As marcas de ferro

Guilhermino César foi um mineiro que estudou o Rio Grande do Sul mais do que ninguém. Além da História da Literatura do Rio Grande do Sul (Editora Globo, 1956), sua obra mais conhecida, escreveu também História do Rio Grande do Sul. Período Colonial (Editora Globo, 1970).

Nesta segunda obra, ele nos revela a história do uso das marcas de ferro no gado no Sul do Brasil. Segundo suas pesquisas, já a partir de 1767 as marcas deviam ser registradas, incluindo seu desenho, na Câmara de Viamão. Dali os registros deviam ser levados à Correição dos Juízes de Laguna, em Santa Catarina, que era o fórum jurídico mais próximo. O Brasil era ainda colônia portuguesa, e os procedimentos legais deviam seguir os estabelecidos no além-mar.

Como testemunho, Guilhermino César cita Nicolau Dreys (1781-1843), um francês nascido em Nancy, que fez carreira militar e veio para o Brasil em 1817, depois da derrota de Napoleão em Waterloo. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro como comerciante, e depois mudou-se para Porto Alegre, onde continuou no comércio, ligado às charqueadas de Pelotas. Viajou por grande parte do estado e escreveu a obra Notícia Descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro.

Ao relatar o uso da marca do gado nas fazendas do Sul do Brasil naquela época, Dreys assim a caracteriza:

A marca consiste numa figura arbitrária aplicada com um ferro quente sobre um dos quartos traseiros. Cada estancieiro tem sua marca, donde se pode concluir que o número delas é considerável. Esses hieróglifos compõem uma verdadeira escrituração chinesa: cada desenho é uma frase que significa que fulano de tal é o dono, da estância de tal nome e morador em tal parte. Apesar da complicação de tão árdua estenografia, acham-se, no Sul, homens de tão atilada reminiscência, que basta-lhes examinar qualquer marca para logo dizerem de que estância saiu o animal e, por consequência, a que dono pertence.

A primeira legislação específica a regulamentar o uso da marca no Rio Grande do Sul foi uma Lei de número 203, de 12 de dezembro de 1850. Nicolau Dreys já havia saído de cena. Dessa lei constavam as seguintes prescrições, que se tornaram praxe seguida em todas as estâncias gaúchas:

 obrigatoriedade do registro das marcas nas respectivas Câmaras Municipais, dentro de prazos estabelecidos;

 eliminação das marcas repetidas, prevalecendo a mais antiga ou a com maior número de reses já marcadas;

 o trânsito de tropas de gado devia ser feito com documento expedido por Tabelião ou Juiz de Paz. Nele devia constar o desenho da marca, ou marcas, do gado em trânsito.

Nessa lei não constavam as dimensões que deviam ter as marcas, que chegavam a ter mais de um palmo de comprimento. Mas uma legislação posterior estabeleceu uma norma, em que elas não deviam ser muito grandes para não desvalorizar o couro, então usado na produção industrial.

A partir de 1910, já no início do século XX, a legislação sobre marcas passou a ser feita pelo governo federal. Os procedimentos de marcação passaram então a ser uniformes em todo o território nacional.

A marca tinha tanta importância que era transmitida de geração em geração, como um patrimônio de família. Um relato colhido na região dos Campos de Cima da Serra é significativo sob este aspecto: o padrinho de um menino deu-lhe de presente de batizado uma marca de ferro, para que ele a usasse quando criasse suas próprias reses. E essa marca continua, acredito que até hoje, exposta na parede da sala principal da sede da fazenda.

Essa sua importância, certamente, é que levou os legisladores a estabelecer regras rígidas para seu uso. Para quem acha que burocracia complicada é uma marca de nosso tempo, tem aí um exemplo de como ela é antiga…

Tabuinhas para o telhado

As tabuinhas – scândole, na língua Talian – foram uma solução para a cobertura das casas desde o início da imigração italiana na Serra Gaúcha. Eram feitas manualmente, rachando toras de madeira, quase sempre de pinheiro, à força de machado.

Seu Loca, natural de São Francisco de Paula, e que trabalhou em serrarias de Bom Jesus a partir de 1930, contou coisas bem interessantes. Uma delas foi que todas as serrarias que conheceu eram de madeireiros de Caxias do Sul. E citou o nome de quase todos eles: Oliva, Gasperin, Dal Bò, Baldasso, Zulian… O mercado da madeira estava em expansão, com o crescimento rápido da cidade, em especial a partir da chegada do trem em 1910.

Outra informação importante de Seu Loca foi a de que, mesmo quando se consolidou a indústria da madeira, a produção de tabuinhas para telhado manteve cunho artesanal. Houve serrarias que tentaram industrializar as tabuinhas, sem êxito. Sendo serradas, absorviam a chuva e apodreciam em pouco tempo, além de ficarem muito pesadas para serem sustentadas. Assim, as scândole de madeira rachada continuaram com seu mercado garantido.

Seu Loca trabalhou na produção de tabuinhas, que aprendeu com o pai: “Meu pai era tabuinheiro, e eu também sou”.

Assim ele descreveu a técnica sofisticada que devia ser seguida:

Em primeiro lugar, era preciso escolher o pinheiro. Tinha que ser um pinheiro “maduro”, com diâmetro por volta de um metro. “E tinha que experimentar o pinheiro. A gente pegava o machado, ia lá e tirava uma lasca, um cavaco. […] Aí pegava uma faca para ver se ele rachava ou se tinha torcimento, se ele era de lasca ou não era. Se ele não lascar, não presta pra tabuinha. Tem que conhecer”.

Escolhido o pinheiro, era ele derrubado e dividido em toras do comprimento da tabuinha, que era de três palmos, cortadas a serrote. “Hoje tem motosserra – comentou ele, com ar divertido – mas não tem mais os pinheiros!”

Seu Loca deixou bem clara a diferença entre um bom tabuinheiro, aquele que domina todas as técnicas e é capaz de tirar todas as medidas “de cabeça”, e aquele que precisa riscar na madeira todas as medidas:

A grossura da tabuinha é centímetro e meio. Tem muito tabuinheiro que faz um pauzinho daquela grossura, bota em cima da tora e risca todas as tabuinhas. Mas eu não precisava, porque tinha na cabeça a grossura certa. Também, toda a vida uma grossura só! Não precisava riscar.

As ferramentas eram extremamente rudimentares: um ferro em forma de cunha, um macete, ou pequeno malho, para bater, e um cutelo para alisar as tabuinhas depois de rachadas, em cima de uma mesa de madeira com um tipo de armação para prender a tabuinha.

Feitas as tabuinhas, eram elas empilhadas, de forma gradeada, “com cem tabuinhas por pilha. Dava pra botar duzentas, mas pro vento não derrubar, eram cem tabuinhas por pilha. Elas eram vendidas por milheiro”.

Além das tabuinhas, Seu Loca era especialista também em fazer tábuas rachadas:

Eu rachava tábua também, e falquejava. Essa é outra do tempo antigo. A casa era arrumada com tábua lascada também. Que era rachada igual à tabuinha, como tou contando. Mas com uma machadinha ou machado grande.

Ou seja, produzir tabuinhas e fazer tábua lascada eram tarefas de técnica semelhante. A produção de tábuas lascadas desapareceu com o advento das serrarias. Sobraram as tabuinhas, para prolongar essa arte de decifrar e de entender os veios da madeira do pinheiro…

Os operários da madeira

ciclo da madeira deixou marcas profundas na memória dos que trabalharam nas serrarias à margem do Rio Pelotas. Memória que foi recolhida por uma pesquisa dos elementos culturais dessa região, pelo Instituto Memória Histórica e Cultural (IMHC) da UCS.

Seu Honório, morador de Pinhal da Serra, descreve em detalhes como era feito o transporte das toras de pinheiro, de dentro do mato até o estaleiro da serraria. São conhecimentos minuciosos, típicos de um capataz.

Depois de derrubado o pinheiro, informa ele, eram feitas as toras, com três tipos de comprimento: de 5,40 m, de 4,20 m, e de 3,30 m. O padrão de cada uma dessas medidas era marcado com o uso de uma ripa.

Feitas as toras, entrava em ação o descascador: uma pessoa com prática descascava de dez a vinte toras por dia, dependendo da grossura do pinheiro. Para descascar, usava-se o machado. E só era descascada a parte de cima do tronco. A casca da parte de baixo da tora era removida no arrasto até a serraria.

As toras eram transportadas do mato até o estaleiro da serraria, por duas ou três juntas de bois, encordoadas uma atrás da outra. A junta era um par de bois, unidos por uma canga de madeira sobre os pescoços. E não era qualquer madeira, tinha que ser madeira especial, a sete-sangria ou a açoita-cavalo, que são madeira leviana e forte. Porque a madeira não pode ser muito pesada no pescoço do boi, senão ele cansa muito.

Eram bois ensinados, treinados para trabalharem juntos, como mostra esta cena descrita por seu Honório:

Os bois tinham nome. A junta da ponta, como diziam, puxava os outros para o lado que o arrastador queria que fossem, pra direita ou pra esquerda. Ele falava com o boi da ponta: “pá direita, Fulano!” E o boi entendia, puxava os outros pro lado que ele queria. […] Os bois da frente puxavam igual uma pessoa, entendiam mais que uma pessoa!”.

Os bois levavam as toras até o estaleiro, uma armação feita com troncos de árvore, formando um patamar da altura da carroceria do caminhão, para esse ser carregado com as toras, com estes detalhes:

Na época se usava pra esse serviço um caminhão pequeno, o caminhão reboque: o reboque era um tipo de carretão só com dois pneus, engatado no caminhão. As toras ficavam assentadas no ‘gastalho’ – duas travessas de madeira, parte delas apoiadas no caminhão e parte no reboque, presas por um ‘varão’, como era chamado, feito de cerejeira. […] Uma carga de caminhão levava de quatro a cinco toras.

Na frente da serraria havia a “cancha”, feita de varas de madeira. Ali eram descarregadas as toras para serem roladas, no braço, para dentro da serraria e ali serem colocadas na “grade”, para serem serradas.

Serravam-se primeiro os lados das toras, tirando as “costaneiras”, para deixar lisas as quatro faces da madeira: pra esquadrejar a tora, formando o cepo, na linguagem de seu Honório. Desse cepo eram feitas então as tábuas. Se fosse uma serra comum, ela serrava tábua por tábua, mas havia serrarias que tinham a serra cheia, que chamavam de petiça, com seis, oito e até onze serras alinhadas, fazendo todas as tábuas de uma vez só.

As tábuas saíam com a grossura de uma polegada e largura variada, de acordo com a grossura da tora. Depois essas tábuas iam para a refiladeira, onde era padronizada a sua largura. Do refil que sobrava era feito outro tipo de aproveitamento, como ripas e aduelas. O que não pudesse ser aproveitado virava refugo, que não era utilizado nem na máquina a vapor: o refugo não dava força no fogo.

Depois de prontas, as tábuas eram gradeadas fora da serraria, para secar. As tábuas entrecruzadas faziam um quadrado bem certinho, numa pilha de dois metros de altura, três quase, deixando um vãozinho pra poder entrar o ar no meio.

A madeira podia ficar assim gradeada por seis meses ou até um ano. Mas com dois meses já estava seca, e pronta para ser vendida.

Bem, a “aula” de seu Honório ainda não terminou. Há mais outros saberes por ele armazenados…

A vida nas serrarias da Serra

Nasci e passei minha primeira infância perto de uma serraria, em Santa Teresa de São Francisco de Paula. Meus vizinhos e amigos mais próximos – o Darci, o Andi e o Neri – eram filhos do chefe da serraria.

O proprietário, me diziam eles, era um certo Muratore da cidade de Taquara. E o pai de meus amigos, que cuidava da serraria, era um Bonatto, natural de Santa Lúcia do Piaí. Faziam parte da minha paisagem cotidiana as pilhas de toradas, de tábuas e de tabuinhas de pinheiro, a nossa araucária.

Eu não sabia, mas estava sendo testemunha do “Ciclo da Madeira”, que impulsionou a economia da Serra Gaúcha depois da abertura das estradas de ferro, como afirmou Celeste Gobatto, em texto de 1925: “A indústria da madeira foi, entre as indústrias extrativas, a que mais se desenvolveu com a abertura das estradas de ferro e com a crescente demanda por essa matéria. […] Numerosíssimas são as serrarias movimentadas por rodas hidráulicas ou locomóveis”.

Por essa época estava já em marcha a colonização da fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, às margens do Rio Pelotas, uma área coberta de pinheirais. Gobatto, ao lado de salientar a importância econômica de sua extração, chamou também a atenção para os seus riscos, “com o clima lentamente se transformando, o que dá origem, às vezes, a longos períodos de seca que em outros tempos não se conheciam”. E isso escrito em 1925, há quase cem anos!

Na pesquisa realizada nessa região, com foco nos usos e costumes locais, um tema inevitável foi o da vida nas serrarias

Um morador de Pinhal da Serra, antigo distrito de Vacaria, lembra que tinha catorze anos quando viu, perto de onde morava, a construção da serraria em que trabalhou depois por muitos anos.

A serraria era movida por máquina a vapor, alimentada com lenha do mato e também com restos das toras serradas: “essa máquina queimava a lenha, e daí aquecia a água, que fazia pressão pra mover a primeira polia. Daí engrenava a correia em outro eixo que começava a mover e tocar a serra, quando aquecia o suficiente a máquina. Tinha um relógio que marcava a pressão”.

Várias competências eram necessárias para tocar uma serraria. A pessoa que trabalhava na máquina a vapor era chamada de foguista. Tinha depois o serrador, que cuidava do corte da madeira, e o refilador, encarregado do polimento final…

O foguista fazia fogo na máquina e cuidava para que ele desse pressão suficiente. Começava a trabalhar duas horas antes dos outros, era o primeiro que começava, pelas seis horas da manhã, segundo o informante: “O foguista levava o café pronto de casa. Tomava o café na serraria, enquanto limpava e aquecia a máquina. Depois ficava esperando ‘a caloria’”.

Na realidade, o foguista era o primeiro a iniciar dentro da serraria. Antes dele, os toradeiros já estavam preparando os bois para irem para o mato.

Para o serviço do mato, igualmente, o informante foi minucioso. “Tinha os toradeiros: dois homens pra derrubar um pinheiro com o serrote e um pra descascar, os três toradeiros. Se a serraria dava muita produção, então tinha mais, trabalhavam em quatro, daí”.

O processo todo de derrubada, descrito pelo informante, era o seguinte: fazia-se um talho profundo, a machado, de um lado do tronco, do lado para onde o pinheiro devia cair; depois, do outro lado, punha-se o serrote, um pouco acima do nível do talho do machado, e começava-se a serrar. Os serradores ficavam agachados, o que era muito cansativo. Quando o serrote estava no meio da grossura do pinheiro, era colocada uma cunha, para não deixar que o tronco caísse para trás, no caso se desse um vento. Era uma cunha de ferro, batida com o malho. A cunha servia também pra não ficar pesado o serrote, senão ficava muito pesado, não tinha quem puxasse o serrote; no momento de derrubar o pinheiro, colocavam uma cunha grande de ferro e batiam com um malho pesado; o serrote ficava lá dentro, só era retirado quando caía o pinheiro.

Esse era o momento mais crítico da derrubada: a pessoa tinha que conhecer muito bem, tinha que ter prática, muito conhecimento do tombo do pinheiro; não era qualquer um que podia derrubar o pinheiro.

Naquela época, segundo o informante, só eram cortados pinheiros com cinquenta centímetros ou mais de diâmetro. Pinheiros mais finos só eram cortados para fazer os estaleiros.

Seu Loca, nascido em São Francisco de Paula, trabalhou por trinta anos numa serraria de Bom Jesus, e também guardou lembranças muito detalhadas de seu trabalho. Mas isso fica para a próxima crônica!

Antigos saberes de cozinha

Uma pesquisa de campo foi realizada nas duas margens do Rio Pelotas, que faz divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, na virada do século, pelo IMHC da UCS. Foram encontradas muitas preciosidades nos hábitos culturais dessa região, dignas de figurar no museu da memória.

Uma dessas pérolas é a dos saberes escondidos no espaço doméstico, sob o controle da mulher. Alguns muito específicos foram relatados por uma velha senhora de Bom Jesus, numa saborosa e bem humorada entrevista, de que são transcritos alguns trechos no mínimo curiosos.

1 – Café de chocolateira

A chocolateira – chiculateira, na linguagem da entrevistada -, era uma vasilha feita de folha de flandres, usada para esquentar água e fazer café, sem ter nada a ver com o chocolate. Essa é a definição do dicionário Houaiss. A descrição da sábia senhora é esta:

A chiculateira tinha o embaixo mais largo, e em cima afinava. Se comprava um latão de abacaxi, e com ele se fazia a vasilha. Tinha que pegar com um pano, né, ou mandava botar uma asa. Tinha um tal de Tonico, que sabia botar asa. A gente sempre levava pra botar asinha também nas latinhas de massa de tomate pras crianças tomar café.

Pra fazer o café, se botava a água esquentar. Quando a água começava a rodear na folha, se colocava o pó. E quando ela fervia, o pó ia todo pro fundo da lata. Se podia ver na caneca que não tinha pó nenhum em cima da lata.

O açúcar era posto já na xícara, para não adoçar aquele pó no fundo da lata. Se colocava o açúcar já na xícara, pra tomar o café.

Se a gente botar o pó com a água já fervendo, o pó não desce pra baixo da chiculateira. Então se botava uma brasa de fogo ali em cima, e o pó descia tudo pro fundo. A ciência é esta: antes de ferver, quando a água começa a rodear um pouquinho, a gente coloca o pó. Ele já vai arrodeando assim, e vai indo, vai descendo, e aí não precisa o tição.

2 – Velas de sebo

As velas de sebo eram uma alternativa de menor custo que o lampião a querosene para se ter luz dentro de casa à noite. Luz elétrica, nem se sabia o que era. Além disso, as velas tinham papel essencial em cerimônias de cunho religioso.

A arte de fazer velas de sebo exigia muita habilidade artesanal, e também muita paciência, como explicou nossa competente entrevistada:

Quando a gente carneava uma rês, já tirava separado esse sebo próprio só pra fazer vela. Sim, porque se for aquela graxa da carne, ela é uma graxa macia, mole. Não presta pra fazer vela. Tem que ser o sebo duro perto do rim, do bucho. O sebo então é tirado já separado, que é o sebo de fazer vela.

Para fazer as velas eram usadas formas, mandadas fazer num latoeiro. Cada forma tinha de seis a oito canudinhos, com uma ponta aberta e um pequeno furo na outra ponta. Um pavio era enfiado pelo cano, ficando preso na pontinha estreita: “com aquela beiradinha bem ajeitada com o pavio não tinha perigo de escorrer o sebo fora”.

Era então despejado o sebo derretido até encher os canudos da forma. Depois de cheios, eram deixados no ar fresco, para secar. Para tirar depois as velas de dentro dos canudinhos, se passava uma água quente por fora da forma: “com isso frouxava um pouquinho por dentro, e podia puxar, que saíam direitinho as velas”.

O pavio, explicou a entrevistada, era feito de pano. Em geral de um pedaço de lençol, não muito gasto e fraco. Rasgava-se o pano, que tinha que ser muito bem torcido, para poder ficar no meio da vela. Esse pavio podia ser de tecido de cor, do pano que houvesse disponível.

Outros detalhes foram registrados. A quantidade de velas produzidas era de, em média, uma dúzia por meio quilo de sebo. Quando havia bastante sebo – sete ou oito quilos –, era usado o tendal (isto é, o varal de secar charque) para pendurar as formas até as velas secarem. “Em tempo de chuva, a gente pegava pra fazer pavios, e ia guardando, porque fazer velas era serviço pra dia de tempo bom, E no dia em que dava para fazer vela, era só vela que ia sair”!

3 – Torrando café

O café era comprado em grão, e chegava num cargueiro, um animal de carga. Aí a dona da casa tinha que pôr aquele café a secar no sol, e em seguida torrar no torrador. Depois queimava açúcar mascavo numa panela, misturava nesse café torrado, e socava no pilão. Feito isso, peneirava numa peneirinha bem fina, e colocava o pó numa lata, que era guardada para fazer o café na “chiculateira”.

Perguntada se ela sentia saudade dessa época, a senhora respondeu:

Não dá saudade. Era muito serviço, muito serviço. A gente não tinha tempo de pensar. A noite tava chegando, e o serviço ainda era muito pra fazer. E hoje a gente tem uma vida descansada, sentada. Não dá pra ter saudade, porque a saudade é pesada. A saudade é uma coisa doída. E hoje a gente tem uma vida boa, nem tem saudade do trabalho que passou…

Esse tempo pode não ter deixado saudade, mas com certeza deixou muita sabedoria!

A coberta da alma

Quem leu minha novela policial O Caso da Caçada de Perdiz, ambientada nos campos da Vacaria, deve ter ficado no mínimo se perguntando em que se baseia o episódio do capítulo 9, que leva o título de “A coberta das almas”.

Se alguém imagina que foi tudo invenção do autor, está se enganando. A cena inteira é baseada em relato feito por uma moradora de Bom Jesus, conhecida como Dona Naná, colhido em 2003, por uma pesquisadora de campo. E em outras duas fontes, abaixo denunciadas…

Entre os ritos de passagem da vida para a morte, e suas respectivas crenças, um ritual que esteve presente na região dos Campos de Cima da Serra foi o da Coberta da Alma – com a pronúncia local de “coberta d’alma”. Segundo esse “costume antigo”, a alma de quem morria devia ser “coberta” com uma roupa dada a uma pessoa necessitada, para poder aparecer vestida onde quisesse aparecer.

Há também registro desse costume, feito por P. Correa (1965), no município de Osório, no Rio Grande do Sul. Observa Correa que não encontrou vestígio dele nos municípios da Fronteira e da Campanha. Isso indicaria que sua origem não é lusitana nem hispânica.

O mesmo pesquisador informa que, em 1935, no Primeiro Congresso de História e Geografia Sul Rio-Grandense, comemorativo ao Centenário da Revolução Farroupilha, o escritor Manoel Estêvão Fernandes Bastos (também natural de Osório, onde é hoje patrono da Biblioteca Pública Municipal) apresentou trabalho sobre a “Coberta d’Alma”, com as seguintes conclusões, que constam dos Anais do evento:

“1 – A Coberta d’Alma é uma tradição açoriana.

2 – Essa tradição envolve, encantadoramente, um ato de piedade cristã.

3 – Pela sua piedosa significação e pela moralidade de seu alcance, esse costume deve ter influído na nossa formação social”.

No caso do depoimento obtido em Bom Jesus, a informante diz que seu pai – que obedecia ao ritual dessa crença – era natural dos Ausentes. Mas é sabido que muitos hábitos culturais de origem açoriana, vindos do litoral, subiram até os Campos de Cima da Serra, seguindo o Caminho das Tropas.

Mesmo admitindo-se a fonte açoriana para essa tradição cultural, deve-se notar, no entanto, que ela aparece aqui relacionada, ou mesclada, com crenças típicas do ocultismo.

Do depoimento de Dona Naná, a informante de Bom Jesus, conclui-se que diversas são as condições para que o ritual da Coberta da Alma produza seus efeitos:

– a roupa dada em nome da pessoa falecida deve ser completa, incluindo as roupas de baixo e o calçado;

– deve ser uma roupa nova ou, pelo menos, bem conservada;

– deve ser dada a uma pessoa merecedora, não só pela pobreza, mas também pelos bons costumes;

– a doação deve ser feita até o dia do “terço dos sete dias”, para que, nessa ocasião, a pessoa beneficiada compareça vestindo a roupa dada.

Em sua forma original, o depoimento de Dona Naná fornece detalhes com este colorido:

“Uma vez tinha a coberta d’alma. Se por acaso eu morresse, faziam uma roupa nova e davam tudo pra uma pessoa que aceitasse, né. Uma pessoa pobre. Mas faziam tudo completo, tudo. Sutiã, saia, calcinha, tudo completo. Fosse de morim, fosse de chita, mas era tudo. Aquela era a coberta d’alma, que eles diziam. O calçado também. Era tudo. Se a pessoa tinha uma roupa boa, não carecia comprar. Então a gente arrumava bem, passava bem passadinha e dava aquela…

Mas tinha que ser uma coisa boa… Não assim trapo velho, roupa velha. Porque diziam, não sei se é certo, que com aquela roupa que a gente dá é que a pessoa aparece. Se ela vai aparecer no céu, ou onde aparece aquela alma, é com aquela roupa que a gente dá. Com a outra veste não, com aquela que é enterrada. Assim diziam, não é. Agora só estou dizendo o que os antigos diziam”.

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”, já ensinava William Shakespeare.

Viva a bela polenta!

A anunciada realização de uma Festa da Polenta em Monte Belo do Sul, na 11ª edição do Polentaço, traz à tona mais um patrimônio cultural trazido pelo imigrante italiano.

A história da polenta na Itália merece um longo tratado. Começa com a chegada do granturco, ou granoturco, aqui conhecido como milho, pelo porto de Veneza. “Turco” não significava que provinha da Turquia, mas era uma palavra que tinha o sentido de “exótico”, “estranho”.

granturco permitiu uma revitalização da economia agrícola italiana: as espigas produziam grãos comestíveis quando verdes, a palha da espiga e as folhas serviam de ração para os animais, e o grão maduro podia ser transformado em farinha amarela por um processo de moagem, com a qual era feita a polenta.

A descoberta da polenta permitiu melhorar a alimentação dos mais pobres, para quem a farinha branca de trigo ficava cada vez mais difícil de ser obtida. Ainda mais depois que o governo criou um imposto sobre a moagem, a tassa sul macinato, que o povo apelidou de “imposto sobre a fome”. Tanto que um dos sonhos dos emigrantes que vinham para a América era de voltarem a ter panbianco, o pão-branco feito de trigo.

Um sinal da importância adquirida pela polenta como fonte de vida pode ser encontrada em canções trazidas junto com a bagagem dos imigrantes vindos da região veneta. Uma delas, recolhida em pesquisa feita há quatro décadas em Antônio Prado, é um verdadeiro Hino à Polenta.

Nesse hino, são citadas duas fontes de origem da polenta. Uma é a região da Lombardia, a “pátria do Arlequim”, onde veio ao mundo uma polenta pequena, que vinha trazida sobre as asas de um franguinho. Outra é a região do Vêneto, em que veio ao mundo um polentone, carregado por um capone, isto é, um galo bem grande. Por traz dessa linguagem poética, parece que o sentido oculto é de que no Vêneto se comia muito mais polenta do que na Lombardia…

Prosseguindo, esse hino à polenta traz uma revelação: o maná caído do céu no deserto, para alimentar o povo hebreu que fugia do Egito, era polenta disfarçada. Literalmente e em tradução:

La gran mana del desèrto O grande maná do deserto

così dólce così dólce e saporita tão doce e tão saboroso

non ghe altro, quésto è cèrto, não era outra coisa, é certo,

che polénta che polénta travestita: que polenta travestida

Sendo um maná, a polenta é um prato dos deuses, quando comida com passarinhada: era cibo degli dèi, la polenta coi osèi. E não apenas isso. O estribilho da canção afirma que a polenta é cibo del rè, comida do rei, e que todos seus apreciadores fazem coro ao redor dela cantando seu nome.

polenta com passarinhada foi, até se tornar politicamente incorreta, um hábito alimentar praticado em toda a região de colonização italiana, no tempo em que era abundante o mato e eram abundantes os passarinhos. O principal mérito da passarinhada foi o de que ela acabou com a “pelagra”, uma doença devida à falta da vitamina B3, e que era comum entre os pobres na Itália na época da grande emigração. Só i gran signori podiam caçar e enriquecer assim seu cardápio, para manter a pele saudável.

Aqui, com a proibição da passarinhada, surgiu a receita do galeto, novo acompanhante da polenta. Com isso, a festa com polenta continuou sendo uma boa pedida! Há também a alternativa da polenta e tòccio, polenta com molho. E que essa festa da polenta seja celebrada em Monte Belo do Sul é também excelente programa, com a bela igreja de altas torres a receber os visitantes! Torres erguidas pelo padre José Ferlin, que hoje é nome da praça central da pequena cidade, junto ao Vale dos Vinhedos.

O inspirador do Padre Giobbe

Quando programei escrever a minha trilogia de romances sobre a imigração italiana na Serra Gaúcha, saí à procura de uma figura que deixasse bem à mostra o papel da Igreja no processo histórico e cultural das colônias. Essa figura deveria ser um padre, mas um padre capaz de mergulhar bem fundo na mentalidade do imigrante que chegava, fosse homem ou mulher, e nos desafios e riscos que iriam surgir à frente deles.

Como a sorte sempre me acompanhou, fui presenteado com o modelo que eu procurava no caderno de memórias de Francisco Paglioli. Por sinal, no último episódio ali narrado:

Convidaram-me para cantar uma missa em uma igreja no município de Bento Gonçalves; quem me convidou foi um discípulo (meu) de música, que já tinha uma pequena e boa banda de música naquele lugar.

Paglioli não dá o nome da igreja onde iria cantar. Mas como o celebrante morava em Nova Vicenza (hoje Farroupilha), o local deve ter sido uma capela de colônia entre os dois atuais municípios. Este é o retrato que Paglioli dá do padre, aqui transcrito ao pé da letra para não perder o sabor original:

Chamava-se Dom Giacomo Brutomesso, era um excelente padre, e muito caritativo, muito amigo dos pobres. Chamou-me e disse:

– Francisco, vamos tomar um copo de vinho branco; o festeiro tem um que é especial.

Sentamos ambos à mesa e veio um litro do tal. Tomamos o primeiro copo e depois, eu gostava, enchi o meu copo novamente, e não me lembrei do outro (i. é., de encher o copo do padre).

– Meu amigo – disse ele, – pensas que não gosto?

– Perdão, reverendo – disse-lhe, – foi distração minha.

Continuamos a palestrar, e disse-lhe que ia mudar-me com a família para Cima da Serra, mas que estava receoso porque aquele lugar era inconveniente para quem tinha uma família de muitas criancinhas como eu, pois não havia quase famílias.

– Lá ofereceram-me um emprego. Não há sapateiro, e poderei sustentar minha família mais fácil.

Ele disse:

– Pois vá. Quando a gente quer se comportar honestamente, até em casa do diabo pode fazer o bem; vá, e cuida da tua família, Deus te protegerá.

Ali estava um bom modelo para o personagem que eu imaginava. Fui então pesquisar quem foi o padre Giacomo Brutomesso. E descobri o seguinte: uns dez anos depois da ocupação da Colônia Caxias, uma leva de vicentinos – entre eles meu bisavô Giovanni Posenato – se instalou nas terras onde hoje é o bairro São Vicente, em Farroupilha, dando ao lugar o nome de Nova Vicenza.

Ali instalados, fizeram um projeto de construir uma igreja, em honra de São Vicente, e de conseguir a vinda de um padre da Itália. Um dos moradores, de nome Domênico, conhecia o padre Giacomo Brutomesso, e sabia que ele gostaria de acompanhar os imigrantes no Brasil. Fez contato por carta e conseguiu a vinda do padre. Assim que este chegou, em 1886, tratou de ajudar na construção da igreja, feita de tábuas, e de prestar auxílio a todos que precisassem de alguma ajuda e apoio.

Da figura de Dom Giacomo Brutomesso emergiu então o Padre Giobbe dos meus romances, também ele um consolador e um exemplo de tolerância e de paciência…

Devo, portanto, imensa gratidão ao caderno de memórias de Francisco Paglioli que tem grudada no final uma fotografia dele: é um músico com um paletó em estilo de farda, com duas filas de botões, boné com penacho caindo sobre o ombro direito, mão direita apoiada num pistão e mão esquerda apoiada numa mesinha de um só pé, com toalha de crochê e cesta de flores. Ao pé da foto está escrito, com letra diferente da usada no caderno:

1900 – Francisco Paglioli – Mestre da Banta Sta Cecília – Caxias.

Banho de mar em Torres

Prosseguindo na leitura do caderno de memória de Francisco Paglioli, deparamos com mais um episódio curioso.

Estava ele já morando em São Francisco de Paula, em Cima da Serra, e sofria de um reumatismo no braço direito, “a ponto de ter dificuldade de escrever: experimentei diversos remédios e pomadas, mas nada adiantou”.

Um dia chegou um seu compadre, um Serrano, e perguntou:

– Como vais de reumatismo?

– Sempre o mesmo, não há jeito de ficar bom.

– Deixa de remédios. Vai aos banhos de mar.

O compadre explicou então como ele devia tomar os banhos. Tinha de entrar no mar de manhã cedo, antes de o sol aparecer. Não devia ficar na água mais de dez minutos, e em seguida ir rápido para a cama e se cobrir bem para transpirar. Naquele dia, não podia mais tomar banho. Esse tratamento devia ser repetido diariamente, até não sentir mais o reumatismo.

Francisco Paglioli topou a sugestão. Morava com ele um estudante de música, que tinha a família perto de Torres, num lugar chamado Espigão. E resolveu levar o rapaz com ele, porque não conhecia a estrada para Torres: o traçado era um rascunho da atual rota do sol! Montaram a cavalo e foram. A jornada de um cavalo de montaria (sei disso porque também vivi essa experiência) é de no máximo oito léguas por dia, o que dá por volta de quarenta quilômetros.

Uma prova disso é que todos os povoados nos Campos de Cima da Serra ficam a vinte quilômetros um do outro: no primeiro se fazia uma parada para comer. No segundo, uma parada para dormir. No primeiro, havia no máximo um boteco. No segundo, pousada para o viajante e estrebaria para os cavalos. De São Chico a Torres devem os dois ter levado certamente três dias, ainda mais que a descida da serra não podia ser feita a trote, muito menos a galope…

Chegando a Torres, foram se hospedar num hotel, perto da igreja. Paglioli procurou um sapateiro, porque os sapatos que levara eram muito folgados. Por coincidência, o sapateiro de Torres também era músico e conhecia a fama de Paglioli como “mestre de música” em São Francisco de Paula. Não só isso: mostrou a Paglioli uma partitura da autoria deste, que ele havia ganho de um músico de Conceição do Arroio (hoje município de Osório). E os dois acabaram indo juntos cantar a missa no domingo, que era dia de festa.

Estava Paglioli almoçando no hotel, depois da missa, quando entrou um homem carregando um cesto cheio de garrafas de cerveja, entregou a ele, e disse:

– O festeiro manda esta cerveja a um cantor que cantou na missa!

Paglioli começou o tratamento do reumatismo na manhã seguinte, seguindo as instruções de seu compadre, com este desfecho:

Para chegar à praia, eu caminhava bem, pois era descida. Eu, que não conhecia o lugar, coloquei-me encostado a uma grande pedra, de modo que quando vinha a onda me banhava e depois ficava no enxuto, não havendo algum perigo de que a água me arrastasse

[…] Como tinha pressa, depois do banho, quando estava no hotel já estava todo suado. Metia-me na cama e lá ficava um bom pedaço de tempo.

Depois de dez a doze dias de perseverança no tratamento, fiquei curado.

Mais um relato com final feliz!

Paglioli e os falantes de ‘hunsrückish”

Nas colônias de imigração alemã, em todo o sul do Brasil, e também no Espírito Santo, era falado um dialeto alemão com forte influência do português, fenômeno linguístico semelhante ao que deu origem ao Talian nas colônias italianas. Como o Talian, também a língua das colônias alemãs foi reconhecida pelo Iphan como patrimônio das línguas de imigração, com o nome de Hunsrückish.

Esse nome deriva da região de Hunsrück, do oeste da Alemanha, donde proveio a maior parte da imigração alemã para o Brasil. Algo semelhante, também, com a predominância da região do Vêneto, na imigração italiana.

Como ocorreu com o Talian, também o Hunsrückish incorporou palavras da língua portuguesafeschon (de feijão), schuraske (de churrasco), schikót (de chicote), karose (de carroça), e por aí afora.

Francisco Paglioli, em seu caderno de memórias, registrou com detalhes um “acontecimento” ocorrido numa passagem dele por uma colônia alemã, vizinha à Colônia Caxias, onde encontrou dificuldade para se comunicar.

O leitor deve estar lembrado que o jovem Paglioli começou sua carreira de músico na banda de Agostinho Curtolo, pedreiro de profissão, com quem também trabalhou em construções. Assim começa esta sua narrativa:

Meu mestre de música era pedreiro, e não havia trabalho em Caxias; contratou-se para trabalhar em um edifício em construção na Linha Nova, no município de São Leopoldo e limítrofe ao de Caxias.

Agora um parêntese, para situar o local referido: Linha Nova manteve a denominação e é hoje um pequeno município, desmembrado do município de Feliz, que se desmembrou de São Sebastião do Caí que, por sua vez, ainda em 1875, quando começou a imigração italiana, desmembrou-se de São Leopoldo.

Agostinho Curtolo deixou em casa a esposa, que estava grávida (parturiente, escreveu Paglioli). Nesse meio tempo, a mulher “deu à luz uma criança morta, e ela muito mal”. Os parentes em Caxias, muito preocupados, queriam mandar alguém à Linha Nova para trazer o marido de volta. Francisco Paglioli se prontificou:

Eu me ofereci, montei a cavalo e lá me fui. Chegado à margem do rio Caí achei uma casa de negócio, entrei, e contando ao dono da casa qual era o motivo da minha viagem, pedi que me guiasse. Este escreveu uma carta e entregando-ma disse: “Passe do outro lado do rio, siga a única estrada até um paredão onde parece que termina a estrada e encontrará uma casa. Chegue e entregue esta carta, e eles lhe guiarão mais adiante”.

Era assim naqueles tempos, em que não havia telefone, muito menos o celular…

Paglioli entregou a carta para uma senhora que não sabia ler (obs.: pelo menos não em português…). Ela chamou uma moça que leu a carta e convidou Paglioli para acompanhá-la.

Atravessamos dois potreiros e depois, apontando uma estradinha no mato, retirou-se. Eu e o meu rocinante estávamos cansados, e eu estava resolvido a dormir naquele bosque; eu poderia ter cantado com Dante: Lasciate ogni speranza o voi che entrate. Mas, oh que milagre! Perto de mim estava Vergílio de Dante para alegrar-me!

O homem que apareceu a seu lado deu então o rumo. Devia subir o morro, passar por uma roça de milho e perto da roça ia avistar uma casa de moradia. E perguntasse lá onde estava o pedreiro que procurava.

Voltou o ânimo perdido e lá me fui. Encontrei uma senhora ordenhando uma vaca, mas a pobre mulher não falava o português.

Mas não demorou muito e chegou, vindo da roça, o marido dela com dois filhos. Paglioli os cumprimentou e pediu agasalho: – “Nichts”. Contou da via crucis pela qual estava passando: – “Nichts”.

Quando viu que o homem teimava na recusa, amarrou o cavalo num palanque, sentou na soleira da porta da casa e disse:

– Eu daqui não saio até clarear o dia de amanhã.

E eis como termina a história:

O homem mudou de atitude. Falando o português bem compreensível, convidou-me em casa, à mesa com a família, e fiz a minha refeição. De repente falou a um filho, este saiu, e quando voltou o chefe convidou-me para sair; mas qual não foi a minha surpresa: meu cavalo tinha desaparecido, e estavam dois outros encilhados. “Monte neste cavalo”, me disse e, ambos montando, me disse: “Siga-me!” E a trote largo e na escuridão daquela estrada me acompanhou à casa do meu destino. Chegados, me disse: “Eu volto, e o senhor amanhã, quando voltar, deixará o meu cavalo e receberá o seu. No dia seguinte, o meu maestro e eu, fazendo boa viagem, chegamos a Caxias.

Uma história dantesca, na opinião do seu autor, e com final feliz!

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