O beco de Manuel Bandeira

Para ninguém confundir essa palavra com seu sentido em italiano, ou em talianbeco aqui significa “rua estreita e curta, às vezes sem saída”, como sentencia o Dicionário Houaiss. Pois Manuel Bandeira tornou famoso um beco da Lapa, no Rio de Janeiro, com dois poemas: Poema do Beco, publicado no livro Estrela da Manhã, em 1936, com uma tiragem de 47 exemplares, e Última Canção do Beco, publicada no livro Lira dos Cinquent’anos, tendo no final a data em que foi escrito: “25 de março de 1942”.

beco é, na realidade, a Rua Morais e Vale, na Lapa, onde Manuel Bandeira foi residir em 1933, mudando-se da Rua do Curvelo, do bairro Santa Teresa. O Poema do Beco ficou estreito e curto também, com apenas dois versos, como se fossem as duas linhas das calçadas, de um lado e outro:

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

– O que eu vejo é o beco.

Nesse “dístico”, como o poeta vai designar o poema, Manuel Bandeira coloca em confronto com o beco todas as belezas do Rio de Janeiro, tais como exaltadas pela literatura e pela imprensa: a paisagem, o Morro da Glória, a Baía de Guanabara… A mensagem do poema é a de que o lugar mais importante do mundo é o recanto em que se vive e que se vê sem sair do lugar. Frente à “cidade maravilhosa”, maravilhoso é “o que eu vejo”, o beco.

O segundo poema, escrito alguns anos depois, se desdobra em sete longas estrofes, de sete versos cada uma, lamenta a destruição da casa em que Manuel Bandeira morava no beco. Mas nem tudo é destruído, como fica claro nas duas primeiras estrofes da Última Canção do Beco:

Beco que cantei num dístico

Cheio de elipses mentais,

Beco das minhas tristezas,

Das minhas perplexidades

(Mas também dos meus amores,

Dos meus beijos, dos meus sonhos),

Adeus para nunca mais!

Vão demolir esta casa.

Mas meu quarto vai ficar,

Não como forma imperfeita

Neste mundo de aparências:

Vai ficar na eternidade,

Com seus livros, com seus quadros,

Intacto, suspenso no ar!

Como dá para ver, um poema de pura filosofia, que continua nesse tom até a última estrofe!

Quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez, ainda na minha puberdade poética, tive a sorte, ou o prêmio, de me hospedar num pequeno hotel no bairro da Lapa. Sendo um leitor contumaz de Manuel Bandeira, circulei pelo bairro até encontrar o beco. Lá estava ele, com o nome da Rua e uma placa informando ao transeunte que ali tinha morado o poeta Manuel Bandeira.

Então, também para mim, o beco continua “intacto, suspenso no ar”!

Agora, leio no noticiário que a Rua Morais e Vale foi revitalizada, dentro do Projeto Reviver Centro, da Prefeitura do Rio. A inauguração desse retorno ocorreu há apenas alguns dias, num sábado, a 18 de março. Foi isso que me fez revisitar esses dois poemas do beco!

Manuel Bandeira, o poeta do beco (Foto: Divulgação)

Andanças de Thales de Azevedo

Nos cadernos de pesquisa do antropólogo baiano Thales de Azevedo – que já apresentei AQUI – há o registro de vários lugares por ele visitados, não só nas cidades, mas também nas colônias da região de imigração italiana da Serra Gaúcha.

Uma dessas andanças, em fevereiro de 1955, foi em Conceição da Linha Feijó, que na época era chamada apenas de Conceição. Esse nome do lugar é explicado por Carlin Fabris em sua obra que é uma relíquia: Istoria de Conceição, escrita num caderno de 44 páginas.

Ela foi editada em 1977, pela EDUCS (Editora da Universidade de Caxias do Sul), como parte do livro La Mèrica, organizado por Luiz De Boni.

No Caderno 3 do antropólogo baiano constam as seguintes anotações de um olhar minucioso:

Conceição – Nas casas de colônia o soalho é encerado com cera de abelha dissolvida em querosene.

Com as tripas do porco, misturadas com soda, faz-se sabão.

As casas não têm instalações sanitárias, mas uma “patente” no exterior, às vezes bem longe. Também não têm banheiro; o banho, pouco frequente, toma-se no arroio, à beira de um tanque, ou, em casa, numa pequena bacia.

Três páginas adiante, ficou este relato, também cheio de minúcias:

“Os colonos, inclusive as moças, trabalham descalços ou de chinelos e tamancos. As moças sentam-se de lado, mais do que escanchadas, sobre selas masculinas. […] Algumas vestem, debaixo do vestido, uma calça de homem (brim) e trazem na cabeça um chapéu de homem. Os homens, nos domingos, vestem roupa de cidade, todos com chapéu de feltro, raros com gravata. Essa é usada em solenidades. Vão à cidade, muitas vezes, sem paletós, com chinelos, sempre com chapéu.”

E ainda: Em Conceição, como em outros pontos da colônia, há um cruzeiro na frente da igreja com os dizeres: “Salva tua alma”.

Os motivos para Thales de Azevedo querer conhecer esse local têm ligação, é evidente, com a história, ligada à figura de Luiz Antônio Feijó Júnior, nome também de uma rua em Caxias do Sul. Na realidade, foi antes o nome da estrada que passava na divisa das terras de Feijó Júnior, que iam bem além de Conceição. Sua biografia ficou relatada por João Spadari Adami e por Mário Gardelin, os dois entrevistados por Thales de Azevedo.

Vai aqui um resumo, tipo verbete de enciclopédia.

Luiz Antônio Feijó Júnior era estancieiro da fazenda “Estaleiro”, no município de Triunfo. Solicitou ao Presidente da Província, João Sertório, três léguas quadradas perto do Campo dos Bugres. Depois comprou, em 1885, dois lotes no Travessão Santa Tereza. (Gardelin, 1992).

João Sertório era um velho amigo e ex-sócio comercial de Feijó Júnior em Pelotas. Pediu ao amigo Feijó para organizar uma expedição, em 1870, “e penetrasse até o Campo dos Bugres, explorasse inclusive seus arredores mais próximos, retirasse amostras de terra e fibras vegetais para serem enviadas aos laboratórios da Corte…” (Adami, 1964). Em troca desses serviços é que Feijó Júnior requereu as três léguas quadradas, recebendo então a incumbência de erguer um barracão e uma casa para a administração no Campo dos Bugres. A essa área ele deu o nome de “Colônia Sertorina”, em homenagem ao amigo presidente.

Em 1881, Feijó Júnior volta para a Colônia Caxias. Vê o crescimento da população, monta serraria, olaria, e começa a lotear e vender sua sesmaria. Calcula-se que vendeu uns 2.500 lotes coloniais entre Caxias e Forqueta. Paulo Rossato, que também deixou textos por escrito, comprou dele uma colônia, e o tratava como “Conde”. No romance A Cocanha, reconstituo esse episódio em nível ficcional

Eduardo de Azevedo e Souza Filho (de quem não descobri qual a relação com Feijó Júnior) vendia os lotes e fez um loteamento para uma vila, à qual deu o nome de Eduardina. Deu também o nome de Linha Feijó para a região que ainda tem esse nome. Eduardina, segundo Carlin Fabris, em Istoria de Conceição, mudou de nome para Conceição depois que a mulher de Eduardo deu uma imagem de Na. Sra. da Conceição para a igreja da vila.

Excelente história para um antropólogo!

COZINHA E FOGÃO

Quando saímos, minha mulher e eu, a comprar nosso primeiro apartamento – ninguém está livre desse tipo de sonho – encontramos este em que estamos morando até hoje, numa relação de absoluta fidelidade dele conosco e nossa com ele. Foi um desses casos raros de amor à primeira vista que continuam pelo resto da vida. Mas mesmo essa espécie de amor, que se costuma considerar mágico, tem suas razões bem objetivas. No caso do apartamento foram duas essas razões. Três, na realidade, lembro-me agora. A primeira delas era que ele ficava longe do barulho do centro da cidade. Essa razão já se esboroou, porque debaixo de minha janela passa metade do trânsito de Caxias. Mas sobraram as outras duas. E essas duas são suficientes para que o amor antigo continue perseverante, mesmo com a corrente de tráfego rugindo do lado de fora da janela. São elas a cozinha e o fogão. Duas razões cuja virtude se renova agora, quando o inverno chega de novo com sua cara cinzenta e fria. Mas virtudes que têm sua importância também pelo ano afora, mesmo no verão.

         Assim que vimos o apartamento pela primeira vez, vindos de longa via-sacra de procura, sentimos o coração se alargar com o tamanho da cozinha. Uma cozinha em que era possível ter a cozinha propriamente dita, mais a mesa de comer, ou de jantar, como queiram, e de quebra um lugar para leitura e para ver televisão. Em resumo, tirando-se o espaço específico para dormir, todo o resto da vida cotidiana podia, e pode, se desenrolar nessa peça. Mais que isso. Descobrimos depois que a cozinha superava com vantagem também a sala de visitas: nada mais gostoso do que conversar com amigos ao lado do fogão, mesmo que ele não esteja aceso, ao invés de ficar rodeando um vaso de flores na sala.          Sempre senti necessidade de elaborar conceitos para entender melhor as coisas da vida, mesmo as corriqueiras. E o conceito a que cheguei é de que a cozinha é o melhor espaço de convivência da casa, pela simples razão de ser esse também o lugar dos elementos básicos de sobrevivência: o calor e a comida. Daí que nesse espaço as relações parecem sempre mais íntimas e substanciais. Depois enveredei para outras análises, e concluí que esse tipo de cozinha era uma herança cultural, das antigas casas desta região, tanto da colônia como da cidade. Estou a ponto de dizer que o sinal mais claro da mudança de valores culturais na nossa região é a aceitação da quitinete, onde não cabe nada, muito menos um fogão a lenha e gente conversando ao redor. Por fim, descobri também que ter encontrado um apartamento com cozinha grande e fogão a lenha não era um acaso, embora fosse um presente do céu. O construtor do prédio decidira ser essa a última construção de sua carreira. E decidiu também que, a carreira encerrada, ia morar nele. Por isso fez a cozinha de que ele gostava e pôs chaminé para o fogão de lenha, de que ele sentia necessidade. Por isso, Deus seja louvado, peguei talvez o último exemplar de cozinha grande, com fogão a lenha, da velha cultura colonial.

A verdadeira Gioconda. Ou não?

O tema da escravidão parece que não quer sair de cena. Até o jornal italiano Corriere della Sera, no dia 14 de março, nesta semana, publicou uma matéria no mínimo espantosa, assinada por Pierluigi Panza, com a seguinte manchete:

“Descoberta a identidade da mãe de Leonardo da Vinci: se chamava Caterina, era uma circassiana feita escrava”

Essa extraordinária revelação foi feita pelo professor Carlo Vecce, da Universidade de Nápoles, que encontrou um documento inédito no Arquivo do Estado de Florença. É um documento escrito em latim e assinado por um notário, no qual o pai de Leonardo, Piero da Vinci, declara estar libertando a mãe dele, de nome Caterina, da condição de escrava. O documento traz a data de 2 de novembro de 1452, seis meses depois do nascimento de Leonardo, ocorrido em 15 de abril daquele ano.

Na pesquisa de Carlo Vecce fica esclarecido que Caterina nasceu nos montes do Cáucaso, onde havia uma colônia de Veneza. Lá foi comprada como escrava por um certo Donato, que fazia comércio de joias e tecidos produzidos por mão de obra escrava. Foi levada para Veneza, depois para Florença, e a seguir para Vinci. Lá foi adquirida por Piero da Vinci, pai de Leonardo da Vinci, para ser sua empregada doméstica. Na época ela estaria com cerca de quinze anos.

Além de doméstica, Caterina fez também o papel de cônjuge, tendo vários filhos com o seu dono e patrão. O último deles teria sido Leonardo, antes de seu pai livrá-la do vínculo da escravidão.

Carlo Vecce mergulhou nessa história e escreveu um romance intitulado Il sorriso di Caterina, no qual coloca Caterina como a Gioconda, a mais célebre pintura de Leonardo, também conhecida como Mona Lisa. O sorriso da mãe dele teria inspirado Leonardo, que, segundo o autor, levou anos para concluir a pintura.

Ele a valorizava tanto que, quando foi para a França, em 1516, levou-a consigo: por isso ela está no Museu do Louvre. O rei Francisco I colocou o quadro no castelo de Amboise, onde Leonardo viveu por três anos até falecer. (Nota: conheci o castelo de Amboise, onde há uma escadaria de duas mãos, para não se encontrarem os que sobem e os que descem, projetada por Leonardo da Vinci).

O autor da matéria no Corriere faz esta avaliação crítica do romance: “Tudo paira sobre dois pratos da balança, o da verdade e o da verossimilhança – e isso requer um pouco de tempo para avaliar. O livro é uma docu-ficção, sem notas”

No enredo do romance, Carlo Vecce levanta vários outros fatos “entre a verdade e a verossimilhança”, além de contar que a Gioconda era na verdade Caterina.

Um deles seria o de que Donato, que vendeu Caterina ao pai de Leonardo, ao morrer, “deixa tudo para o Monastério São Bartolomeu de Monte Oliveto, para quem Leonardo pintou a Anunciação, o que talvez tenha ligação com a memória da mãe Caterina, escrava de Donato: Leonardo estaria pondo a si mesmo como Salvador” (Pierluigi Panza).

Carlo Vecce narra também que Caterina morreu em Milão, nos braços do filho, e teria pintado o quadro A Virgem das Rochas para a igreja em cujo cemitério a mãe foi sepultada.

Bem, o romance é muito encorpado. Tem 528 páginas e foi publicado pela Giunti Editore, com sede em Florença. O Corriere informa também que o preço do livro é de 19 euros.

O garfo da Forqueta

Um dos mistérios que demorei a decifrar, quando cheguei em Caxias do Sul para fazer meus estudos, foi o do significado de Forqueta, nome de um lugar que volta e meia aparecia nas conversas com os colegas. Nenhum deles sabia de onde vinha esse nome. Eu imaginei que seria um diminutivo de “forca”, aquele instrumento que executou Tiradentes. Mas nenhum livro de história falava do uso de forca nas vizinhanças.

Foi preciso enveredar no estudo da língua italiana para descobrir que forchetta significa garfo“um talher em geral feito de metal, formado por um cabo e diversos dentes, com que se pega a comida”, reza um dicionário. A história registra que o uso de talheres teve incremento na França do século 17, e de lá se espalhou pela Europa, como uma forma de elegância no comer.

Existe um episódio jocoso, não se sabe se inventado, sobre a ida dos talheres para a Itália, levados por um duque da família Médici. Ele convocou a nobreza de Florença para um jantar, exibiu a novidade e ensinou como usar garfo, faca e colher. Iniciado o jantar, todos se esforçaram para juntar a comida com o garfo. Quando se deram conta, o anfitrião continuava pegando a comida no prato com os três dedos da mão direita. Diante do ar de espanto dos convivas, ele teria dito: “Eu sou um Médici, eu como do jeito que eu gosto!”

Pois bem, quando vieram os imigrantes italianos, trouxeram junto a palavra forchetta, com o sentido de garfo. Mas depois fiquei sabendo, de uma forquetense famosa, uma outra versão: a de que forchetta era um tipo de pente usado pelas mulheres, conhecido como “prendedor de cabelo”.

Mas a forma do garfo, ou do pente, serviu de inspiração para dar o nome de Forqueta a lugares onde houvesse uma confluência de acessos, pela terra ou pela água.

A primeira localidade a adotar o nome de Forqueta foi no encontro do Rio Caí com o Arroio do Ouro, em Nova Palmira, situada no hoje distrito de Vila Cristina, de Caxias do Sul. Neste caso, o nome foi dado por ser sinônimo de forquilha, como consta no Dicionário Houaiss, vocábulo da língua portuguesa datado de 1683. Hoje, para diferençá-la da Forqueta do alto da serra, ganhou o nome de Forqueta Baixa.

Já o nome da Forqueta de cima da serra foi uma escolha dos seus moradores, pelo fato de o local ter um entroncamento de estradas, sugerindo a forma do garfo. O cabo do garfo era a estrada de Caxias até aquele ponto. Os dentes do garfo eram as estradas para várias sedes de colônias: Nova Trento, Nova Vicenza, Nova Milano, Dona Isabel, Conde d’Eu e, na baixada da serra, Nova Palmira.

Essa confluência de caminhos fez de Forqueta uma “pequena capital”, que recebeu uma estação de trem, quando Borges de Medeiros ligou Porto Alegre a Caxias com a estrada de ferro, em 1910. E quando o mesmo Borges de Medeiros criou o programa de produção de vinho nas colônias italianas, Forqueta se tornou a sede da primeira Cooperativa Vitivinícola, não apenas da Serra Gaúcha, mas também do Estado e do Brasil.

Com a abertura de vias asfaltadas passando ao largo da vila, e depois com a desativação da via férrea, Forqueta foi perdendo espaço para outras sedes da região. Mas as marcas de seu brilhante passado ainda estão bem visíveis. A marca que ficou em mim foi a de ter ido pela primeira vez a uma festa de capela, próxima da vila, quando conheci a deliciosa sopa de anholine

O Tesouro de Thales de Azevedo

Faltando pouco mais de um ano para a celebração dos 150 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos na Serra Gaúcha, é inevitável que fatos, situações e figuras históricas comecem a emergir com toda sua força na memória.

A primeira figura que me veio à mente foi a do antropólogo baiano Thales de Azevedo (1904-1995), que manteve estreita relação com Caxias do Sul e região, criando laços pessoais, e não apenas profissionais, em muitos setores de atividade, em especial no econômico, no político e no intelectual.

Neste último, tornou-se notório ao se tornar vencedor do concurso promovido pelo Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul para a produção de obra histórica sobre o centenário da imigração italiana, ocorrido em 1975.

Sua obra premiada foi Italianos e Gaúchos – os anos pioneiros da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Ela tinha por base pesquisas feitas pelo autor em toda a região colonial italiana do Estado entre 1955 e 1973. Sobre ela, o pesquisador italiano Emilio Franzina, que também conheceu esta região de perto, deu o seguinte veredito, “Questo è senzaltro il miglior libro di parte brasiliana che tratti la storia della colonizzazione rio-grandense”.

Sua reaproximação com Caxias do Sul deu-se no território da UCS, atraído pelo Projeto ISBIEP: Instituto Superior Brasileiro-Italiano de Estudos e Pesquisas, criado em convênio com a Universidade de Pádua, também por ocasião do centenário da imigração. Desse Instituto nasceu o Projeto ECIRS (Elementos Culturais das Antigas Colônias Italianas do Nordeste do Rio Grande do Sul).

A dimensão antropológica dos estudos do ECIRS levou à criação de seu vínculo com a Associação Brasileira de Antropologia e, nela, com Thales de Azevedo, numa verdadeira “troca de figurinhas”, para usar uma expressão coloquial, própria do clima vivido entre nós.

A culminância dessa troca de experiências e observações aconteceu no dia em que Thales de Azevedo ofereceu ao ECIRS sua coleção de cadernos de pesquisa sobre os italianos em Caxias do Sul e região. São ao todo sete Cadernos, contendo o diário de campo de suas pesquisas, com mais três Anexos de anotações.

A primeira data do primeiro caderno é esta: “Caxias, 4 de janeiro de 1955”, com o seguinte registro:

“Saí de Porto Alegre, ônibus, às 13h40min; cheguei a Caxias às 17h30min, após parada no Morro Reuter. Procurei o Pe. Eugênio Giordani, que eu conhecera há anos; está em retiro até o fim do mês. Recebeu-me seu coadjutor, Pe. Baumgartner, a quem expus brevemente meu plano de pesquisa. Fiquei de voltar lá amanhã.”

Todo esse tesouro de Thales de Azevedo foi publicado pela EDUCS (Editora da Universidade de Caxias do Sul), com apoio da Associação Brasileira de Antropologia, no ano de 1994. Meu exemplar traz este autógrafo do autor baiano: “Ao caro Pozenato, cordial e afetuosamente, Thales. Rio, 28/3/94”.

Lembro-me de uma conversa em que ele me disse: “Em Caxias os italianos gostam de se mostrar. Na Bahia preferem se esconder. Vê a cantora Daniela Mercury, por exemplo. O sobrenome dela é Mercuri, o mesmo da mãe dela, uma italiana…”.

Nada como a Antropologia para ensinar a lidar com as identidades e as diferenças, criando bases sólidas para a convivência cultural.

O incêndio da Notre-Dame, em Paris

Saiu um livro contando detalhes de como foi apagado o incêndio da catedral de Notre-Dame, em Paris, tragédia acontecida a 15 de abril de 2019. O relato é feito pelos bombeiros que atuaram no salvamento, “em cumplicidade” com o repórter Romain Gubert, da revista semanal Le Point. O título original é La Nuit de Notre-Dame – par ceux qui l’ont sauvée (A noite de Notre-Dame – por aqueles que a salvaram). Publicado pela Editora Grasset, e custa 18 euros.

O texto em francês não é muito fácil de ser lido, porque utiliza uma linguagem de cunho mais próximo do coloquial, incluindo o jargão típico dos bombeiros, o que não é meu campo comum de leitura. Bem ao revés, fui elogiado na França, por um professor universitário, por falar um francês bem literário. Isto é, erudito… Mas, apesar das dificuldades de trajeto, trata-se de uma obra impressionante.

Só o relato da experiência individual dos bombeiros – e bombeiras, porque há também mulheres no destacamento – já fornece um amplo aprendizado. Não resisto a dar uma amostra da página inicial, por mim traduzida:

‘Nessa manhã, o chefe-adjunto Jérôme já sabe que seu começo de semana será sobrecarregado. Dentro de alguns dias, ele, que dirige há três anos o quartel do Quartier Latin e seus cinquenta bombeiros, entrará em férias. Uma longa “licença”, diferente das outras. Com a esposa, uma enfermeira encontrada nos corredores de urgência do hospital de Kremlin-Bicerre enquanto ele depositava a vítima de um acidente de trânsito, vão finalmente realizar um velho projeto: voar para Nova Iorque com amigos de sua região natal, Franche-Comté.

Dentro de dois dias, terá de levar seus três filhos aos avós perto de Besançon, antes de atravessar o Atlântico pela primeira vez. Como sempre, quando se ausenta do quartel deve pôr tudo em ordem para deixar o lugar limpo para seu substituto. Há, portanto, mil coisas a fazer antes de subir no avião.’

O primeiro aspecto surpreendente da história é que Jerôme, esse chefe dos bombeiros, ficou sabendo do incêndio da Notre-Dame por uma mensagem enviada por celular de um bombeiro do destacamento que estava passando férias na Itália: um vizinho dele lhe passara a informação de que estava subindo fumaça na catedral. A partir daí é que Jerôme movimentou o corpo de bombeiros para apurar o que estava acontecendo: podia ser fogo na igreja, mas podia também ser em algum depósito de lixo, ou uma trampolinagem…

Outra surpresa está no relato feito pelo bombeiro Gallet. Ele conta que, enquanto ia de carro na direção da “imensa ferida negra que espedaçava o céu”, ia se lembrando dos grandes incêndios em que havia atuado. Como em 1996, numa agência bancária do Crédit Lyonnais, que mobilizou seiscentos bombeiros durante vinte horas. E também de outros incêndios que ficaram na história. Entre eles, os dois mais marcantes.

O primeiro havia acontecido em 1972, na catedral São Pedro e São Paulo, de Nantes. Um operário havia esquecido um maçarico ligado, o que acabou pondo abaixo o telhado do edifício, que datava do século XV.

O outro caso que lhe veio à lembrança foi o de ter lido uma reportagem com depoimentos dos bombeiros brasileiros que, seis meses antes, enfrentaram um fogo destruidor que durou seis horas, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, uma construção de 1818.

Quem se concentra no seu oficio, não deixa escapar nada!

E nesse tom o livro vai contando o que fez cada bombeiro até ser totalmente apagado o incêndio da Notre-Dame. Um deles sorri para a estátua da Virgem com o Menino, depois de a ter salvo. Outro constata, ao subir até o alto das escadas da torre, que o órgão e as rosáceas ficaram intatos.

Para terminar, mais um episódio curioso. O bombeiro Emmanuel, de volta ao quartel às três horas da manhã, ao retirar uma bota, percebe nela um furo. Um prego do tamanho de um dedo, feito na Idade Média, tinha se enfiado nela. Emmanuel não titubeou: guardou o prego “com seus objetos pessoais mais preciosos”. Um prego para ficar na memória!

Uma trilogia sobre a escravidão

Numa rara coincidência, junto com o romance Carcaça de Negro, de Mário Maestri, me chegou às mãos outra obra mestra sobre o tema da escravidão. São três volumes com quinhentas páginas em média cada um deles, mas a leitura nunca se torna cansativa.

Seu autor é Laurentino Gomes, que se consagrou com três obras premiadas: 1808, sobre a fuga de Dom João VI e da corte portuguesa para o Brasil; 1822, que mostra em detalhe os bastidores da proclamação da Independência do Brasil; e 1889, também com cenário minucioso, sobre a Proclamação da República.

Desde seu primeiro livro, sobre as situações criadas com a presença da corte portuguesa no Rio de Janeiro, fiquei aficionado pelo estilo do autor. Ao contrário dos largos panoramas dos livros de História, Laurentino Gomes escreve verdadeiras reportagens sobre os acontecimentos observados. Nascido em Maringá, formou-se em Jornalismo na Universidade Federal do Paraná. E tornou-se um jornalista especializado em investigar fatos e situações esquecidos, ou desconsiderados, pelos historiadores.

Esta sua nova trilogia aborda o tema da escravidão em três períodos, assim demarcados:

– ESCRAVIDÃO – Volume I: Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares.

– ESCRAVIDÃO – Volume II: Da corrida do Ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de Dom João ao Brasil.

– ESCRAVIDÃO – Volume III: Da Independência do Brasil à Lei Áurea.

A série começa com esta epígrafe colhida, para dar o tom geral da narrativa, nos escritos do Padre Antônio Vieira, que foi missionário jesuíta na Bahia. A frase é de 1691:

“O Brasil tem seu corpo na América, e sua alma na África”.

O primeiro volume saiu publicado em 2019, depois de cinco anos de pesquisas e entrevistas realizadas pelo autor, no Brasil, mas também na África, em Portugal e em outros países com marcas da escravidão no passado. O terceiro e último veio à luz três anos depois, em 2022. Uma obra ainda “quente do forno”, para usar uma expressão popular, bem ao gosto de Laurentino Gomes.

Em cada volume, ele dá uma breve sinopse na contracapa, de que vão aqui pequenos tópicos, em ordem sequencial:

“Maior território escravocrata do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio. Como resultado, o país tem hoje a maior população negra do planeta, com exceção apenas da Nigéria. (…) Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional”.

“O agitado e rebelde século XVIII e a gigantesca onda africana que o marcou são os temas do segundo volume sobre a história da escravidão no Brasil.

“Na tarde em que o príncipe Dom Pedro chegou às margens do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, (…) comprar e vender gente era o maior negócio do novo país independente.”

Vale a pena ler Laurentino Gomes: ele não deixa ninguém de fora de nossa história!

CHUVAS

Com o atual regime de chuvas, um dos prazeres de verão já está irremediavelmente perdido: o de saborear figos. As uvas também estão aguadas e não amadurecem como deve ser, mas as uvas sempre podem, com alguma ajuda do engenho e da arte, serem prolongadas nos vinhos. Os figos não. Ou são saboreados na estação certa, como a juventude, ou nunca mais. Certo, certo, é possível fazer variados doces de figo, mas nenhum deles consegue guardar, nem de longe, a carnalidade de um figo maduro, quando o verão é de sol, pois o figo tem a virtude de condensá-lo todo dentro de si. Se chove como agora, não há figos nem a sua nostalgia do paraíso.

Agora que chego a esse ponto, tenho a impressão de estar me repetindo. Pois seja. Em algum outro verão já devo ter comentado o fato de que a folha que cobriu a nudez de Adão e Eva, quando perderam a inocência, foi uma folha de figueira. Está lá na bíblia, em todas as traduções. Esse detalhe das origens do mundo, nem sempre observado com a atenção que merece, é de importância capital. Nele esta a prova incontestável de que, se havia figueira, havia figos no paraíso terrestre. O vulgo acredita que havia também maçãs, que estariam na árvore do bem e do mal, tão tentadoras que mudaram o rumo do mundo. Mas quem quiser pode ir conferir no livro do Gênese: lá não se fala nem em maçã nem em macieira. Essa fruta goza portanto de uma glória espúria e imerecida, o que não acontece com o figo. Por conseqüência não há exagero em minha frase aí em cima, que diz haver embutida nos figos a nostalgia do paraíso. O regime atual das chuvas traz, sim, outros estragos. Temporada de praia, por exemplo, só entre uma pancada de chuva e outra. Mas nada de inexorável acontece nesse caso. O guarda-sol pode funcionar como guarda-chuva, sem mudar de formato nem de lugar, até terminar a tromba d’água. Termina a chuva e seguem os ritos normais de caminhar, jogar frescobol, deitar na esteira, segundo as crenças, as convicções e os hábitos de cada um. Viagens e passeios ficam também a perigo (ou, literalmente, se transformam em perigo) com as chuvas ora repentinas ora incessantes. Mas esse é um problema também de fácil solução. Pode-se trocar a viagem por um bom livro, se não com vantagem ao menos sem perda ostensiva. Fazer rafting ou nadar nos rios é tão fora dos costumes civilizados que quem opta por esse tipo de atividade, que beira a sandice, vai nem que chova canivete. Para esses, o que pode estragar o verão não é a sobra de chuva, mas a falta de juízo. Esse não é o destino de quem passa o ano inteiro sonhando com um incansável sol de verão, capaz de fazer os figos verterem uma gota de mel pela ponta, como sinal de que a doçura não cabe em si, de tão abundante e paradisíaca. Se chover como está chovendo, foi-se o prazer do verão.

         Se alguém achar que escrevi tudo isso por falta de assunto, dou-lhe metade da razão. Os assuntos também ficam aguados quando a chuva não tem controle.

Um romance da escravidão em terras gaúchas

O historiador gaúcho Mário Maestri acaba de publicar um romance, com o título de Carcaça de Negro, com o subtítulo de “Um romance da escravidão no Rio Grande do Sul”. Como diz ele em afetuosa dedicatória, seguindo caminho arriscado, “em que me aventuro por mares que não são meus”

De fato, o caminho percorrido por Mário Maestri foi no campo da História, e não no da narrativa ficcional. Sua biografia é bastante movimentada. Começou estudando engenharia na PUC-RS, mas logo passou para o curso de História na UFRGS. Cinco anos depois do golpe militar de 1964, foi preso, sob acusação de fazer resistência ao regime, mas foi absolvido por falta de provas. Mesmo assim, se refugiou no Chile, como fizeram muitos outros brasileiros, em especial do meio universitário. Lá, continuou os estudos de História na Universidade do Chile. Novamente envolvido em conflitos de ordem política, buscou refúgio na Bélgica, onde se matriculou na Universidade Católica de Lovaina, onde se graduou em Ciências Históricas, no programa de Histoire de l’Afrique.

Esse curso decretou a sua trajetória, ou, para usar a metáfora de sua autoria, os mares de sua navegação. Ainda na Bélgica, fez a dissertação de mestrado sobre a África negra pré-colonial e depois o doutoramento sobre um tema inédito: a escravidão do negro praticada no Rio Grande do Sul.

Veio de volta para o Brasil em 1977, e aqui iniciou seu percurso como professor universitário: começou na Fundação Universidade de Rio Grande, de onde foi afastado também por ingerência militar. Deu aulas na Federal do Rio de Janeiro e na PUC-RS, quando foi convidado para ser docente na Universidade de Caxias do Sul, em 1988. Nela permaneceu por cinco ou seis anos, atuando também no Projeto ECIRS, voltado para o estudo da imigração italiana, onde fomos colegas. Em 1994, foi convidado para atuar no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo, onde se aposentou.

Tive uma dívida para com ele na elaboração do romance A Cocanha, fato que reconheço na dedicatória da primeira edição. Ele me forneceu, com base em suas pesquisas, dados sobre a saída dos emigrantes da Itália e a travessia do Atlântico. Dados que transformei em ficção.

Vejo agora que aquela experiência de transferir a narrativa histórica para o romance o afetou, a ponto de agora lançar Carcaça de Negro. Como era de esperar, ele domina também a narrativa ficcional, prendendo o leitor desde o primeiro parágrafo. Nela, ao contrário da generalização usada na narrativa histórica, Mário Maestri dá corpo, gestos e falas aos personagens, com forte visibilidade e emoção.

O personagem central é um moleque de nome Joaquim, nascido numa charqueada de Palhetas – nome fictício de Pelotas. Em suas aventuras, percorre todas as situações e dramas vividos pelo escravo negro no Rio Grande do Sul. Um universo surpreendente, sem dúvida, uma vez que o tema da escravidão nunca teve destaque na história e nas tradições de nosso Estado. Fica aqui o convite para a leitura dessa obra, como sempre magistral, de Mário Maestri.

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora