A atriz e o imperador

“Foi com os olhos e a mente que Dom Pedro II se aproximou de Adelaide Ristori”.

Esta frase consta na contracapa do livro O Imperador e a Atriz, publicado pela editora da Universidade de Caxias do Sul em 2007, com o apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e o patrocínio da Lupatech, então presidida por Nestor Perini, de saudosa memória. O livro, certamente com a frase da contracapa, é da autoria de Dom Carlos, um trineto de Dom Pedro II. Seu nome completo é Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança.

O fato de essa obra ter sido publicada em Caxias do Sul e com patrocínio de uma empresa da cidade nasce de dois vínculos históricos. Um: Caxias do Sul teve a mais densa contribuição da imigração italiana no Brasil. Dois: a esposa de Dom Pedro II era italiana, a imperatriz Dona Teresa Cristina das Duas Sicílias. E mais um detalhe: a padroeira da catedral de Caxias do Sul, Santa Teresa, foi escolhida para homenagear a esposa do Imperador que patrocinou a vinda de imigrantes italianos para o Brasil.

O fato de Adelaide Ristori ser italiana, além de excelente atriz, contribuiu para consolidar a afeição do Imperador para com ela. Trocaram cartas de 1869 a 1891, durante vinte e dois anos, numa média de mais de três cartas cada um por ano. Cartas todas escritas em língua italiana. Dom Carlos observa na Introdução que “as primeiras cartas do Imperador contêm muitos erros, sejam ortográficos, sejam de vocabulário, mas foram melhorando com o passar do tempo. As cartas da Ristori são escritas numa elegante e apurada linguagem, que não podia ser diferente numa artista do seu quilate”.

Sobre o “quilate” da artista, Dom Carlos faz a seguinte descrição: “Ela não era uma mulher de grande beleza, mas de enorme expressão, com uma voz forte, clara e melodiosa. Tinha um porte real, uma razoável cultura, bondade, uma grande simpatia e uma forte personalidade”.

Como relatei em crônica anterior, tive a honra e o prazer de conhecer muito de perto essa história da relação entre Dom Pedro II e Adelaide Ristori.

Tudo começou numa conversa com Gervásio Rodrigo Neves, que havia trabalhado na UCS por algum tempo e, na ocasião, era o Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Na conversa, feita em Antônio Prado, e da qual participou a professora Cleodes Piazza Ribeiro, Gervásio contou que o Instituto tinha recebido os originais de um livro de Dom Carlos, com a correspondência entre Dom Pedro II e uma atriz italiana. Queria saber duas coisas: se a UCS se interessaria pela edição e se faríamos alguns ajustes do texto e a organização de notas e fontes bibliográficas para a publicação. Aceitamos a solicitação e levamos adiante o trabalho.

Tenho ainda no arquivo de meu computador o arquivo completo do livro, com a redação que dei às notas do final da obra, embora não conste nenhuma indicação desse trabalho no livro publicado!

Começa assim:

No dia 19 de Junho de 1869 entrava na baía do Rio de Janeiro o navio “Estremadur”, procedente de Bordeaux. Havia parado no Recife e na Bahia. Entre os muitos passageiros estava a famosa atriz dramática italiana Adelaide Ristori, com o marido e “manager”, o Marquês Giuliano Capranica del Grillo. Os dois filhos, Giorgio e Bianca, acompanhavam o casal, assim como uma trupe de 32 alegres artistas, deslumbrados com a maravilhosa paisagem carioca, para eles uma nova e aventurosa experiência.

Bagagens e mais bagagens foram descarregadas, pois a célebre “Compagnia Drammatica Italiana” trazia todos os ricos e vistosos hábitos necessários para os diferentes espetáculos. Quinze no total, com dezessete apresentações. Além disso, estava ainda no programa uma tournée a Buenos Aires.

Presente no lançamento do livro, Dom Carlos – herdeiro dos “pendores pelas artes, literatura e cultura em geral” de seu trisavô – me presenteou com seu autógrafo, assinado com o nome completo:

Ao mui prezado e ilustre Prof. José Clemente Pozenato, com admiração e simpatia – Dom Carlos Saxe-Coburgo e Bragança – 26-10-2007.

Coisas para ficarem na história!

Se beber, não dirija!

Relendo as poesias dispersas de Joaquim Maria Machado de Assis, dei de frente com um poema exaltando o conhaque. Na época, em 1856, ainda se escrevia com a grafia francesa. No título, Machado acrescentou à palavra um ponto de exclamação seguido de reticências, para dar destaque e deixar suspeitas em aberto. Ficou assim:

COGNAC!…

Quando escreveu o poema, o ainda desconhecido Joaquim Maria estava para completar dezessete anos. Outros tempos, com outras leis! (O poema tem data de 12 de abril de 1856, e Machado nasceu a 21 de junho de 1839). Passo ao leitor duas estrofes, a primeira e a última, em que aparece o tom empolgado do jovem poeta, mesmo não usando rimas:

Vem, meu cognac, meu licor d’amores!…

É longo o sono teu dentro do frasco;

Do teu ardor a inspiração brotando

O cérebro incendeia!…

*****

Que poeta que sou com teu auxílio!

Somente um trago teu m’inspira um verso;

O copo cheio o mais sonoro canto;

Todo o frasco um poema!

Na terceira estrofe, Joaquim Maria informa também como ele gostava de beber o conhaque: Tomado com o café em fresca tarde. Como no Rio de Janeiro as tardes frescas são raras, é de imaginar que ele passasse o verão inteiro sem seu querido “licor d’amores”.

Faço essa observação baseado em experiência pessoal. Estava eu no Rio de Janeiro, num mês de julho, participando de um Seminário de Língua e Literatura. O evento, no começo, era realizado em janeiro. Um abaixo-assinado dos participantes conseguiu que fosse transferido para o “inverno” carioca.

Naquela oportunidade, presenciei a seguinte cena: estava eu no Teatro João Caetano, à noite, para assistir a uma peça moderna, com a plateia quase vazia. Duas senhoras na fila de cadeiras à minha frente olhavam para os lados e para trás, estranhando a ausência de público. Uma delas falou: “Por que será que veio tão pouca gente?” A outra respondeu: “Também, com um frio desses!” O frio era de mais de vinte graus, tanto que eu estava em mangas de camisa…

Nesse mesmo inverno, fui ver um filme no bairro de Botafogo – na realidade, dois filmes, porque havia um cinema ao lado de outro – e, ao voltar para o centro, despencou uma chuvarada, também típica do clima carioca. Desci do ônibus e fui debaixo de chuva até um bar, bem no Largo da Carioca, e pedi um conhaque, para me prevenir de algum resfriado.

O moço do balcão foi até a prateleira e voltou com uma garrafa de conhaque Dreher. Isso mesmo, um conhaque produzido em Bento Gonçalves, parece que o primeiro feito no Brasil. O que ele me cobrou por um cálice – disso eu me lembro também – daria para comprar um litro aqui em Caxias. Como na época do jovem Machado de Assis só havia cognac francês, devia sair bem cara uma dose para tomar com café numa tarde fresca. Ou molhada.

As poesias dispersas de Machado guardam outras pedras preciosas. Um desses poemas tem o título de “Teu Canto”. É dedicado “A uma italiana” e começa com esta epígrafe do autor:

É sempre nos teus cantos sonorosos

Que eu bebo inspiração.

Por aí já dá para imaginar o tom do poema. Essa italiana deve ter sido uma diva cantora de ópera, tipo de espetáculo que, nesse ano de 1855, já fazia parte da programação cultural da corte. Na época, as companhias líricas italianas faziam ponte entre o teatro Colón, de Buenos Aires, e o teatro Dom Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro.

A soprano Carolina Marea, por exemplo, fez sucesso lá e aqui como protagonista da ópera “La sonnambula”, de Vincenzo Bellini, compositor muito estimado na segunda metade do Novecento, em que predominava o espírito romântico. Não duvido que seja ela a cantora italiana homenageada pelo jovem Machado de Assis. O jornal La Nación traçou dela este perfil: “voz aguda y ligera, con poco volumen, pero de gran virtuosismo”. Com todas as condições, portanto, para o poeta principiante beber inspiração.

Dom Pedro II, promotor das temporadas de ópera e de peças teatrais no Theatro Imperial do Rio, encantou-se também com uma atriz dramática italiana, Adelaide Rístori. Tive a honra e o prazer de ajudar a organizar uma edição dessa história. Mas isso fica para uma próxima conversa.

EPIGRAMAS (1962)

Da chatitude 

Chato chato chato 

tábua, cachorro esmagado, 

barata metida em fresta 

sem relevo, chato inteiramente 

lâmina estendida no chão 

quadro sem pintura 

papel sem inscrição 

tapete posto ao comprido 

chato e raso e plano 

lagoa de água parada 

espelho embaciado e cego 

prego mil vezes batido 

parede nua, o chato 

essência e essencial. 

Sentimento da noite

Fechar a casa é fechar a vida  

de um dia. A noite é inconveniente. 

Permaneçamos pois fora dela  

as pudicas janelas fechadas  

a porta bem trancada. Não venha 

o ladrão nos roubar o sono. 

Ao redor da lâmpada acesa  

o nosso mundo construamos. 

A conversa disfarce o medo,  

defendamos nossa paz. 

Como meninos espantados  

façamos histórias de esquecer. 

(1960) 

As muletas

Além (e) aquém (e) dentro (e) fora 

ao redor (e) sobre e toc e toc 

vão as muletas de meu verso 

tateando pelos espaços, tudo 

buscando situar. Amarei mais 

sabendo como um topógrafo 

o local preciso das coisas 

no giroscópio do universo? 

Mas como despegar-me das muletas  

sem tombar paralítico, 

com a nebulosa silabação 

dos guardadores de estrelas? 

Devo abdicar da linguagem? 

Será o silêncio uma paralisia,  

ou o movimento total, 

conquanto não mensurável? 

Aí está o tormento do poeta  

fabricador de palavras. 

Elas são traição do mistério entrevisto  

e no entanto um gesto irreprimível. 

As visões alucinadas se reduzem  

a um punhado de sons, um resto de borra. 

Essa a inglória faina do poeta,  

a de tudo macular 

na tentativa de clarear, 

a de dizer errado 

a luminosa verdade. 

(1959) 

A chave e a mão

Tem a palmeira a chave de si mesma? 

Sabe o pássaro onde a sua porta? 

Em que pedra ou caverna  

deverei cavar minha chave? 

Enquanto apenas conjeturo  

vou batendo em portas fechadas 

com seu mistério particular: 

o dente cravado na gengiva 

o azul de certos olhos 

o grosso cimento de tua casa 

as verdes batatas enfileiradas 

(como letras de um poema antigo). 

Canta a árvore no jardim,  

o pássaro dentro dela reverdece em cores, 

a escada sobe, o guindaste a ultrapassa, 

o guerreiro destrói a espada 

e dela faz belíssima granada. 

Em todo esse tempo procuro a chave  

ou a mão em que ela se esconde 

dissimulada entre dois dedos. 

(1959) 

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora