José Clemente Pozenato é Doutor em Letras Foi membro do Conselho Estadual de Cultura-RS e Secretário de Cultura do município de Caxias do Sul. É escritor, poeta e ensaísta, sendo autor de trilogia sobre o tema da cultura da imigração italiana no RS, com os romances A Cocanha (2000), O Quatrilho(1985) e A Babilônia (2006). Entre outros ensaios, é autor de Processos Culturais e de O regional e o universal na literatura gaúcha. É membro emérito da Academia Rio-grandense de Letras. Em 2007 recebeu o título de Cavaliere, da Ordem do Mérito da República Italiana. Em 2014 publicou a tradução integral do Cancioneiro de Petrarca.
Não faço segredo para ninguém de que Norberto Bobbio é um dos meus mestres prediletos. A clareza e o delineamento fino com que trabalha os conceitos são um alívio para a inteligência. Seu trabalho principal centrou-se no exame dos conceitos sobre política, uma das atividades humanas em que a relação entre instinto e inteligência vive seu maior grau de conflito. Desmascarar as inúmeras camuflagens desse jogo que se quer racional, mesmo quando não é, é uma tarefa que Bobbio não se cansou de levar adiante.
Já sobre o final de seu percurso de intelectual, ele escreveu um pequeno ensaio com o título de “Elogio da serenidade”. Na análise dessa virtude, por duas vezes exclui a serenidade do âmbito da política: “é a mais impolítica das virtudes”, escreve ele no início, para concluir dizendo: “A serenidade é, portanto, uma virtude não política. Ou mesmo, neste nosso mundo ensangüentado pelo ódio provocado por grandes e pequenos potentes, a antítese da política”.
Não há como resumir aqui a finura da análise de Bobbio, que o leitor poderá encontrar na íntegra, e publicada em português. Só não resisto a espicaçar mais um pouco com outra citação: “O homem sereno é tranquilo, mas não submisso, repito, e nem mesmo afável: na afabilidade há certa grosseria ou falta de refinamento na avaliação dos outros. Não tenho dúvidas de que a serenidade é uma virtude. Mas duvido que a afabilidade também o seja, porque o afável não tem uma relação justa com os outros”. Não é um primor? Não é a afabilidade, por sinal, uma das armas (mais detestáveis) do político?
A serenidade proposta por Bobbio como virtude apoia-se em primeiro lugar no absoluto senso de justiça para com o outro. E para ser justo com o outro, diz Bobbio, é absolutamente necessário que ele seja respeitado no que ele é. Por isso, a serenidade é o contrário da arrogância, “entendida como opinião exagerada sobre os próprios méritos, que justifica a prepotência”. Com maior razão, acrescenta meu mestre, “a serenidade é contrária à insolência, que é a arrogância ostentada: o indivíduo sereno não ostenta nada, nem sequer a própria serenidade”.
Nestes tempos em que a truculência verbal parece ser o principal condimento da atuação política, buscar a serenidade, como a descreve Bobbio, parece ser mais que nunca necessário.
Um dia um passarinho, que se chamava Passarim, estava voando distraído. Sei lá no que é que ele estava pensando. Devia estar com a cabeça nas nuvens.
De repente, do meio das nuvens, veio um ronco horroroso. Mais ou menos assim: vvvvrrrruuuummmm!!!! Mas muito mais forte.
Passarim pensou logo na bruxa, voando com a sua vassoura. Bruxa moderna, com vassoura de turbina.
Mentira minha. Passarim não teve tempo de pensar em nada. Despencou das nuvens e veio direto para o chão. Ainda bateu num galho de árvore e ploft!, se esborrachou num pátio, que nem bola murcha.
Na grama tinha três meninas brincando. Maria Helena, Heloisa e Ana Maria:
– Será que o Passarim pechou no avião?
– Será que ele caiu de susto?
– Será que foi a feia, com a vassoura?
Nenhuma das três sabia. Como é que podiam saber? Não andavam com a cabeça nas nuvens, que nem o Passarim. Só ele podia contar, quando acordasse.
Porque morto o Passarim não estava. Maria Helena apalpou o peito, ainda batia. Heloisa ergueu a pálpebra, não era olho de passarinho morto. Ana Maria escutou a respiração, Passarim respirava.
Só estava desmaiado.
– Vamos fazer respiração boca a boca?
– Boca a bico, tu queres dizer?
– Não precisa, não teve parada respiratória.
Isso de parada respiratória parece fala de médico. Mas quem é que disse que as três meninas não eram doutoras?
– Vamos acordar ele do desmaio.
– Com água fria na cabeça?
– Fazendo cheirar sal de amônia?
Não foi preciso. Passarim fez piu! piu!, para avisar que estava acordado
– Esse piu! piu! é de dor. Vamos fazer um exame.
Com muito cuidado, para não machucar mais, as meninas apalparam aqui e ali.
– Nada de mais grave. Só uma perna quebrada e um corte na cabeça.
– Que sorte! Não quebrou costela, nem asa.
– Nem teve comoção cerebral.
Uma das três meninas falava mesmo complicado. Ou era médica, ou enfermeira, ou tinha feito curso de primeiros socorros.
E Passarim estava precisando de muito socorro. De pronto socorro, quero dizer.
E ambulância?
Maria Helena fez padiola de uma folha de abacateiro, Heloisa saiu tocando a sirene e Ana Maria cuidava para não faltar oxigênio.
***
A pia da cozinha era a coisa mais parecida com sala de cirurgia. Mas não pensem que isso tinha virado brincadeira. As três meninas estavam muito compenetradas. Sabiam que a vida do Passarim estava nas mãos delas
Desinfetaram a pia e as mãos com álcool.
– Será que ele aguenta sem anestesia?
Passarim fez piu, piu.
Era sim ou era não?
– A mamãe tem éter. A gente faz o Passarim respirar, aí ele fica anestesiado.
– É melhor não arriscar.
– Pode ter uma parada cardíaca.
Parada cardíaca é quando o coração para de bater. Uma das meninas só falava difícil.
Resolveram fazer o curativo sem anestesia. É melhor não arriscar, quando não se entende muito. pelo menos não se pode arriscar com a vida dos outros. Passarim ia precisar de coragem..
– Primeiro a perna.
– Precisamos de uma tala de madeira.
– E de bandagem.
Com muito cuidado, puseram os ossos da perna do Passarim no lugar. Passarim nem piou. Ou era muito valente ou tinha desmaiado de novo. Na caixa de fósforos encontraram as talas de madeira. Puseram as talas com bandagem e esparadrapo. Parecia coisa feita por doutor, e dos bons. Passarim fez um piu!, bem baixinho. Não tinha desmaiado. Era mesmo corajoso o passarinho.
– Agora o corte na cabeça
– Água oxigenada, para limpar bem a ferida.
– E mercúrio-cromo, que não arde.
Limparam o corte com água oxigenada, passaram mercúrio-cromo com um cotonete, bem de leve. Enrolaram uma pontinha de algodão num pedaço de gaze de quase nada. Puseram uma pomada e prenderam com tiras bem finas de esparadrapo. Passarim nem abria os olhos.
– Vai sarar logo.
– Ele ainda é novo.
– Tem o organismo forte.
***
Na opinião das doutoras, o paciente podia ir logo para o quarto. Ajeitaram algodão numa cestinha e ali deitaram o passarim.
– Vai ficar sem alimento por vinte e quatro horas.
– É, só vai tomar água.
– Isso mesmo. Ele pode ter um pouco de febre.
Por via das dúvidas, resolveram que ficariam de plantão, pelo menos nas primeiras horas.
– Uma hora cada uma.
– A gente pode ler para passar o tempo.
– Só não pode se distrair.
Mas Passarim não deu trabalho. Teve um pouco de febre, porque respirava com o bico aberto. Mas a doutora de plantão pingava água com um palito, para ele não sentir sede.
No dia seguinte ela já abria os olhos e fazia piu!, piu!, mais animado. Trocaram o curativo da cabeça, mas não mexeram na tala da perna. A perna tinha que ficar imóvel, como se fosse engessada, até sarar.
Depois de três dias, Passarim tentou ficar de pé, e conseguiu. Não deram muletas nem andador para ele caminhar. Como é que um passarinho ia usar muletas ou andador? O que ele precisava era de uma boa vassoura de bruxa para voar. Mas onde conseguir uma, fora das histórias de fada?
Finalmente o Passarim ficou bom.
– Hoje vamos te dar alta.
– Já estás pronto para outra.
– E vê se não anda com a cabeça nas nuvens.
Passarim fez piu!, piu! e saiu voando.
As meninas abanaram para ele.
Não sei se ele voltou alguma vez para fazer uma visita. As meninas não me contaram.
Também não se ficou sabendo se ele tinha mesmo pechado no avião. Ou se despencou de susto e se machucou no chão, ou na árvore.
Passarim não era de muita conversa.
Ou não deu tempo de as meninas aprenderem a língua dele…
Meus primeiros poemas e contos, quando ainda adolescente, escrevi com caneta tinteiro: a “Parker 51”, que era um avanço sem tamanho. Antes dela, era preciso ter a caneta e o tinteiro, cuidando para não pingar nem derramar, que foi o que usei na escola primária e no ginásio.
Quando tive o primeiro salário, o mundo mudou: comprei uma máquina de escrever “Olivetti – lettera 22”, em doze prestações. Nela escrevi, entre outras tarefas acadêmicas, o romance O Quatrilho e a novela O Caso do Martelo. Do primeiro, ainda guardo uma cópia datilografada e encadernada, graças aos cuidados de minha esposa.
No Rio de Janeiro, enquanto acertava a adaptação de O Caso do Martelo para a televisão, o Antônio Calmon, que era roteirista de novelas da Globo, me incitou a usar o computador para escrever: “é mais fácil de apagar e de emendar”, me disse ele. Só era preciso ter um aparelho de salvar o que se escrevia, um “back-up”. Isso, dizia ele, porque se um texto some de repente, você tem vontade de jogar o computador pela janela.
Pois bem, comprei um computador, também em prestações, mais o aparelho de “back-up”, que logo saiu de moda com a chegada do disquete. Mas confesso que durante um bom tempo continuei escrevendo na “lettera 22”, enquanto via o computador me vigiando ao lado. Até que um dia decidi superar o medo – instalado em mim pelo Calmon – e escrever, isto é, digitar nele. E gostei. Como dissera meu amigo, era mais fácil fazer cortes e emendas.
Sair da máquina de escrever e do computador para o livro impresso foi outra experiência inesquecível. Lembrei-me então da era inaugurada por Gutemberg, quando inventou a máquina de imprimir em papel. Acabou com os amanuenses e os copistas. Mas permitiu que cópias dos livros pudessem entrar dentro das casas dos leitores, e não apenas ser depositadas nas bibliotecas.
Com o livro impresso vivi uma era de fastígio, como se dizia uma vez. Dezenas de edições, milhares de exemplares vendidos, um número sem fim de autógrafos solicitados em feiras e outros eventos. Até que o fluxo começou a diminuir. O que era antes um rio caudaloso virou uma torneira de difícil manejo. A era das grandes editoras começou a sumir dentro da nuvem da internet.
Pois bem, devo anunciar que – depois da era da caneta tinteiro, da era da máquina de escrever, da era do computador, da era do livro impresso pelas editoras – acabo de entrar numa nova era: a do “e.book”. É para onde estão migrando todas as editoras e para onde estou migrando também. Em alguns meses, o leitor poderá me encontrar nessa nuvem.
Um dia o homem notou que o jacaré andava meio aborrecido. Ele se enfiava embaixo da cama e ficava ali, de olhos tristes.
Nem quando o homem chegava com uma cesta de ovos bem fresquinhos o jacaré saia do seu canto. Devia estar com saudades da lagoa.
O homem teve então uma ideia:
-Vou levar o jacaré a passear. Quem sabe assim ele se anima um pouco.
Perto havia um parque, com árvores enormes, muita grama e muita sombra. Verdade que jacaré gosta é de sol bem forte, mas ele podia ficar pegando sol, se quisesse.
Se agachou perto da cama e convidou o jacaré para um passeio no parque. Os olhos do jacaré chegaram a brilhar.
– Só tem uma coisa – disse o homem – nada de fazer “nhaque! nhaque! nhaque!” e bater com o rabo para assustar as pessoas.
O jacaré saiu de debaixo da cama, batendo o rabo e fazendo “nhaque! nhaque! nhaque!” Depois deu uma gargalhada com os dentões de serra. É claro que ele estava só brincando.
Na entrada do parque encontraram um guarda, que perguntou:
– É seu, o jacaré?
– Não – respondeu o homem bem sério – ele é quem manda em mim.
– Sem brincadeira – disse o guarda.- O jacaré não entra no parque. Vai assustar as pessoas.
Mas, enquanto isso, chegaram perto um menino e duas meninas. E começaram a conversar com o jacaré:
– Eu sou o José Guilherme!
– Eu sou a Sabrina! Pode me chamar de Sassá.
– E eu sou a Duda!
O jacaré abriu o bocão e mostrou todos os dentes. Mas não era para morder. Ele estava era rindo de contente.
– Tem um lago aqui no parque – disse o menino.
– Vem que a gente mostra – convidou a Sassá.
O jacaré não esperou outro convite. Fez “nhaque! nhaque! nhaque!”, de tão faceiro, e foi atrás deles.
O guarda ficou olhando de boca aberta, quase do tamanho da boca do jacaré, e nem se mexeu.
O homem seguiu atrás das crianças e do jacaré e chegaram onde era o lago. Aí, não precisou ninguém fazer convite. O jacaré se jogou dentro, esparramando água para todos os lados.
Em poucos minutos, todo o mundo que estava no parque veio correndo e ficou ao redor do lago, rindo e batendo palmas.
Impossível, nesta época de fuga de contágios, não vir à tona da memória a obra imortal de Giovanni Boccaccio, o Decamerone, que na tradução para o português se chama O Decamerão. Ela teve tanta força na literatura italiana que foi apelidada de “Comédia Humana”, para colocá-la no mesmo pedestal da “Divina Comédia” de Dante Alighieri.
Começo com uma sinopse: durante a peste negra que grassou em Florença em 1348, sete moças e três rapazes decidem ir para uma casa de campo para fugir do contágio, durante duas semanas. (Os mesmos quatorze dias que a OMS recomenda como isolamento na atual pandemia…) Para suportar a reclusão, decidem que cada um deles vai contar uma história por dia, durante dez dias. Cada dia, uma “rainha” ou um “rei”, escolhido de comum acordo, determina o tema das histórias. Total: uma centena de contos numa única obra!
O título é uma invenção de Boccaccio, dando forma italiana a duas palavras gregas que significam “dez dias”: deka émera. Hoje se fala em quarentena – isto é, quarenta dias. Mas quarentena já existia desde a Grécia antiga, com o nome de tessaracontas (isso só para lembrar que estudei grego também, como o Boccaccio!).
Pois está aí uma boa sugestão para a gente enfrentar estes dias de medo e tédio: contar histórias. Ou então ler as que foram escritas em períodos parecidos com este, com todo mundo enfiado dentro de casa. O Decamerão do Boccaccio pode ser também visto num filme dos irmãos Taviani, que tem o título, nem um pouco surpreendente, de “Maravilhoso Boccaccio”. O filme não conta as cem histórias originais. Resume-se a uma por dia. Mas é um ótimo aperitivo, ainda mais saindo da câmera dos Taviani. Outra história que ajuda a sentir a fundo o desastre econômico que se desenha a cada dia pode ser encontrada em outra obra prima: O Obelisco Negro, do alemão Erich Maria Remarque. O romance se passa numa cidadezinha alemã, na década de 1920, quando se prenunciava a quebra das bolsas no mundo inteiro. Uma cena que não esqueço é esta: dois amigos chegam num restaurante, pedem a comida e pagam a conta de imediato, porque se esperassem para pagar no fim do almoço custaria o dobro. Noutra cena, o dono de um escritório está sem fósforos e acende no fogão uma nota de dez marcos para acender o charuto. Um charuto brasileiro, por sinal…
Não está aí uma boa sugestão? Mergulhar no imaginário faz bem.