu contemporâneo, o acusar de extrair poesia dos manuais de ciências e filosofia.

A contribuição de Guido Guinizzelli para o nascimento do Novo Estilo se dá em dois planos: o formal e o temático.

No plano formal, Guinizzelli consolida a combinação – considerada ideal por Dante – do verso hexassílabo com o decassílabo, utilizada nas canções. O próprio decassílabo, usado nos sonetos, resulta de uma montagem do hexassílabo com outras quatro sílabas. Introduz também um nível sintático linear e uma seleção vocabular que leva em conta a clareza conceitual, de um lado, e a musicalidade das assonâncias de outro. Além disso, busca renovar o repertório de imagens oriundas da escola siciliana e da poesia provençal, impregnando-as de novo sentido.

No plano temático, sua contribuição para a nova poética tem sido assim descrita:

– torna a elevação da amada a anjo do paraíso um topos da lírica italiana (CURTIUS, 1957); a figura da mulher, que com o olhar e a saudação provoca uma paixão imprevista no plano natural, deriva para seu caráter celestial: o saluto que vem dela é, além de saudação, também salvação. Esse topos vai alcançar sua maior evidência nas figuras da Beatriz de Dante e da Laura de Petrarca;

– a faculdade de amar depende de um coração “gentil”, ou nobre: a gentileza não procede da classe social, mas de uma virtude interna que eleva o espírito e se contrapõe à vulgaridade: o olhar da amada aniquila a natureza do amante e suas reações vitais, elevando-o para o plano do espírito;

– o afastamento das metáforas platônicas em favor de conceitos de procedência aristotélica. No canto vinte e seis do Purgatório (vv.88-135), Dante trava um diálogo direto com o poeta bolonhês, posto no grupo dos “luxuriosos” por amor. Na visão platônica, o amor só deveria acontecer no nível das ideias, da alma, do espírito. Com Guinizzelli, ele tem uma dimensão corporal que, no entanto, pela virtude da gentileza, não desce ao plano animal, mantendo-se em sua dignidade humana, assim elogiada por Dante:

“Este é meu pai, e pai de outros que sei

que em doces rimas vão o amor cantar”.

Toda essa visão de Guido Guinizzelli está contida na sua canção “Al cor gentil rempaira sempre amore” (“Ao coração gentil volta sempre o amor”), que é um verdadeiro Manifesto em defesa de novas regras, e que vale a pena conferir…

O berço do ‘stil nuovo’

No período do Duecento (século XIII) se dá o início da literatura italiana. É quando a então chamada “língua vulgar”, derivada do latim e usada apenas como língua corrente no dia-a-dia, começa a ser utilizada como língua literária, seguindo o exemplo dos troubadours da Provença.

Na península itálica, a primeira manifestação de uma literatura em língua vulgar, ou língua do povo, ocorre com a chamada “scuola poetica siciliana”, na primeira metade do século XIII, com o estímulo e apoio do rei Frederico II. De origem sueva, ele agregou na corte doutores, filósofos, homens letrados e homens de ciências, criando um ambiente propício à produção intelectual, e estimulou o uso da língua vulgar italiana no gênero lírico das canções e baladas. A figura mais importante dessa escola foi Jàcopo, ou Giàcomo, da Lentini, conhecido como Notaio (escrivão, notário). Deixou 38 poemas reconhecidos como de sua autoria e é considerado o inventor do soneto.

Na metade do século, nasce uma segunda escola lírica, ainda de inspiração siciliana, mas em língua toscana. Seu iniciador foi Guittone d’Arezzo (1225-1294), que, além dos temas líricos convencionais, tanto da poesia provençal quanto da siciliana, introduziu em seus poemas o tema político, que repercutiria mais tarde em poetas como Dante e Petrarca.

A renovação, a que Dante daria a designação de “dolce stil nuovo”, viria da Bolonha, por obra de Guido Guinizelli (c.1230-1276), que teria exercido nessa cidade a função de juiz, ou de jurisconsulto. De sua obra restaram 23 poemas, entre os quais cinco canções e 15 sonetos, que são uma forma de transição entre a poesia do círculo toscano (Guittone d’Arezzo, Bonagiunta Orbiciani), e um novo estilo buscado por ele, menos formal e mais espontâneo. Dante, no canto XXVI do Purgatório, se refere a Guinizelli como “pai” e como mestre em “rime d’amore usar dolci e leggiadre” (“fazer versos de amor suaves e elegantes”) (vv. 93-94). Mas seria em Florença que essa poesia nova iria prosperar, num primeiro momento com nomes como Guido Cavalcanti, Dante Alighieri, Cino da Pistoia e, na geração seguinte, com Francesco Petrarca e depois Boccaccio.

As características básicas do “estilonovismo” poderiam ser assim resumidas:

enlightened no plano estilístico, surge a presença de imagens e metáforas, associadas a cenas da natureza e expressas em versos com musicalidade suave e bem desenhada, em que o cuidado com a seleção das rimas é visto como fundamental: era uma poesia para ser ouvida, mais do que lida, tanto que o primeiro verso do Cancioneiro de Petrarca se dirige a ouvintes, não a leitores: “Vós que escutais em rima esparsa o coro / dos suspiros com que eu meu ser nutria”.

enlightened no plano temático, o amor é posto como centro do mundo poético e a figura da mulher como deflagradora da experiência de um amor capaz de erguer o homem do mundo terreno para o celeste: nessa dialética, a figura da Mulher-anjo se faz frequente;

enlightened no plano conceitual, é estabelecida estreita relação entre a faculdade de amar e a nobreza de espírito, não por posição social, mas por virtude; além disso, é feita a adoção de uma postura filosófica que valoriza a dimensão sensorial, na linha do averroísmo aristotélico. Com isso, o platonismo agostiniano deixa de ser referência.

O resultado é uma poesia com profundidade de sentimentos, capacidade introspectiva e diálogo interior do ser humano com suas dimensões de ser ao mesmo tempo material e espiritual.

A partir desse berço, a poesia e a narrativa tomam o mesmo rumo em todo o Ocidente.

Relendo Cesare Pavese

Já escrevi que um crítico português me comparou com Cesare Pavese, ao afirmar que meu romance O Quatrilho tinha muita afinidade com os do poeta e romancista italiano de Turim. Relendo agora sua poesia, chamou-me a atenção um tema que perpassa a visão que tem de seu tempo: o choque da cultura tradicional com os inventos da tecnologia.

Machado de Assis, também um observador atento das mudanças de costumes, chamou a atenção em duas crônicas para o que podia significar a inauguração dos bonds elétricos, substituindo a tração feita por burros. Uma delas data de 15 de março de 1877, e tem esta brincadeira:

“Mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda. O que havia pior, enfadonho a mais não ser, eram as viagens de diligência, nome irônico de todos os veículos desse gênero. A diligência é um meio-termo entre a tartaruga e o boi”.

Já nessa crônica Machado levanta esta questão: e para onde irão os burros? Um burro olha o novo bonde “cheio de saudade e humilhação”. E, bom observador, prevê que, assim como o burro foi eliminado como energia de transporte, “o vapor será eliminado pelo balão, o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo até a estação terminal”. Já conhecemos essa “força nova”…

Numa outra crônica antológica, de 16 de outubro de 1892, Machado de Assis constrói um diálogo filosófico entre dois burros. Enquanto um deles lamenta ficarem sem trabalho e sem atenção, o outro se diz satisfeito porque ficarão livres e ninguém vai mais bater neles com chicote.

Cesare Pavese, que é da geração seguinte, também fica chocado com uma mudança: a entrada em cena do automóvel (la macchina, em italiano). E conta a história de um pescador de pérolas que deixa a profissão para instalar um posto de gasolina (no original, benzina), tirando todos os animais das estradas e obrigando as pessoas a comprar seus carros a motor. Chegou a publicar a Trilogia delle macchine, em 1930.

Em seu mais célebre livro de poesias, Lavorare stanca (Trabalhar cansa), há um poema nessa linha temática, com o título em inglês (nome de uma oficina de automóveis com posto de gasolina), também sinalizando que as pequenas culturas locais estavam iniciando um processo de globalização. Para degustar bem esse poema, fiz dele a tradução que vai a seguir.

Atlantic Oil

O mecânico tonto está feliz metido num fosso.

Da oficina, à noite, em cinco minutos pelo campo,

chega em casa: mas antes há o frescor da grama

para curtir, e o mecânico dorme, pois vem já a madrugada.

A dois passos, no campo, está erguido o cartaz

vermelho e preto: quem chega perto, não o consegue ler,

tal seu tamanho. Agora está ainda úmido

de orvalho. A estrada, de dia, o cobre de poeira,

como cobre os arbustos. O mecânico se atira no sono.

É completo o silêncio. Em breve, com o calor do sol,

passarão os automóveis sem descanso, levantando pó.

Dirigidos para o alto do morro, vão mais lentos um pouco,

depois se jogam pela curva abaixo. Um que outro para

na poeira, diante da garagem, que o entope de litros.

Os mecânicos, tontos um pouco, estarão de manhã

sobre as caixas, sentados, esperando um trabalho.

Dá gosto passar a manhã sentado na sombra.

Aqui o fedor dos óleos se mescla ao odor do verde,

do tabaco e do vinho, e o trabalho os vai buscar

na porta de casa. Volta e meia, dá vontade de rir:

camponesas passam com animais assustados

e culpam a garagem que tranca a passagem;

camponeses olham de esguelha. […]

Também à noite passam os carros, mas silenciosos,

tanto que o tonto, no fosso, não é acordado.

À noite não erguem pó, e a luz dos faróis

mostra em cheio o cartaz sobre o prado, na curva.

De madrugada circulam carros e não se ouve rumor,

a não ser a brisa que passa e, vinda de cima,

se espalha no plano, afundando na sombra.

[1933]

Nas ruas e nos céus de Paris

Numa de minhas idas a Paris – uma cidade cativante como nenhuma outra – andando pela Avenue des Champs Élysées, parei na frente da Maison Cartier, uma joalheria quase tão famosa como a cidade que a abriga. Para minha surpresa, no edifício ao lado havia uma placa na entrada informando que ali havia residido Alberto Santos Dumont“Le Père de l’Aviation”.

Deu para ver, bem claro, que Santos Dumont havia deixado uma marca indelével na França. E o fato de ele ter morado num apartamento ao lado da joalheria Cartier me fez vir à tona o episódio da invenção do relógio de pulso: foi ideia de Santos Dumont ou do joalheiro Cartier? Ou dos dois?

Algum tempo depois, me surgiu outra marca indelével: Alcy Cheuiche, gaúcho de Pelotas, publicou, em 1998, Nos Céus de Paris – O romance da vida de Santos Dumont. Cheuiche tinha já uma trajetória fecunda como romancista, centrado em episódios marcantes da história gaúcha, a começar por Sepé Tiaraju – Romance dos Sete Povos das Missões. Outros romances magistrais de sua autoria, tanto na reconstituição histórica do ambiente como na força literária são O Mestiço de São Borja e, com ele, A Guerra dos Farrapos.

A afeição de Cheuiche pela França e por Paris começou ainda na juventude. Depois de concluir a Faculdade de Veterinária na Ufrgs, se diplomando com o primeiro lugar da turma, foi fazer pós-graduação na França. E chegou a dar aulas em Paris, também numa escola de veterinária. Nessa convivência com a cidade, percebeu a força da imagem de Santos Dumont e decidiu escrever um romance histórico com sua trajetória de caipira de São Paulo a Pai da Aviação. Com esse objetivo, voltou a Paris, já nos anos noventa, para realizar pesquisas de ambientação para o romance Nos Céus de Paris, também magistral em sua montagem cênica.

Agora me chega às mãos outro livro tendo Paris como cenário, não mais nos céus, com o no romance de Cheuiche, e sim nas ruas. Seu título completo é: A história do Brasil nas ruas de Paris, publicado em 2014 pela Casa da Palavra, no Rio de Janeiro. O autor é Maurício Torres Assumpção, um jornalista carioca que foi também residir em Paris.

O objetivo da obra é mostrar as marcas deixadas por brasileiros na cidade de Paris. Pela ordem, os mais famosos são: Dom Pedro I, Dom Pedro II, Princesa Isabel, Alberto Santos Dumont, Lúcio Costa, Villa-Lobos, Pixinguinha, Oscar Niemeyer.

Na contracapa, o autor revela de onde lhe surgiu a ideia para escrever o livro. Por coincidência – ou por convergência de pensamento? –, foi ao ver a mesma placa que me impressionou ao lado da joalheria Cartier. Eis o que ele escreve:

“Nas primeiras horas da manhã de 23 de junho de 1903, Alberto Santos Dumont sobrevoou a Avenue des Champs-Élysées, em Paris, com seu pequeno balão dirigível. Passando pelo edifício onde morava, aterrissou na avenida, saltou do aparelho e subiu ao seu apartamento para tomar um café. Essa escala para um cafezinho entrou na crônica da cidade, com direito a placa comemorativa na porta do edifício. Da placa, surgiu a ideia deste livro, e, com ele, emergiriam outras placas, monumentos e ruas que marcam a história dos brasileiros que fizeram diferença na França.”

É por isso, também, que as ruas e os céus de Paris continuam nos encantando!

O burro de São Martinho

Comecei a conhecer a importância dada a São Martinho – San Martino, em italiano; Saint-Martin, em francês – com as pesquisas para escrever o romance A Cocanha, com o foco central na saída dos imigrantes da Itália para o Brasil.

Acontece que na Itália o dia de São Martinho, a 11 de novembro, era a data em que os proprietários de terras – i Signori – assinavam contrato com os trabalhadores braçais – i braccianti. Mesmo sendo num dia santo, os contratos eram definidos de acordo com a gana do patrão.

Dou uma ideia da situação numa cena em que o personagem Cósimo, então com quarenta anos, dentro do trem que ia para o porto de Gênova, conta aos companheiros o que aconteceu com ele. No dia de São Martinho, o senhorio avisou que não queria mais assinar o contrato. Depois de muita conversa com o escrivão, o patrão concordou, mas com uma condição: o contrato não seria mais meio a meio, mas com apenas um terço da produção para o empregado. Cósimo protestou, porque já tinha uma família com quatro filhos, mas “pelo menos tinha um telhado para ficar”. Então aceitou a proposta, que foi escrita com estas condições:

Me dava seis quilos de polenta por semana e, no ano, direito a ficar com quatro galinhas, dois gansos e a terça parte de um porco. Um porco que ia engordar mais de eu soprar nele do que pela comida. Ele assinou, eu assinei. […] Nessa hora mesmo eu decidi que ia para a América.

A biografia de São Martinho é mais lendária do que histórica. Teria nascido no século IV na Hungria, que os romanos chamavam de Panônia. Como o pai era militar, deu a ele o nome de Martinus, diminutivo de Marte, o deus da guerra. Ele circulou pelo império até que seu pai ganhou um terreno em Pavia, na região de Lombardia, na Itália.

Ali Martinho dedicou-se a trabalhar como agricultor e se converteu ao cristianismo. Depois se tornou monge e se instalou num mosteiro francês e acabou sendo nomeado bispo de Tours, na França. Por isso seu nome oficial é São Martinho de Tours.

O fato de ter se dedicado à vida do campo, também enquanto monge, fez dele o padroeiro dos senhores de terra e de seus bracianti.

Uma lenda que atravessou séculos foi a de que ele deu início, em seu mosteiro, ao cultivo da videira em grandes extensões de terra no vale do Loire, na França. Ensinou aos monges como cultivar a videira e como fazer o vinho. Mas o fato, ou lenda, mais marcante foi a de que foi ele quem deu início à poda das parreiras. Ele não, o burro dele!

Conta-se que num dia em que saiu para inspecionar uns vinhedos, às vésperas do inverno, deixou o burro amarrado perto de umas parreiras enquanto ia verificar a cantina e seus vinhos. Voltou algumas horas depois e viu uma coisa horrível: o burro tinha se soltado e mascado vários pés de videira, comento inclusive parte dos ramos, que os portugueses batizaram de “sarmentos”.

Mas aí um milagre aconteceu: no ano seguinte os monges viram, estupefatos, que as videiras que o burro tinha mascado tinham mais uvas e uvas mais bonitas do que as outras! Os monges aprenderam a lição e, a partir daí, se instituiu a poda das parreiras em toda a Europa. E depois no resto do mundo.

A única coisa que mudou, a meu ver, é que antes a poda era feita com a “tesoura de poda”, e agora é feita com uma pequena serra elétrica, pelo que vi na beira do Rio das Antas. Na realidade, quem usava a serrinha eram os jovens. Um senhor de mais idade, que devia ser o pai deles, com ar contrariado, continuava usando a tesoura…

Com o frio que está chegando, está chegando também a época da poda, graças ao burro de São Martinho…

Lenda do passado é evocada para aquecer os primeiros frios da tempor

PAI DA NOIVA

Agora me dou conta. Em todas as vezes que presenciei uma festa de casamento, nunca prestei atenção no pai da noiva. Nem eu, nem ninguém. Quando ele entra pela nave da igreja, com música solene ecoando nos vitrais (se houver vitrais), não se percebe que ele entrou. Não é para ele a música, nem a espera ansiosa dos convidados e testemunhas. Os olhos todos estão na noiva, em cada um dos seus passos, em cada um dos refolhos do vestido, em cada pétala do buquê. Até nas fotografias só aparece ou só se vê a noiva e, ao lado dela, um ectoplasma evanescente, vestido de cinza. Ou nem isso. O pai da noiva não é nem ator coadjuvante. É apenas um mero figurante, para a noiva ter em quem apoiar o braço nesse momento de nervosismo, em que o corredor até o altar parece não ter fim.

         Pois agora estou tendo a oportunidade de ver o pai da noiva de outro ponto de vista, e por uma elementar razão: vou estar na pele desse personagem da festa. Nada como a mudança de ponto de vista para a gente redimensionar a realidade. E nesse redimensionamento espero fazer justiça a todos os pais de noiva, seres invisíveis e impalpáveis, que passam despercebidos no casamento da filha. Não vou reivindicar aqui que ele, o pai da noiva, se torne visível e palpável, longe disso. A festa é dela e para ela devem estar voltadas as atenções dos olhos e das câmaras. Quero apenas dizer o que alguém, estando no ponto de vista em que ele está, com a vantagem suplementar de ser invisível, vê e sente, ou tem possibilidade de ver e de sentir.

         Antes de tudo, ele vê uma noiva que ninguém mais na festa consegue ver. O que todos vêem é uma mulher no brilho da idade, avançando majestosa e sorridente no rumo que escolheu. Vêem todos, e sentem, um grande momento. Mas apenas um momento. O pai da noiva não. Vê a filha desde o seu primeiro momento até o de agora. O primeiro momento foi aquele em que ela, recém-nascida, sorriu para ele nos braços da enfermeira. Não adiantou virem os doutos, depois, com explicações de que ela não sorriu, não podia sorrir, que aquilo foi apenas um espasmo dos lábios. Para o pai, aquilo foi sim um sorriso, para sempre, mais perene que o de qualquer fotografia. No momento de agora ela também sorri, e desta vez sem controvérsia, um sorriso consciente, determinado. Apenas, como é inevitável, é um sorriso para o mundo. Para todos os que acolhem naquele passo, para o futuro marido que a aguarda lá adiante. É bom que o pai da noiva nessa hora fique invisível, porque ele na realidade não sabe nem que cara fazer: se faz uma cara de felicidade, vendo a sua menina tomar o próprio destino nas mãos e seguir impávida e serena como ele sempre quis, ou se deixa transparecer a ponta de tristeza que o assalta ao sentir que ela sai em definitivo do ninho em que viveu. Como disse, está certo que o pai da noiva não apareça. Ele seria capaz de estragar a festa se fosse percebido ali com sua dupla face.

Invenção de Orfeu: um ‘pot-pourri’

Pot-pourri é como os franceses designam uma miscelânea de estilos, seja no campo da música, seja no da literatura e de outras artes.

O livro Invenção de Orfeu, do poeta alagoano Jorge de Lima, publicado em 1952, cabe perfeitamente dentro dessa rubrica.

Meu primeiro contato com essa obra aconteceu bem cedo, dois anos depois de ela ser editada.

Eu estava na primeira série do Curso Colegial, como era chamado na época o Segundo Grau.

Certa manhã, no começo da aula, nosso professor de Literatura Brasileira fez uma pausa até toda a turma se concentrar nele, abriu um livro na primeira página e leu em voz alta:

Um barão assinalado,

sem brasão, sem gume e fama

cumpre apenas o seu fado:

amar, louvar sua dama,

dia e noite navegar,

que é de aquém e de além-mar

a ilha que busca e amor que ama.

Olhou para os alunos e, como ninguém reagiu, fechou o livro e o colocou sobre a mesinha, dando sequência ao tema do dia. Finda a aula, saí atrás dele para perguntar se eu podia ler aquele livro. Ele abriu um sorriso, pôs o livro em minhas mãos e disse: “Tu vais gostar”.

Confesso que não foi uma leitura fácil. O poema é dividido em dez Cantos, como Os Lusíadas, mas com uma diversidade, ou miscelânea, de estilos de espantar. Contei também o número de versos: 10.040. Mais do que Os Lusíadas, que contém 8.816 versos. Perde para a Ilíada, de Homero, que tem mais de quinze mil versos, em grego.

Quando comecei a dar aulas de Literatura Brasileira no Curso de Letras da Faculdade, coloquei a Invenção de Orfeu dentro do programa. Mas aconteceu comigo o que acontecera com meu professor. Lida a primeira estrofe do Canto Primeiro – Fundação da Ilha, os bocejos de cá e de lá me sinalizaram para mudar de assunto. E foi também o que fiz…

Mas se os tempos mudaram, e houver algum leitor, ou leitora, dispostos a navegar nesse mar de versos, vão aqui algumas pistas.

A primeira é a de que são evocadas dentro do poema todas as epopeias conhecidas: a Ilíada, a Odisseia, a Eneida, a Divina Comédia, Os Lusíadas, além de poemas célebres de diversas línguas, como o Le Bateau Ivre (“O Navio Ébrio”, ou “O Barco Bêbado”) de Arthur Rimbaud.

Além disso, em sua Invenção de Orfeu, Jorge de Lima utiliza todas as medidas de verso existentes na língua portuguesa, desde a poesia medieval até a poesia modernista: a redondilha, a sextina, o soneto, o dístico, a canção e por aí afora, em versos que vão desde o de quatro sílabas até o parnasiano de doze sílabas. Percorrer o poema exige, portanto, levar junto todas as ferramentas das técnicas do verso.

E concluo com a palavra em latim, que significa “Acabou”, usada por Jorge de Lima, grifada e em maiúsculas, no final de sua Invenção:

EXPLICIT

A Páscoa e seus símbolos

Os estudos de antropologia histórica têm mostrado que a Igreja, à medida em que catequizava os mais diversos povos e etnias, levava a eles seus ritos e símbolos. Mas também ia incorporando à sua liturgia ritos e símbolos enraizados em cada cultura.

Os dois eventos cristãos mais marcantes, o Natal e a Páscoa, foram também os dois que mais foram enriquecidos em seus rituais, a partir do século X. No Natal, o símbolo mais marcante é, sem dúvida, a árvore. Na Páscoa, os ovos e o coelho ocuparam o espaço simbólico em definitivo.

A maior parte das tradições de cunho folclórico, em especial no Norte da Europa, estava ligada à mudança das estações. O dia de Natal coincidia com o forte do inverno nesse hemisfério, e a celebração da Páscoa ocorria no início da primavera. Transferir os símbolos do renascimento primaveril para serem símbolos da ressurreição de Cristo foi um processo realizado sem conflitos.

coelho, na primavera, saía da toca onde ficara hibernando para iniciar a fase de reprodução. Também os ovos sinalizavam um início, ou reinício de vida, ao romperem a casca e mostrarem um ser vivo lá escondido, como se estivesse debaixo da campa do sepulcro. Na região germânica havia o ritual de pintar ovos para serem dados de presente no final de cada inverno, como uma maneira de desejar uma feliz volta à vida.

Não é difícil entender por que esses rituais pagãos ganharam novo significado dentro do cristianismo, até porque uma maneira de atrair a atenção das pessoas em processo de evangelização era o de não romper de todo com seus usos e costumes, também no plano dos símbolos e crenças.

Um exemplo disso é o símbolo do peixe, que tem raízes no evangelho, em vários de seus episódios, a começar por Pedro o Pescador, e é visto na tradição popular como um ser capaz de multiplicar a vida de modo infindável. A celebração da Semana Santa com o convite ao consumo do peixe tem um profundo cunho mitológico, além do religioso.

Outro exemplo da mescla da cultura popular com a religiosa pode ser encontrado no duplo provérbio de origem vêneta, em que é feita a previsão do tempo na semana da Páscoa:Sole nei rami, piova nei óvi e o seu reverso, Piova nei rami, sole nei óvi. Traduzindo: se der sol no domingo de Ramos, chove no domingo de Páscoa, e vice-versa: chovendo no domingo de Ramos, o sol abre no domingo de Páscoa. Nem sempre a previsão funciona, tanto que há provérbios também ligando a previsão do tempo como uma forma de mentira…

No meu imaginário, e também nos meus sentidos, a Páscoa se associa com o outono, como ocorre em nosso hemisfério. Não é celebração de um reinício de vida, como a do coelho, mas a degustação de um fruto maduro, como digo nestes meus versos sobre o outono (e, portanto, sobre a Páscoa!):

Ir para as sombras, sim,

mas sabendo pelos sinais

quando a hora se aproxima

dos frutos maduros e dourados.

E sabendo-se a hora

poder concentrar-se no sumo

– como o fruto, o pão assado –

cientes de que tudo,

quando doura, no limite

de si e de sua grandeza

é afinal chegado.

Um final que pode ser também um reinício.

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